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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.14 n.3 São Paulo Sep. 1980

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101980000300001 

EDITORIAL

 

Terá sido a erradicação mundial da malária empreendimento insenstato?

 

Was malaria eradication a foolish interprise?

 

 

Oswaldo Paulo Forattini

 

 

Com essa pergunta o eminente Professor Bruce-Chwatt comenta, em mesa redonda, a exposição de Farid publicada no "World Health Forum", recente e oportuno periódico da Organização Mundial da Saúde. A resposta continua sendo, mais do que nunca objeto de apaixonadas discussões, iniciadas em 1969 quando da 22a Assembléia Mundial de Saúde, em que admitiu-se o controle como alternativa à erradicação. Desde então, à euforia da década anterior sucedeu o ceticismo ou, segundo o mencionado articulista, a anarquia.

Tudo começou em 1955, quando a 8a Assembléia tomou a resolução de incitar os governos a transformarem seus programas de controle de malária em outros que objetivassem a erradicação. Seguiram-se anos de grande entusiasmo, com a criação de serviços específicos inteiramente voltados para essa atividade. Várias instituições, dentre as quais figurou também a Faculdade de Saúde Pública, encarregaram-se da formação de recursos humanos mediante a instalação de cursos especializados. Os primeiros e espetaculares sucessos emprestaram grande brilho a essa década, em que a malariologia talvez tenha alcançado seu ponto culminante, no âmbito geral das atividades de saúde pública. Extensas regiões chegaram às fases de consolidação e manutenção e, em algumas chegou-se a considerar a endemia como erradicada. No entanto, com o passar do tempo,ou objetivo final da erradicação mundial parecia cada vez mais longe, obrigando a sucessivos adiamentos na conclusão dos programas. Começaram a ocorrer reinfestações em áreas já "limpas", impondo o reinício das atividades locais. Finalmente, a partir de 1968 já se evidenciava o declínio do empreendimento, culminando, no ano seguinte, com a resolução que admitia a volta ao simples controle, como alternativa para os países que assim o desejassem.

Que teria ocorrido? O que teria falhado nas previsões que levaram a essa iniciativa? Não teriam sido suficientes as experiências anteriores, para justificar a adoção desse programa? São perguntas que têm causado intermináveis polêmicas, Se na verdade surgiram razoes técnicas para corroborar na explicação do fracasso, como a resistência de anofelinos aos inseticidas e de plasmódios as drogas, não é menos certo que outras, e em grande número, contribuíram decisivamente para esse resultado. O exame particularizado das várias situações poderá apontar para a ocorrência de múltiplos problemas locais, como a detecção inadequada ae casos, o deficiente treinamento de recursos humanos, a conseqüente impropriedade no tratamento de surtos ocasionais, a prematuridade do inicio da fase de consolidação e vários outros aspectos. Entre estes, como bem aponta o mencionado Professor, está a elevação do custo das atividades antimaláricas, acarretando a relutância e mesmo a má vontade de muitos governos em destinar recursos para o controle de endemia supostamente eliminada como problema.

Contudo, existiram e persistem fatores de caráter bem mais geral os quais, é bom que se diga, contribuíram em muito e, ao que tudo indica, tendem a continuar influindo nas atividades de controle. Um deles é aquele representado pelo advento do DDT e dos demais inseticidas de poder residual. Tais compostos foram elevados à categoria de verdadeiras substâncias milagrosas ou "salva-vidas", cujo emprego encerrava a solução definitiva e única do problema. Esse conceito provocou geral obnubilação, levando ao completo abandono dos métodos anteriormente usados e, o que foi mais grave, relegando a segundo plano, ou mesmo desencorajando, a realização de pesquisas consideradas desnecessárias mas que teriam trazido valiosos subsídios. A emergência de novas nações com crescente número de "prioridades em saúde", levou também a considerar a malária, no máximo, como apenas mais uma delas, se não a relegá-la a segundo plano. Por sua vez, os países desenvolvidos voltaram suas preferências para programas internacionais como planejamento familiar e erradicação da varíola, que mais vinham ao encontro de seus interesses imediatos. De certa maneira, esses fatores atuaram sinergicamente e o trabalho com malária perdeu prestígio, resultando na deserção dessa atividade por parte de numerosos especialistas.

Decorridos mais de dez anos da citada resolução de 1969, a endemia malárica tende aumentar em vários países, ameaçando inclusive os assim ditos desenvolvidos, mediante a freqüente importação de casos. Tem sido atitude cômoda e largamente adotada, culpar a OMS por essa situação. No entanto isso é improcedente pois, deve-se reconhecer que foram alcançados resultados positivos, se comparado o panorama atual com o dominante na fase pré-erradicação. No caso particular do Continente Americano, a atuação independente da Organização Panamericana da Saúde tem continuado a apoiar programas técnica e cientificamente eficientes. Comprova-a a inclusão, na próxima reunião anual do seu Conselho Diretor, de tema referente a "plano para promoção e apoio de programas contra a malária no hemisfério". Contudo, é de se pensar que a retomada da exclusiva campanha de erradicação encontraria, nos dias de hoje, quadros bastante diversos dos que caracterizavam a década dos anos cinqüenta. A crise econômica com elevação considerável do preço do petróleo e seus derivados, desencadeou processo inflacionário de caráter mundial. Conseqüentemente, os inseticidas e produtos químicos em geral tiveram seu custo grandemente aumentado. Acresce o problema geral da poluição do ambiente, tornando ainda mais problemático o emprego dessa técnica.

Torna-se pois imprescindível a retomada de pesquisas com maior intensidade, objetivando a descoberta de novas armas. A dinâmica populacional e o comportamento das populações vetoras oferece tema promissor nesse sentido. A variação intra-específica da suscetibilidade de anofelinos à infecção malárica constitui exemplo de campo a ser explorado com vistas a possíveis transformações na composição populacional desses insetos. Ao lado disso, o controle biológico, a proteção individual e habitacional, a retomada das técnicas de engenharia sanitária e a luta antilarvária, representam outros tantos terrenos férteis para investigações de grande utilidade. Em países como o Brasil, que acusou em 1979 número superior a 100.000 casos, é imperioso desenvolver política de pesquisas nesse sentido.

É bem verdade que outras atividades, consideradas de maior prestígio, atraem os investigadores que militam na saúde pública. Estudar assuntos pertinentes à malária, hoje em dia, tende a ser olhada como atividade um tanto passadista ou "démodé". Raros são os egressos das escolas médicas e biomédicas em geral que se sentem atraídos por assuntos como esse e, ainda menos, pelos estudos entomológicos. Assim, a malariologia em particular, e o estudo das doenças veiculadas por vetores biológicos em geral, têm cada vez menos adeptos. O que mais atrai e entusiasma a nossa juventude que deseja encaminhar-se para a pesquisa, são os grandes problemas urbanos, com os seus quadros sociais, degenerativos, poluidores e agressivos. No entanto, não se deve esquecer a malária como tator de miséria, de improdutividade e de degradação de regiões inteiras de onde em última análise; provem o sustento fornecido pela agropecuaria. E chegada a hora de meditar se em conjuntura como a atual, onde somente se reconhecem dois tipos qualitativos de nações, as desenvolvidas e as em desenvolvimento, este tão apregoado desenvolvimento objetiva a memorar a qualidade da vida humana ou se essa melhoria destina-se apenas a propiciar aquele.

Mas, como bem menciona Russell, a maioria das raças resistentes de Homo sapiens, não o são de maneira genética. O seu comportamento poderá ser mudado pela consciência e pelo racionalismo. Daí, e talvez mais cedo do que se espera, novo entusiasmo poderá surgir, novas equipes se formarão e, com a experiência adquirida, nova luta global será encetada. Talvez não mais para obter espetaculares sucessos a curto prazo. Mas sim para tornar o problema da malária, se não erradicado, pelo menos eliminado para o homem na face da terra e em um dia não muito longíquo.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FARID, M. A. The malária programme-from euphoria to anarchy. Wld Hlth Forum, 1:8-21, 1980.

BRUCE-CHWATT, L. J. Meed for New weapous. [Discussion of Farid paper: The malaria programme-from euphoria to anarchy.] Wld Hlth Forum, 1:23-4, 1980.

RUSSELL, P. F. Goal of eradication must be maintained. [Discussion of Farid paper: The malaria programme-from euphoria to anarchy.] Wld Hlth Forum, 1:31, 1980.