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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.9 n.2 São Paulo Jun. 1975

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101975000200016 

NOTAS E INFORMAÇÕES / NOTES AND INFORMATION

 

Observação do comportamento biológico de Biomphalaria glabrata de concha anômala

 

Observations on the biological behaviour of Biomphalaria glabrata with an anomalous shell

 

 

Cecília Pereira de Souza

Do Centro de Pesquisas "Rene Rachou" – INERu. FOC – Caixa Postal 1743 – Belo Horizonte, MG – Brasil

 

 


RESUMO

Foi encontrado na criação de Biomphalaria glabrata em laboratório, um caramujo vivo com anomalia na concha. A anomalia consiste na mudança de nível das voltas. O exemplar foi isolado para estudo de seu comportamento biológico. Depois foi juntado a outro exemplar com a mesma anomalia. Os resultados mostraram que suas funções biológicas eram normais. A anomalia é de caráter genético. Na F1 houve aparecimento de 0,01% de anomalia nos embriões. Em vinte e cinco meses de observação dos descendentes desses caramujos foram isolados treze embriões anômalos. Um dos embriões chegou ao estado adulto, mas não desovou.

Unitermos: Biomphalaria glabrata (Anomalias). Planorbidae. Comportamento genético. Esquistossomose.


SUMMARY

Among laboratory-bred Biomphalaria glabrata, a live snail in an anomalous shell was found. The anomaly consisted in changes of level in the whorls. The specimen was isolated for a study on its biological behaviour. Afterwards, another specimen displaying a similar anomaly was joined to it. The results obtained showed their biological functions to be normal, their anomaly being of genetic character. In F1 embryos, the anomaly observed was 0.01%. In a 25-month period of investigation, 13 anomalous embryos were isolated. One of the embryo snails reached the adult stage but did not lay any eggs.

Uniterms: Biomphalaria glabrata, Anomalies. Planorbidae. Genetics, behaviour. Schistosomiasis.


 

 

INTRODUÇÃO

O aparecimento de planobídeos do gênero Biomphalaria com anomalias nas conchas, devido a mudança de nível das voltas, foi observado por Scott3, em Tropicorbis peregrinas (= Biomphalaria peregrina) e por Milward de Andrade e Carvalho ¹ em Biomphalaria straminea.

Em nosso laboratório, foi encontrado um exemplar vivo de Biomphalaria glabrata (Say, 1818), com concha anômala. A anomalia consiste na descida da espiral de enrolamento ao longo do eixo, formando uma concha helicoidal ao invés de discoidal, como no molusco normal.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O caramujo de concha anômala foi encontrado em um aquário de criação de Biomphalaria glabrata de uma cepa proveniente do Laboratório do Dr. Pellegrino *. Essa cepa é originária do bairro denominado Barreiro em Belo Horizonte e se caracteriza por possuir caramujos albinos e malânicos misturados e ser altamente suscetível à infecção por Schistosoma mansoni em Laboratório.

O caramujo foi isolado em um aquário de pirex contendo aproximadamente, mil ml de água desclorada, com terra esterilizada e carbonato de cálcio e como alimentação foi dado alface fresca.

Após seis dias de isolamento apareceu a primeira desova na parede do aquário. Essa desova foi retirada com bastante cuidado, sendo contado o número de ovos que eram 25 e os embriões eram todos normais. Daí por diante todas as desovas foram retiradas, sendo contados o número de ovos e os embriões eram observados através de lupa, até a eclosão. Após a eclosão, todos os caramujinhos foram colocados em um aquário separado, para criação e posterior observação da descendência.

 

RESULTADOS

Após 37 dias de isolamento, o caramujo anômalo (Fig. 1 A-B) foi juntado a outro exemplar com a mesma anomalia, da mesma cepa e que foi encontrado no Laboratório do Dr, Pellegrino. Por essa época as desovas do caramujo anormal já estavam com um número pequeno de ovos variando de 1 a 8 por desova. Cinco dias após juntar os dois caramujo anômalos, as desovas coletadas aumentaram em número e tamanho, variando o número de ovos de 6 a 59 por desova, Depois de três meses que os caramujos estavam juntos, um dos exemplares morreu. O número de desovas e ovos do caramujo sobrevivente tornou a baixar quase não havendo oviposição até ocorrer sua morte, após 12 meses de observação. O número total de desovas e ovos recolhidos dos dois caramujos anormais, um isolado, e depois os dois juntos e o número de embriões anômalos encontrados podem ser vistos na Tabela 1.

Como pode ser observado, durante o período em que os dois caramujos permaneceram juntos, o número de desovas e o número de ovos por desovas foi bem maior do que os do caramujo isolado.

A percentagem de aparecimento de embriões de concha anômala (Fig. 1-1) L na geração F1 foi de 0,01%.

Nas desovas recolhidas da geração F2 em diante foram encontrados doze embriões de concha anômala durante vinte e cinco meses de observação.

Apenas três eclodiram naturalmente. Seis caramujinhos eclodiram através da ruptura artificial da membrana do ovo com estilete entomológico. Três embriões anômalos morreram antes de completar o desenvolvimento dentro do ovo. Apenas um dos caramujinhos anômalos encontrados sobreviveu até nove meses. Esse caramujo foi mantido isolado da colônia, e não desovou, ao contrário dos exemplares encontrados anteriormente.

Além da anomalia na concha foram observados em dois caramujos pequenos, outros tipos de anomalias como bifurcação de um dos tentáculos e duplicação de um dos olhos ou trioftalmia 2

 

DISCUSSÃO

Através dos resultados obtidos com essas observações, verificou-se que a anomalia observada na concha da Biomphalaria glabrata não é devida a ação mecânica.

Ela e as outras malformações observadas são devidas provavelmente a alguma mutação genética sofrida por essa cepa de caramujo não se sabe se depois que foi trazida para o laboratório ou se desde o foco no campo.

Verificou-se que a anomalia na concha não influiu na biologia do molusco. De fato, os caramujos de concha anômala viveram normalmente no meio da colônia apesar de terem mais dificuldade para locomover-se devido ao enrolamento helicoidal da concha.

A fase mais crítica da vida dos moluscos com essa anomalia pareceu ser a época da eclosão. Os embriões anômalos não conseguem se fixar bem à membrana do ovo e nem forçar a sua ruptura, morrendo a maioria por falta de alimento, por ficarem ali por tempo muito prolongado.

Durante vinte e cinco meses de observação foram isolados treze embriões com concha anômala, das desovas dos dois caramujos anômalos e seus descendentes. Desses treze caramujinhos, apenas um sobreviveu até chegar ao estado adulto, mas não desovou, provavelmente por ter sido deixado em isolamento.

 

AGRADECIMENTOS

Aos Professores Giorgio Schreiber e José Rabelo de Freitas pelas sugestões e incentivo. Ao Dr. José Pellegrino e ao pessoal de seu laboratório por terem cedido um exemplar anômalo para complementar essas observações.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. MILWARD DE ANDRADE, R. & CARVALHO, O.S. – Anomalias em conchas de Biomphalaria straminea (Dunker, 1848), criadas em laboratório (Pulmonata, Planorbidae). Rev. Saúde públ., S. Paulo, 7:283-4, 1973.        [ Links ]

2. RAVEN, P.C. – Morphogenesis: the analisis of molluscan development. London, Pergamon Press, 1958.        [ Links ]

3. SCOTT, M.I.H. – Um caso de anomalia de forma em Tropicorbis peregrinus (d'Orb) (Planorbidae). Physis, 20: 498-9, 1951.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 21-03-1975
Aprovado para publicação em 04-04-1975

 

 

* Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal de Minas Gerais