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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.9 n.2 São Paulo Jun. 1975

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101975000200010 

ARTIGO ORIGINAL

 

Estudo da lactação em mulheres do Distrito de São Paulo, Brasil

 

A study on the lactation of women in the District of S. Paulo, Brazil

 

 

João YunesI; Vera Shirley C. RonchezelII

IDo Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (CEDIP) da Faculdade de Saúde Pública da USP – Av. Dr, Arnaldo, 715 – São Paulo, SP – Brasil
IIDa Disciplina de Pediatria Social da Faculdade de Medicina da USP

 

 


RESUMO

Foi feito um estudo sobre as inter-relações existentes entre a lactação, fertilidade e variáveis sócio-econômicas em uma amostra de mulheres do Distrito de São Paulo, Brasil. Constatou-se que o tempo de amamentação rana com a paridade, com a idade e a instrução da mulher e com o gasto mensal da família; e também existir relação entre o tempo de amamentação e o intervalo entre duas gestações subsequentes para as mulheres que não usam métodos anticoncepcionais.

Unitermos: Amamentação. Lactação. Paridade.


SUMMARY

A study on the existing Inter-relationship between lactation and fertility and their socio-economic variables was done on a sample of the S. Paulo district women. Breast feeding lasted according to the number of the births, age, level of education and family monthly expenses. A relationship between the feeding time and the interval between two subsequent pregnancies was also found in women who don't use birth control methods.

Uniterms: Breast feeding. Lactation. Parity.


 

 

1 . INTRODUÇÃO

Este trabalho baseia-se nos dados da pesquisa realizada em mulheres do Distrito de São Paulo *. Antes de se analisar os resultados, serão apresentadas as principais conclusões de estudos semelhantes realizados em outros países. Esta revisão da literatura se prende aos principais fatores demográficos, sociais, econômicos e biológicos que apresentam alguma associação ou relação com o hábito e a duração da amamentação, bem como seu efeito na fisiologia da reprodução humana medida através da concepção.

Os dados referentes à duração do tempo de amamentação variam nas diversas regiões do mundo na medida em que as situações econômicas e padrões culturais também são diferentes. As mães indus amamentavam seus filhos, em média, durante 21 meses (Potter9), as inglesas 5.5 meses (Guttmacher 4. 1952) e as chinesas de Formosa. 16 meses (Jain e col. 1972). Os dados mais recentes mostram que. nos países desenvolvidos, as mães lactantes não excedem a 20% e o período de lactação é breve. Por outro lado. em muitos dos países em desenvolvimento, cerca de 90% das mães amamentam seus filhos durante um período que varia de 2 a 36 meses.

Em relação à paridade observou-se que as mães primíparas tendem a amamentar mais os recém-nascidos do que as multíparas, embora estatisticamente a diferença não tenha sido significativa nos estudos de Robertson 10. Segundo este autor, o desmame é mais precoce nas multíparas, e a idade materna não tem influência na mudança da quantidade ou composição do leite materno. Neste mesmo estudo, constatou-se que as mães com nível educacional até o primeiro ciclo ou nível universitário tendem a amamentar seus filhos mais do que as que têm o segundo ciclo. A amamentação foi também mais comum nas mulheres de classe social baixa e alta que nas de classe média. Segundo Jain e col. 5, em seu estudo em Formosa, a duração média da lactação das mães aumenta com a paridade (ao contrário de Robertson 10) e com a idade materna, sendo de 13 meses para mulheres com menos de 25 anos de idade e de 20 meses para mulheres com mais de 40 anos. A duração média da lactação, neste estudo, variou de 11 meses para a paridade 1, até 18 meses para as mulheres com mais de 8 filhos. Da mesma maneira, o período de amenorréia aumentou com o aumento da idade e paridade e para cada uma destas o período de amenorréia é substancialmente maior para as mães que amamentam do que para aquelas que não amamentam. Enquanto a idade e paridade estão associadas com a duração da amamentação e amenorréia, aquela é muito mais importante do que esta durante o período de lactação.

Durante este período, há uma fase de amenorréia e anovulação cuja duração varia consideravelmente. É desconhecido o mecanismo exato desta inibição ovárica.

Taylor apud Chopra 3 diz que a amenorréia pós-parto dura de 6 a 8 semanas na ausência da lactação e que nas populações que praticam a amamentação natural, o período de infecundidade deveria ser equivalente a 3/4 do período médio da lactação.

Tietze12 afirma que, na ausência de lactação, a duração média de amenorréia depois do parto é de 6 a 8 semanas. Se é certo que a lactação pode ser acompanhada de amenorréia prolongada e supressão da ovulação, convém recordar que há um risco de 5% de conceber durante a amenorréia pós-parto, risco este que aumenta rapidamente logo que reaparece a menstruação.

Lyon & Stamn6 encontraram ciclos anovulatórios em 95% dos casos estudados durante a primeira menstruação pós-parto. Udesky13 encontrou em todos os seus casos ciclos anovulatórios durante o período da primeira menstrução e 50% na segundo. O terceiro ciclo menstrual foi 100% ovulatório. Peckham8 em seus estudos refere que 1/10 das mulheres engravidam sem terem tido nenhuma menstruação.

Mc Keown 7 reportou em seu estudo que 7% das mulheres de sua amostra conceberam dentro de um ano após o parto. Guttmacher 4 reportou os achados de Douglas, concluindo que em mães lactantes a chance de conceber durante os primeiros nove meses após o parto foi menor do que as das mães não lactantes, e de nove a dez meses após o parto ambos os grupos tiveram igual probabilidade de fecundar.

Taylor apud Chopra 3 assinala que, aproximadamente, metade das mulheres concebeu nos três meses do período menstrual posterior ao parto e 80% ao fim de um ano.

Outro problema que se levanta em relação ao período de esterilidade durante a amenorréia pós-parto é se isto poderia ser devido à baixa freqüência das relações sexuais ou mesmo tabus sociais com relação ao coito. Potter e col. 9 em estudo realizado na Índia observaram que cerca de 2/3 das mulheres reportaram abstinência de coito por menos de 4 meses, 20% por 5 a 6 e 15% por 7.

O objetivo de nosso estudo foi verificar:

1.°) Variação do tempo médio de amamentação em relação à paridade ou ordem de nascimentos (de 1 a 5) e idade da mulher.

2.°) Tempo de amamentação das mulheres que usaram ou não contraceptivos segundo a paridade e idade da mulher.

3.°) Inter-relação entre amamentação-e fertilidade.

4.°) Tempo médio de amamentação segundo a situação sócio-econômica (grau de instrução e gasto mensal da família) e origem da mulher.

 

2. METODOLOGIA

Os dados elaborados e interpretados, conforme foi mencionado, foram extraídos do levantamento retrospectivo de Pesquisa sobre Reprodução Humana no Distrito de São Paulo. A população em estudo foi constituída pelas mulheres não solteiras de 15 a 49 anos completos e residentes no Distrito de São Paulo, em 1965. A amostra escolhida constou de 2.857 mulheres, ou seja, 0,25% do total da população, das quais 2.647 tiveram pelo menos um nascido vivo até a época da entrevista (Berquó e col. 1 e Camargo e Berquó 2).

A variável ''tempo de amamentação" foi definida como a duração da amamentação do recém-nascido vivo. Para efeito de análise as mulheres foram divididas em 9 subgrupos que se seguem:

 

 

Os subgrupos 1 e 2 "não amamentou" e "amamentou até 3 semanas" representam as mulheres que não querem ou não podem amamentar seus filhos, ou por algum motivo desistiram da amamentação antes de completar 3 semanas. Os óbitos de crianças ocorridos no período perinatal (menos de 7 dias) ou neonatal (menos de 28 dias), podem refletir no comportamento das mulheres do subgrupo 2.

O subgrupo 3, "3 a 6 semanas" representa o período em que a mulher é em geral aconselhada à abstinência ou diminuição das relações sexuais (40 dias) e, em muitos casos, neste período é que recomeçam as medidas de uso de anti-concepcionais.

Os subgrupos 4, 5, 6 e 7, "6 semanas a 3 meses"; "3 meses a 6 meses"; "6 meses a 9 meses" e "9 meses a um ano" dividem o ano em quartos (exceto para o subgrupo 9 em que o período é de 4 meses) .

O subgrupo 9, "um a 2 anos", foi incluído para possibilitar a comparação com países em que o hábito de amamentação estende-se por períodos longos. Além disso, teve por objetivo separar o período de lactação considerado "normal" das mulheres que amamentam por "mais de 2 anos".

As Tabelas a serem analisadas foram elaboradas partindo-se do total de nascidos vivos amamentados. O tempo de amamentação foi dividido em classes: menos de 3 semanas, mais de 3 semanas, mais de 3, 6, 9 e 13 meses e mais de 2 anos, e os nascidos vivos foram distribuídos em números absolutos e em percentagem acumulados.

A classe de menos de 3 semanas para tempo de amamentação foi considerada por apresentar, na maioria das vezes, tendência totalmente inversa das demais.

O tempo médio de amamentação (TMA) foi calculado pela relação que se segue:

 

 

em que X é o ponto médio dos intervalos das classes "duração de amamentação do recém-nascido" considerados e onde fé a distribuição dos recém-nascidos nas respectivas classes. A classe "não amamentou" foi excluída da análise por estarmos querendo obter "tempo médio de amamentação". O ponto médio, da classe "amamentou até 3 semanas" foi considerado 1,5 semanas. O ponto médio da classe "2 anos e mais" foi considerado 110 semanas, ou seja, 27,5 meses. A classe foi montada considerando-se seu extremo superior igual a 30 meses. O número de semanas em cada mês foi considerado igual a 4.

Utilizou-se como método estatístico a regressão linear ajustada.

 

3. RESULTADOS

3.1. Tempo de Amamentação e Paridade

Ao se analisar a amamentação segundo a paridade de 1 a 5, constata-se, conforme Tabela 1, que a proporção de mulheres que amamentaram seus filhos variou de 86,59% para o 4.° nascimento vivo. a 88,99% para o 2.°. Portanto, a maioria das mulheres amamentou seus filhos.

Em relação ao tempo de amamentação verifica-se que a moda para cada nascimento vivo foi de 3-5 meses até a paridade 4, e de 9-12 meses na paridade 5 (Tabela 2). Como de uma maneira geral nas paridades maiores foram de mulheres nos extremos dos estratos sociais, sugere-se como hipótese que o maior tempo de amamentação nessa paridade se deva a fatores predominantemente econômicos no estrato social baixo, e a valorização dos benefícios da amamentação natural, no estrato mais alto. Embora a tendência seja discreta, nota-se que o hábito de não amamentar aumenta com a paridade. Considerando-se as mulheres que amamentam, nota-se que a duração do tempo médio de lactação aumeta à medida em que o número de filhos cresce. Tal fato pode estar relacionado ao nível sócio-econômico da família que, provavelmente, tende a diminuir com o aumento da paridade. A duração, por paridade, variou de 30,2 semanas para a paridade 1 e 34,8 para a 5. Portanto, a variedade da duração média do tempo de lactação apresenta aumento discreto em relação a ordem do nascimento, sendo esta amplitude em torno de 4.6 semanas.

Pela observação da regressão ajustada (em que se admitiu que a variável independente, paridade na ocasião, está no 3.° nível de mensuração e que se tomou apenas como amplitude de interesse as paridades de 1 a 5, restringindo-se a paridade 0) e dos valores observados parece-nos lícito inferir que à medida que a paridade aumenta há um aumento do tempo de amamentação de forma linear, pelo menos para as paridades observadas.

3.2. Tempo Médio de Amamentação por Paridade Segundo a Idade da Mulher na Entrevista

Considerando-se cada coorte de mulheres pode-se observar pela Tabela 3 que diferem as tendências de tempo de amamentação por paridade. Para as mulheres mais jovens (de 15 a 24 anos) observa-se uma diminuição do tempo médio de amamentação à medida que aumenta a paridade. Contudo, pode-se objetar que provavelmente são poucas as mulheres com essas idades que tiveram 5 nascidos vivos ou até mesmo 4. Nota-se, no entanto, que o número total de nascidos vivos deste grupo de mulheres é consideravelmente menor que o dos demais grupos etários, diminuindo de mais de 50% quando se passa da paridade 2 para a 3, e sendo de apenas 5 nascidos vivos na paridade 5. Para as mulheres mais velhas (com mais de 35 anos) em que se verifica terem tido mais de 50% do total dos nascidos vivos, a tendência não difere da tendência geral, ou seja, o tempo médio de amamentação aumenta com a paridade.

Ainda pela Tabela 3, é interessante observar que o tempo de amamentação, independente da paridade, aumenta, em média, conforme o aumento da idade da mulher. Considerando-se, pois, o total de nascidos vivos de cada coorte, o tempo médio de amamentação das mulheres com mais de 35 anos (36,8 semanas) é maior que o das mulheres de 15 a 24 anos (21,2 semanas). Tendência semelhante pode ser observada considerando-se as paridades 1, 2 e 3, isto é, quanto maior a idade da mulher, maior o tempo médio de amamentação. Com relação às paridades 4 e 5 essas tendências não são tão nítidas, podendo estar influindo neste caso o pequeno número de eventos ocorridos.

3.3. Tempo de Amamentação Segundo Idade da Mulher na Entrevista

Através da Tabela 4 em que se estuda o comportamento das mães em relação ao tempo de amamentação segundo a idade e independente da paridade, observa-se que apenas 0,83% dos nascidos vivos de mães que pertencem à coorte de 15 a 24 anos são amamentados mais de 2 anos, enquanto que 3,57% dos filhos daquelas da coorte de 35 e mais anos são amamentados por esse mesmo período. Isto leva-nos a concluir que as mulheres pertencentes a coortes mais novas amamentam menos tempo que as das mais velhas. Observa-se, também, que o aumento de número dos nascidos vivos amamentados por mais de 2 anos se faz gradualmente e de acordo com o aumento de idade das mães. Para os nascidos vivos amamentados menos de 3 semanas observa-se uma tendência inversa, isto é, maior percentagem deles se concentra na coorte mais nova (16,25%) e a menor na coorte mais velha (6,89%).

Ao se analisar por paridade, ou seja, pela ordem de nascimentos observa-se a mesma tendência, ou seja, as mulheres das coortes mais novas amamentam menos tempo que as mais velhas. A tendência observada para as demais paridades não aparecem claramente para o 5.° nascido vivo. Isso deve-se, possivelmente, ao pequeno número de casos estudados.

Pela Fig. 1 em que se analisa a distribuição percentual dos nascidos vivos amamentados mais de um ano, observa-se claramente a tendência das mulheres das coortes mais velhas amamentarem mais tempo que as mais novas.

As mulheres mais velhas da amostra evidenciam, assim, hábito de amamentar seus filhos por um tempo maior que as mais novas. A que fatores se pode atribuir este hábito é indagável cuja resposta mereceria um estudo específico.

3.4. Tempo de Amamentação e Uso de Contraceptivos

A Tabela 5 mostra a distribuição percentual das mulheres que utilizaram métodos anticoncepcionais (MAC) logo após o nascimento da criança e aquelas que não usaram, de acordo com o tempo de amamentação. Nota-se que o número de mulheres que usaram e que não usaram contraceptivos por ordem de nascimento são bastante próximos, com exceção para a paridade 2. A proporção de mulheres que usaram contraceptivos segundo a ordem de nascimento vivo foi sempre maior, com exceção da paridade 5. A proporção daquelas que amamentaram e que não usaram contraceptivos por ordem de nascimento vivo foi de: 46,5% (paridade 1) ; 37,0% (paridade 2); 41,3% (paridade 3); 48,3% (paridade 4) e 55,4% (paridade 5).

A duração média da amamentação foi calculada usando os subgrupos 2 a 9, "menos de 3 semanas" até "2 anos e mais". As mulheres que não amamentaram foram eliminadas para efeito de comparação com outros estudos. A duração média da amamentação para cada nascido vivo segundo o uso ou não de métodos anticoncepcionais (MAC) é apresentada na Tabela 5. Note-se que há diferença entre os dois grupos. Mães que não usaram contraceptivos mostraram uma tendência a aumentar o tempo de lactação com o aumento de paridade. A partir da categoria de tempo de lactação de ''9 meses a 1 ano" observa-se que as proporções destas categorias aumentam à medida em que aumenta a paridade. Para as mulheres que usaram contraceptivos não se observa uma tendência nítida, ocorrendo flutuações. Observando-se o tempo médio de amamentação, segundo o uso ou não de métodos anticoncepcionais e segundo a paridade, nota-se ser sempre maior a duração média da amamentação para as mulheres que não usaram contraceptivos. Isto sugere a hipótese de que o alongamento da amamentação funciona como meio de prevenir uma nova concepção. Esta hipótese é coerente com a motivação às vezes expressa no contacto clínico, prolongando as mulheres o tempo de lactação como "proteção" contra a concepção. A diferença do tempo médio de lactação entre as que usaram MAC e as que não usaram variou de 3 semanas (paridade 1) a 7,5 (paridade 4), sendo as demais: 7 semanas (paridade 2), 4,5 semanas (paridade 3) e 4,7 semanas (paridade 5).

Ainda pela Tabela 5, observamos que o tempo de lactação mais freqüente também varia para os dois grupos. Para as mães que usaram contraceptivos a moda do tempo de lactação para cada paridade é de 3 a 5 meses, enquanto que, para as mães que não usaram medidas anticoncepcionais é de 9 meses a 1 ano, exceção para a paridade 1 (moda 3 a 5 meses). As diferenças acima apresentadas podem ser atribuídas em parte a diferenças culturais com padrões de comportamento distintos e à situação sócio-econômica diversa. A hipótese é de que as mães que usam contraceptivos têm em geral melhor situação sócio-econômica e hábito de amamentar menos freqüente. A implicação nesta diferença parece também estar no fato de que as mulheres que não usam medidas anticoncepcionais amamentam por tempo maior para cada paridade, talvez numa tentativa de diminuir a probabilidade de conceber. O tempo médio de lactação para as mulheres que não usaram MAC é de 31.7 semanas para a paridade 1 e aumenta para 37.9 semanas no 5.° nascimento.

Segundo Chopra3 "numerosas classes de pílulas contraceptivas exercem algum efeito adverso sobre a lactação. Assim, reduzem a quantidade de leite e duração da lactação propriamente dita. Estes efeitos adversos são maiores se o emprego do contraceptivo começa nas primeiras semanas depois do parto e antes da plena lactação". "As pílulas contraceptivas preparadas principalmente a base de estrógenos exercem o maior efeito inibidor sobre a lactação. Em geral quanto maior é a dose de estrógeno mais pronunciado é o efeito adverso sobre a lactação".

Pela observação da regressão ajustada parece-nos lícito aqui também inferir que à medida que a paridade aumenta há um aumento do tempo da lactação para as mulheres que não usaram MAC o mesmo não acontecendo para as que usaram.

3.5. Tempo de Lactação e Tempo até a Gestação Seguinte

Observa-se pela Tabela 6 que não existe relação entre o tempo de amamentação e tempo até a gestação seguinte para as mulheres que usam contraceptivos.

Analisando-se o comportamento das mulheres que não fazem uso de contraceptivos, observa-se que para todas as paridades à medida que o tempo de amamentação aumenta, aumenta também o tempo entre as gestações.

Ainda pela Tabela 7 analisamos na diagonal as percentagens das mulheres que engravidaram no fim da amamentação, acima da diagonal as mulheres que engravidaram algum tempo depois que deixaram de amamentar; e abaixo dela as que engravidaram enquanto amamentavam. Observa-se que para o 1.° nascido vivo é maior a proporção das mulheres que engravidam algum tempo depois de terem interrompido a amamentação. A menor proporção se observa entre as que engravidaram enquanto amamentavam. Tal fato repete-se para todas as paridades estudadas, observando-se ainda que a diferença percentual entre as que engravidaram antes do desmame e as que engravidaram depois ou concomitantemente é de mais de 80% para todas as paridades (Fig. 2).

3.6. Tempo de Amamentação Segundo Instrução da Mulher na Entrevista

No presente trabalho a instrução foi tomada como indicador da situação socioeconômica da mulher e sua família, tal como outras variáveis incluídas no estudo.

As informações de que dispomos não permitem avaliar o nível de instrução que a mulher tinha em cada momento de sua vida reprodutiva e, portanto, não podemos avaliar diretamente a influência da instrução sobre os hábitos da amamentação.

A variável instrução da mulher foi dividida em 4 (quatro) categorias: analfabetas e mulheres que sabem ler e escrever sofrivelmente; primário (incompleto e completo), 1.° ciclo (incompleto e completo) e 2.° ciclo (colegial) juntamente com o curso superior (incompleto e completo).

Pela Tabela 8 observa-se que, independente da paridade, há uma tendência das mulheres analfabetas e que sabem ler e escrever sofrivelmente, amamentar seus filhos por um período mais longo do que as mulheres com nível de instrução correspondente ao 2.° ciclo e ao curso superior. Assim é que 4,72% dos nascidos vivos de mães que pertencem à primeira categoria acima citada são amamentados por mais de dois anos, enquanto que apenas 0,50% dos nascidos vivos cujas mães estão na última categoria são amamentados por esse mesmo período. Tal redução é gradual à medida que o nível de instrução cresce, sendo mais acentuada entre analfabetas e aquelas com instrução primária. Pela Fig. 3 nota-se que o mesmo fato ocorre ao se considerar a classe tempo de amamentação mais de um ano – para todas as paridades consideradas, com exceção da 4.a em que o 2.° ciclo e o curso superior apresentam uma percentagem de nascidos vivos amamentados no período um pouco maior que o secundário. Observa-se aqui também diferença maior entre a proporção de nascidos vivos de mães analfabetas e de mães com instrução primária que entre outros níveis se se considera duas classes vizinhas.

Observa-se a mesma tendência para todas as paridades em todas as classes de tempo observadas. Algumas flutuações verificadas para o 4.° e 5.° nascidos vivos podem ser explicados pelo pequeno número de casos estudados. Para a classe de tempo de amamentação menos de 3 semanas observa-se que, independente da paridade, a maior proporção de nascidos vivos aí contida pertence a mães com grau de instrução correspondente do 2.° ciclo e o curso superior. Apenas 7,05% dos nascidos vivos de mães analfabetas e que sabem ler sofrivelmente são amamentados por um período inferior a 3 semanas, enquanto que 11,85% dos de mães com o grau de instrução mais elevado são amamentados pelo mesmo período. Considerando-se a paridade, observa-se essa mesma nítida diferença na proporção de nascidos vivos de mães analfabetas e de mães com nível de instrução mais elevada, para qualquer ordem de nascimento considerado, nessa classe de tempo de amamentação.

Poder-se-ia tentar explicar a relação inversa entre o tempo de amamentação e o grau de instrução admitindo-se a hipótese que as mulheres de menor grau de instrução pertencem à coorte mais velha, que por sua vez apresentam padrões culturais favoráveis ao hábito de amamentar. Tomas Szmerecsanyi11 refere que é fato sabido que as oportunidades educacionais ampliaram-se consideravelmente no Brasil e de modo especial no Estado de São Paulo nas duas ou três últimas décadas. Deste modo, é de se crer que as gerações mais jovens sejam mais escolarizadas que as mais velhas, podendo, por esta razão, estar menos ligadas a valores, normas e atitudes tradicionais. A diferença acentuada no hábito de amamentar entre mulheres analfabetas e mulheres com instrução primária pode também ser devido à permanência das mulheres analfabetas nos trabalhos domésticos.

3.7. Tempo Médio de Amamentação ( em semanas ) por Paridade, Segundo Instrução da Mulher na Entrevista

Considerando-se agora os tempos médios de amamentação segundo a instrução da mulher, conforme Tabela 9, algumas tendências podem ser observadas. Tomando-se as médias de tempo de amamentação para todas as ordens de nascidos vivos observa-se que as mulheres com nível de instrução inferior (analfabetas e sofrivelmente instruídas), amamentam em média seus filhos 39,8 semanas. As médias de tempo de amamentação decrescem à medida em que o nível de instrução se eleva, atingindo 21,7 semanas para as mulheres com curso colegial e/ou superior. Considerando-se cada paridade (1 a 5) esta mesma tendência pode ser observada. Nota-se ainda que a diferença entre a duração do tempo de amamentação é maior entre os nascidos vivos de mães analfabetas e os nascidos vivos de mães com instrução primária (39,8 semanas e 31,5 semanas respectivamente – independente da paridade) do que entre os de mães com instrução primária (31,5 semanas) e os de instrução secundária (25,8 semanas) ou entre os de mães com instrução secundária e mães de instrução superior (21,7 semanas).

Considerando-se cada paridade, a mesma tendência pode ser observada sendo maior entretanto para o 3.° nascido vivo em que as mães analfabetas amamentam em média 42,2 semanas e as com instrução primária amamentam em média 32,3 semanas havendo portanto uma diferença de 9,83 semanas (Tabela 9).

3.8. Tempo de Amamentação Segundo Gasto Mensal da Família na Entrevista

Analisando-se a Tabela 10 observa-se que, independente da paridade, há uma tendência das mulheres cujas famílias gastam menos amamentarem por mais tempo que as das que gastam mais. A variável gasto mensal foi dividida nas seguintes classes: menos de Cr$ 50,00. de Cr$ 50,00 a Cr$ 149,00. de Cr$ 150,00 a Cr$ 249,00. de Cr$ 250,00 a Cr$ 399,00 e Cr$ 400,00 e mais. Assim é que 7,89% dos nascidos vivos cujas mães gastam (na família) mensalmente menos de Cr$ 50,00 são amamentados mais de 2 anos enquanto que apenas 0,44% dos nascidos vivos de mães que gastam mais de Cr$ 400,00 são amamentados no referido período. A diferença observada entretanto só está relacionada às classes extremas de gasto; as intermediárias sofrem flutuações não sendo possível identificar nenhuma tendência. Observa-se também que essa diferença decresce à medida que diminui o tempo de amamentação considerado (estão contidos na classe – tempo de amamentação mais de 13 meses – 21,05% dos nascidos vivos dos que pertencem a famílias com gasto menos de Cr$ 50,00 enquanto que apenas 7,00% dos que pertencem a família com gasto mais de Cr$ 400,00).

Há ainda a considerar que as diferenças entre uma classe e outra de tempo de amamentação são maiores nos gastos maiores que nos menores, assim é que em famílias com gasto mensal inferior a Cr$ 50,00. 55,20% dos nascidos vivos são amamentados mais de 6 meses, enquanto 43,42% são amamentados mais de 9 meses tendo decrescido de uma classe para outra na proporção de 1,2:1. Para as classes de tempo mais de 13 meses (21,05% ) e mais de 2 anos (7,89% ) as proporções foram respectivamente 2,0:1,0 e 2,6:1,0, enquanto que nas famílias com gasto mensal superior a Cr$ 400,00 as proporções de decréscimos foram respectivamente 1,7:1,0, 3,2: 1,0 e 15,9:1,0.

Considerando-se a paridade observa-se a mesma tendência isto é, as mulheres cujas famílias gastam menos amamentam mais tempo que as mulheres cujas famílias gastam mais. Essa diferença também só se observa nas classes extremas de gasto. Observa-se também que o 1.o nascido vivo não segue nenhuma tendência. Para a classe – tempo de amamentação mais de 13 meses – observa-se que em todas as paridades consideradas a menor proporção encontrada são para os nascidos vivos de mães com gasto mensal de família superior a Cr$ 400,00. Nas demais classes de gasto não se observa nenhuma tendência.

3.9. Tempo Médio de Amamentação por Paridade Segundo Gasto Mensal da Família na Entrevista

Observando-se as médias de tempo de amamentação segundo o gasto mensal da família (Tabela 11), vê-se que existe uma diminuição do tempo de amamentação passando-se da categoria mais baixa de gasto mensal (gasto inferior a Cr$ 50,00) para a categoria mais alta aqui considerada (Cr$ 400,00 e mais). Assim é que os nascidos vivos de mães cujas famílias têm gasto inferior a Cr$ 50,00 são, em média, amamentados durante 36,4 semanas, e os nascidos vivos de mães cujas famílias gastam mensalmente Cr$ 400,00 e mais são amamentados 23,9 semanas.

Levando-se em conta as diferentes paridades, a mesma tendência pode ser observada com exceção do primeiro nascido vivo. Essa tendência aparece mais nitidamente a partir do terceiro nascido vivo, comparando-se as classes extremas de gasto mensal de família.

3.10. Tempo de Amamentação

Segundo a Origem da Mulher

Analisando-se a Tabela 12, verifica-se que independente da paridade os nascidos vivos com mãe de origem rural/urbana são amamentados por mais tempo que os nascidos vivos de mãe com origem urbana e da capital. Assim é que 4,44% dos primeiros são amamentados por mais de 2 anos enquanto que apenas 1,43% dos últimos são amamentados por esse mesmo período. Observa-se que essa diminuição da percentagem é gradativa indo da área rural/urbana, rural, urbana e capital. Para as demais classes de tempo de amamentação observa-se maior percentagem rural que rural/urbana (ver Fig. 4).

Observa-se ainda que a diferença entre o tempo de amamentação dos nascidos vivos de mulheres de zona rural/urbana e nascidas na capital vai diminuindo de acordo com a classe de tempo considerada. Temos para a classe mais de 2 anos a diferença de 4,44% (rural/ urbana) e 1,43% (capital), para mais de 13 meses temos 19,22% (rural) e 14,24% (capital) ; para mais de 9 meses temos 36,60% (rural/urbana) e 29,98% (capital) e assim sucessivamente, deixando-nos concluir que a diferença entre mulheres de origem diferente no hábito de amamentar é maior à medida que o tempo de amamentação se prolonga.

Ao se analisar os nascidos vivos amamentados menos de 3 semanas, observa-se que apenas 7,74% dos que pertencem às mães de origem rural estão contidos nessa classe, em relação a percentagem mais alta nas demais origens.

Contrariando a tendência não existe uma maior proporção dos nascidos vivos de mães nascidas na capital em relação às demais zonas de origem, contidas nessa classe de tempo (Tabela 12).

Ao se analisar por paridade observa-se a mesma tendência para os nascidos vivos 1.°, 2.° e 4.°, ou seja, para os nascidos vivos amamentados mais de 2 anos é maior a proporção dos filhos das mulheres de origem rural/urbana, rural que de origem na capital. Para as demais classes de tempo observa-se maior proporção rural que rural/urbana para todas as paridades consideradas.

Para outros períodos considerados (mais de 13 meses – mais de 9 meses etc.) em geral há maior proporção das mulheres nascidas na Capital que das nascidas na zona urbana.

Para o 5.° nascido vivo há uma diferença na tendência devido, provavelmente, ao pequeno número de casos observados.

3.11. Tempo Médio de Amamentação por Paridade Segundo a Origem da Mulher

Observa-se que o tempo de amamentação independente da paridade varia, em média, de acordo com a origem da mulher. Assim, considerando-se o total de nascidos vivos para cada grupo de origem, o tempo médio de amamentação é maior para os nascidos vivos das mulheres de origem rural (38,6 semanas) que para as mulheres nascidas na Capital (28,12 semanas). Vale salientar a pouca diferença existente entre o tempo médio de amamentação para os nascidos vivos de mulheres nascidas na zona urbana e na Capital.

A mesma tendência pode ser observada considerando-se as diversas paridades com exceção do 4.° em que é maior o tempo de amamentação nas mulheres nascidas na Capital que na área urbana (Tabela 13).

O maior tempo de amamentação observado nas mulheres de origem rural pode ser explicado, em parte, devido a fatores culturais e predominância do estrato sócio-econômico baixo nesta classe.

 

4. CONCLUSÕES

1 — A maioria das mulheres ama-menta seus filhos, tendo variado esta proporção de 86,59% para a paridade 4, a 88,99% para a paridade 2 e a duração média da amamentação variou de 30,2 semanas para a paridade 1 a 34,8 semanas para a paridade 5, aumentando também com a idade da mulher.

A moda do tempo de amamentação foi de 3 |— 5 meses para as paridades 1 a 4 e de 9 |— 12 meses para a paridade 5. Como explicação desta variação sugere-se como hipótese a influência de fatores soócio-econômicos e culturais.

2 — Há uma tendência a aumentar com a paridade o hábito de não amamentar, a duração do tempo de amamentação para aquelas que amamentam e a proporção das que amamentam por mais de 9 meses.

3 — As mães que não usam contraceptivos amamentam durante um período mais prolongado do que as que usam e este tempo médio aumenta com a paridade.

A proporção de mulheres que amamentam seus filhos e usam contraceptivos concomitantemente é sempre maior do que aquelas que amamentam e não usam contraceptivos, exceto para a paridade 5.

4 — Não existe relação entre o tempo de amamentação e tempo até a gestação seguinte para as mulheres que usam contraceptivos. Para as que não usam à medida que o tempo de amamentação aumenta, prolonga-se o intervalo entre as gestações.

5 — Independente da paridade há uma tendência das mulheres com níveis de instrução mais elevadas amamentarem seus filhos por um período menor do que as mulheres com níveis de instrução inferiores. O tempo médio de amamentação decresce à medida que o nível de instrução se eleva sendo que a diminuição deste tempo é maior entre a classe de analfabetas (39,8 semanas) e a classe com instrução primária (31,5 semanas). Da mesma forma há uma tendência das mulheres cujas famílias têm um gasto mensal menor, amamentarem seus filho por um período de tempo maior do que as que têm gasto mensal maior.

6 — O tempo de amamentação independente da paridade, varia em média de acordo com a origem da mulher, sendo maior nas de origem rural do que nas mulheres nascidas na Capital.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 07-03-1975
Aprovado para publicação em 04-04-1975

Pesquisa realizada em 1965, pela Prof.a E. Berquó e os membros do então Departamento de Estatística Aplicada à Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública da USP

 

 

* Da Divisão de Epidemiologia do Departamento Técnico Normativo da Secretaria do Estado da Saúde – Rua Teodoro Sampaio, 833 – São Paulo, SP – Brasil