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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.12 n.1 São Paulo Mar. 1978

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101978000100002 

ARTIGO ORIGINAL

 

Situação do atendimento do paciente venéreo nas unidades sanitárias da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, Brasil

 

The care of the venereal patient in health centers of the Health Department of the State of S. Paulo (Brazil)

 

 

Clovis Lombardi

Do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP – Av. Dr. Arnaldo, 715 – São Paulo, SP – Brasil

 

 


RESUMO

Descreve-se a situação do atendimento do paciente venéreo em 340 Centros de Saúde do Estado de São Paulo, Brasil, no ano de 1975, através das respostas dadas pelos seus médicos-chefes às questões de um formulário, o qual inclui também opiniões pessoais, comentários e sugestões. São abordadas especificamente a sífilis e a gonorréia, quanto a aspectos de incidência, diagnóstico laboratorial, esquemas de tratamento, educação sanitária, bem como de relações da Unidade Sanitária com outras agências de atenção médica.

Unitermos: Saúde pública, administração. Doenças venéreas. Centros de Saúde, São Paulo, Brasil.


ABSTRACTS

The author describes the situation of venereal patients care in 340 Health Centers of the State of S. Paulo (Brazil) in 1975, through a questionnaire answered by those technically responsible (doctors) for the Health Centers. The questionnaire also included personal opinions, comments and suggestions. Syphilis and gonorrhoeae are specifically studied in relation to incidence, laboratory diagnosis, therapeutic schemes, health education, as well as the relationship between the Health Center and other medical care agencies.

Uniterms: Public health administration. Venerai diseases. Community health services, S. Paulo, Brasil.


 

 

INTRODUÇÃO

A incidência crescente das doenças sexualmente transmissíveis, principalmente a gonorréia e a sífilis, tem sido observada nos últimos anos em todos os países do mundo ocidental que dispõem de dados estatísticos confiáveis 1, 2, 8, 10, 12, 14, 16, 21, 22.

Nos EUA e em alguns países da Europa Ocidental, o problema chega a assumir proporções epidêmicas, especialmente no que diz respeito à gonorréia, e volta a preocupar os organismos oficiais de saúde responsáveis pelo seu controle 1, 5, 6, 8, 10, 11, 14, 16, 20, 22.

No Brasil, não dispomos de dados estatísticos fidedignos, porém os poucos estudos existentes4,7,9 ou em andamento1 e, principalmente, o fato de se reproduzirem atualmente em nosso país os fenômenos de intensa industrialização e urbanização, geradores das transformações demográficas, econômicas, sociais e comportamentais, às quais se atribui o recrudescimento do problema em outros países 2, 4, 6, 8, 10, permitem supor uma tendência epidemiológica semelhante, possivelmente agravada por aspectos peculiares, tais como o importante (e quase sempre inadequado) papel desempenhado pelas farmácias no atendimento dos casos de doenças venéreas 7.

No Estado de São Paulo, a maioria dos numerosos Serviços Especializados em Doenças Venéreas existentes, deixou de funcionar na década de 50, após o advento da penicilinoterapia; atualmente, subsistem apenas quatro, todos localizados na capital do Estado: dois pertencentes à Secretaria da Saúde do Estado, um mantido pelo Serviço Social da Indústria (SESI), e um pelo Centro Acadêmico "Oswaldo Cruz", da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo 3,15.

A rede sanitária da Secretaria da Saúde do Estado conta com 787 Centros de Saúde2, distribuídos por 12 Regiões Administrativas e classificados em 5 tipos (I a V), segundo uma escala decrescente de diversificação e complexidade dos programas de saúde desenvolvidos17.

O presente trabalho tem como objetivo avaliar a situação de atendimento do paciente venéreo nas Unidades Sanitárias da rede oficial da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo e, na medida da aplicabilidade dos resultados obtidos, fornecer subsídios para a elaboração de um programa de controle.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os dados apresentados foram obtidos através de respostas dadas pelos médicos-chefes das Unidades Sanitárias às questões contidas em um formulário por nós elaborado, o qual continha também proposta para que fossem emitidas opiniões pessoais, comentários e sugestões.

Os formulários foram enviados a todas as Unidades Sanitária (U.S) do Estado de São Paulo, através da Coordenadoria de Saúde da Comunidade. A quase totalidade dos formulários devolvidos foi respondida nos meses de novembro e dezembro de 1975, o que nos permite considerar, a grosso modo, que os resultados obtidos possam ser tidos como referentes ao ano de 1975. A devolução foi também feita por intermédio daquela mesma Coordenadoria.

Foram formuladas questões referentes apenas à sífilis e à gonorréia, já que essas doenças servem como parâmetros para avaliação das tendências de todo o grupo das sexualmente transmissíveis 5, 16, 24.

Nas questões referentes ao tratamento, consideramos como adequado qualquer um dos recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo Centro de Controle de Doenças do Serviço de Saúde Pública dos EUA, no ano de 1975 6,19; no caso da sífilis, já consideramos adequada a citação do tratamento recomendado para apenas um dos dois períodos (recente ou tardio) da doença. Outros esquemas ou condutas individuais foram considerados inadequados; a inexistência de esquema terapêutico corresponde à menção textual de tal fato, na resposta dada. Vale lembrar aqui que, em 1976, os esquemas de tratamento recomendados para a sífilis sofreram modificações20,23 e que a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo disciplinou o tratamento das doenças venéreas em seu âmbito através de norma técnica específica 18.

 

RESULTADOS

Em vista da inexistência de relatos deste tipo em nosso meio, nos últimos anos, julgamos válida a apresentação dos dados conseguidos para o Estado de São Paulo como um todo, apesar das ressalvas de que houve discrepâncias entre as amostras recebidas, quer quanto às diversas Regiões Administrativas, quer quanto aos diversos tipos de Centros de Saúde, além de que não tivemos meios de conhecer os motivos de extravio ou não respostas dos formulários enviados e não devolvidos.

De 787 formulários enviados, recebemos, devidamente preenchidos, 340, o que corresponde a uma proporção de 43,2% do total. Os resultados tabulados estão apresentados correspondendo a cada questão do formulário.

Questão 1 – Sua Unidade Sanitária atendeu pacientes portadores de doenças venéreas desde janeiro do corrente ano até esta data?

 

 

Questão 2 – Entre as gestantes atendidas em sua Unidade Sanitária, no mesmo período, houve casos de sífilis?

 

 

Questão 3 – Sua Unidade Sanitária conta com recursos laboratoriais para executar exames diretos para diagnóstico das doenças venéreas? (Ex.: pesquisa de treponema em campo escuro, bacterioscópico para gonococo, etc.).

 

 

Questão 4 – As Reações Sorológicas para Sífilis, em sua Unidade Sanitária, são feitas de rotina para todos os matriculados, apenas para as gestantes, ou não se fazem de rotina?

 

 

Questão 5 – Em que laboratório são feitas as Reações Sorológicas para Sífilis solicitadas por sua Unidade?

 

 

Questão 6 – Sua Unidade conta com medicação para tratamento de sífilis e gonorréia?

 

 

Questão 7 – Qual o esquema de tratamento de sífilis adotado nas Unidades Sanitárias?

 

 

Questão 8 – Qual o esquema de tratamento dos casos de gonorréia em homem, adotado nas Unidades Sanitárias?

 

 

Questão 9 – Sua Unidade desenvolve alguma atividade educativa sobre o problema das doenças venéreas?

 

 

Questão 10 – No caso de pacientes com doença venérea não serem atendidos em sua Unidade, para onde são eles encaminhados?

 

 

Questão 11 – Na sua opinião, os casos de doenças venéreas de sua área não atendidos em sua Unidade, utilizam-se de que outro tipo de recursos assistenciais?

 

 

Questão 12 – Na sua opinião, é importante que os casos de doença venérea da sua área sejam atendidos na Unidade Sanitária?

 

 

Questão 13 – Comentários sobre a situação atual do atendimento do paciente venéreo na sua Unidade Sanitária.

 

 

Questão 14 – Sugestões para a melhoria do atendimento do paciente venéreo.

 

 

COMENTÁRIOS

Este trabalho não tem a pretensão de analisar quantitativamente o problema sanitário representado pelas doenças venéreas; visa apenas descrever o atual estado do atendimento do paciente venéreo, através de dados fornecidos pelos médicos-chefes das Unidades Sanitárias, correspondentes ao ano de 1975.

– As proporções observadas de respostas negativas nas Questões 1 e 2 (42,9% e 70,7% respectivamente), parecem-nos bastante elevadas, dado o caráter vago e genérico das questões. Pode-se supor que as doenças venéreas, como doenças de massa, estejam fora do controle da saúde pública.

– Como se sabe, o diagnóstico das doenças sexualmente transmissíveis é eminentemente laboratorial e pode ser feito através de exames tecnicamente simples e de baixo custo 2, 13, 20; entretanto, menos de 3% das Unidades observadas conta com recursos para a feitura, em nível local, dos exames diretos necessários (Questão 3). As reações sorológicas para sífilis são feitas de rotina em menos de 5% das Unidades estudadas; mesmo para as gestantes, que constituem um grupo prioritário, esta proporção não atinge os 30% (Questão 4).

– Embora a maioria das Unidades Sanitárias se utilize do Instituto Adolfo Lutz para os exames laboratoriais, observamos que 25% dos Centros de Saúde estudados recorrem a laboratórios particulares, proporção bastante elevada em termos de saúde pública (Questão 5).

– Observa-se nas respostas às Questões 7 e 8 a quase total inadequação, ou mesmo inexistência, das condutas terapêuticas utilizadas pelas Unidades Sanitárias, levando a um resultado apenas aparentemente paradoxal com o observado na Questão 6, quanto à existência de medicação específica. Na realidade, o desconhecimento dos esquemas preconizados talvez leve à conclusão de que a medicação existente seja a indicada.

– Apenas cerca de 30% das Unidades observadas executa alguma atividade específica de educação sanitária; dado o caráter vago da questão, podemos supor até que esta atividade não passe de uma mera distribuição de material impresso. De qualquer forma, as condições observadas não são, absolutamente, satisfatórias (Questão 9).

– A medicina privada e a medicina assistencial (hospitais locais e consultórios particulares) recebem cerca de 50% da demanda de pacientes venéreos dos Centros de Saúde (Questão 10).

– O fato de que a maioria dos pacientes com doença venérea recorre às farmácias para tratamento, é de conhecimento dos médicos-chefes das Unidades (Questão 11), os quais, entretanto, afirmam considerar importante que esse atendimento seja feito pela Unidade Sanitária (Questão 12).

– A precariedade de recursos materiais e de pessoal (especialmente de laboratório) e a falta de demanda por parte da população, são os comentários mais freqüentes a respeito da atual situação do atendimento, considerada, quase que unanimemente, como bastante insatisfatório (Questão 13).

– As sugestões feitas pelos médicos-chefes, são coerentes com os comentários; concentram-se na necessidade de recursos para diagnóstico laboratorial em nível local (exames diretos) e de educação sanitária da população (Questão 14).

 

CONCLUSÕES

1 . É precária a atual situação do atendimento do paciente venéreo nas Unidades Sanitárias estudadas.

2. As Unidades Sanitárias não dispõem de recursos laboratoriais para diagnóstico através de exames bacterioscópicos diretos.

3. A sorologia para sífilis só é feita de rotina em cerca de 5% das Unidades Sanitárias observadas.

4. Não há esquemas terapêuticos padronizados.

5. As farmácias, os médicos particulares e o INPS estão provavelmente atendendo a maioria dos pacientes venéreos.

6. Segundo os médicos-chefes das Unidades Sanitárias, o incremento das atividades na área depende, basicamente, de recursos laboratoriais e de educação sanitária da população.

 

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Recebido para publicação em 08/07/1977
Aprovado para publicação em 14/07/1977

 

 

1 Comunicação pessoal do Prof. J. M. Barros.
2 Incluídos os Centros de Saúde Escola e os Centros de Saúde Satélite, conforme comunicação pessoal da Divisão de Estudos e Programas da Coordenadoria de Saúde da Comunidade da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo.