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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.14 n.1 São Paulo Mar. 1980

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101980000100012 

NOTAS E INFORMAÇÕES NOTES AND INFORMATION

 

Nota sobre caso autóctone de tripanossomíase americana no litoral sul do Estado de São Paulo, Brasil*

 

A case of American Trypanosomiasis in the southern coastal region of S. Paulo State, Brazil

 

 

Oswaldo Paulo ForattiniI; Eduardo Olavo da Rocha e SilvaII; José Maria Soares BarataI; Elias BoainainIII

IDo Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP — Av. Dr. Arnaldo, 715 — 01255 — São Paulo, SP — Brasil
IIDa Superintendência de Controle de Endemias do Estado de São Paulo (SUCEN) — Rua Tamandaré, 693 — 01525 — São Paulo, SP — Brasil
IIIDo Instituto "Dante Pazzanese" de Cardiologia, Coordenadoria de Assistência Hospitalar da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo — Av. Dante Pazzanese, 500 — São Paulo, SP — Brasil

 

 


RESUMO

Descreve-se em caso autóctone de tripanossomíase americana no litoral sul do Estado de São Paulo, Brasil. As evidências sugerem a hipótese de a transmissão ter ocorrido graças à contaminação durante o manuseio de carcaças de animais silvestres utilizados na alimentação.

Unitermos: Tripanossomíase americana, transmissão por contaminação. Triatoma tibiamaculata. Focos naturais.


ABSTRACT

An indigenous case of American Trypanosomiasis in the southern coastal region of the State of S. Paulo is reported on. There are no synanthropic triatominae vectors in the area; therefore the transmission mechanism may have been the handling of wild mammal carcasses while they were being prepared for consumption.

Uniterms: Trypanosomiasis, South American, transmission by contamination. Triatoma tibiamaculata. Natural foci.


 

 

INTRODUÇÃO

Tem sido esporádico o registro de casos de tripanossomíase americana, atribuíveis a contatos com elementos da biocenose silvestre. Com efeito, ao se considerar a existência de focos naturais da parasitose, as relações diretas do homem com vetores e reservatórios que deles participam, têm de, forçosamente, serem encaradas como de natureza casual ou propiciadas por atividades exercidas no ambiente extradomiciliar. É nesses aspectos gerais que se incluem as hipóteses levantadas para explicar a ocorrência de infecções, tanto em homens como em animais domésticos, assinaladas em várias regiões e sem que tenha sido possível evidenciar a atuação de populações locais de triatomíneos domiciliados (Rodrigues e Melo 7 ,1942; Silva e col.9, 1968; Shaw e col.8, 1969; Fraiha Neto4, 1977; Williams e col.10, 1977; Kazacos e Hastings 5, 1979).

O ecossistema da Serra do Mar, representante do bioma das florestas perenifólias higrófilas, constitui centro de dispersão que se estende ao longo da costa brasileira, desde o Estado de Santa Catarina até os Estados nordestinos (Fig. 1). No que concerne a essa região tem-se evidenciado, em várias oportunidades, a presença de focos naturais da tripanossomiase americana, com a participação, entre outros, de marsupiais Didelphis e de triatomíneos como o Pansirongylus megistus e o Triatoma tibiamaculata. Contudo, a existência da infecção nesse caráter enzoótico silvestre tem repercutido raramente na população humana local. Neste sentido pode-se citar um caso descrito no litoral do Estado do Paraná (Moura e col.,6 1969). Tal aspecto deve-se à falta de domiciliação dos triatomíneos os quais, pelo menos no estado atual desse ambiente, parece não terem desenvolvido essa capacidade de adaptação (Forattini e col.3, 1978). Dessa maneira, a ocorrência de outro caso em tais circunstâncias merece ser descrito e apreciado à luz desses aspectos epidemiológicos.

 

DESCRIÇÃO DO CASO

EP, 9 anos de idade, sexo feminino, natural da zona rural do município de Cananéia, Estado de São Paulo, tendo sempre residido no Bairro Taquari, Sta. Maria (Fig. 1). Nos primeiros dias de abril de 1979 começou a apresentar quadro febril intermitente, com exacerbações vespertinas que somente cediam graças ao auxílio de antitérmicos. A febre era acompanhada de cefaléia, astenia e mialgia. Posteriormente, devido ao aparecimento de inúmeras máculas avermelhadas na superfície corporal, foi levada à consulta médica na cidade de Cananéia. Nessa oportunidade, levantou-se a suspeita de tratar-se de rubéola. Apesar de medicada, e não apresentando melhoras, compareceu ao posto local da SUCEN para a coleta de sangue da polpa digital, visando ao diagnóstico de malária, face ao surto da doença que na ocasião estava em pleno andamento no município. O exame hemoscópico da gota grossa revelou a presença de formas tripomastigotas. Esse exame foi repetido em 24 do mesmo mês, obtendo-se positividade tanto em gota espessa como em esfregaços. Nessa mesma data, a paciente foi submetida ao xenodiagnóstico com 10 ninfas de quinto estádio de Triatoma infestans. O primeiro exame dos insetos, decorridos 30 dias, revelou-se positivo para formas epimastigotas. A imunofluorescência indireta de sangue coletado em papel, após punção digital, forneceu resultados positivos em três exames com os títulos de 1/80 em 26.1 V. 79, de 1/320 em 4. V. 79 e 1/320 em 10.V.79. A reação de fixação de complemento foi também positiva. Ao exame físico não foi possível evidenciar a porta de entrada do parasito. Como digno de nota, constatou-se palidez das mucosas e poliadenopatia. A paciente negou passado mórbido ou que tivesse se submetido a cirurgia ou transfusões de sangue. A partir de 7.V.79 foi medicada com benzonidazol na posologia de 13mg/Kg./dia. Em 17.V.79 apresentou erupção morbiliforme generalizada, com prurido intenso. Com a ministração de medicação antialérgica, a manifestação desapareceu decorridos 10 dias. Após esse fenômeno, continuou evoluindo satisfatoriamente, sem outros efeitos colaterais indesejáveis.

 

CARACTERÍSTICAS LOCAIS

A localidade onde reside o caso acima descrito, encontra-se no Bairro Taquari — Santa Maria, na zona rural do município de Cananéia (Fig. 1). Dista cerca de seis quilômetros da rodovia que liga Itapitangui a Ariri, e o acesso é feito a pé ou a cavalo. Esse núcleo é constituído por três casas de tábuas, além dos respectivos anexos, apresentando condições precárias de conservação. Naquela que serve de residência ao caso aqui relatado, pôde-se observar o armazenamento de milho, sob a forma de grande número de espigas empilhadas junto a uma das paredes do compartimento que é utilizado como sala. Tal fato resulta em atrativo para a presença de roedores, o que foi confirmado pela mãe de EP. A proximidade da vegetação é grande, destacando-se a freqüente presença de palmeiras Attalea (Figs. 2 e 3). O exame da habitação da paciente não revelou a presença de triatomíneos. Os moradores declararam já terem ouvido falar da existência de "barbeiros", porém nunca viram exemplar algum, em sua casa ou na vizinhança. Essa afirmação foi mantida mesmo diante do "mostruário" apresentado, contendo adultos de P. megistns, T. infesians e T. tibiamaculata.

Os habitantes referiram que comumente se alimentam de carne de animais silvestres, especialmente mamíferos dos quais os tatus (Dasypodidae)) são os capturados com maior freqüência. Os trabalhos de cozinha implicam o preparo dessas caças para a cocção, e são realizados principalmente pelos elementos femininos da família. A menina que constitui o caso presentemente apresentado participa auxiliando a mãe nessas atividades. Esta declarou que, no período de fevereiro a março, portanto imediatamente anterior ao aparecimento da infecção em sua filha, a família comeu vários tatus, um deles apresentando características que julgou sensivelmente estranhas, tanto que teve dúvidas em servi-lo à mesa.

Em 14 habitantes do Bairro foi realizada a prova de imunofluorescência revelando-se em todos completamente negativa. Da mesma forma, idêntico resultado foi obtido com os xenodiagnósticos levados a efeito em seis cães ali encontrados.

O exame de uma palmeira Attalea, localizada a cerca de 70 metros da casa da paciente, revelou a presença de foco natural de Trypanosoma tipo cruzi (Figs. 2 e 3). Foram coletados 5 exemplares de Triatoma übiamacalata, sendo três adultos (2 1 ) e duas ninfas. Estas revelaram-se infectadas e o material, inoculado em ratos albinos, resultou no aparecimento de formas tripomastigotas no sangue circulante, a partir do 11o dia de inoculação.

 

COMENTÁRIOS

Como foi dito constitui fato raramente relatado a ocorrência de casos de tripanossomíase americana que possam ser atribuídos ao relacionamento direto com elementos dos focos naturais da parasitose. No que concerne a esta região do Sistema da Serra do Mar, pode-se citar o descrito no litoral do Estado do Paraná. Tratou-se de indivíduo adulto, de 51 anos de idade e do sexo masculino o qual, provavelmente, adquiriu a infecção em conseqüência de suas atividades de caçador (Moura e col.6, 1969). Para tanto, admite-se que tendo freqüentemente acampado e dormido nas matas da região, ter-se-ia exposto à ação hematófaga de triatomíneos silvestres. Contudo, parece lícito levantar também a hipótese de contaminação acidental pelo manuseio de carcaças dos animais silvestres abatidos com a finalidade de, no caso referido, esfolá-los e aproveitar as respectivas peles. Tal possibilidade, aliás, já apontada há considerável tempo no quadro epidemiológico (Brumpt1, 1939).

Essa maneira de aquisição da parasitose encontra suporte em várias observações. Com efeito, é já apreciável o número de acidentes comprovados em laboratório e atribuídos a contaminações com, entre outro materiais, sangue de animais inoculados (Brener citado por Dias2, 1979). Dessa maneira, torna-se lícito admitir que o mesmo possa ocorrer com os naturalmente infectados. Assim, tanto no caso supramencionado, do Estado do Paraná, como no aqui relatado, pode-se invocar esse mecanismo de transmissão. Com efeito, o costume de consumir carne de animais silvestres, francamente declarado pela família de EP, torna perfeitamente admissível a hipótese de contaminação durante o esfolamento e espostejamento da carcaça, e o preparo da carne para a cocção. Esse hábito, largamente difundido na população local, torna também viável a suposição de que o caráter acidental desse tipo de transmissão seja, na realidade, mais freqüente. Em sendo assim, é provável que exista na região quadro de baixa endemicidade de tripanossomíase americana, mantido graças a essa modalidade de contaminação com o agente etiológico.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BRUMPT, E. Quelques faits épidémiologiques concernant la Maladie de C. Chagas. Presse méd., 47:1081-5, 1989.        [ Links ]

2. DIAS, J. C. P. Mecanismos de transmissão. In: Brener, Z. & Andrade, Z. A., ed. Trypanosoma cruzi e doença de Chagas. Rio de Janeiro, Ed. Guanabara Koogan, 1979. p. 152-74.        [ Links ]

3. FORATTINI, O. P. et al. Aspectos ecológicos da tripanossomíase americana. XII — Variação regional da tendência de Panstrongylus megistus à domiciliação. Rev. Saúde públ., S. Paulo, 12:209-33, 1978.        [ Links ]

4. FRAIHA NETO, H. Panorama atual das parasitoses na Amazônia. Belém, SUGAM, 1977.        [ Links ]

5. KAZACOS, K. R. & HASTINGS, T. F. Trypanosomiasis Trypanosoma cruzi in Indiana: possibly introduced by translocation wildlife. Vet. publ. HUH Notes, p. 5-6, Jan. 1979.        [ Links ]

6. MOURA, A. et al. Cardiopatia chagásica de origem silvestre no litoral paranaense: estudo epidemiológico da área. Rev. Inst. Med. trop. S. Paulo, 11: 408-24, 1969.        [ Links ]

7. RODRIGUES, B. A. & MELO, G. B. Contribuição ao estudo da tripanossomíase americana. Mem. Inst. Oswaldo Cruz, 37:77-90, 1942.        [ Links ]

8. SHAW, J. et al. Considerações sobre a epidemiologia dos primeiros casos autóctones de doença de Chagas registrados em Belém, Pará, Brasil. Rev. Saúde públ., S. Paulo, 3:153-7, 1969.        [ Links ]

9. SILVA, N. N. da et al. Surto epidêmico de doença de Chagas com provável contaminação oral. Rev. Inst. Med. trop. S. Paulo, 10:265-76, 1968.        [ Links ]

10. WILLIAMS, G. D. et al. Naturally occurring trypanosomiasis (Chagas disease) in dogs. J. Amer. vet. med. Ass., 171: 171-7, 1977.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 13/09/1979
Aprovado para publicação em 30/10/1979

 

 

* Realizado pelo Centro Brasileiro de Estudos Entomológicos em Epidemiologia (CENTEP).