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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.14 n.3 São Paulo Sep. 1980

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101980000300011 

Pesquisa de aglutininas anti Brucella canis em soros humanos na cidade de São Paulo, Brasil1

 

Research on agglutinins for Brucella canis in human sera in the city of S. Paulo, Brazil

 

 

Maria Helena Matiko Akao Larsson

Do Departamento de Patologia e Clínica Médica da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP — Cidade Universitária — 05508 — São Paulo, SP — Brasil

 

 


RESUMO

De 330 soros humanos examinados pela prova de soroaglutinação lenta em tubos, 4(1,21%) apresentaram aglutininas anti Brucella canis em diluição 1:100 (1 reagente com título 100, 2 reagentes com título 200 e 1 reagente com título 400).

Unitermos: Sorodiagnóstico. Aglutininas. Brucella canis.


ABSTRACT

Of the 330 human sera tested by tube agglutination test, 4 (1.21%) were positive for Brucella canis antibodies with tilers 1:100 or higher (1 reagent with titer of 1:100, 2 reagents with titer of 1:200, and 1 reagent with tiler of 1:400).

Uniterms: Serodiagnosis. Agglutinins. Brucella canis.


 

 

INTRODUÇÃO

A brucelose canina é uma doença contagiosa de cães que se caracteriza por comprometimento de tecidos linfóides, aborto e infertilidade (Moore13, 1969; Spink15, 1970; Spink e Morisset16, 1970; Meyer12, 1974 e no Symposium on Immunity. . .18, 1970) e bacteremia prolongada (Spink 15, 1970; Van Hoosier Jr. e col.19, 1970; Carmichael e George3, 1976).

O perigo da transmissão da brucelose canina ao homem foi abordado por Faigel6 (1969), Freeman8 (1971) e Wooley e col.21 (1976). Embora o único animal que tem apresentado infecção natural por Brucella canis seja o cão, a doença tem potencial zoonótico devido à estreita relação entre esse animal e o homem (Lewis Jr. e Anderson10, 1973), fato este que tem sido comprovado através dos relatos de casos humanos de infecção por Brucella canis (Carmichael e col.4, 1968; Swenson e col.17, 1972; Blankenship e Sanford2, 1975; Lovejoy e col.11, 1976) e também através dos trabalhos de prevalência de aglutininas anti Brucella canis em soros humanos (Lewis Jr. e Anderson10, 1973; Hoff e Schneider9, 1975; Barg e col.1, 1977; Weber e Bruner 20, 1977).

Constam da literatura médica vários trabalhos referentes a relatos de casos humanos de doenças por Brucella canis. Carmichael e col.4, 1968 foram os pioneiros a descrever a infecção no homem, em 2 laboratoristas, que se infectaram acidentalmente, trabalhando com amostras de Brucella canis e Swenson e col.17 (1972) descreveram o primeiro caso humano de infecção por Brucella canis adquirido em conseqüência do contacto com animal doente. O paciente envolvido neste caso tratava-se de uma mulher de 23 anos de idade, portadora de doença cardíaca reumática, que apresentava febre, tremores e faringite, cuja hemocultura foi positiva para Brucella canis e cujo título aglutinante foi igual a 200. Através de investigação epidemiológica incriminou-se um animal da espécie canina, fêmea, com hemocultura positiva, como sendo a fonte de infecção.

Munford e col.14 (1975) relataram outros 2 casos humanos de infecção por Brucella canis em indivíduos não envolvidos profissionalmente ao risco da infecção e que apresentavam sintomas tais como: febre, calafrios, indisposição e perda de peso. Um outro caso de doença humana por Brucella canis foi relatado por Blankenship e Sanford2 (1975) cuja paciente apresentava febre e bacteremia de 4 meses de duração, e ao exame clínico observaram-se ainda linfadenopatia, hépato e esplenomegalias.

Assim sendo, segundo o Center for Disease Control5 (1977), existem relatados na literatura médica, no período de 1967-1974, 16 casos humanos de infecção por Brucella canis.

O presente trabalho tem a finalidade de verificar a ocorrência da infecção por Brucella canis na cidade de São Paulo.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Trezentos e trinta soros humanos2 foram examinados para pesquisa de aglutininas anti Brucella canis. Os soros foram mantidos a -20°C até o momento da execução da prova de soroaglutinação lenta, utilizando-se apenas aqueles sem evidência de hemólise.

A prova de soroaglutinação lenta foi realizada segundo a técnica preconizada por Carmichael (1976)3, obedecendo as recomendações a seguir.

Preparação do antigeno: o antígeno para método lento foi preparado a partir de culturas de Brucella canis (RM 6-66), com 48-72 horas de crescimento, em garrafas de Roux contendo "Brucella agar". As bactérias eram removidas da superfície do agar pela adição de 25 ml de solução tamponada (pH 7,2 e 0,15M). A suspensão resultante era filtrada através de seis camadas de gaze e lavada duas vezes com a referida solução tamponada, por meio de centrifugação a 10.000 r.p.m., durante 20 min. Após a segunda lavagem, o sedimento era ressuspenso em aproximadamente 10 ml de citada solução tamponada e mantido em banho-maria, a 60-62°C durante duas horas, obtendo-se, desta forma, antígeno com brúcelas mortas. Em seguida adicionava-se à suspensão, como preservativo 0,01% de mertiolate. O antígeno concentrado, assim obtido, era armazenado a 4°C, até o momento do uso. Para a realização da prova, o antígeno era diluído de forma a obter-se densidade de 0,2, em comprimento de onda de 420 nm, em espectofotômetro Coleman Jr. II, modelo 6/20.

O procedimento para execução da prova de soroaglutinação lenta foi o seguinte:

a) tubos de ensaio 12x75mm eram numerados de 1 a 7;

b) com uma pipeta de 0,1 ml, colocavam-se 0,04, 0,02, 0,01 e 0,005 ml de soro, respectivamente, nos tubos 1, 2, 3 e 4. A seguir, preparava-se uma solução diluída de soro (1:10), em solução tamponada (pH 7,2 e 0,15M) que era colocada nas quantidades de 0,08, 0,04 e 0,02 ml, respectivamente, nos tubos 5, 6 e 7;

c) para obtenção das diluições 1 :50, 1:100, 1:200, 1:250, 1:400, 1:500 e 1:1.000, adicionavam-se, a cada tubo, 2 ml de antígeno diluído: a seguir, os tubos eram incubados a 50-52°C durante 48 h;

d) em todos os casos realizavam-se duas leituras, sendo a primeira após 24 h de incubação e a segunda após 48 h de incubação. Os resultados eram avaliados comparando-se o grau de turvação nos tubos, contendo soro desconhecido com o observado naquele contendo soro controle. Consideravam-se positivos os soros em cujos tubos não havia turvação e sim depósito, indicando aglutinação e, portanto, formação de complexo antígeno-anticorpo; consideravam-se negativos os soros cujos tubos permaneciam com turvação, após 48 horas de incubação;

e) consideravam-se com títulos significativos os soros que se revelavam positivos às provas de aglutinação quando diluídos a 1/200 ou mais.

 

RESULTADOS

Dos trezentos e trinta soros humanos examinados pela prova de soroaglutinação lenta, quatro foram positivos para Brucella canis, dos quais um com título 1:100, dois com título 1:200 e um com título 1:400.

 

DISCUSSÃO

Dentre os trabalhos relativos à prevalência de aglutininas anti Brucella canis em soros humanos, podem-se citar os de: Hoff e Schneider9 (1975) que encontraram 3 (0,99%) reagentes com título > 1:200, de um total de 303 amostras examinadas;

Lewis e Anderson 10 (1973) que, examinando 1208 soros de recrutas militares norte-americanos, através da prova de soroaglutinação lenta, encontraram uma percentagem de soropositividade de 0,41, considerando positivos aqueles soros reagentes em diluições > 1:100; Flores-Castro e Segura7 (1976) dentre 203 soros humanos examinados observaram 27 com título > 1:100, ou seja, 13,3% positivos; Barg e col.1 (1977) observaram uma prevalência de 0,81% de reagentes para anticorpos anti Brucella canis de um total de 2020 soros humanos (doadores de sangue); Weber e Bruner20 (1977) dentre 1915 soros humanos detectaram anticorpos aglutinantes contra Brucella canis em 6 amostras (0,31%) através do teste de soroaglutinação lenta.

Ainda é verdadeira a hipótese de que o homem pode, realmente, se infectar com o agente do aborto canino, conforme se denota pelos casos descritos na literatura (Carmichael e col.4, 1968; Swenson e col.17, 1972; Munford e col.14, 1975; Blankenship e Sanford2, 1975; Lovejoy e col.11, 1976). Sendo assim, deve-se pensar na possibilidade de infecção humana por Brucella canis nos casos em que ocorrem comprometimento de tecidos linfóides e hipertermia de etiologias indeterminadas.

 

CONCLUSÕES

Através da metodologia empregada neste trabalho, os resultados permitem concluir que a prevalência da infecção humana por Brucella canis, avaliada pela pesquisa de aglutininas específicas, foi realizada pela primeira vez em São Paulo, encontrando-se resultado igual a 1,21%.

 

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Recebido para publicação em 19/03/1980
Aprovado para publicação em 23/06/1980

 

 

1 Parte da Tese subordinada ao título "Estudo epidemiológico da brucelose canina". São Paulo, 1979", apresentada à Comissão de concurso de Doutorado em Saúde Pública, no Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP.
2 Cedidos pelo Laboratório Clínico do Centro de Saúde "Geraldo de Paula Souza" da Faculdade de Saúde Pública da USP.
3
Standard tube agglutination test protocol for Brucella canis diagnosis. 1976. Dados inéditos.