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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.7 n.2 São Paulo Jun. 1973

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101973000200004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Quantificação do indicador de Nelson de Moraes (curva de mortalidade proporcional)

 

Quantification of the Nelson de Moraes's indicator (curve of proportional mortality)

 

 

José da Silva Guedes; Marilda Lauretti da Silva Guedes

Do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – Rua Cesário Mota Jr., 112 – São Paulo, SP. – Brasil

 

 


RESUMO

Propõe-se um critério para quantificação do indicador de Nelson de Moraes (curva de mortalidade proporcional) procurando eliminar as desvantagens do indicador não ter tradução numérica. Utilizando dados de Moraes, Ramos e próprios, são quantificadas Curvas de Mortalidade Proporcional de países desenvolvidos, do município de São Paulo e das regiões administrativas do Estado de São Paulo. A quantificação gera um indicador cujas cifras variam de valores negativos até o máximo teórico de + 50. São destacadas as vantagens da quantificação, que permite a hierarquização de diferentes regiões e a comparação simultânea da evolução do nível de saúde de um grande número de localidades.

Unitermos: Níveis de saúde (indicadores) *; Estatística vital *; Mortalidade*; Epidemiologia.


SUMMARY

Working with the Nelson de Moraes's indicator (curve of proportional mortality) it is introduced a criterion to quantify the curves, trying in this way a numeric value that, synthetizing the contribution of the different age groups to the mortality, indicates the level of health.

Uniterms: Health levels (indicators)*; Vital statistics*; Mortality*; Epidemiology.


 

 

INTRODUÇÃO

Em 1952, a ONU (apud SWAROOP & UEMURA 6) convocou um Comitê de Peritos com o fim de elaborar a maneira mais adequada para medir os "níveis de vida", que sugeriu uma série de doze componentes, figurando dentre eles "saúde, incluindo condições demográficas".

O primeiro indicador criado para medir "saúde, incluindo condições demográficas" foi o de SWAROOP & UEMURA6, a Razão de Mortalidade Proporcional, tendo sido apresentado em 1955 ao Grupo de Estudo sobre a medida do nível de saúde, que sobre o patrocínio da OMS se reuniu em Genebra.

Em 1957, as conclusões do citado Grupo de Estudo 4 foram publicadas incluindo o indicador de Swaroop e Uemura dentre os indicadores globais de saúde e sugerindo que fossem feitos estudos sobre a mortalidade proporcional em determinadas idades (outras que a de 50 anos e mais).

A partir dessa sugestão, MORAIS3, em 1959, estudando a mortalidade proporcional para as idades: menores de 1 ano, 1 a 4, 5 a 19, 20 a 49 e 50 anos e mais, propôs um novo indicador, a Curva de Mortalidade Proporcional. Este indicador apresenta uma série de vantagens: dispensa os dados de população, é fácil de calcular, inclui o indicador de Swaroop e Uemura, e além disso, permite visualização da situação pois é representado graficamente.

Vários autores têm utilizado o indicador de Nelson de Moraes para localidades brasileiras2,5.

Alguns inconvenientes têm sido sentidos, entretanto, no seu uso, decorrentes primordialmente do fato do indicador não ser expresso numericamente. Assim, para curtos períodos de tempo em que tenha ocorrido pequenas variações, a percepção de diferenças pode não ser muito rápida, já que depende da análise do comportamento de 5 pontos do gráfico e por não haver um critério expresso quanto ao significado do aumento ou diminuição para os diferentes grupos abaixo de 50 anos. A comparação de trabalhos usando gráficos em escalas diferentes também não é fácil. Encontra-se dificuldade em descrever as mudanças quando compreendidas nos intervalos entre os 4 tipos esquemáticos (elevado, regular, baixo e muito baixo). E finalmente, é impossível atribuir "nota" ou "peso" ao indicador, nas tentativas de reunir vários indicadores para obter uma "nota" média para a situação de saúde de uma localidade.

Procurando estudar a evolução do nível de saúde das regiões administrativas do Estado de São Paulo, de 1950 a 19701 deparamos com o problema de comparar as curvas de mortalidade proporcional das onze regiões durante os períodos de 1949 a 1951, 1959 a 1961, 1966 a 1968. Os gráficos são auto-explicativos, porém, tentar analisar as diferenças entre as curvas das onze regiões, de modo a poder hierarquizá-las, foi algo bastante difícil, o que nos levou a procurar uma "quantificação" do indicador.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Para o propósito da quantificação do indicador de Nelson de Moraes utilizamos: dados referentes ao município de São Paulo de 1894 a 1959 calculados a cada 5 anos, apresentados por RAMOS5; dados referentes a sete países desenvolvidos por volta de 1950, apresentados por MORAIS3 e dados referentes às regiões administrativas do Estado de São Paulo para os períodos de 1949-1951, 1959-1961, 1966-1968, por nós apresentados1.

Buscamos estabelecer pesos para cada ponto da curva segundo um raciocínio que levou em conta o "poder discriminatório" da porcentagem de mortes em cada grupo de idade, que depende em última análise da vulnerabilidade do grupo às alterações das condições de vida.

Assim atribuimos:

a. pontos positivos para a proporção de mortes nas idades acima de 50 anos, já que seu aumento revela uma melhoria de saúde;

b. pontos negativos para a proporção de mortes nas idades abaixo de 50 anos, já que seu aumento revela piora do nível de saúde;

c. peso + 5 para a proporção de mortes no grupo de 50 anos e mais;

d. peso – 4 para a proporção de mortes no grupo de menores de 1 ano. A mortalidade neste grupo reflete bem a proteção oferecida aos infantes contra as agressões do meio, dependendo essa proteção de inúmeros fatores de ordem social, econômica e cultural. É ainda, em geral, o primeiro grupo a sofrer as conseqüências das alterações sócio-econômicas de uma comunidade e, por tudo isso, decidimos conferir-lhe o maior peso negativo, a fim de que suas alterações pudessem influir seguramente no indicador quantificado.

e. peso – 3 para a proporção de mortes no grupo de 20 a 40 anos, já que, quando sua contribuição para a mortalidade é alta, as condições gerais de saúde são más, pois para grande parte das causas de morte encontradas neste grupo etário há recursos para prevenção e tratamento. Acresce ainda que este grupo já foi "selecionado" nas idades anteriores, devendo ser constituído por indivíduos com melhores condições para sobrevivência, cuja maioria deveria ultrapassar incólume mais esta faixa etária;

f. peso – 2 para a proporção de mortes no grupo de 1 a 4 anos de idade, que apresenta valores de mortalidade bem distintos em regiões desenvolvidas e subdesenvolvidas, em função principalmente da freqüência das doenças infecciosas e da desnutrição. Este grupo é menos vulnerável às alterações sócio-econômicas do que o grupo de menores de 1 ano.

g. peso – 1 para a proporção de mortes no grupo de 5 a 19 anos de idade, que tem pequeno poder discriminatório, pois em quase todos os níveis de saúde, do "muito baixo" ao "elevado", apresenta valores percentualmente baixos.

Cálculo do Indicador

Multiplica-se a porcentagem de óbitos correspondente a cada grupo pelo seu peso, procede-se à soma algébrica dos resultados e divide-se por dez.

A fixação do peso + 5 para a proporção de mortes no grupo de 50 anos e mais, ao invés de + 10 (já que a soma dos pesos negativos é – 10), deve-se a que desse modo o indicador varia desde valores negatvos, até um valor máximo teórico de + 50 e as curvas consideradas por Moraes como indicativas de nível de saúde regular apresentam "valores quantificados" em torno de zero.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O cálculo da "quantificação" para os dados do município de São Paulo de 1894 a 1967 (Tabela 1) mostra que a variação dos valores se faz com regularidade e que, dentro da faixa de "nível muito baixo", consegue detectar uma série grande de estágios intermediários, os quais pelo critério "visual" seriam expressos apenas como "transição" de "muito baixo" para "baixo", com grande dificuldade para o estabelecimento de graus. No sentido de avaliar o interesse da quantificação, devem ser cotejados os dados da Tabela 1 com a Figura 1 extraídos do trabalho de RAMOS5.

Outra vantagem da quantificação das curvas de mortalidade proporcional é permitir-nos a fácil elaboração de gráficos para análise simultânea da evolução do nível de saúde de várias localidades ao longo do tempo, o que pode ser visto comparando-se as Figuras 2, 3, 4, com a 5 e a Tabela 3.

Como pode ser visto nas Tabelas 1 a 2 há um certo paralelismo entre os valores da curva de mortalidade proporcional quantificada e os do indicador de Swaroop e Uemura. Em estudo posterior calcularemos o poder discriminatório deste indicador quantificado que a nosso ver deve ser alto, já pelo fato de incluir na sua estrutura e com peso grande o indicador de Swaroop e Uemura, o de mais alto poder discriminatório até agora conhecido.

Para melhor compreensão da maneira como foram feitos os cálculos, apresentamos na Tabela 4 os dados referentes ao município de São Paulo.

 

CONCLUSÕES

– A transformação do indicador de Nelson de Moraes com a introdução da quantificação ora proposta origina um indicador de saúde que apresenta cifras variando desde valores negativos até o valor teórico máximo de + 50. As curvas que Moraes classificou como indicativas de nível de saúde regular, apresentam à quantificação valores próximos de zero.

– A quantificação facilita a interpretação das mudanças ocorridas numa mesma localidade e principalmente a comparação simultânea da evolução do nível de saúde em várias localidades, permitindo a elaboração de gráficos.

– A quantificação permite com mais facilidade do que o uso exclusivo dos gráficos, a hierarquização de diferentes localidades quanto ao nível de saúde.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. GUEDES, J. da S. – Contribuição para o estudo da evolução do nível de saúde do Estado de São Paulo: análise das regiões administrativas (1950-1970). São Paulo, 1972 (Tese – Faculdade de Saúde Pública da USP).        [ Links ]

2. MASCARENHAS, R. dos S. – Indicadores de saúde para regiões subdesenvolvidas. Arq. Hig., S. Paulo, 26:291-303, 1961.        [ Links ]

3. MORAES, N. L. de A. – Níveis de saúde de coletividades brasileiras. Rev. Serv. Saúde públ., R. de Janeiro, 10:403-97, 1959.        [ Links ]

4. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Study Group of the Measurement of Levels of Health, Geneva, 1955. – Report. Geneva, 1957. (Techn. Rep. Ser., 137).        [ Links ]

5. RAMOS, R. – Indicadores do nível de saúde: sua aplicação ao município de S. Paulo (1894-1959). São Paulo, 1962. (Tese – Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP).        [ Links ]

6. SWAROOP, S. & UEMURA, K. – Proportional mortality of 50 years and above: a suggested indicator of the component "health, including demographic conditions" in the measurement of levels of living. Bull. Wld. Hlth . Org., 17:439-81, 1957.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 19/3/1973
Aprovado para publicação em 4/4/1973