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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.12 n.1 São Paulo Mar. 1978

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101978000100004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Perfil psicossocial das pessoas agredidas por animais raivosos ou suspeitos de raiva na Grande São Paulo

 

A psyco-social profile of the population exposed to the rabies virus in the city of S. Paulo and neighborhood

 

 

Mara Cleide Dias Ramos

Do Instituto Pasteur da Secretaria de Estado da Saúde – Av. Paulista, 393 – São Paulo, SP – Brasil

 

 


RESUMO

Foi determinado o perfil psicossocial das pessoas agredidas por animais raivosos ou suspeitos de raiva na Grande São Paulo através das características da clientela atendida pelo Instituto Pasteur de São Paulo, Brasil. Concluiu-se que esta população procede das periferias da Capital e dos municípios limítrofes; o nível sócio-econômico é baixo; uma parcela considerável corre o risco de se contaminar em sua própria residência; e, a maioria desconhece os reais riscos da doença. Portanto, os programas educativos devem ser intensificados e adaptados às peculiaridades da população sob risco de contrair a raiva.

Unitermos: Raiva, aspectos psicossociais. Raiva, São Paulo, Brasil. Educação sanitária.


ABSTRACT

A statistical analysis was made on the psycho-social characteristic of people attended at the Instituto Pastear, S. Paulo, Brazil. It was concluded that the population exposed to rabies virus in the area enclosed by the Instituto comes from the suburbs of S. Paulo and from the surrounding cities; a considerable part is at risk of acquiring the disease at home; they ignore the real risks of the disease and so they turn up at the Instituto showing no apprehension whatsoever. This population is susceptible of receiving education regarding rabies.

Uniterms: Rabies, psycho-social characteristics. Rabies, S. Paulo, Brazil. Health education.


 

 

1. INTRODUÇÃO

As investigações sobre a raiva humana em São Paulo tem enfocado, basicamente, o tratamento preventivo pela vacinação do indivíduo submetido ao risco do contágio 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8.

O conhecimento dos aspectos epidemiológicos e psicossociais das pessoas agredidas por animais raivosos ou suspeitos de raiva permitirá o planejamento de programas educacionais, os quais, postos em prática, poderão reduzir ao mínimo a exposição humana a esta infecção em São Paulo.

Neste sentido, o estudo de Ribeiro Neto7 é uma contribuição importante à abordagem dos aspectos epidemiológicos, enquanto o de Tiriba11 levanta alguns aspectos sociais que envolvem o homem afetado pela raiva, sem caracterizar aquele que se encontra sob o risco.

O presente trabalho visa determinar os aspectos psicossociais das pessoas agredidas por animais raivosos ou suspeitos de raiva na Grande São Paulo. Para tanto, foi escolhida a clientela do Instituto Pasteur de São Paulo, cujo campo funcional abrange:

a) supervisão, coordenação e execução de atividades de profilaxia ou prevenção da raiva humana no Estado de São Paulo;

b) realização de: exame e tratamento das pessoas possivelmente contaminadas por mordeduras ou arranhaduras produzidas por cães ou outros animais capazes de transmitir a raiva; provas relativas ao diagnóstico da raiva no homem e nos animais; controle biológico e químico dos produtos utilizados no Instituto;

c) desenvolvimento de planos de pesquisas relacionados com o diagnóstico e profilaxia da raiva humana;

d) organização de cursos relativos ao controle da raiva humana;

e) colaboração com o ensino das Escolas Médicas na área de sua competência.

Sendo o Instituto o órgão de atuação na Grande São Paulo, nessa especialidade, pode-se deduzir que a caracterização da clientela corresponde ao perfil psicossocial típico das pessoas agredidas por animais raivosos ou suspeitos de raiva nesta área.

Este trabalho vem ao encontro a uma das recomendações do I Seminário sobre Técnicas de Controle da Raiva9, o qual propõe que se realize diagnóstico da situação através de pesquisas junto à população em geral e a grupos da comunidade, com relação ao problema da raiva.

 

2. METODOLOGIA

O total de casos estudados foi de 1.177 clientes atendidos pelo Serviço Social do Institutor Pasteur, no pós consulta médica, entre agosto e novembro de 1976, no horário de 8 às 14 horas. Este número corresponde a 24% dos pacientes submetidos a tratamento preventivo (4867), na mesma época, no horário das 8 às 22 horas.

Os 1.177 clientes foram entrevistados por meio de questionários contendo dados relativos à identificação, ocupação, tipo de proteção da residência, procedência e zona da cidade onde reside, nível sócio-econômico e grau de conhecimento sobre a doença. Foram também observados o nível de compreensão e o grau de ansiedade face aos riscos da doença.

Para avaliação do nível sócio-econômico foi feita uma classificação utilizando a renda per capita mensal da clientela. Para tanto, somou-se o salário dos membros da família, do total diminuiu-se as despesas fixas, como aluguel, prestação de casa ou terreno e outros, e dividiu-se pelo número de membros da família. A classificação estabelecida foi:

Nível baixo-baixo: de Cr$ 130,00 a menos de Cr$ 500,00 mensal por pessoa.

Nível baixo-médio: de Cr$ 500,00 a menos de Cr$ 1.000,00 mensal por pessoa.

Nível baixo-alto: de Cr$ 1.000,00 a menos de Cr$ 2.000,00 mensal por pessoa.

Nível médio-baixo: de Cr$ 2.000,00 a menos de Cr$ 5.000,00 mensal por pessoa.

Nível médio-médio: de Cr$ 5.000,00 a menos de Cr$ 10.000,00 mensal por pessoa.

Nível médio-alto: mais de Cr$ 10.000,00 por pessoa.

Para medir o grau de conhecimento da clientela sobre a doença foi feita a seguinte classificação:

– Insuficiente: Tem conhecimentos mínimos sobre a doença. Acredita que doença provoque "loucura".

– Regular: Conhece os riscos da doença.

– Bom: Conhece os riscos, período de incubação, agente infeccioso, modo de transmissão, medidas preventivas. Quanto ao nível de compreensão da clientela, com relação às orientações fornecidas pelo Serviço Social do Instituto Pasteur foram:

– Insuficiente: cliente que não compreende as orientações dadas.

– Regular: cliente que compreende, usando o bom senso.

– Bom: cliente que compreende, usando o espírito crítico.

 

3. RESULTADOS E COMENTÁRIOS

Pode-se observar na Tabela 1 que 57,4% dos clientes do Instituto Pasteur são do sexo masculino. A investigação de Ribeiro Neto7, a qual atingiu o total de pessoas atendidas pelo Instituto em 12 meses, confirma este dado.

 

 

A grande maioria da clientela atendida (73%) é solteira. (Tabela 2) e 83,9% é de cor branca (Tabela 3).

 

 

 

 

Na Tabela 4 pode-se verificar que mais da metade da clientela (63%) encontra-se na faixa etária entre 0 e 20 anos, sendo que os grupos mais significativos são de menos de 7 anos (24,8%) e de 7 a 13 anos (23,9%); entretanto, 50,5% da população atingida por animal com suspeita de raiva ou raivoso encontra-se em uma faixa etária teoricamente produtiva, isto é, entre 14 e 70 anos. Levanta-se a hipótese de que ao mobilizar-se para o trabalho, essa população estaria mais exposta ao risco de contágio através de mordedura ou arranhaduras por cães ou outros animais de rua.

 

 

A Tabela 5, sobre ocupações, salienta que 30,0% dos pacientes não possuem ocupação; a grande maioria destes (26,4%) é menor de 13 anos e não estão estudando, o que põe em relevo que o referido grupo não será atingido por um programa educativo junto às escolas. Entretanto, 26,1% poderão se beneficiar com tal programa nas escolas, uma vez que a maioria são estudantes. Convém lembrar que o II Seminário sobre Técnicas de Controle de Raiva10 propos que as ações educativas devem ser intensificadas em estabelecimentos escolares, de todos os níveis, desenvolvendo-se atividades, na classe e extra-classe, sobre temas relacionados ao controle da Raiva. Outro dado significativo levantado por esta Tabela é que 15% dos clientes dedicam-se ao serviço doméstico, sendo a maioria (11,7%) donas de casa.

Somando-se os 11,7% de donas de casa com os 26,4% dos pacientes com menos de 13 anos que não têm ocupação tem-se 38,1% de clientes, os quais põe em evidência a necessidade de se planejar uma programação que atinja às famílias, através de "líderes e grupos da comunidade local, aprovadas pelos veículos de comunicação de massa."10

Quanto à faixa etária produtiva, destacam-se os trabalhadores do comércio e serviços (13%) e os da indústria (10,2%) que poderão ser alvo de programações em etapas posteriores.

Ainda sobre os programas de educação sanitária deve-se destacar que eles devem ser desenvolvidos de maneira contínua e não apenas durante as campanhas10.

Quanto à habitação, a Tabela 6 mostra que 48,2% das residências da clientela contam com cerca de arame ou madeira, ou são totalmente desprotegidas, o que favorece a agressão de animais contaminados no próprio domicílio. Este dado mostra também a precariedade das condições habitacionais de uma significativa percentagem da população atingida por animais raivosos ou suspeitos.

A Tabela 7 destaca que 66,5% da clientela procede da Capital de São Paulo, dos quais uma grande parcela (40,5%) vem da zona suburbana. Dos 21,5% procedentes dos municípios da Grande São Paulo, 15% também provêm da periferia. No total, portanto, são 62,2% procedentes das zonas suburbanas de suas cidades. Tais percentagens salientam a importância de se planejar programas que atinjam prioritariamente a população das periferias de São Paulo e dos municípios limítrofes. Deve-se destacar, também, que a maioria da clientela atendida pelo Instituto Pasteur procede de uma região sabidamente pobre e precariamente servida por infra-estrutura.

A Tabela 8 demonstra que 79,6% da clientela é de nível sócio-econômico baixo, cuja renda per capita varia entre Cr$ 130,00 a menos de Cr$ 2.000,00 mensais. Destes, convém destacar que 34,9% vivem em condições sub-humanas, uma vez que a renda per capita mensal é inferior a Cr$ 500,00. Os restantes, 20,4% que procuram o Instituto Pasteur, pertencem à classe média. Portanto, os programas preventivos anti-rábicos devem levar basicamente em consideração a população de nível sócio-econômico baixo. O II Seminário sobre Técnicas de Controle da Raiva10 já recomendara que as ações educativas devem ser programadas a nível local, levando-se em conta os padrões sócio-econômico-culturais da população. Outro dado constatado nessa Tabela é o grande número de famílias com 5 a 6 membros (33,5%) e com 3 a 4 membros (29,9%).

Quanto às condições emocionais dos atingidos por animais raivosos ou suspeitos, 63,1% vêm às entrevistas sem ansiedade. Constatou-se, também, que 64,9% desconhecem os reais riscos da doença; destes, 50,3% mantiveram-se calmos, podendo talvez significar que a ausência de ansiedade seja decorrente do insuficiente grau de conhecimento sobre a doença.

 

Tabela 9

 

A maioria da clientela (84,8%) tem nível de compreensão que varia entre bom (20,3%) e regular (64,5%), sendo, portanto, passíveis de orientação; destes, 45,7% tem grande conhecimento insuficiente sobre a doença (Tabela 10). Conseqüentemente, não podem avaliar a importância do tratamento médico prescrito. Esta tem sido uma das causas mais significativas do abandono do tratamento anti-rábico.

 

5. CONCLUSÕES

Os resultados desta investigação permitem concluir:

1) A clientela típica do Instituto Pasteur se caracteriza psicossocialmente por:

– Ser do sexo masculino, solteiro, na faixa etária entre 0 a 20 anos, com predominância de 0 a 13 anos; não ter ocupação, ou ser estudante, ou ainda dedicar-se ao serviço doméstico, principalmente como dona de casa. Proceder da periferia da Capital ou da dos municípios limítrofes; ser de nível sócio-econômico baixo, sendo que uma significativa percentagem vive em condições sub-humanas; uma parcela considerável corre o risco de se contaminar em sua própria residência, uma vez que a mesma não conta com proteção; desconhecer os reais riscos da doença, mas ser seu nível de compreensão passível de ações educativas.

2) Os programas educativos de caráter contínuo e as campanhas devem:

– dar prioridade absoluta às populações periféricas, de nível sócio-econômico precário:

– levar em conta o grupo familiar, não somente o escolar, neste sentido, envolver as lideranças comunitárias e as Instituições que atinjam o citado grupo:

– dar ênfase à utilização dos meios de comunicação que favoreçam o real conhecimento dos riscos da doença e das medidas profiláticas correspondentes.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Dr. Murillo Pacca de Azevedo, Dolores A. Yoda, Maria Aparecida S. Alves e Tereza Kleiman pelo estímulo prestado, sem o qual não seria possível a execução deste trabalho.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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10. SEMINÁRIO SOBRE TÉCNICAS DE CONTROLE DA RAIVA, 2.°, São Bernardo do Campo, SP, 1976. Recomendações. São Paulo, Centro de Controle de Zoonoses, 1976.        [ Links ]

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Recebido para publicação em 04/07/1977
Aprovado para publicação em 5/08/1977