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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.14 n.3 São Paulo Sep. 1980

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101980000300013 

A reação de fixação do complemento na identificação de rotavírus humano*

 

The complement fixation test in the identification of human rotavirus

 

 

J. A. N. CandeiasI; M. L. RáczI; José Carlos BreviglieriII; Cornélio P. RosenburgIII

IDo Departamento de Microbiologia e Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP — "Setor Saúde Pública" — Av. Dr. Arnaldo, 715 — 01255 — São Paulo, SP — Brasil
IIDa Pediatria Clínica do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP — Av. Dr. Enéas Carvalho de Aguiar, 255 — 05443 — São Paulo, SP — Brasil
IIIDo Departamento de Saúde Materno-Infantil da Faculdade de Saúde Pública da USP

 

 


RESUMO

Após a eliminação da anticomplementaridade, foi utilizada a reação de fixação do complemento na identificação de rotavírus em 134 amostras de fezes de crianças até um ano de idade, com quadros diarréicos agudos. A percentagem total de positividade foi de 28,7% com percentagens mais elevadas de casos positivos nos grupos etários de 6 meses a 1 ano de idade.

Unitermos: Rotavírus. Anticorpos fixadores de complemento. Diarréia infantil.


ABSTRACT

After eliminating the anticomplementarity of the fecal extracts, complement fixation was used to detect human rotavirus in the stools of 35 (28.7%) out of 122 one-to twelve-month-old children with acute gastroenteritis. Infection was nigher in the 6-to 12-month-old children.

Uniterms: Rotavirus. Complements fixation tests. Diarrhea, infantile.


 

 

INTRODUÇÃO

Os trabalhos de Bishop e col.3, Flewett e col.11, Middleton e col.19 e Kapikian e col.13 estabeleceram a relação etiológica entre os rotavírus e determinados quadros de gastroenterites infantis. Eventualmente são descritos quadros diarréicos, em adultos, com a mesma etiologia 4,12,16,21,27.

Dentre a multiplicidade de métodos utilizados para a identificação de rotavírus humanos 1,5,6,14,22,23,25, a reação de fixação do complemento, muito embora constituísse um método de simples execução, tinha seu uso limitado pela elevada freqüência com que os extratos fecais se mostravam anticomplementares 18. Recentemente, Zissis e col.28 descreveram um método para eliminação da anticomplementaridade dos extratos fecais, com o que passou esta reação a ter mais amplas possibilidades de utilização rotineira, na identificação de rotavírus.

No presente trabalho apresentam-se os resultados obtidos na identificação de rotavírus em extratos fecais provenientes de crianças com gastroenterite infantil, tendo-se usado a reação de fixação do complemento.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Amostra de fezes

As 134 amostras de fezes obtidas de crianças com quadros diarréicos agudos foram tratados conforme técnica descrita por Zissis e col.28 e conservadas a - 20°C, para posterior utilização. No momento em que se submeteram os extratos fecais a exame, foram estes adicionados de soro fetal bovino, previamente inativado a 56°C, durante 30 minutos, segundo a técnica descrita por aqueles autores. Só foi possível aproveitar 122 amostras, por não se ter conseguido retirar a anticomplementaridade de 12 amostras, o que representa uma perda percentual de 8,9%, em relação ao total de amostras colhidas.

Soros anti-rotavírus

Foram usados soros humanos com anticorpos fixadores de complemento para rotavírus com títulos maiores ou iguais a 64, na diluição de 1:16.

Reação de fixação do complemento

Para a execução desta reação seguiu-se a técnica estabelecida pelo United States Public Health Service24. Trata-se fundamentalmente, de uma microtécnica para volumes de 25ml que utiliza hemácias de carneiro a 2,8%, uma dose ótima de hemolisina a 5 unidades de complemento CH 50. Foi inicialmente feita uma triagem para identificação dos extratos fecais positivos na diluição a 1:2 (25ml do extrato misturados com 25ml de soro fetal bovino, previamente inativado); os extratos positivos foram subseqüentemente titulados desde a diluição a 1 :2 até à diluição a 1 :64. Depois de adicionados o soro anti-rotavírus e o complemento, as microplacas foram incubadas a 4°C durante 15 a 18 horas, em câmara úmida. Antes de se adicionar o sistema hemolítico, passou a incubação a ser feita, por 20 min., em estufa a 37°C; após a adição do sistema hemolítico manteve-se a incubação a 37°C por um período complementar de 60 min., depois do que se transferiram as placas para ambiente a 4°C, onde foram mantidas durante 3 h. Terminada esta última incubação procedeu-se à leitura dos resultados, por comparação com um padrão de cores, também preparado em microplaca. Considerou-se, como título, a recíproca da maior diluição do extrato fecal em que a percentagem de hemólise não ultrapassava 30%, desde que não ocorresse anticomplementaridade e respeitadas as percentagens de hemólise previstas para os controles.

 

RESULTADOS

Na Tabela apresentam-se os resultados obtidos na identificação de rotavírus em extratos fecais de crianças portadoras de quadros diarréicos agudos.

A análise da distribuição dos títulos fixadores do complemento, obtidos nos extratos fecais positivos para rotavírus, evidencia que 54,3% apresentavam títulos compreendidos entre 2 e 4; títulos maiores do que 4 ocorreram em 45,7% dos casos positivos. Em termos da positividade por grupo etário, os dados permitem estabelecer que 17,6% (15/85) das crianças com idade inferior a 6 meses deram resultados positivos; no grupo de 6 meses a menos de 10 meses encontram-se 59,1% (13/22) de casos positivos; 46,6% (7/15) de casos positivos foram encontrados nos grupos etários compreendidos entre 10 meses e 12 ou mais meses.

 

DISCUSSÃO

O exame por microscopia eletrônica de extratos fecais obtidos de crianças com gastroenterite aguda tornou evidente que alguns vírus tais como adenovírus 10,20, coronavírus 7, astrovírus, mini-reovírus, parvovírus e rotavírus17 podem ser considerados como agentes etiológicos de quadros daquela natureza. Dentre esta já longa série de vírus, os rotavírus surgem como relacionados com a etiologia de mais da metade de todos os casos de gastroenterites infantis que ocorrem durante os meses de inverno 8. Nos chamados países em desenvolvimento as gastroenterites por rotavírus parecem constituir-se num quadro de relativa freqüência e, provavelmente, de marcada importância1,2,6,9,15,22,26. Um diagnóstico laboratorial rápido e simples das gastroenterites por rotavírus adquire, assim, um interesse muito particular. A identificação através da microscopia eletrônica e da imunoeletromicroscopia é de simples execução podendo examinar-se, rapidamente, um número relativamente elevado de espécimes, no entanto, o custo elevado deste tipo de exames é restritivo para um grande número de laboratórios. Do mesmo modo, a complexidade e o custo das técnicas imunoenzimáticas e de radioimunoensaio 25 constituem fatores limitantes de seu uso, muito embora os resultados obtidos com as mesmas sejam de particular precisão, o que muito justificaria seu uso generalizado. Restam as técnicas de fluorescência em cultura celular 2,5, de contraimunoeletroforese 6,18,23 e de fixaão do complemento 28 que pela sua simplicidade e baixo custo se tornam mais acessíveis. A contraimunoeletroforese mostra-se uma técnica econômica com resultados comparáveis aos da microscopia eletrônica, o mesmo ocorrendo com a fixação do complemento, em que os inconvenientes da anticomplementaridade podem ser contornados com a simples adição de soro fetal bovino 28. Nossos resultados, obtidos pela fixação do complemento, são comparáveis aos conseguidos, em trabalho anterior, usando a contraimunoeletroforese 6. Estes resultados concordam ainda com os conseguidos por Zissis e col.28, em termos da possibilidade de avaliar, quantitativamente, a eliminação de rotavírus e quanto à freqüência dos títulos encontrados. No grupo estudado por aqueles autores 80% dos casos positivos se distribuem entre os títulos de 4 e 32, enquanto nossas observações atingiram uma percentagem de 77,1%, na mesma faixa de títulos. Conforme os dados da Tabela, os casos positivos identificados em nosso estudo distribuem-se principalmente pelos títulos 2 e 4 (54,3%) e 8 e 16 (42,8%); só um caso apresentou título 32 (2,8%). Cálculo semelhante feito com os dados de Zissis e col.28 dá, para aquelas faixas de títulos, valores percentuais de 30,4%, 42,8% e 16,1%; esses autores obtiveram ainda 10,7% de resultados maiores que 32. A não obtenção em nossos resultados de títulos tão elevados pode estar relacionada com as diferenças entre as técnicas de fixação de complemento utilizadas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 17/04/1980
Aprovado para publicação em 23/06/1980

 

 

* Pesquisa financiada pelo Departamento de Assistência à Infância e Maternidade da Secretaria de Educação da Prefeitura Municipal de São Paulo.