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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.10 n.2 São Paulo Jun. 1976

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101976000200005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Um modelo de análise sócio-econômica: construção e resultados obtidos

 

A model of socio-economic analysiss its construction and obtained results

 

 

Vera Lúcia S. Botta FerranteI; Valdemar VertuanI; Benedicto Egbert Correa de ToledoII

IDa Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara – Campus Universitário – Araraquara, SP – Brasil
IIDa Faculdade de Farmácia e Odontologia de Araraquara – Rua Expedicionários do Brasil, 1.621 – Araraquara, SP – Brasil

 

 


RESUMO

Apresenta-se um modelo de análise sócio-econômica, construído com o objetivo de chegar a um escalonamento possível da posição de uma determinada população na estrutura da sociedade. Tal modelo foi construído a partir de um conjunto de indicadores previamente selecionados como os mais significativos para a avaliação do nível sócio-econômico da população amostrada. Pretendeu-se, com a construção desse modelo, mostrar a interferência de fenômenos de natureza sócio-econômica na ocorrência de determinados problemas bucais. A investigação mostrou a seguinte composição da população estudada: baixa inferior, 21,8%; baixa superior, 39,9%; média inferior, 26,6%; média superior, 9,1%; alta inferior, 1,7% e alta superior, 0,5%.

Unitermos: Modelo sócio-econômico. Análise sócio-econômica. Nível sócio-econômico.


SUMMARY

A model of socio-economic analysis is here presented with the purpose of constructing a possible scale of society's structure and determinating the position of a certain population in it. The model was constructed from a group of indicators, previously selected as being the most significative for further evaluation of the socio-economic level of the sample. The objective of the construction of this particular model is to demonstrate the interference of socio-economic variables in the occurrence of certain oral problems. The investigation showed the following composition for the studied population: inferior low, 21.8%; superior low, 39.9%; inferior middle, 26.6%; superior middle, 9.1%; inferior high, 1.7%; superior high, 0.5%.

Uniterms: Socio-economic analysis. Socio-economic level. Socio-economic model.


 

 

INTRODUÇÃO

De maneira geral, na avaliação de classes sociais, constata-se o privilegiamento de um critério de medida, ora a profissão, ora o rendimento ou a instrução 11.

A partir de uma colocação mais globalizante, aceita-se que a explicitação das razões que levam os indivíduos a ocupar diferentes posições na estrutura da sociedade, exige a não fixação de um único critério de hierarquização social.

Evidentemente, a construção de uma medida de estratificação social é um problema de uma certa complexidade. Como construir medidas corretas das variáveis estratificatórias, que por sua própria natureza, não são fenômenos que apresentam um caráter facilmente mensurável, de dimensões quantificáveis? Esses problemas, de certa forma, funcionam como limites que se impõem ao investigador.

No casso dessa pesquisa, aliado a esses limites, deve ser apontado um outro fator: não se tinha propriamente a pretensão teórica de se estudar apenas a situação sócio-econômica de escolares e de se lidar com o conceito de classe social como instrumento analítico de diferenciação estrutural da sociedade. Procurava-se encontrar uma maneira empírica, concreta, de acesso a uma escala de hierarquização social.

Diante disso, deixou-se de lado os problemas teóricos existentes nas tentativas de se analisar a situação sócio-econômica. através da operacionalização do conceito classe social e optou-se por uma maneira possível – a que se apresentava mais acessível diante dos instrumentos de análise de que se dispunha – para avaliar o nível sócio-econômico da população investigada, embora houvesse consciência de que essa solução poderia apresentar deficiências e uma certa precariedade.

Procurou-se atender a uma solicitação de ordem prática e se construir um modelo de análise sócio-econômica suficientemente flexível, passível de ser empregado juntamente com outros elementos de estudo epidemiológico, em trabalhos de relacionamento das condições bucais – objetivo da pesquisa onde se empregou o modelo que será apresentado 12 – ou de outros problemas, com a posição sócio-econômica dos indivíduos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Material

Foram relacionados 1.753 escolares dos 14 estabelecimentos da rede estadual de ensino do 1.° grau de Araraquara. correspondendo a 20,5% do universo. Como este trabalho incluía também os pais ou responsáveis dos escolares, uma amostra relativamente grande foi empregada, diante da expectativa de ocorrer uma perda parcial, o que realmente se verificou pois, o estudo foi concluído com a colaboração de 70,3% dos indivíduos sorteados, reduzindo-se a amostra a 1.233 elementos, ou seja, 14,4% do universo.

Métodos

Após o exame clínico bucal, como parte dos objetivos da pesquisa, com cada um dos escolares era realizada uma entrevista para verificação de suas aspirações, modo de vida, hábitos e cuidados orais.

Em outra etapa, era enviado um questionário aos pais ou responsáveis de cada escolar examinado, destinado a qualificar a família dentro de um nível sócio-econômico1.

Embora tivesse sido elaborado um roteiro, em princípio, adequado à capacidade de compreensão da população, no dia da devolução, entrevistava-se o portador, geralmente os pais, para uma confirmação das respostas obtidas.

O modelo proposto

Partiu-se da consideração de que um modelo de análise sócio-econômica deveria ser decorrência da composição hierárquica de um conjunto de indicadores que revelassem de que determinados fatores são responsáveis, em maior ou menor grau. pela fixação dos indivíduos em diferentes posições na estrutura da sociedade.

Não se pretendeu na construção desse modelo uma simples adequação aos instrumentos teóricos de análise utilizados pelos sociólogos americanos 11, 13.

Evidentemente, esses instrumentos foram tomados como referência inicial, mas para fazer do modelo proposto, não um esquema teórico-abstrato, mas um elemento flexível de captação da realidade empírica, foi realizada uma pesquisa piloto com alguns pais de escolares, na qual foram levantados os dados significativos para a construção dos indicadores componentes do modelo.

Obtidos tais dados, procedeu-se a uma avaliação e posterior hierarquização dos indicadores, e como produto desse procedimento lógico, chegou-se à composição final do modelo, que foi ampliado em relação aos utilizados pelos sociólogos americanos 11,13, visando justamente maior adequação à realidade investigada. Procurou-se com a proposição de um modelo combinado de vários indicadores sócio-econômicos, obter um controle mais direto das variáveis subjetivas (esperado por se ter utilizado como técnica de pesquisa, o questionário) e uma maneira de evitar as falhas constatadas nas análises estratificatórias baseadas num único índice de medida de ''status".

Componentes do modelo

Reconhecendo a validade "relativa" das colocações de classes sociais definidas por Costa Pinto 2, Ossowski10 e Stavenhagen 11, embora as mesmas incidam sobre um rumo teórico não objetivado neste trabalho, procurou-se elaborar uma escala de indicadores semelhante à proposta por Guidi & Duarte 5, que envolvesse um maior número de critérios, dispostos de maneira tal, que se pudesse, o mais objetivamente possível, dimensionar o "'status" total do indivíduo.

O modelo proposto baseia-se fundamentalmente em 7 indicadores:

A – área de habitação;

B – nível ocupacional;

C – rendimento mensal da família;

D – nível de instrução;

E – características da moradia;

F – tipo de residência;

G – conforto doméstico.

Este modelo aceita como princípio de hierarquização, a divisão da comunidade em 6 estratos sociais: alto superior, alto inferior, médio superior, médio inferior, baixo superior e baixo inferior.

A família, considerada como um subsistema social, foi tomada como unidade global de referência. Apesar do problema bucal focalizado neste estudo ter sido cientificamente pesquisado em escolares, em vista da exigência de equacioná-lo em função de variáveis sócio-econômicas, os dados coletados foram centralizados sobre as situações de existência social do grupo familiar em que o mesmo estava inserido.

Para a aplicação deste modelo, a cada um dos indicadores eram atribuídos pesos que variavam de 1 a 7 de acordo com uma estratificação hirerárquica de situações, para que. no final do inquérito, sua soma representasse a classificação do indivíduo na escala social. Os pesos foram atribuídos em ordem decrescente de prestígio social. A escala de hierarquização social utilizada foi a seguinte:

 

 

Para a construção dessa hierarquia, foram observadas situações peculiares da comunidade de Araraquara e outros estudos de estratificação social referentes ao mesmo problema. Assim, serão descritos os critérios utilizados na determinação de cada um dos indicadores.

A – Área de habitação

Critério específico da comunidade de Araraquara – evidentemente, deverá ser adaptado às situações de outras, no caso de sua utilização – fixado a partir do local de habitação do indivíduo.

A hierarquização foi fruto de uma verificação empírica – fase do plano piloto – na qual mostrou ser pertinente a correlação entre a posição sócio-econômica e o local de moradia. Verificou-se que as áreas de habitação fixadas apresentavam, diante da própria população local, um consenso a respeito do respectivo prestígio social e status dos seus moradores.

O estabelecimento dos pesos neste indicador veio de observações – a respeito do estilo de vida, meio de transporte, um certo grau de padronização no nível das residências – colhidas entre os moradores dos diferentes bairros e decorrentes do próprio conhecimento dos investigadores da diferenciação de prestígio existente entre os bairros da cidade.

Fixou-se a seguinte distribuição:

Peso 1 – Bairro da Fonte Luminosa;

Peso 2 – Centro;

Peso 3 – Bairro do Carmo;

Peso 4 – Bairro de São Geraldo e Santana;

Peso 5 – Bairro da Vila Xavier e São José;

Peso 6 – Vilas Populares e assemelhadas;

Peso 7 – Outros bairros da periferia, de localização mais distante e reputação duvidosa.

B – Nível ocupacional do pai ou pessoa responsável

Objetivou-se, com esta variável, obter dados sobre a ocupação principal do chefe da família, isto é, aquela que lhe absorvesse maior tempo e que contribuísse como fonte prioritária da renda familiar. Para os inativos (inválidos – permanentes ou temporários, aposentados, desempregados), foram coletados dados sobre a última ocupação.

Este indicador era analisado pelo emprego de uma escala de hierarquia de prestígio das ocupações de Glass 4, que aponta uma correlação positiva entre ocupação usada como índice de "status" social e níveis de instrução e renda. Esta escala tem sido empregada na Inglaterra 6, sendo também aplicada primeiramente no Brasil, em São Paulo por Hutchinson8 e, posteriormente, por outros através do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais 1, 5.

Uma pesquisa efetuada por Dias3, em São Paulo, apresentou uma modificação da escala original de Hutchinson, quando subdividiu as faixas de ocupação e adicionou uma escala para ocupações rurais.

Optou-se pela aplicação da escala proposta por Dias, por se adaptar melhor às situações de nossa região e aos interesses do estudo.

A escala é a seguinte:

Peso 1 – Altos cargos políticos e administrativos ; proprietários de grandes empresas e assemelhalhadas; proprietário com grande extensão de terra e grande número de empregados.

Peso 2 – Profissões liberais; cargos de gerência ou direção; proprietários de empresa de tamanho médio; proprietário de área menor, porém ainda um grande fazendeiro.

Peso 3 – Posições mais baixas de supervisão ou inspeção de ocupações não manuais; proprietários de pequenas empresas comerciais e industriais; proprietário rural, fazendo todo o trabalho com maquinaria ou tendo pequeno número de empregados.

Peso 4 – Ocupações não manuais de rotina e assemelhados; pequeno proprietário rural.

Peso 5 – Supervisor de trabalho manual e ocupações assemelhadas; proprietário de área muito pequena, fazendo todo o trabalho manual com um ou nenhum empregado.

Peso 6 – Ocupações manuais especializadas e assemelhadas; agricultor que trabalha em terra alheia, dividindo os lucros com o proprietário.

Peso 7 – Ocupações manuais não especializadas; trabalhador rural assalariado.

Existe uma descrição pormenorizada das ocupações distribuídas em cada categoria e isso, de certa forma, veio contornar a possível arbitrariedade que se teria na distribuição das ocupações2.

C – Rendimento mensal da família

Considerou-se o salário mínimo como unidade básica de medida e em função da informação obtida, o rendimento mensal familiar foi equacionado pelas seguintes faixas salariais:

Peso 1 – mais de 20 salários mínimos;

Peso 2 – de 15 a 20 salários mínimos;

Peso 3 – de 10 a 15 exclusive salários mínimos;

Peso 4 – de 6 a 10 exclusive salários mínimos;

Peso 5 – de 3 a 6 exclusive salários mínimos;

Peso 6 – de 1 a 3 exclusive salários mínimos;

Peso 7 – menos de 1 salário mínimo.

Este indicador foi resultado da soma de rendas individuais de cada membro da família, desde que o mesmo contribuísse, parcial ou integralmente, para a cobertura das despesas do orçamento doméstico. Quando um elemento percebia uma certa renda, mas não colaborava em nada com a despesa familiar, esta não foi computada para a análise do indicador.

D – Grau de escolarização

Este indicador leva em consideração o grau de escolarização do pai, da mãe ou pessoa responsável pela criança.

Tem-se então a seguinte escala:

Peso 1 – curso superior (completo ou incompleto) ;

Peso 2 – II ciclo (completo ou incompleto) ;

Peso 3 – I ciclo (completo ou incompleto) ;

Peso 4 – primário completo;

Peso 5 – primário incompleto;

Peso 6 – sabe ler e escrever;

Peso 7 – analfabeto.

Os critérios 5 e 6 são bastante diferenciados, pois foi usada como norma, para sua interpretação, o fato de que os indivíduos do peso 5 seriam aqueles que, mesmo não tendo completado os primeiros quatro anos do curso do 1.° ciclo (ex-curso primário), receberam, em maior ou menor escala, uma forma de educação sistemática.

Já os de peso 6 seriam aqueles semi-alfabetizados, que. mesmo apresentando dificuldades no desempenho da leitura e redação, tenham aprendido a ler e a escrever assistematicamente.

E – Características da moradia

A referência às características da moradia como índice de estratificação social apresenta suporte teórico principalmente nas análises realizadas a esse respeito por sociólogos americanos13. Os critérios para o seu escalonamento contém um certo grau de arbitrariedade, exteriorizado na maneira como foram combinados o fato de se tratar de uma casa própria ou alugada, o montante do aluguel e o tamanho da mesma.

Entretanto, a análise feita não se restringiu às informações pessoais dadas pelos sujeitos da amostra, falha constatada nos estudos acima referidos. Houve uma observação cuidadosa por parte dos investigadores, das condições de moradia do entrevistado.

A aceitação desse critério justifica-se, em última instância, por se considerar que a propriedade ou não de um bem e a situação em que o mesmo se apresenta (tamanho e montante do aluguel pago) são elementos auxiliares significativos para a apreensão das diferenças estratificatórias existentes em uma comunidade.

Utilizou-se a seguinte escala:

Peso 1 – casa própria com mais de 7 cômodos;

Peso 2 – casa própria de 5 a 7 cômodos;

Peso 3 – casa própria de 3 a 5 cômodos;

Peso 4 – Casa própria com menos de 3 cômodos;

Peso 5 – casa alugada pagando mais de 1,3 salários;

Peso 6 – casa alugada pagando de 0,4 a 1,3 salários;

Peso 7 – casa alugada pagando menos de 0,4 salários.

Para computação, não foram considerados cômodos o terraço, área e corredores.

As considerações teóricas e empíricas feitas para este indicador são válidas para os seguintes F e G.

F – Tipo de residência

Os critérios utilizados para este indicador foram: condições de paredes, piso, cobertura (material com que era construída) e número de cômodos.

A combinação dos mesmos deu origem à seguinte escala:

Peso 1 – casa forrada, com piso de taco ou assoalho, paredes de tijolos, cobertura de telha ou lajota, jardim, com 10 cômodos ou mais;

Peso 2 – casa forrada, com piso de taco ou assoalho, paredes de tijolos, cobertura de telha ou lajota, jardim, de 7 a 10 cômodos;

Peso 3 – casa forrada, piso de taco ou assoalho, paredes de tijolos, cobertura de telha ou lajota, sem jardim, de 5 a 7 cômodos;

Peso 4 – casa forrada ou parcialmente forraja, piso de taco ou assoalho ou ladrinhos, paredes de tijolos, cobertura de telha, sem jardim, com menos de 5 cômodos;

Peso 5 – casa sem forro, piso de assoalho, paredes de tijolos, teto de telha, sem jardim, com mais de 5 cômodos;

Peso 6 – casa sem forro, piso de ladrilhos ou cimentado, paredes de tijolos, teto de telha, de 3 a 5 cômodos;

Peso 7 – casa sem forro, piso de chão batido, paredes de madeira ou barro, teto sem ser de telha, com menos de 3 cômodos.

G – Conforto doméstico

Para análise deste indicador, foram empregados, como critérios, a existência na habitação da família, de: luz elétrica, água encanada, tipo de mobília e número de aparelhos eletrodomésticos.

Construiu-se a seguinte escala:

Peso 1 – luz elétrica, água encanada, mobiliada luxuosamente, possuindo de 6 para mais aparelhos eletro-domésticos;

Peso 2 – luz elétrica, água encanada, mobiliada regularmente (pouco luxo), possuindo de 6 para mais aparelhos eletro-domésticos;

Peso 3 – luz elétrica, água encanada, mobiliada regularmente (sem luxo), possuindo de 4 a 6 aparelhos eletro-domésticos;

Peso 4 – luz elétrica, água encanada, mobiliada regularmente, possuindo 4 aparelhos eletro-domésticos;

Peso 5 – luz elétrica, água encanada, mobiliada abaixo de regularmente (simplesmente), poucos móveis, nada de consumo supérfluo, possuindo de 2 a 4 aparelhos eletro-domésticos;

Peso 6 – luz elétrica, água encanada, poucos móveis, mobiliada bem simples, possuindo menos de 2 aparelhos eletro-domésticos;

Peso 7 – sem luz elétrica ou sem água, podendo ter ou não água encanada, praticamente sem mobília (pobre), possuindo menos de 2 aparelhos eletro-domésticos.

Observações finais a respeito do modelo proposto

Mesmo considerando que a orientação da sociologia americana deixa a desejar na explicação do fenômeno classe social, principalmente porque a apreensão das variáveis sócio-comunitárias é geralmente expressão de critérios subjetivos nominais, optou-se por esta linha teórica, por ter este trabalho se desenvolvido numa comunidade e por apresentar a mesma, maiores recursos técnicos para se ter uma visão senão inteiramente explicativa, pelo menos ilustrativa do fenômeno classe social.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Após a aplicação das entrevistas avaliadoras das condições sócio-econômicas, a amostra estudada apresentou-se distribuída dentro das várias classes sociais segundo as tabelas que se seguem:

Pelos resultados obtidos neste estudo, observou-se que teve sentido a hierarquização da população em 6 estratos e que a mesma obedeceu a padrões definidos de diferenciação.

O modelo de análise sócio-econômica proposto mostrou-se com boa aplicabilidade, pois os resultados obtidos no seu emprego na região pesquisada (Tabelas 1 e 2), estão bem próximos dos encontrados por outros pesquisadores diante de estudos globais.

 

Tabela 3

 

Observem-se a respeito, comparativamente, os dados obtidos e os citados por Havighurst7, para os EUA, Grã-Bretanha, Austrália e Brasil e, os de Warner e Lunt 13 também para os EUA.

Acrescente-se poder complementar a hierarquização proposta, com dados sobre consumo alimentar, nível de vida, vivência sócio-cultural (participação em atividades religiosas, culturais, clubes recreativos, sindicatos de classe, etc.), condições da educação dos filhos e aspirações sócio-profissionais dos mesmos, além de indicações de cuidados dentais, condições assistenciais, dados esses que vieram comprovar a hipótese inicial deste estudo de que o projeto de vida dos seis estratos da população investigada é diferenciada econômica, social e culturalmente por ser a mesma estruturalmente estratificada.

Esse instrumento de medida da situação sócio-econômica que foi empregado pode ser usado em outras análises que se proponham correlações do tipo da que foi estudada.

Como elemento comprobatório podem ser citados os resultados de problemas bucais obtidos paralelamente aos dados apresentados, pela aplicação de índices específicos.

Quanto ao índice de doenças periodontais, os níveis sociais influíram diferentemente, com uma tendência das classes mais inferiores mostrarem resultados mais elevados (Tabela 4).

Através da Tabela 5, vê-se que: a classe baixa inferior apresentou média de doenças periodontais (IP) igual à da baixa superior e diferente das apresentadas pelas média inferior, média superior e alta; a classe baixa superior apresentou média de IP diferente das apresentadas pelas média inferior, média superior e alta; a classe média inferior apresentou média de IP diferente das apresentadas pelas média superior e alta e a média superior e alta apresentaram médias de IP iguais.

Tais valores significam que os problemas periodontais tendiam a maior severidade nas pessoas de classes sociais inferiores, mostrando que referidas alterações estão associadas aos fatores sócio-econômicos, condicionantes da sua origem e desenvolvimento.

Na verificação das condições de higiene oral, as classes sociais inferiores apresentaram os piores resultados, com as médias mais altas (Tabela 4).

Pela Tabela 6 vê-e que as classes sociais apresentaram, duas a duas, efeitos diferentes para o índice de higiene oral, pois comparando as suas respectivas médias vê-se que elas são diferentes duas a duas.

Já para o índice de cárie, apesar das classes sociais diferentes terem apresentado comportamentos distintos, não se observou uma acentuada tendência à diminuição desse índice paralelamente à elevação do nível sócio-econômico (Tabela 4). Entretanto, a influência do nível sócio-econômico ainda foi significativa, com o estudo mostrando uma percentagem maior de indivíduos sem cáries para as classes superiores e também, um percentual maior da amostra com um ou mais dentes atacados pela cárie àqueles pertencentes às classes sociais inferiores (Tabela 7).

 

 

CONCLUSÕES

Pelos resultados obtidos e metodologia aplicada, conclui-se que:

1) O emprego do sistema proposto para avaliação de classe social, mostrou que os escolares do 1.° grau da rede estadual de ensino de Araraquara pertencem, na sua maioria, às classes sociais inferiores.

2) Pode ser aceita a hierarquização da população em seis estratos sociais, a partir do conjunto de indicadores aplicados.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 01/12/1975
Aprovado para publicação em 05/01/1976

 

 

1 Ver em anexo parte do questionário utilizado.
2 A referida descrição das ocupações poderá ser observada no trabalho de tese de doutoramento do Prof. Valdemar Vertuan12, da Faculdade de Farmácia e Odontologia de Araraquara.

 

 

Anexo