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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.12 n.1 São Paulo Mar. 1978

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101978000100011 

ARTIGO ORIGINAL

 

Identificação por contraimunoeletroforese de rotavirus em casos de diarréia infantil

 

Detection of rotavirus by counterimmunoelectrophoresis in cases of infantile diarrhea

 

 

J. A. N. CandeiasI; Cornélio P. RosenburgII; M. L. RáczII

IDo Departamento de Microbiologia e Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP – "Setor Saúde Pública" – Av. Dr. Arnaldo, 715 – São Paulo, SP – Brasil
IIDo Departamento de Saúde Materno-Infantil da Faculdade de Saúde Pública da USP – Av. Dr. Arnaldo, 715 – São Paulo. SP – Brasil

 

 


RESUMO

Os resultados obtidos na identificação de rotavirus, usando a técnica da contraimunoeletroforese, com 162 amostras de feses de crianças com quadros diarréicos agudos, mostram uma distribuição percentual de positividade de 72,7%, 77,7% e 66,6% em diferentes grupos etários de 6 a 8 meses até um ano de idade.

Unitermos: Rotavirus (Orbivirus). Imunoeletroforese. Diarréia infantil.


ABSTRACT

The faecal samples of 162 children with acute diarrhea were tested by counterimmunoelectrophoresis in order to detect rotaviruses. In 72.7%, 77.7% and 66.6% of samples from children of different age groups, varying from 6 to 8 months to 1 year or older, a positive result was found.

Uniterms: Rotavirus. (Orbivirus) Immunoelectrophoresis. Diarrhea, infantile.


 

 

INTRODUÇÃO

A gastroenterite infantil não bacteriana, gastroenterite viral infantil, ou gastroenterite viral B é uma entidade etiologicamente bem definida, em que partículas virais de 65 a 75 nm têm sido, encontradas na maior parte dos pacientes por microscopia eletrônica, quando examinados os extratos fecais por esta técnica 5-8, 12, 13, 16, 22, 27, 31, 33.

Estas partículas são hoje conhecidas pela designação de rotavirus14. Estudos feitos por Kapikian e col. 22, utilizando a reação de fixação do complemento, demonstraram ser os rotavírus agentes relativamente ubiquitários, pelo menos, nas áreas em que aqueles autores fizeram os levantamentos sorológicos. Os rotavírus podem infectar, além do homem, outros animais, como bovinos 25,37, eqüinos 15,39, ovinos32, porcinos 38, murinos1,28 e leporinos9, já sendo possível identificar de que espécie foram isolados utilizando-se provas de neutralização 34. Utilizando como antígeno, uma cêpa bovina de rotavírus (N. C. D. V.), Kapikian e col.21 demonstraram, sorologicamente, a infecção de crianças por rotavírus humanos. Esta relação antigênica entre rotavírus humanos e bovinos tem aplicações práticas de grande valia, considerando-se a viabilidade de replicação dos rotavírus bovinos em culturas celulares. Os métodos de diagnóstico utilizados para a identificação de rotavírus vão desde a visualização das partículas virais por microscopia eletrônica 7'16 e imunoeletromicroscopia 23, até à identificação de antígenos por imunofluorescência2, e contraimunoeletroforese 1,35, a pesquisa de anticorpos pode ser feita por fixação do complemento 21, neutralização 6 e imunofluorescência.29

No presente trabalho apresentam-se os resultados obtidos com a utilização da técnica da contraimunoeletroforese no diagnóstico da gastroenterite viral B.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Amostras de fezes

Foram estudadas 164 amostras de fezes obtidas de crianças com quadros diarréicos agudos. A colheita foi feita com zaragatoa estéril conservada em meio de transporte especial1, os extratos para exame foram preparados segundo técnica descrita por Bishop e col.5 e conservados a-20° C, até ulterior utilização.

Soro anti-rotavírus

A cêpa "Compton-England" de virus da diarréia de vitelos, cedida pelo Dr. T. H. Flewwtt, foi cultivada em culturas de rim de bovino e purificada pela técnica de Bishop e col.5, sem ultracentrifugação em gradiente de sacarose. O material obtido, depois de misturado com adjuvante completo de Freund, foi utilizado para a imunização de cobaias, por via subcutânia, em três inoculações de 0,5 ml com 15 dias de intervalo; o soro obtido na sangria de prova, feita no 45° dia, permitiu estabelecer a identidade dos anticorpos frente a extratos fecais humanos com provas de difusão em agar positivas para um soro padrão anti-rotavírus, para soros humanos convalescentes, oriundos de casos de gastroenterite infantil e para soros de bovinos adultos com anticorpos precipitantes para a cêpa "Compton-England".

Contraimunoeletroforese

A contraimunoeletroforese foi feita em lâminas de vidro (5,0 x 7,5 cm) cobertas com 6 ml de agar a 0,9 %, preparado em tampão de veronal acetato pH 8,6 e força iônica igual a 0,1 /m. Em cada lâmina foram feitas depressões com diâmetro de 3 mm. separadas entre si de uma distância de 3 mm de modo a obter-se um padrão de duas fileiras duplas de 6 depressões; em cada lâmina podiam, deste modo, testar-se 12 extratos de fezes. As amostras de soro específico, depois de inativadas a 56°C, durante 5 min., foram colocadas nas depressões dispostas do lado do ânodo, enquanto os extratos de fezes, não diluídos, foram colocados do lado do cátodo. A contraimunoeletroforese foi feita com uma corrente constante de 12mA por lâmina, durante um período de 60 min., à temperatura ambiente (cerca de 24°C); passado este tempo, as linhas de precipitado eram, de um modo geral, perfeitamente visíveis, contra fundo escuro e sob iluminação tangencial, não tendo sido necessário fazer sua coloração.

 

RESULTADOS

Na Tabela apresentam-se os resultados obtidos com as 162 amostras de fezes, segundo a idade das crianças estudadas. Pode observar-se um acentuado aumento das percentagens de positividade a partir da classe de 6 a 8 meses, elevação esta que se mantém nas classes subseqüentes.

 

DISCUSSÃO

A visualização de rotavírus por microscopia eletrônica é um método de elevada eficiência e rapidez, mas exige. obviamente uma aparelhagem de custo elevado além do que apresenta limitações de ordem operacional, quando o número de exames diários é superior a duas dezenas, situação de ocorrência freqüente 7,16,19,24,26,27.

A possibilidade de identificação de rotaviírus através da reação de fixação do complemento não deve ser considerada como promissora dado que os extratos fecais são, freqüentemente, anticomplementares 26. A contraimunoeletroforese apresenta-se como um método qualitativo de grande simplicidade e rapidez, capaz de detectar pequenas quantidades de antígenos com mobilidade eletroforética relativamente rápida. Este método tem sido utilizado com bons resultados para a identificação de diversos antígenos viráis 3,17,18,20. No caso dos rotavírus a contraimunoeletroforese mostrou ser um método rápido e econômico, dando resultados comparáveis aos da microscopia eletrônica e podendo identificar partículas viráis incompletas 26,35. Nossos resultados confirmam a utilidade do referido método e, quando analisados em termos das percentagens de positividade obtidas, conforme a Tabela, assemelham-se aos obtidos por outros autores 10,11,35.

A Figura ilustra a identificação contraimunoeletroforética de rotavírus em 6 extratos fecais, testados em duplicata, contra o soro anti-rotavírus preparado em cobaia e contra uma mistura de soros de bovinos adultos, que em testes prévios de difusão em gel de agar, frente à cêpa "Compton-England", tinham dado uma precipitação específica. A interpretação dos resultados é inequívoca e em nenhum dos testes feitos, quando se usou esta mistura, se obtiveram reações não específicas. Estes resultados sugerem, assim, a possibilidade de se usar, como soro específico identificador do antígeno do grupo rotavírus, uma mistura de soros de bovinos adultos, onde é comum o encontro de anticorpos que reagem com aquele antígeno. Em relação à técnica de imunofluorescência, Flewett sugere que se use aquela mistura de soros de bovinos adultos, desde que respeitadas determinadas normas: Woode e col.39 demonstraram, pelas provas de difusão em gel de agar, a presença de um antígeno de grupo comum aos rotavírus humanos e bovinos. Rodger e col. 30 consideram que as diferenças existentes nas proteínas da camada externa da cápside de rotavírus humanos e rotavírus bovinos devem ser mínimas. Por outro lado, tanto um como outro grupo de vírus não reagem com soros anti-reovírus dos tipos 1, 2 e 3, nem com os soros anti-orbivírus15,38. Resta a consideração dos coronavírus humanos como capazes de ocasionarem quadros de gastroenterite, tal como ocorre com porcinos e bovinos, onde os coronavírus são importante causa de enterite. Esta consideração é meramente especulativa, além de que os coronavírus de bovinos não estão sorologicamente relacionados com os coronavírus humanos 36.

 

 

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Recebido para publicação cm 10/08/77
Aprovado para publicação em 17/08/77
Pesquisa financiada pelo Departamento de Assistência à Infância e Maternidade da Secretaria de Educação da Prefeitura Municipal de São Paulo

 

 

1"Securline" – Precision Dynamics Corporation 3031 Thornton Av., Burbank. Calif. 91504

2 Flewett, T. H. Informação pessoal