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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.6 n.2 São Paulo Jun. 1972

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101972000200004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Características da assistência ao parto na cidade do Salvador (Bahia), Brasil

 

Characteristics of the maternity care in the city of Salvador, Bahia, Brazil

 

 

Celia Guimarães Neto Dias; José Codes; Dulce Bião; Celso Pugliesi

Do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia – Rua João das Botas, s/n. Salvador, Bahia – Brasil

 

 


RESUMO

Levou-se a efeito estudo para analisar a disponibilidade de serviços de maternidade na cidade do Salvador, Brasil. Foi elaborado questionário destinado à obtenção de informações sobre o tipo de hospital, meios de manutenção, número de leitos obstétricos existentes, tempo e percentual de ocupação de leitos hospitalares. Informações sobre o tipo de assistência fornecida por ocasião da admissão, foram obtidas a partir do livro de ocorrências de cada instituição. Os dados referentes a mortalidade para o período 1961-1970 foram obtidos de duas fontes diferentes. No primeiro período de 1971, o estudo assim conduzido, demonstrou elevada demanda para leitos hospitalares mantidos pelo Governo estadual e período de permanência muito curto na maioria dos hospitais. As taxas de abortos e de mortalidade materna, em 1970, revelaram-se muito elevadas. Ambos os aspectos da assistência à maternidade apresentam-se como problemas importantes de Saúde Pública na cidade do Salvador.

Unitermos: Maternidade, assistência*; Aborto*; Mortalidade materna*; Assistência hospitalar.


SUMMARY

A study was made attempting to analyse the availability of maternity services in the City of Salvador, Brazil. A questionaire was designed aiming at to obtain information on the type of the hospital, owner ship, number of existing lying-beds, length of stay and percentage of occupation of hospital beds. The kind of natal care delivered by the time of the admission, was obtained from the book of ocurrences of each institution, while the mortality data to the period 1961-1970 were derived from two different sources. The study was conducted in the first period of 1971 and has indicated: a high demand for the hospital beds maintained by the state government and a very low length of stay in most of the lying in hospitals. The abortion rate observed in 1970 as well as the maternal mortality rates were found extremelly high, and both aspects of maternity care appeared as important public health problems in the City of Salvador.

Uniterms: Maternity services*; Abortion*; Mortality, maternal*; Hospital care.


 

 

1. INTRODUÇÃO

A crescente melhora dos padrões de assistência à maternidade e ao parto, experimentada em anos recentes, pelos países industrializados, além de ter criado condições adequadas para o nascimento de uma criança normal, reduziu sobremodo a morbidade e a mortalidade materna.

Esta tendência observada entre os países desenvolvidos contrasta sobremaneira com a experiência dos países subdesenvolvidos. Assim é que, em um estudo comparativo internacional sobre a mortalidade materna PUFFER & GRIFFITH 9 (1967) chamam a atenção para a grande variação das taxas de mortalidade materna por 100.000 habitantes entre as 12 cidades incluídas no estudo. Estas taxas foram de 1,1 e 1,6 em S. Francisco e Bristol (E.U.A.) e de 33,7 e 40,9 em Cali e Santiago do Chile para o período de 1962-1964. Os mesmos autores apontam que de 637 óbitos maternos, 18,2% receberiam assistência médica terminal seja no hospital ou por médico e que 8,5% das mães que faleceram, no período de estudo, não receberam qualquer forma de assistência médica durante a gravidez.

PUGLIESI et al. 10 (1971) num estudo sobre a morbidade hospitalar realizado em 1970, no Município do Salvador, verificaram que as condições médicas relacionadas ao parto representaram 51,2% de todos os internamentos entre pessoas do sexo feminino. Neste estudo, os autores não se detiveram em analisar certas características da assistência ao parto. Como informações dessa natureza são de grande valia para o planejamento no setor de saúde, julgaram os autores do presente trabalho, essencial analisar as características da assistência ao parto na Cidade do Salvador.

 

2. METODOLOGIA

O estudo foi conduzido no primeiro semestre de 1971, sob a forma de um censo abrangendo todas as instituições que prestam serviços obstétricos na Cidade do Salvador, isto é, maternidades, hospitais gerais e postos obstétricos. O questionário aplicado a estas instituições continha perguntas sobre a entidade mantenedora, número de leitos obstétricos, número de salas de parto, etc.

Os livros de registro de ocorrências correspondentes ao ano de 1970, dessas instituições, foram revistos obtendo-se dos mesmos informações relacionadas ao número total de partos, número de partos simples, de forceps, de cesáreas, de curetagens; de abortamentos e de óbitos.

Os dados referentes à mortalidade materna para a Cidade do Salvador, para o período de 1961 a 1967, foram obtidos do IBGE8 e para o período de 1968-1970, da Secretaria da Saúde Pública do Estado da Bahia 3, 4, 5.

 

2. RESULTADOS

Verificou-se através do censo existirem na Cidade do Salvador, 13 instituições responsáveis pela assistência ao parto, distribuídas como se segue: 3 maternidades, 2 postos obstétricos e 8 hospitais gerais com leitos destinados à maternidade. Dessas instituições 3 (23,1%) pertenciam a entidades particulares com finalidades lucrativas, 3 (23,1%) eram de natureza beneficente e 7 (53,8%) pertenciam ao poder público (Tabela 1).

 

 

Existiam no período de estudo 613 leitos obstétricos, correspondendo a 10,5% do total de leitos hospitalares existentes na Cidade do Salvador, propiciando uma relação de 0,64 leitos para cada mil habitantes. Esses leitos estavam assim distribuídos: 327 (53,3%), pertenciam à iniciativa privada, enquanto que 286 (46,7%) ao poder público (Tabela 2).

Nessa mesma Tabela observa-se a taxa de ocupação de acordo com a entidade mantenedora. À exceção dos leitos de uma das maternidades mantida pelo governo federal, que teve uma percentagem de ocupação de 59,2%, os demais apresentavam percentuais entre 98,9% e 100,0%, correspondendo a uma percentagem média de ocupação de 93,1% (Tabela 2) quando consideramos as camas em conjunto.

Existia um total de 26 salas de partos distribuídas como se segue: 12 (46,2%) pertenciam às instituições privadas, enquanto que 14 (53,8%) eram mantidas pelo poder público. A distribuição dessas salas como mostra a Tabela 3 não era uniforme, sobretudo considerando a entidade mantenedora. Assim é que das 14 salas mantidas pelo poder público 8 (57,2%) eram da órbita federal. Todavia, como se observou na Tabela 2, estas instituições apresentavam a menor percentual de ocupação (59,2%), Por seu turno, a iniciativa privada, constituída por várias instituições, possuia 8 (66,6%) salas de parto e como ficou demonstrado na Tabela 2 o percentual de ocupação do leito obstétrico era de 100,0%.

 

 

Na Tabela 4, observa-se a distribuição dos partos simples, do fórceps, de cesáreas e abortamentos incluindo curetagens com suas respectivas taxas de mil habitantes, de acordo com a entidade mantenedora.

A taxa observada para partos simples foi de 24,81 por 1.000 habitantes, sugerindo que mais da metade dos nascimentos tiveram lugar nas maternidades e postos da Cidade do Salvador, cuja taxa de natalidade é de 37/mil habitantes.

Todavia, é surprendente a variação dos índices quando se toma em consideração as entidades mantenedoras. Assim é que a maternidade estadual realizou um total de 13.315 partos simples, oferecendo uma taxa de 13,65/1000 habitantes, enquanto que as demais maternidades e postos contribuiram, respectivamente, com 2,95; 0,35; 4,78 e 3,06/1.000 habitantes.

As taxas observadas para as complicações do parto, isto é, forceps e cesáreas foram, respectivamente, de 1,59 e 2,08 por 1.000 habitantes. Os índices de forceps e cesáreas por mil habitantes, de acordo com as entidades mantenedoras, apresentaram variações bem características; foram mais elevados nas maternidades mantidas pela iniciativa privada e relativamente baixos naquelas instituições mantidas pelo poder público.

A taxa de aborto na Cidade do Salvador, foi de 5,85/1.000 habitantes, índice este bastante elevado sendo que na maternidade estadual esta taxa foi de 4,37/1.000 habitantes.

3.1 – Tempo Médio de Permanência em Dias

O tempo médio de permanência em dias nos serviços obstétricos da Cidade do Salvador está indicado na Tabela 5. Excetuando-se os serviços obstétricos mantidos pelo poder público federal e pela beneficência, que apresentaram tempos médios de permanência respectivamente de 4,5 e 3,4 dias, nos demais serviços – sejam os mantidos pela iniciativa privada, sejam pelos poderes públicos estadual e municipal – os tempos médios de permanência foram extremamente baixos, sendo de apenas 1,5 dias no caso da maternidade mantida pelo poder público estadual.

 

 

3.2 – Mortalidade Materna

A distribuição dos obtidos maternos e suas respectivas taxas por 10.000 nascidos vivos poderão ser observadas na Tabela 6. Estas taxas foram definidas relacionando o número de óbitos maternos com o número de nascidos vivos. Os dados constantes na Tabela 6 não permitem identificar quais as causas de óbito materno de maior importância, porquanto eles englobam todas as causas maternas inclusive o aborto. Apesar disso, verifica-se que as taxas observadas na Cidade do Salvador, para o período 1961-1970 foram bastante elevadas variando de 6,9 a 8,5 por 10.000 habitantes, em 1968 e 1963, respectivamente.

 

4. DISCUSSÃO

Os resultados ora apresentados sugerem que a assistência ao parto, na Cidade do Salvador, está a merecer maior atenção por parte das autoridades sanitárias. Como foi demonstrado, havia neste município 613 leitos obstétricos distribuídos por 13 instituições (maternidades e postos), dando uma relação de 0,64 leitos para cada mil habitantes, Embora esta relação seja considerada satisfatória para os países desenvolvidos (11), entre nós, fica muito a desejar, porquanto a demanda pelo leito obstétrico não se procede uniformemente. Assim é que a maternidade estadual com apenas 177 leitos, realizou no período do estudo 13.315 partos, ou seja, 55,0% de todos os partos simples realizados nas maternidades e postos existentes na comunidade. Este fato denota o baixo nível sócio-econômico da população do Salvador, o qual, não podendo fazer frente ao elevado custo do internamento exigido pelas instituições privadas, tende a elevar de forma considerável a demanda pelos leitos desta maternidade. Outro aspecto desfavorável das características da assistência ao parto evidenciado no presente estudo diz respeito ao tempo médio de permanência em dias na totalidade das instituições existentes no município. A média de permanência esteve sempre muito aquém dos padrões observados nos países desenvolvidos, onde a média de permanência é até 10 dias 7. Isto contrasta com o observado entre nós, onde na maternidade estadual, por exemplo, o tempo de permanência não ultrapassa a 1,5 dias.

Para atingirmos o elevado nível de assistência ao parto, ora existente nos países desenvolvidos, teríamos que dispor de, aproximadamente, 241.950 dias-camas, considerando o total de partos simples realizados nas nossas maternidades. Para tanto, seria fundamental aumentar o número de leitos obstétricos para 1,0 a 1,5/1.000 habitantes. Aliás, em seus relatórios, ARAÚJO 1,2 chamou a atenção das autoridades governamentais, para a necessidade imediata de construir uma outra maternidade com a capacidade de duzentos leitos, com o objetivo de reduzir a elevada demanda observada nos últimos anos sobre a maternidade estadual.

Outro problema de grande interesse para a saúde pública local está relacionado ao aborto. Infelizmente, não conhecemos com precisão o número de gestações que terminam em aborto e muito menos ainda o que representa o aborto criminoso em nosso meio. A taxa de aborto observada na Cidade do Salvador, em 1970, foi de 5,85/1.000 habitantes. Esta taxa compara-se às observadas no Chile e em Costa Rica, que tem índices respectivamente de 6,1 e 4,3 por 1.000 habitantes 6. Interessante observar que não existiu uniformidade no valor das taxas com respeito às entidades mantenedoras, sendo que a taxa observada na maternidade estadual foi de 4,37/1.000 habitantes. Esta observação vem de acordo ao que usamos anteriormente, isto é, a maternidade estadual responsabiliza-se pelo atendimento de uma elevada proporção da população de baixo nível sócio-economico, donde poder-se-ia concluir que esta população, não dispondo de assistência pre-natal adequada, estará mais sujeita ao risco de desenvolver um aborto; ou que, entre as pessoas dessa população, a prática de aborto estaria amplamente difundida, ou haveria a coexistência dos problemas acima apontados. Esta última hipótese parece ser a mais verdadeira.

A análise da mortalidade materna na comunidade de Salvador está incompleta. Primeiro, porque não nos foi possível, face às características dos dados existentes, separar as causas de óbitos maternos dos óbitos devido a aborto. Em adição, a classificação dos óbitos maternos foi efetuada de acordo com a 7.a Revisão da Classificação Internacional de Doenças, entre 1961 a 1967, enquanto que no período de 1968 a 1970, de acordo com a 8.a Revisão. Estas modificações no sistema de classificação dos óbitos, trouxe alterações na prática de codificação nos órgãos competentes, o que tornaria difícil a comparação dos dados. Terceiro, o registro de nascimento, que seria fundamental para compor o denominador das taxas, é ainda bastante incompleto na Cidade do Salvador. Em decorrência disso tivemos que fazer uma estimativa do número de nascimentos que teriam ocorrido no período de 1961 a 1970, se tivesse prevalecido a taxa de natalidade de 37/1.000 habitantes na Cidade do Salvador. É provável que algum erro tenha sido introduzido nesta estimativa. Todavia julgamo-nos, no momento, incapazes de avaliar o seu tamanho. Finalmente, não conseguimos obter a distribuição dos óbitos maternos de acordo com a idade da mãe, o que seria de importância para avaliar riscos específicos de certos grupos etários.

Apesar disso as taxas de mortalidade materna, todas as causas inclusive aborto, são bem elevadas e comparáveis às observadas na Cidade da Guatemala, em Lima e na Cidade do México, que apresentavam índices respectivamente de 15,9; 15,6 e 17,7/10.000 habitantes, para o período de 1962-1964 9. Convém assinalar que dos 53 óbitos maternos ocorridos na Cidade do Salvador em 1970, 41 (77,36%) foram registrados na maternidade estadual, demonstrando quão desprotegida de assistência prenatal está a população de baixo nível sócio-economico. Por outro lado, dois óbitos ou 3,77% ocorreram nas maternidades mantidas pelo poder público federal, enquanto os 10 óbitos restantes (18,86%) ocorreram na ausência de qualquer assistência ao nível das maternidades ou postos obstétricos de Salvador.

 

5. COMENTARIOS E CONCLUSÕES

O estudo ora efetuado procurou caracterizar um aspecto da assistência materna, isto é, a assistência ao parto na Cidade do Salvador. Ficou patente que embora Salvador disponha de 613 leitos obstétricos distribuídos por 13 instituições e permitindo uma relação de 0,64 leitos por mil habitantes, a demanda pelo leito obstétrico não se faz uniforme, estando a maternidade estadual sob elevada pressão por parte da população de baixo poder aquisitivo. Também ficou evidenciado que o tempo médio de permanência em dias nas nossas maternidades, excetuando a federal que apresentou uma média de 4,3 dias, é bastante baixo, alcançando valores de 1,5 dias na maternidade estadual. A mortalidade materna mostrou-se elevada para o biênio 1961-1970, muito embora a análise da mesma tivesse sido prejudicada pelas razões já mencionadas no texto.

Finalmente, a taxa de aborto, observada para 1970, foi bastante elevada, aparecendo como um importante problema de saúde pública para Salvador.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. ARAUJO, J. D. – Relatório de atividades. Salvador, Bahia, Secretaria da Saúde Pública, 1969.        [ Links ]

2. Ibidem, 1970.        [ Links ]

3. BOLETIM INFORMATIVO ANUAL: Estatísticas vitais – Estado da Bahia. (Secretaria de Saúde Pública). Salvador, Bahia, 1968.        [ Links ]

4. Ibidem, 1969.        [ Links ]

5. Ibidem, 1970.        [ Links ]

6. Las CONDICIONES de la Salud en las Americas 1961-1964. Washington D. C., Organización Panamericana de la Salud, 1960. (Publicaciones Científicas, 138).        [ Links ]

7. DAVIES, I. G. – Maternal health and welfare in modern public health for medical students. 2nd ed. London, Edward Arnold Publ., 1963.        [ Links ]

8. FUNDAÇÃO IBGE. BrasilSéries Estatísticas Retrospectivas. Rio de Janeiro, 1970 v. 1.        [ Links ]

9. PUFFER, R. R. & GRIFFITH, – Patterns of urban mortality. Report of the interamerican investigation of mortality. Washington D. C., Panamerican Health Organización, 1967. (Scientific Publication, 151).        [ Links ]

10. PUGLIESE, C. et al. – Inquérito sobre asssitência hospitalar e morbidade hospitalar no município do Salvador (Bahia) Brasil. Rev. Saúde públ., S. Paulo, 5:1-16. 1971.        [ Links ]

11. SAN MARTIN, H. – Atencion médica y administracion hospitalar in saludad y enfermedad. 2.a ed. México, D. F., La Prensa Médica Mexicana, 1968.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 16-3-1972
Aprovado para publilcação em 25-4-1972