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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.2 n.2 São Paulo Dec. 1968

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101968000200004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Anticorpos inibidores da hemaglutinação para o vírus parainfluenza 3 (Ha-1), em gado bovino1

 

 

José Alberto N. CandeiasI; Luiz Conrado RibeiroII

IDa Cadeira de Microbiologia Aplicada da FHSP
IIDa Secção de Vírus do Instituto Biológico de São Paulo

 

 


RESUMO

Um inquérito sorológico feito em gado bovino proveniente de 19 Municípios do Estado de São Paulo, mostrou que 36,71% dos animais observados tinham anticorpos inibidores da hemaglutinação para o vírus parainfluenza 3 (HA-1), resultado que sugere a disseminação da infecção por êste vírus no grupo de animais estudados, mesmo levando em consideração que a cêpa utilizada, como antígeno, era uma cêpa heteróloga.


SUMMARY

A serological investigation in bovines from 19 Counties in the State of São Paulo, Brazil, evidence that 36.71% of the animals studied had haemagglutination-inhibiting antibodies for myxovirus parainfluenza 3 (HA-1). This result is an indication of dissemination of the infection caused by this virus, although an heterologous strain was used for detecting the above mentioned antibodies.


 

 

INTRODUÇÃO

As observações feitas por CHANOCK et alii7 (1958) a respeito dos vírus parainfluenza como agentes etiológicos de infecções respiratórias em crianças, foram logo seguidas do isolamento, de bovinos com um quadro respiratório conhecido pelo nome de "febre dos transportes", de uma cêpa de vírus parainfluenza 3 (REISINGER, HEDDLESTON & MANTHEI 17, 1959). Numerosos autores demonstraram, em diversas espécies animais, a existência de infecção ocasionada pelo vírus parainfluenza 3 (CooK et alii10, 1959; WOODS et alii22, 1964; CHARTON et alii8, 1965; FISCHMAN 13, 1967). Através de reações de neutralização e inibição da hemaglutinação, ABINANTI & HUEBNER 1 (1959) notaram uma semelhança antigênica entre a cêpa humana HA-1 e a cêpa de origem bovina SF-4, chegando a afirmar que, em face desta semelhança, as duas cêpas pertenceriam a uma mesma espécie, com diferentes hospedeiros. No entanto, ABINANTI et alii2 (1960) mostraram que estas cêpas podiam diferençar-se, mediante reações de neutralização com sôros preparados em cobaia, por inoculação intranasal. FISCHMAN & BANG12 (1966), valendo-se da técnica de Ouchterlony, verificaram que as relações antigênicas entre as cêpas humana e bovina são do tipo "reação cruzada de identidade parcial", isto é, um sôro preparado contra a cêpa de origem bovina reage com as cêpas homóloga e heteróloga, ainda que mais fortemente com a homóloga; já o sôro preparado contra a cêpa de origem humana reage, regularmente, com a cêpa homóloga, dando resultados não uniformes com a cêpa heteróloga.

O presente trabalho, teve por finalidade verificar a extensão da presença de anticorpos inibidores da hemaglutinação, no sôro de bovinos adultos normais, utilizando-se, para tal, o antígeno de origem humana (HA-1).

 

MATERIAL E MÉTODOS

Amostras de soros – As amostras de soros utilizadas foram colhidas de bovinos adultos normais, provenientes de propriedades localizadas em diversas Municípios do Estado de São Paulo. Foram colhidas 553 amostras, sem ter assistido a esta colheita a preocupação de respeitar um plano de amostragem capaz de permitir ulterior generalização dos resultados para os animais da área escolhida. A colheita teve início em novembro de 1967, prolongando-se até março de 1968, sendo os soros congelados a –20°C até o momento do exame.

Vírus padrão – A cêpa humana de vírus parainfluenza 3 HA-1 foi obtida do Virus Reference Laboratory – Central Public Health Laboratories, Londres – O antígeno para a reação foi preparado em culturas primárias de rim de macaco rhesus, mediante a inoculação de 0,2 ml da amostra padrão de vírus e 0,8 ml de meio 199, adicionado de penicilina e estreptomicina na concentração final de 200 unidades por ml. As culturas infectadas foram incubadas a 33°C até o efeito citopático máximo. A titulação, por hemadsorção, com uma suspensão de hemácias de cobaia a 0,4%, após incubação, durante 20 minutos, a 4°C, deu, regularmente, títulos de 105, 5 TCD50. As culturas congeladas e descongeladas por três vêzes constituiram o antígeno utilizado na reação.

Reação de inibição da hemaglutinação – Esta reação foi executada conforme o método de SEVER19 (1962), com algumas modificações (APHA4, 1964), utilizando-se o conjunto microtitulador de Takatsy (TAKATSY21).

Os soros foram inativados a 56°C durante 30 minutos, tratados com caolin a 20% e com uma suspensão de glóbulos vermelhos de cobaia a 50%. Depois de diluídos seriadamente – fator 2 – a cada 0,025 ml da diluição do sôro foi adicionado igual volume de antígeno contendo 4 unidades hemaglutinantes, sendo as misturas mantidas à temperatura ambiente por 60 minutos, depois do que receberam 0,025 ml de uma suspensão a 0,8% de hemácias de cobaia. A leitura dos resultados foi feita depois de 90 minutos, mantendo-se as misturas à temperatura ambiente. Incluiram-se na reação controles de sôro, hemácias e vírus. Todos os especímens positivos em diluições iguais ou superiores a 1:20 foram considerados como soros positivos.

 

RESULTADOS

Do total de 553 soros examinados, 36,71% foram positivos e 63,29% negativos (Tabela 1). Dos soros positivos, 20,61% tinham título 20, 13,92%, título 40 e 1,99%, título 80; só em uma amostra de sôro foi encontrado um título de 160. Nos soros considerados como negativos, a distribuição foi de 35,26% com título 10 e 28,03%, com título inferior a 10 (Fig. 1).

 

 

Na Tabela 2 apresentamos a distribuição dos soros positivos segundo a localização das propriedades por Município.

 

DISCUSSÃO

A reação de inibição da hemaglutinação é de grande utilidade na pesquisa de anticorpos para o vírus parainfluenza 3, no sôro de bovinos e outras espécies animais, não só pela facilidade de sua realização como pela boa correlação existente entre os seus resultados e os da prova de neutralização (HOERLEIN et alii14, 1959; REISINGER, HEDDLESTON & MANTHEI 17, 1959). Num estudo sorológico sôbre o vírus parainfluenza 3, em bovinos, ABINANTTI et alii3 (1961) encontraram em 70% dos animais destinados a matadouros, títulos de anticorpos inibidores da hemaglutinação da ordem de 20 ou superiores, considerando-os como índice de reação positiva. Os resultados de nossa investigação evidenciam uma ampla disseminação do vírus parainfluenza 3 no gado bovino examinado, considerando-se os resultados encontrados nos 19 Municípios de onde provieram as amostras examinadas. As porcentagens de positividade que encontramos são acentuadamente mais baixas do que as observadas pela grande maioria dos autores (ABINANTI et alii3, 1961; KRAMER et alii16, 1963; CHERBY et alii9, 1967), o que poderá resultar, em parte, da utilização, como antígeno, de uma cêpa heteróloga. A êste respeito vale, no entanto, salientar que as observações de ABINANTI et alii2 (1960) e as de KETLER et alii115 (1961), de que cobaias infectadas por via intranasal com uma só dose de vírus parainfluenza 3 produziam níveis de anticorpos inibidores da hemaglutinação, neutralizantes e fixadores de complemento maiores com o antígeno homólogo do que com o heterólogo, são válidas frente a uma dose única de antígeno. Se o antígeno homólogo era inoculado em doses múltiplas, perdia-se a especificidade da resposta antigênica, situação que muito se assemelha à de múltiplas infecções naturais capazes de levar a uma mais ampla capacidade de reação.

FISCHMAN11 (1965) pesquisou anticorpos neutralizantes para o vírus parainfluenza 3 em carneiros, usando uma cêpa humana e uma cêpa bovina e encontrou 81% de soros positivos (> 1:20); salienta o autor que êstes anticorpos estavam mais intimamente relacionados com a cêpa bovina do que com a cêpa humana. O mesmo autor em trabalho posterior (FISCHMAN13, 1967) referente a um estudo epidemiológico em carneiros e suínos, utiliza, como antígenos, uma cêpa humana e uma cêpa bovina e analisa os resultados sem maiores considerações sôbre a especificidade das reações obtidas em função dos antígenos usados. ST. GEORGE & FRENCH20 (1966) referem-se ao isolamento, de bovinos, de uma nova cêpa de vírus parainfluenza (PZL) sorològicamente relacionada com a cêpa humana PI3; ao mesmo tempo, comentam o encontro de anticorpos neutralizantes, para a cêpa humana, de vírus parainfluenza 3, num estudo com soros de bovinos, na Austrália. CHANOCK, BELL & PARROTT6 (1960), estudando casos de infecção primária e reinfecção pelo vírus parainfluenza 3, em crianças, puderam observar alguns soros humanos reagindo igualmente frente à cêpa humana e bovina, enquanto noutros não pôde observar-se a presença de anticorpos heterólogos. Observações desta natureza dão ao problema das relações antigênicas entre as cêpas humana e bovina um interêsse muito particular e sugerem a possibilidade do uso da cêpa heteróloga em inquéritos de natureza epidemiológica, principalmente, se levarmos em consideração as observações de FisCHMAN & BANG12 (1966), segundo as quais as relações antigênicas cruzadas manifestam-se em um só sentido.

As porcentagens de positividade menos elevadas, encontradas por nós, poderão ainda ser atribuídas e talvez com mais razão ao tratamento dos soros pelo caolin, para destruição dos inibidores inespecíficos, cuja presença pode falsear os resultados da reação de inibição da hemaglutinação. KETLER, HAMPARIAM & HILLEMAN15 (1961), baseados em dados experimentais, consideram que a presença destes inibidores não afeta os resultados das pesquisas serodiagnósticas e seroepidemiológicas, sendo desnecessário aquele tratamento. Pareceu-nos mais indicado seguir o critério de acôrdo com o qual deve correr-se o risco da destruição do anticorpo em soros de títulos baixos, frente à possibilidade de existirem inibidores capazes de dar falsos resultados positivos (SCHMIDT, LENNETTE & KING13, 1966).

Sem deixar de considerar que os resultados obtidos no presente trabalho devem representar, em certa medida, um índice de infecção dos animais estudados, pelo vírus parainfluenza 3, iniciamos nôvo inquérito sorológico em bovinos provenientes de 50 Municípios do Estado de São Paulo, usando um antígeno de origem bovina (CANDEIAS & RIBEIRO 5, 1968).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 24-9-1968

 

 

1 Da Cadeira de Microbiologia Aplicada da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP