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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.9 n.3 Rio de Janeiro Jul./Sep. 1993

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1993000300009 

DEBATE DEBATE

 

Debate sobre o artigo de Minayo & Sanches

 

Debate on the paper by Minayo & Sanches

 

 

Manoel Romeu Gutierrez; Marco Antonio Barbieri

Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto
Universidade de São Paulo

 

 

No campo específico da pesquisa em saúde-doença — enquanto processo social —, no qual situaremos estes comentários, é imprescindível explicitar alguns conceitos sobre os quais eles se sustentarão.

Há evidências históricas de que as mudanças das bases conceituais sobre as quais assentam-se os métodos de pesquisa do processo saúde-doença seguiram as trajetórias determinadas pela expansão do processo capitalista, às quais faremos recorte a partir da mudança observada na influência exercida sobre as escolas médicas brasileiras, que passou das escolas européias — principalmente a alemã — para as escolas norte-americanas, de orientação positivista (funcionalista). Esta mudança efetivou-se e consolidou-se com o deslocamento do eixo das negociações político-econômicas do continente europeu para a América do Norte, o que lhes configura os móveis do caráter ideológico das suas determinações. As doenças são, desde então, apreendidas às margens de seus determinantes últimos e da sua historicidade, ou seja, passam a ser apreendidas pelas aparências imediatamente percebidas pelos sentidos, em oposição à concepção de manifestações socialmente determinadas, como descritas por Villerme, em 1829, e Grotjahn em 1911, entre outros (Rosen, 1979). Houve, conseqüentemente, um verdadeiro redirecionamento dos pressupostos metodológicos ao se redefinir seus objetos, nos quais o sentido individual e explicativo de "qualidade de vida" e habitus — resultantes das relações sociais de produção — deu lugar ao sentido prevalente de "condições de vida", "níveis mensuráveis", "padrões (ideais) de vida", todos referenciados a um certo life style, ou seja, dando ênfase ao plano descritivo e às relações entre os fenômenos, negando, assim, a existência de leis gerais objetivas do desenvolvimento social.

No sentido do paradigma anterior, a concepção de método resgata tanto o significado qualitativo das manifestações dos fenômenos biológicos individuais (a saúde-doença) e seus determinantes sociais, educacionais e, portanto, históricos, quanto o significado quantitativo das mesmas, em suas manifestações coletivas ou populacionais. É o instrumental organizativo do pensamento lógico do qual a ciência lança mão para a descrição, compreensão e explicação da "essência" dos fenômenos, da "coisa em si", e de sua historicidade, ou seja, seus determinantes últimos, a cuja explicação atribui-se o estatuto provisional de verdade científica. Ora, a verdade, tal como a saúde, só tem existência prática, não existindo no "reino do pensamento" ou como idealização. Portanto, ela encerra, enquanto manifestação concreta, tanto a "qualidade" de ser (objetiva-subjetiva) quanto a "quantidade" de suas representações históricas (descritiva). Estas são dimensões imanentes das suas categorias socialmente determinadas. Logo, o método não pode ser excludente de qualquer dos predicados das manifestações fenomênicas concretas em busca do pressuposto da "verdade" — seja lá o que ela for —, caso em que a ciência retorna aos modelos idealistas de pensamento em pesquisa social, pela impossibilidade mesmo de superar seus pressupostos teóricos. Primeiro, por não dar conta dos problemas das relações homem-natureza e dos homens entre si, em direção a uma concepção que situe a atividade prática humana no centro do seu objetivo e onde a práxis apareça como fundamento, critério de verdade e finalidade do conhecimento. Segundo, por não constituir seu objeto como produto da atividade subjetiva, como real, objetivo, material, resultado último do "modo de levar a vida" — ou, como cita Minayo, do mundo dos símbolos, dos significados, da subjetividade e da intencionalidade, ou seja, por considerar o objeto às margens da subjetividade humana, fora da sua atividade. Terceiro, pelo limite conceitual, que não possibilita considerar o homem não-racional e histórico.

A escolha do método de pesquisa, no campo da Medicina Social, não se fundamenta, portanto, em critérios teóricos, mas em critérios práticos, os quais a experiência das próprias pesquisas tenderia a superar. Mas, e acima de tudo, pela "escolha" do referencial teórico, ela em si ideológica.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KOSIK, K., 1976. Dialética do Concreto. 5a ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra.

MARX, K. & ENGEL, F., 1991. A Ideologia Alemã (Feuerbach). 8a ed., São Paulo: Hucitec.

ROSEN, G., 1979. Da Polícia Médica à Medicina Social. Rio de Janeiro: Graal.

VAZQUEZ, A. S., 1977. Filosofia da Práxis. 2a ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra.