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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.13 n.3 São Paulo Sep. 1979

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101979000300001 

NECROLÓGIO NECROLOGY

 

Professor Rodolfo dos Santos Mascarenhas 1909 — 1979

 

 

Reinaldo Ramos

 

 

 

Com o desaparecimento de Rodolfo dos Santos Mascarenhas — ocorrido a 6 de julho de 1979, depois de prolongada enfermidade — perdeu a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo um de seus valores mais expressivos; os serviços de saúde do Estado de São Paulo, um de seus mentores e líderes durante nada menos de três décadas; e os cultores da administração sanitária no país, um mestre dos mais conceituados pela larga experiência e riqueza de conhecimentos.

Diplomando-se em 1932 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, no ano seguinte fixava-se Mascarenhas em São José dos Campos — sua terra natal — a fim de exercer a clínica, geral e especializada em tuberculose, área de seu particular interesse desde os bancos acadêmicos.

Pouco duraria, porém, essa incursão em atividade exclusivamente privada, já que no mesmo ano de 1933 era nomeado Prefeito Municipal, cargo que ocupou durante dois anos e no qual, além da capacidade administrativa, começou a revelar seu forte pendor para a saúde pública, tantas as medidas de alcance sanitário por ele tomadas: o zoneamento da sede municipal, a regulamentação dos serviços de água e esgoto, legislação sobre construção e reconstrução de prédios, legislação sobre higiene em geral e profilaxia da tuberculose e a construção de um matadouro modelo, tudo isto culminando com a transformação de São José dos Campos em estância climática.

Uma decorrência natural dessa inclinação para a saúde pública foi sua admissão, em 1936, para o então Serviço Sanitário do Estado, desenvolvendo atividades em São José dos Campos, Bebedouro e Casa Branca. Em 1937, era comissionado pelo Governo do Estado para freqüentar o curso de saúde pública do antigo Instituto de Higiene, oportunidade que aproveitou para matricular-se na Escola Livre de Sociologia e Política, pela qual se diplomaria três anos mais tarde.

Após alguns anos de intensa atividade no Departamento de Saúde do Estado — onde exerceu, inclusive, as funções de assistente do Diretor Geral — viajou para os Estados Unidos em 1943, a fim de acompanhar o curso de saúde pública da Universidade de Yale, por onde se doutorou em 1945.

O retorno de Mascarenhas daquele país coincide com a transformação do Instituto de Higiene em Faculdade de Higiene e Saúde Pública, integrando a estrutura da Universidade de São Paulo, sendo ele convidado por Paula Souza para ocupar o cargo de Professor Adjunto na cadeira então chamada de Técnica de Saúde Pública. Em 1949, submete-se a concurso de títulos e provas para habilitar-se ao título de livre-docente, apresentando tese que até hoje constitui material de consulta obrigatória para todos aqueles que desejem conhecer a evolução dos serviços de saúde pública do Estado de São Paulo.

As ocupações de Paula Souza como Diretor da Faculdade e suas freqüentes viagens ao exterior a fim de desincumbir-se de missões no campo da saúde internacional, levaram-no a delegar a Mascarenhas grande parte dos encargos docentes, a começar pela reformulação e atualização de todos os programas ministrados na área da administração.

O falecimento prematuro de Paula Souza, em 1951, levou-o naturalmente, dois anos depois, a novo concurso, desta feita para suceder ao saudoso mestre na cátedra que já tantas vezes regera em substituição ou interinamente — nada menos de 3 anos, 3 meses e 29 dias. A tese então apresentada — um estudo vertical sobre a evolução da luta anti-tuberculosa em São Paulo — representa mais uma valiosa contribuição para o conhecimento da administração sanitária no Estado.

A conquista da cátedra, ao invés de marcar o encerramento, assinala o início da fase mais produtiva da vida profissional de Mascarenhas, caracterizada que foi pela considerável ampliação dos objetivos da Faculdade de Saúde Pública, em termos de ensino e pesquisa.

Ciências Sociais Aplicadas, Educação Sanitária, Odontologia Sanitária, Enfermagem de Saúde Pública, Administração Hospitalar, Farmácia e Bioquímica Aplicadas, Veterinária de Saúde Pública — hoje disciplinas individualizadas e contando com corpo docente próprio — tiveram todas elas o berço comum da Administração Sanitária e o apoio decisivo de Mascarenhas para sua implantação. A quase todas elas corresponde hoje um curso para graduados, ministrado regularmente pela Faculdade, sem mencionar o de Especialização em Planejamento do Setor Saúde, que permanece vinculado à disciplina de Administração Sanitária.

A larga experiência então acumulada por Mascarenhas, aliada a seus amplos conhecimentos de administração pública, tornava-o um candidato natural à Diretoria da Faculdade, que ele exerceu por dois mandatos, de 1966 a 1972, numa conjuntura particularmente delicada, porquanto nesse período se procedeu à implantação da reforma universitária, com todos os problemas inerentes a um processo de tal amplitude e complexidade.

Os múltiplos afazeres docentes e administrativos de Mascarenhas não o impediram de publicar numerosos trabalhos no campo de sua especialidade; de ministrar cursos no exterior; de realizar viagens de estudos; de participar de congressos e reuniões internacionais como representante oficial da Faculdade; de integrar comissões técnicas de alto nível, merecendo destaque aquelas destinadas à estruturação da Secretaria da Saúde de São Paulo.

Pode-se afirmar, sem receio de exagero, que nada de importante ocorreu na saúde pública do Estado, nos últimos trinta anos, sem a participação e o testemunho de Mascarenhas — ora pessoalmente, no palco dos acontecimentos; ora na retaguarda, com suas palavras de estímulo e seu conselho avisado; ora indiretamente, através dos inúmeros técnicos que ele preparou e orientou.

E por uma dessas coincidências em que a vida é pródiga, sua carreira profissional encerrou-se justamente na instituição onde tivera início: ao deixar a Diretoria da Faculdade — e mal refeito do golpe que sobre ele se abateu com a perda da esposa — não hesitou em atender ao convite do Secretário da Saúde para, sem prejuízo de suas funções docentes na Universidade, assumir a Coordenadoria de Saúde da Comunidade, onde o foi surpreender a enfermidade que o impossibilitou de manter seu exaustivo rítmo de trabalho.

Para aqueles que mais de perto conviveram com Mascarenhas, ao lado do perfil do técnico, do administrador, do mestre, fica também a recordação de suas qualidades humanas, dentre as quais não se pode deixar de destacar sua imensa bondade: um homem intrinsecamente bom; de espírito generoso; incapaz de rancores ou de simples ressentimentos; fechando sempre os olhos para as fraquezas alheias e procurando mantê-los bem abertos para o que de positivo pudesse encontrar nas pessoas; um desses homens cujos erros derivam antes do excesso que da falta de bondade; um desses homens que podia olhar o caminho percorrido e sentir a tranqüilidade do dever cumprido — perante a comunidade, perante as instituições que ele tanto engrandeceu, perante seus discípulos e amigos e, sobretudo, perante si mesmo.

Este o mestre que deixa tantas lições, o amigo de quem ficam tantas lembranças.