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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.14 n.4 São Paulo Dec. 1980

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101980000400005 

Difteria. Situação imunitária de uma população infantil urbana de São Paulo, SP, Brasil

 

Diphtheria. Immunity in an infant population in the City of S. Paulo, SP, Brazil

 

 

Hideyo Iizuka; Joana Akiko Furuta; Edison P. Tavares de Oliveira

Do Instituto Butantan — Av. Vital Brasil, 1500 — 05503 — São Paulo, SP — Brasil

 

 


RESUMO

A verificação do teor de anticorpos antidiftéricos provenientes de 130 crianças de 7 a 10 anos de idade, do município de São Paulo, Brasil, revelou 31, 14 e 5% de indivíduos susceptíveis nas idades de 7, 8 e 9 anos, respectivamente. Todas as crianças de 10 anos de idade apresentaram proteção contra a difteria, revelando teor de antitoxina circulante em níveis superiores a 0,01 UI/ml. O teor médio de antitoxina diftérica encontrada variou de 0,0385 a 0,1315 UI/ml de soro, na população examinada.

Unitermos: Difteria, crianças, S. Paulo, Brasil. Antitoxina diftérica. Vacinação tríplice. Imunidade.


ABSTRACT

An ascertainment of the level diphtheria antibodies in 130 children, 7 to 10 years old, in the city of S. Paulo (Brazil), revealed susceptibility in 31% of the 7-year-olds, 14% in the eight-year-olds, and 5% in the nine-year-olds. All ten-year-olds had protective circulating antitoxin at levels superior to 0.01 IU/ml. Analysis of the results thus showed that susceptibility varies inversely to age. In the population examined, the mean diphtheric antitoxin content oscillated between 0.0385 and 0.1315 IU/ml of serum.

Uniterms: Diphtheria, children, S. Paulo, Brazil. Diphtheria antitoxin. DTP vaccination. Immunity.


 

 

INTRODUÇÃO

Ao contrário da maioria das doenças bacterianas, a difteria é uma infecção que se caracteriza por acometer principalmente crianças pertencentes a faixa etária pré-escolar e escolar 4,9,14,18,23,26,28.

Analisando os informes epidemiológicos publicados periodicamente, verificamos que em muitos países desenvolvidos a difteria é uma das doenças infecciosas que está sob controle; porém, nos países em desenvolvimento, apesar dos índices de morbidade e mortalidade demonstrarem tendência declinante, os mesmo continuam ainda bastante elevados1,5,24,30.

No Brasil, a difteria ainda constitui sério problema sanitário 3,14,28,29. Em São Paulo ela é endêmica, e a sua incidência apresenta além das flutuações sazonais, exacerbações periódicas 6,9.

Santos 26, analisando uma epidemia ocorrida em São Paulo, em 1959, verificou em elevada percentagem, maior suceptibilidade das crianças pertencentes à faixa etária compreendida entre 7 a 9 anos de idade. Melo 14, estudando 100 casos de internados em hospital de Belo Horizonte (MG), destacou que embora sendo alta a incidência da doença em escolares, ela era ainda maior entre os pré-escolares (47% e 18%, respectivamente).

Page 23, analisando a ocorrência da doença nos EUA, verificou que 60% do total dos casos e 69% dos óbitos resultantes ocorreram em crianças de menos de 10 anos de idade.

Por outro lado, a incidência de difteria é mais alta entre os segmentos populaciononais de baixo nível sócio-econômico, sendo os indivíduos subnutridos mais suceptíveis 13,20, devido à diminuição na intensidade da resposta imune12,22.

Em função dessas observações, e utilizando o modelo experimental anteriormente descrito 10,21, propomos no presente trabalho avaliar a suceptibilidade à difteria de um grupo de crianças, através da determinação da concentração de antitoxina diftérica circulante, pela técnica de microtitulação de soro, obtido por punção digital.

 

MATERIAL E MÉTODOS

As presentes observações foram realizadas num grupo de 130 crianças, de 7 a 10 anos de idade, sem distinção de sexo e raça, dotadas de baixas condições sócio-econômicas residentes nos subdistritos da cidade de São Paulo que compõem a "zona intermediária"12. Esta zona apresenta a maior concentração demográfica do município, totalizando mais de 50% de sua população. A sua taxa de expansão populacional está muito além do crescimento vegetativo, feita às custas da intensa corrente migratória que se fixa nestas áreas 12.

As informações concernentes ao número e datas das vacinações anteriormente recebidas, não foram consideradas, visto que as crianças nem sempre forneciam o histórico seguro das mesmas. Por outro lado, nenhuma delas relatou ter sofrido de difteria.

O sangue foi obtido de acordo com a técnica descrita por Oliveira e col.21, que consiste na punctura da polpa digital, com auxílio de lanceta tipo Frankel e absorção em fragmento de papel de filtro estéril, tipo Whatman no 31 e armazenados a 4°C, até o momento do processamento 10.

O doseamento de imunoglobulina diftérica circulante foi realizada conforme a técnica intradérmica, inicialmente descrita por Romer e Sames 25 e, posteriormente, modificada por Fraser e Wigham 7. Os títulos de antitoxina circulante foram analisados na amplitude que oscilava entre os valores compreendidos entre 0,01 a 1,0 UI/ml de soro, aferidos frente a antitoxina diftérica padrão internacional, fornecida pela Organização Mundial de Saúde.

 

RESULTADOS

Os níveis de antitoxina diftérica determinados nas 130 crianças de 7 a 10 anos de idade estão apresentados na Tabela 1. A média geométrica dos títulos de antitoxina circulante determinada para os quatro grupos etários oscilava entre os valores de 0,0385 UI/ml a 0,1315 UI/ml de soro. Foi verificado que cerca de 15% das crianças não apresentavam proteção segura contra a difteria, em virtude de revelarem teor de antitoxina diftérica em níveis inferiores a 0,01 UI/ml (Fig. 1), título a partir do qual, normalmente confere imunidade a doença11,15,19.

 

 

O título médio das amostras de antitoxina diftérica aumentou na razão direta da idade (Tabela 1), pois os níveis mais baixos foram detectados nas amostras procedentes do grupo etário de 7 anos com 0,0385 UI/ml, aumentando para 0,0773 UI/ml, no grupo de 8 anos, para 0,1026 UI/ml no grupo de 9 anos e, finalmente, atingindo a concentração de 0,1315 UI/ml no de 10 anos.

A Fig. 1 apresenta a distribuição da freqüência acumulada dos níveis de antitoxina diftérica. Podemos notar que cerca de 70% das crianças pertencentes à faixa etária de 7 anos revelaram título de 0,01 UI/ml. Neste mesmo grupo, 60% das crianças exibiram teor de antitoxina 3 vezes superior (0,03 — 0,1 UI/ml) e 22% delas 10 vezes (0,1 — 0,3 UI/ml); em cerca de 10% dos indivíduos os títulos antitóxicos estão pelo menos 30 vezes mais concentrados, pois ultrapassaram o nível de 0,3 UI/ml de soro. Nesta classe, aparecem os indivíduos hiperimunizados, representados por aqueles que possivelmente foram vacinados. No segmento etário que representa as crianças de 8 anos foram detectadas 86% de amostras de soros imunes (0,01 UI/ml), no de 9 anos, 94%. Todas as crianças de 10 anos de idade apresentam títulos antitóxicos superiores a 0,01 UI/ml de soro.

A distribuição percentual relativa das amostras de soro, desde os níveis de menos de 0,01 UI/ml até superiores a 0,3 UI/ml, de acordo com a classificação etária no grupo das crianças analisadas, podem ser verificadas na Fig. 2.

A Fig. 3 mostra que o grau de suceptibilidade à difteria se apresenta inversamente proporcional à idade das crianças. Assim, na menor faixa etária encontramos um maior número de indivíduos sem proteção à difteria, isto é, cerca de 30% das crianças com 7 anos de idade revelaram ser suceptíveis. Na de 8 anos, esta freqüência cai para menos de 15%, e, na de 9 anos somente cerca de 5% dos indivíduos apresentavam o risco de contrair a difteria.

 

 

DISCUSSÃO

Os resultados revelaram ser relativamente alta a percentagem de indivíduos susceptíveis à difteria dentre 130 crianças analisadas, pois em cerca de 15% delas não foram detectadas as quantidades mínimas de imunoglobulina antidiftérica, necessárias para conferir imunidade 11.

Apesar do pequeno número de observações, e confirmando os resultados de outros pesquisadores 9,16,19 foi possível constatar que a susceptibilidade à doença é inversamente proporcional à idade da criança (Tabela 1 e Fig. 3). Aliás, este fato ocorreu também com o tétano 10.

Os presentes dados são compatíveis com os achados de Nazari e col.19 que, examinando amostras de sangue coletada de indivíduos pertencentes aos grupos etários susceptíveis a difteria, concluiu que 74% das crianças da faixa etária de até 7 anos, e 91% de 7 a 13 anos, apresentaram proteção contra a difteria.

Chandra e col.3, estudando amostras de 293 crianças residentes em pequenas cidades da área rural detectaram a elevada percentagem de cerca de 45% de susceptíveis à difteria, através do teste de Schick. Em Massachussets 11 também foi verificado resultado da mesma magnitude.

Millian e col.15, analisando o estado imunitário de uma população de Nova York pertencente a faixa etária acima de 15 anos, constataram um percentual de susceptibilidade de cerca de 30%, valor que se aproxima das nossas observações na faixa etária de 7 anos.

Em nosso meio, Monteiro 17 estudando o grau de imunidade através do teste de Kellog, em 46 crianças na idade escolar, chegou à conclusão de que cerca de 23% delas eram susceptíveis a difteria. Guedes e col.8, pelo teste de Schick, encontraram cerca de 35% de indivíduos soro-negativos, isto é, Schick positivos; Iaria e col.9 também chegaram a conclusões semelhantes.

Atualmente, é cada vez maior em nosso meio a utilização do toxóide diftérico adsorvido pelo gel de A1(OH)32, combinado com os antígenos tetânico e pertussis (DTP), ao invés de vacina antidiftérica monovalente. Tem-se, dessa forma, a possibilidade de controlar, simultaneamente, as três doenças, e de maneira mais eficiente, em decorrência do efeito adjuvante representado pela fração pertussis 4,27.

Para a imunização primária dos indivíduos susceptíveis pertencentes à faixa etária acima de 6 anos, recomenda-se o emprego de vacina dupla diftérico-tetânica, do tipo — uso adulto (dT)27.

Portanto, apesar da difteria ser doença extremamente contagiosa sob condições naturais, aos segmentos populacionais compreendidos da infância até a fase pré-adulta, os programas de imunização realizadas adequadamente tendem a proporcionar sólida imunidade, conferindo à população eficiente proteção contra a difteria4.

 

CONCLUSÕES

1. Nas 130 crianças escolares examinadas, residentes no município de São Paulo, os títulos séricos médios de antitoxina diftérica circulante variavam entre os níveis de 0,0385 a 0,1315 UI/ml de soro.

2. Na população analisada, foi verificado que cerca de 85% das crianças mostraram proteção sólida contra a difteria.

3. Dentre as crianças examinadas, o maior contingente de susceptíveis à difteria foi detectado no segmento etário de 7 a 9 anos, totalizando aproximadamente 15% dos casos estudados.

4. Todas as crianças pertencentes à faixa etária de 10 anos, apresentaram títulos antitóxicos imunitários superiores a 0,01 UI/ml de soro.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Prof. Dr. Flávio Zelante do Departamento de Microbiologia e Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, e a Dna. Sibylle Heller do Instituto Butantan, pelas colaborações prestadas.

 

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Recebido para publicação em 23/05/1980
Aprovado para publicação em 12/09/1980