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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.7 n.4 São Paulo Oct./Dec. 1973

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101973000400013 

NOTAS E INFORMAÇÕES NOTES AND INFORMATION

 

Nota sobre leishmaniose tegumentar no litoral sul do Estado de São Paulo, Brasil*

 

Cutaneous leishmaniasis at the South Coastal region of the S. Paulo State, Brazil

 

 

Oswaldo Paulo ForattiniI; Dino B. G. PattoliI; Oswaldo Pinto SerraII; Eduardo Olavo da Rocha e SilvaIII; Ernesto Xavier RabelloI

IDo Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP. – Av. Dr. Arnaldo, 715 – São Paulo, SP. – Brasil
IIDo Departamento de Parasitologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. – Cidade Universitária – São Paulo, SP. – Brasil
IIIDa Superintendência do Saneamento Ambiental (SUSAM) do Estado de São Paulo. – Rua Tamandaré, 649 – São Paulo, SP. – Brasil

 

 


RESUMO

Relata-se a existência de área endêmica de leishmaniose tegumentar na região Sul do litoral do Estado de São Paulo, Brasil. Descrevem-se 17 casos a maioria dos quais foram diagnosticados parasitologicamente. As características observadas permitem supor a possibilidade de transmissão intradomiciliar.

Unitermos: Leishmaniose tegumentar (transmissão)*; São Paulo, Brasil*.


SUMMARY

An endemic area of cutaneous leishmaniasis, in the South Coastal region of S. Paulo State, Brazil, is reported. Seventeen cases were found and diagnostic was made mainly through parasitologic evidences. Probability of local intradomiciliary transmission is suspected.

Unitermos: Leishmaniasis, cutaneous*; Leishmaniasis transmission*; S. Paulo, State, Brazil*.


 

 

A região litorânea do Estado de São Paulo, Brasil, tem sido considerada, classicamente, como área de baixa endemicidade ou mesmo ausência de leishmaniose tegumentar (PESSÔA & PESTANA2, 1940). A única referência sobre focos autóctones data já de certo tempo e foi feita no município de Jacupiranga (FORATTINI & OLIVEIRA1, 1957). Desde então, a presença da doença não foi mais assinalada, ou porque estivesse ausente ou porque não chegasse a chamar a atenção. Dessa maneira, o encontro de número apreciável de casos autóctones em curto espaço de tempo, necessariamente teria de despertar interesse, motivando a publicação desta nota.

A presença da parasitose chegou a nosso conhecimento através observações iniciais de Toledo Piza (1972)** no município de Itariri. Posteriormente, novas notificações foram obtidas da região vizinha pertencente ao município de Pedro de Toledo. Ambas situadas na parte sul do litoral paulista.

São áreas de terreno acidentado, localizadas no sopé do sistema da Serra do Mar. A vegetação florestal é abundante, correspondendo a matas pluviais do tipo "climax", ricas em bromeliáceas. A atividade principal da região é agrícola, praticamente dedicada em sua totalidade ao cultivo da banana.

Os meios diagnósticos empregados foram o indireto por meio da reação intradérmica e o direto parasitológico, através do exame das lesões, tentativas de cultura em meio de NNN e inoculação experimental em hamsters.

Município de Itariri, Bairro de Guanhanhan: foram diagnosticados nove casos positivados pelo menos, através da reação intradérmica com leitura de 48 horas (outubro/novembro de 1972):

1) MAC – 12 anos, feminino, residente na localidade há oito anos. Apresentou ulceração situada pouco acima do calcanhar direito, com evolução de cerca de quatro meses.

2) LMO – 10 anos, masculino, nascido e residente na localidade. Portador de úlcera com aproximadamente cinco meses de evolução e localizada no cotovelo direito.

3) MMO – 6 anos e meio, feminino, nascida e residente na localidade. Apresentou lesão ulcerosa na face externa da perna direita com cerca de cinco meses de evolução.

4) MLS – 8 anos, feminino, nascida e residente na localidade. Apresentou várias ulcerações localizadas na face externa da coxa e joelho direitos, com aproximadamente cinco meses de evolução (Fig. 1). O diagnóstico parasitológico revelou-se positivo pelo encontro de formas em leishmânia (amastigotos) nas lesões.

5) MLSN – 6 anos, masculino, nascido e residente na localidade. Portador de ampla lesão ulcerosa no flanco direito com cerca de dois meses de evolução (Fig. 2). O exame parasitológico do material retirado foi positivo bem como a inoculação em hamster. Esta última desenvolveu lesão macroscopicamente visível após um mês da data da inoculação (19.X.72 a 23.XI.72).

6) MDS – 16 anos, feminino, nascida e residente na localidade. Portadora de úlcera vegetante na face anterior do antebraço esquerdo, com cerca de três meses de evolução (Fig. 3). A reação intradérmica, bem como o exame microscópico do material retirado resultaram positivo.

7) JRS – 55 anos, masculino, residente na localidade há cerca de 20 anos. A inspeção revelou a presença de úlcera vegetante na face externa do cotovelo direito, com aproximadamente três meses de evolução (Fig. 4). Revelaram-se positivos os exames microscópicos e a tentativa de isolamento em cultura (amostra JUV).

8) BL – 70 anos, residente na localidade há oito anos. Portador de ulceração na face externa do tornozelo esquerdo com cerca de cinco meses de evolução. O exame parasitológico foi positivo, através do exame microscópico.

9) JRL – 20 anos, masculino, residente na localidade há aproximadamente 10 anos. Apresentou várias lesões ulcerosas localizadas no supercílio e pálpebra esquerdos, pernas e braços, todos com cerca de três meses de duração.

Município de Pedro de Toledo, Bairro de São Lourencinho: foram diagnosticados oito casos, sem a realização da reação intradérmica (dezembro de 1972):

10) MA – 11 anos, feminino, nascida e residente na localidade. Portadora de lesão ulcerosa na região glútea direita, com quatro meses de evolução. Resultado positivo ao exame microscópico.

11) RM – 8 anos, feminino, nascida e residente na localidade. Apresentou uma lesão ulcerosa na face posterior da perna esquerda com cinco meses de evolução aproximadamente. O diagnóstico foi obtido através resultado positivo com inoculação em hamster desenvolvendo lesão macroscópica após um mês (10.XII.72 a 26.I.73).

12) GM – 2 anos, masculino, nascido e residente no local. Apresentou uma úlcera em cada antebraço, com cerca de quatro meses de duração (Fig. 5). Positividade obtida ao exame microscópico.

13) JANS – 20 anos, masculino, residente na localidade há quatro meses. Portador de pequena ulceração na margem externa do antebraço direito com duração aproximada de três mese (Fig. 6). O exame microscópico direto foi positivo, bem como a inoculação em hamster após cerca de dois meses (20.XII.72 a 15.II.73).

14) MHP – 15 anos, feminina, nascida e residente na localidade. Portadora de úlcera na margem externa do braço esquerdo com dois meses de duração (Fig. 7). Foi obtido resultado positivo em hamster após dois meses da data da inoculação (20.XII.72 a 15.II.73).

15) MJ – 17 anos, masculino, nascido e residente no local. Apresentou úlcera na face anterior da perna esquerda com cerca de seis meses de evolução. O exame microscópico direto revelou-se positivo.

16) FSN – 13 anos, masculino, nascido e residente na localidade. Portador de uma lesão ulcerativa na face anterior do ante-braço esquerdo, com quatro meses de duração, bem como outra, papulosa, em início de ulceração no lado esquerdo do nariz com, aproximadamente um mês de evolução (Fig. 8). O exame microscópico direto revelou-se positivo.

17) BPT – 18 anos, masculino, nascido e residente na região. Apresentou uma lesão ulcerosa na face anterior do braço esquerdo com cerca de três a quatro meses de evolução. O exame microscópico direto revelou-se positivo.

Em resumo pois, no período de novembro a dezembro de 1972 foram detectados 17 casos de leishmaniose tegumentar em regiões contíguas dos municípios de Itariri e Pedro de Toledo. A análise dos dados apresentados acima, revela nitidamente o aspecto autóctone da endemia. Chama a atenção a ocorrência da doença em ambos os sexos em pessoas de baixa idade, sugerindo a possibilidade de transmissão intradomiciliar. A abundância em revestimento florestal e a estabilidade da população local são características locais que propiciam o estudo de aspectos epidemiológicos peculiares à endemia nessa região. Entre eles, destaca-se a da provável existência de focos de enzootia ativa.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 – FORATTINI, O. P. & OLIVEIRA, O. de – Um foco de leishmaniose tegumentar na zona sul do Estado de São Paulo, Brasil. Arq. Fac. Hig. S. Paulo, 11:23-34, 1957.        [ Links ]

2 – PESSÔA, S. B. & PESTANA, B. R. – Sobre a disseminação da leishmaniose tegumentar no Estado de São Paulo. Resultado de um inquérito realizado nos "Centros de Saúde" do Interior. Folha méd., 21:20-30, 1940.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 6-9-1973
Aprovado para publicação em 9-10-1973

 

 

* Trabalho do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP, do Departamento de Parasitologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e da Superintendência do Saneamento Ambiental (SUSAM) do Estado de São Paulo
** Toledo Piza, J. de – Comunicação pessoal.