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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.13 n.4 Rio de Janeiro Jul./Aug. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232008000400035 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Maria Isabel Brandão de Souza Mendes

Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Norte

 

 

Luz MT. Novos saberes e práticas em saúde coletiva: estudos sobre racionalidades médicas e atividades corporais. 3ª ed. São Paulo: Hucitec; 2007. 174 p

Madel Therezinha Luz é professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), vice-presidente da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e assessora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). A autora escreveu vários livros sobre a temática da saúde e a obra analisada refere-se à terceira edição do livro Novos saberes e práticas em saúde coletiva: estudo sobre racionalidades médicas e atividades corporais, publicado em 2007 pela Editora Hucitec. Essa terceira edição configura-se como o primeiro livro da série "Linha de Frente" da Coleção Paidéia, cujo objetivo é divulgar textos pertinentes à Educação Física. Conforme pode ser observado na parte Introdutória escrita por Yara Maria de Carvalho, diretora da série "Linha de Frente", a presente obra traz para a Educação Física possibilidades para a área se deparar com outros saberes e práticas no âmbito da saúde e se aproximar da Saúde Coletiva, com vistas a exercitar um trabalho interdisciplinar.

Organizado em três partes, o livro de Madel se constitui de argumentos consistentes apresentados através de uma linguagem clara que envolve o leitor e o convida a se debruçar pelos cenários acadêmicos e experiências vividas em sua trajetória de pesquisadora. O primeiro capítulo, denominado "Cultura contemporânea e medicinas alternativas: novos paradigmas em saúde" , é uma revisão de trabalho apresentado pela autora no IV Congresso Latino-Americano de Ciências Sociais e Medicina em Cocoyoc, no México em 1997 e publicado num momento posterior na Revista Physis, também em 1997. Madel traz uma discussão interessante sobre o aumento da busca por medicinas alternativas nas sociedades ocidentais, não somente por parte dos pacientes, mas também pelos profissionais de saúde, a partir da segunda metade dos anos de 1970, atingindo o auge na década de 1980. A autora tematiza o desenvolvimento das medicinas alternativas, tendo como fundamento a dupla crise da saúde na sociedade atual, a sanitária e a médica, situando suas raízes socioeconômicas. Além disso, a própria racionalidade médica em sua relação com a cultura contemporânea é considerada como um dos pilares explicativos da busca por outras racionalidades terapêuticas, que tenham como foco o sujeito doente e o seu cuidado. O surgimento de antigos sistemas médicos, como a medicina tradicional chinesa e a aiurvédica, e a reconstrução das medicinas populares no Brasil e em países latino-americanos nos grandes centros urbanos estão situados no contexto dessas medicinas alternativas. Estas se fundam numa racionalidade terapêutica, que além de considerar o sujeito doente como centro do paradigma médico, considera a relação médico-paciente como elemento essencial da terapêutica, se baseia numa medicina que se propõe a despertar a autonomia do paciente, no que se refere à relação saúde-doença, em vez da sua dependência, e se pauta na consolidação de uma medicina que tenha como categoria central à saúde e não a doença.

O segundo capítulo, intitulado "As novas formas da saúde: práticas, representações e valores culturais na sociedade contemporânea" , é fruto de trabalhos apresentados em congressos, publicações de artigos em periódicos e livros, observação participante durante três anos no município do Rio de Janeiro em academias de ginástica, em parques e escolas de dança e análise de matérias da mídia impressa e televisiva. Nesse texto, a autora discute os sentidos e significados de diversos discursos e práticas da atualidade que fazem parte da aparente homogeneização do paradigma da saúde. Diante da pluralidade de sentidos dentro do universo da saúde com que a pesquisadora se deparou em suas investigações, dois modelos se sobressaem perante as racionalidades médicas. Além da representação do normal/patológico característico do saber biomédico, é possível visualizar o modelo da vitalidade/energia relacionado às medicinas alternativas.

Madel se direciona para os diferentes valores atrelados à diversidade de práticas e sua relação com a saúde, o corpo e a relação entre corpo e espírito. Seu propósito é tecer reflexões sobre até que ponto tais valores e práticas podem influenciar as políticas públicas de saúde. Nesse contexto de investigações, a saúde é compreendida de diversas maneiras. Das academias de aeróbica e musculação à remodelação do corpo via intervenção cirúrgica, a saúde associa-se ao corpo em forma e se atrela à busca por padrões de beleza com preocupações visíveis da aparência. Das práticas corporais em grupo às filas de atendimento dos serviços públicos, a saúde está relacionada a ser cuidado e a poder romper com o isolamento provocado pela cultura do individualismo na atualidade. Nessa teia de compreensões de saúde, a autora apresenta a dança de salão com base em sua experiência vivida em salões do Rio de Janeiro, com vistas a se contrapor às representações de saúde atreladas ao modelo da academia de ginástica. Na contramão ao Apolo biomecânico, Madel apresenta o Dioniso popular para demonstrar a fluidez da gestualidade do corpo que dança e a possibilidade de vislumbrar a saúde como vitalidade e alegria como realidade e não como utopia.

No terceiro capítulo, "Novas práticas em Saúde Coletiva", a autora ressalta que o ponto central da interpretação manifestada se funda na compreensão de que essas novas práticas em saúde se mostram como formas de recuperar a sociabilidade e como possibilidades estratégicas de resistir eticamente ao individualismo, à competição e à busca imoderada de sucesso, valores considerados como centrais ao capitalismo. No discurso apresentado, Madel traça uma trajetória histórica sobre as fases do projeto "Racionalidades Médicas", que deu sustentação às suas argumentações. A primeira fase do referido projeto se balizou ao estudo teórico do conceito de racionalidades médicas que contribuiu com a fundamentação das demais fases. Em suas reflexões, a autora supera a idéia de uma naturalização da medicina científica e afirma a coexistência de mais de uma racionalidade médica ao tecer comparações entre sistemas médicos complexos, como a homeopatia, a medicina chinesa e a medicina aiurvédica.

Na segunda fase, há um direcionamento para as práticas de profissionais de saúde da rede municipal do Rio de Janeiro, em especial àqueles atrelados à biomedicina, à homeopatia e à medicina tradicional chinesa. A análise realizada teve como propósito perceber se os pacientes e profissionais de um determinado sistema médico compartilhavam representações de suas racionalidades, facilitando o processo terapêutico. Essa proposição foi em parte confirmada pela autora, como demonstra minuciosamente através das singularidades com que se deparou ao longo da investigação.

Na terceira fase, surgem questões referentes ao cuidado, à atenção em saúde, às relações entre terapeutas e pacientes e a autora tem com ponto de partida de suas reflexões a dualidade que existe entre racionalidades médicas e práticas terapêuticas. É notório perceber que, durante o processo de discussão, Madel ressalta o crescimento recente das práticas de saúde, sua variedade e a polifonia de sentidos e valores presentes na cultura contemporânea.

Em sua obra, a autora traz contribuições importantíssimas para a Educação Física ao superar o reducionismo que associa somente as atividades físicas a uma cultura individualista. Madel traz reflexões éticas e políticas emblemáticas para a Educação Física pensar sobre a produção de conhecimento e as intervenções atreladas ao campo da saúde.

A polissemia de discursos e práticas, identificada no presente estudo, é relevante não apenas para a Educação Física, mas para todos os estudiosos e profissionais de diversas áreas do conhecimento que se interessam pelos estudos da saúde, do corpo, da cultura e das políticas públicas.