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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.6 n.2 São Paulo Jun. 1972

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101972000200001 

ARTIGO ORIGINAL

 

Razão nitrogênio ureico/creatinina (N U/C) em indivíduos de famílias que apresentaram consumo satisfatório e insatisfatório de proteínas

 

Ureic nitrogen/creatinine ratio in individuals with adequate and inadequate protein consumption

 

 

Ignez Salas Martins

Do Departamento de Nutrição da Faculdade da Saúde Pública da USP. – Av. Dr. Arnaldo, 715 – São Paulo, SP, Brasil

 

 


RESUMO

A razão nitrogênio ureico/creatinina (N u/c) foi medida em indivíduos de ambos os sexos nos grupos de 3 a 10 anos, 11 a 15 anos e acima de 15 anos de idade, em uma amostra das populações das comunidades de Vila de Icapara, Pontal do Ribeira e diaristas de Iguape, localizadas no litoral sul de São Paulo, no Vale do Ribeira. Foi calculada a adequação do consumo de proteínas entre as famílias, através dos resultados de um inquérito alimentar feito pelo método das pesagens. Partiu-se da hipótese de que haveria maior proporção de indivíduos com a razão N u/c maior ou igual a 5 nas famílias que apresentaram consumo proteico maior ou igual a 80,0% de adequação; através do teste c2; 0,05, obteve-se uma associação entre a adequação do consumo de proteínas nas famílias e a razão N u/c nos indivíduos das respectivas famílias.

Unitermos: Proteínas (consumo)*; Razão nitrogênio ureico/creatinina*; Nutrição*.


SUMMARY

A study of ureic nitrogen/creatinine ratio in individuals of both sexes from 3 to 10 years, 11 to 15 years and over 15 years age groups, was carried out on a sample of coastal populations from Vila de Icapara, Pontal do Ribeira and the city of Iguape, all of them located in the south of the State of S. Paulo, Brazil. Adequate protein consumption of each family was calculated from the results of a nutrition survey using weighing procedure. Applying the c2 test c2; 0,05 a correlation of adequate family consumption and ureic nitrogen/creatinine ratio was encountered.

Uniterms: Protein, consumption*; Ureic nitrogen/creatinine*; Nutrition*.


 

 

INTRODUÇÃO

Foram estudadas, em 1969, três comunidades do Vale do Ribeira, pela equipe do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, através de um inquérito clínico-bioquímico e alimentar. Duas delas, as de Vila de Icapara e Pontal do Ribeira, possuem economias de subsistência e suas populações vivem da pesca e da agricultura. Plantam principalmente a rama (mandioca) e seus alimentos básicos são o peixe e a farinha de mandioca (Tabela 1). A outra comunidade estudada foi a dos diaristas de Iguape de nível econômico semelhante ao das duas anteriores 5, porém inserida em um centro urbano, a cidade de Iguape. A alimentação desses diaristas é predominantemente o arroz, o feijão e, em menor proporção, o peixe e a farinha de mandioca (Tabela 1).

 

 

Tendo essas comunidades como alimentação básica, proteínas de origem animal, provindas do peixe, em grande parte, foi de nosso interesse fazer um estudo da razão nitrogênio ureico/creatinina, que guarda uma relação direta com a ingestão de proteínas1,2.

Contamos com os dados do inquérito alimentar feito pelo método das pesagens, que mede as quantidades de alimentos consumidos em 24 horas entre as famílias. Para tentar uma avaliação do estado nutricional de uma comunidade apenas com esses dados, somos obrigados a fazer a pressuposição de que, em média, durante o ano todo as famílias consomem as quantidades medidas no dia do inquérito. Para tentarmos um paralelo entre o consumo de proteínas entre as famílias e a razão nitrogênio ureico/creatinina dos indivíduos pertencentes a essas famílias, fizemos a pressuposição de que nas que apresentaram um consumo insatisfatório de proteínas, deve haver maior proporção de indivíduos com a razão nitrogênio ureico/creatinina (N u/c) abaixo de um limite que estabelecemos, levando em conta a distribuição dos valores encontrados. Foram estudados indivíduos de ambos os sexos dos grupos etários de 3 a 10 anos, 11 a 15 anos e acima de 15 anos de idade.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foi tomada, de cada indivíduo da família, uma amostra de urina conforme recomendação de JELLIFFE3 e por decisão da equipe de trabalho foi a primeira da manhã. A uréia foi medida em auto-analiser e a creatinina pelo método de FOLIN Wu 4 modificado. A urina foi conservada em pH entre 2 e 3 (com ácido clorídrico concentrado) e congelada a -10°C. Foram aproveitadas 225 amostras de urina.

 

RESULTADOS E COMENTÁRIOS

A Tabela 2 nos dá as porcentagens de adequação de famílias quanto ao consumo de proteínas nas 3 comunidades.

Tendo em vista que o inquérito alimentar, embora executado com rigor, foi feito em apenas 24 horas, para maior segurança de nossas considerações, resolvemos tomar como insatisfatório um consumo abaixo de 80,0% de adequação.

A Tabela 3 nos dá a porcentagem de famílias que tiveram consumo satisfatório e insatisfatório de proteínas nas 3 comunidades. Em Vila de Icapara, onde o peixe foi de fácil aquisição 5, o consumo de proteínas foi melhor do que nas outras duas comunidades; 20,5% da população apresentou um consumo abaixo de 80,0% de adequação. Em Pontal do Ribeira, as condições não permitiram fartura, quer pela necessidade de comercialização do peixe, quer pelo tipo de pesca5 Nesta comunidade, 34,7% da população apresentou um consumo abaixo de 80,0% de adequação. Entre os diaristas de Iguape, 34,7% da população apresentou um consumo abaixo de 80,0% de adequação.

As Tabelas 4, 5 e 6 e as Figuras 2, 3 e 4 mostram-nos as variações dos valores da razão nitrogênio ureico/creatinina (N u/c) nas três comunidades.

 

Tabela 7

 

 

Tabela 8

 

 

Tabela 9

 

Não encontramos uma variação da razão nitrogênio ureico/creatinina em função da idade (Figura 1).

Em Vila de Icapara, onde o consumo de proteínas foi mais satisfatório, encontramos maior proporção de valores ³ 5,00 para a razão nitrogênio ureico/creatinina (N u/c).

Para verificarmos se houve uma associação entre a adequação do consumo de proteínas das famílias e a razão N u/c dos indivíduos dessas famílias, utilizamos o teste c2 a um nível de significância de 5%. Nas famílias que apresentaram consumo satisfatório de proteínas deve haver maior proporção de indivíduos com a razão N u/c ³ 5,00 e nas de consumo insatisfatório, deve haver maior proporção de indivíduos com a razão N u/c < 5,00 nos 3 grupos etários estudados.

Foram formuladas as seguintes hipóteses:

a) a probabilidade (p1) de se encontrarem valores ³ 5,00 para a razão N u/c, em indivíduos de 3 a 10 anos de ambos os sexos, é igual para as famílias que apresentaram consumo satisfatório (p1) ou insatisfatório (p2) de proteínas: H0.

b) a probabilidade (p2) de se encontrarem valores £ 5,00 para a razão N u/c em indivíduos de 3 a 10 anos de ambos os sexos, é maior nas famílias que apresentaram consumo satisfatório (p1) em proteínas: H1.

Tivemos c2, 0,05 = 4,48, portanto rejeitamos a hipótese H0 aceitando uma associação entre a razão Nu/c em crianças de 3 a 10 anos de ambos os sexos e o consumo de proteínas das famílias a que pertencem essas crianças.

Aplicando as hipóteses H0 e H1, para os indivíduos do grupo etário de 11 a 15 anos, o teste pelo c2; 0,05, nos dá um valor de 5,48, portanto, rejeita-se H0 aceitando-se a hipótese que há uma associação entre a razão Nu/c em indivíduos do grupo etário de 11 a 15 anos de ambos os sexos e a adequação do consumo de proteínas nas amostras a que pertencem esses indivíduos.

Aplicando-se finalmente o teste pelo c2; 0,05, para o grupo etário acima de 15 anos de idade, encontramos o valor de 11,24. Rejeita-se, portanto, H0 aceitando-se a hipótese de associação entre a adequação do consumo familiar de proteínas e a razão Nu/c em indivíduos acima de 15 anos de idade, de ambos os sexos, das respectivas famílias.

 

CONCLUSÕES

a) Houve uma associação entre a razão Nitrogênio ureico/creatinina (N u/c) nos indivíduos e a adequação do consumo proteico entre as famílias a que pertencem esses indivíduos.

b) A razão N u/c não variou em função da idade, quando calculada na primeira urina da manhã.

 

AGRADECIMENTO

Ao Dr. Álvaro Cardoso que tornou possível a dosagem de uréia no Laboratório Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. ARROYAVE, G. et al. – Razón nitrogeno ureico/creatinina como indicador del nivel de ingesta proteica. II – Diferencias en cuanto a urea urinaria y amonio, con y sin diuresis de água provocada en grupos de niños con características dietéticas diferentes. Arch. latinoamer. Nutr., 17:49-57, 1967.        [ Links ]

2. DUDGALE, A. E. & EDBINS, E. – Urinary urea/creatinine ratio in healthy and malnoureshed children. Lancet, 1:1062-4, 1964.        [ Links ]

3. JELLIFFE, D. B. – Evaluación del estado de nutrición de la comunidad. Ginebra, Organización Mundial de la Salud, 1968. p. 214.        [ Links ]

4. INTERDEPARTMENTAL COMMITTEE ON NUTRITION FOR NATIONAL DEFENSE – Manual for nutrition surveys. Bethesda, Md., National Institute of Health, 1957. p. 87.        [ Links ]

5. MARTINS, I. S. – Estudo da situação sócio-econômica e do consumo de nutrientes em comunidades do Vale do Ribeira. São Paulo, Brasil. Rev. Saúde públ., S. Paulo, 6: 199-209, 1972.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 1-6-1971
Aprovado para publicação em 25-4-1972
Trabalho realizado como parte dos programas do Departamento de Nutrição, em virtude do sub-convênio celebrado entre a Faculdade de Saúde Pública e o Serviço do Vale do Ribeira, então órgão do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), em 1970