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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.16 n.4 São Paulo Aug. 1982

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101982000400002 

ARTIGO ORIGINAL

 

Investigação epidemiológica de, um novo caso de leishmaniose visceral ocorrido na Grande São Paulo, Brasil

 

Epidemiological investigation of a new case of visceral leishmaniasis in Greater S. Paulo, Brazil

 

 

Lygia Busch IverssonI; Raquel B. Robert PiresII; Maracy Alves RibeiroII; Augusta K. TakedaII; Alvaro Escrivão JúniorIII; José Eduardo TolezanoII; Geraldo Magela BuralliIV

IDo Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP - Av. Dr. Arnaldo, 715 – 01255 – São Paulo, SP – Brasil
IIDo Instituto Adolfo Lutz - Av. Dr. Arnaldo, 355 - 01255 - São Paulo, SP - Brasil
IIIDa Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo - Rua Conselheiro Nébias, 1355 - 01203 – São Paulo, SP – Brasil
IVDa Superintendência de Controle de Endemias - Rua Tamandaré. 693 - 01525 – São Paulo, SP – Brasil

 

 


RESUMO

Descreve-se uma investigação epidemiológica realizada em zona urbana do município de São Paulo, Brasil, para esclarecer um caso de leishmaniose visceral ocorrido em criança de 2 anos de idade, nascida e sempre residente no local. Afastou-se a possibilidade de transmissão congênita e se discutiram as hipóteses de transmissões por via transfusional e por vetor biológico, tendo como base os dados levantados da anamnese do doente, os resultados de inquéritos realizados na área em população humana, utilizando testes de imunofluorescência indireta, hemaglutinação passiva e intradermoreação de Montenegro, em população canina com o teste de imunofluorescência indireta, além de pesquisa entomológica em mata residual.

Unitermos: Leishmaniose visceral, vigilância epidemiológica.


ABSTRACT

An epidemiological investigation was made in the urban zone of S. Paulo, Brazil, to elucidate a case of visceral leishmaniasis that occurred in a two-year old child, born and always resident in that place. The possibility of congenital transmission was eliminated. The transmission by blood transfusion and biological vector was discussed on the basis of the past history of the child and the results of a serological survery in human population with indirect imunofluorescence, passive hemagglutination and leishmanin tests, serological survey on dogs and furthermore entomological research in residual forest situated in the neighbourhood of the patient's house.

Uniterms: Leishmaniasis, visceral. Epidemiologic surveillance.


 

 

INTRODUÇÃO

Em agosto de 1978 foram notificados às autoridades sanitárias de São Paulo dois casos de leishmaniose visceral em crianças menores de 2 anos de idade que sempre residiram na área metropolitana da Grande São Paulo. A investigação epidemiológica desses casos afastou a possibilidade de transmissão congênita da moléstia nos dois doentes e a de transmissão por transfusão sanguínea em um deles (Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, 1978 *; Iversson e col.22, 1979). Configurava-se a existência na região, fato inédito, de uma estrutura epidemiológica que permitia a circulação da Leishmania donovani em um ciclo natural que envolvia o hospedeiro humano.

Esses pacientes, na verdade, pareciam representar a parte revelada de um todo onde deveriam existir outros casos, sub-clínicos ou clínicos não diagnosticados. Um inquérito em que se utilizaram provas de imunofluorescência indireta, hemaglutinação passiva, fixação de complemento e a intradermoreação de Montenegro, realizado em grupo populacional residente próximo a um dos pacientes, revelou a presença de 3 crianças, aparentemente sadias, com provas sorológicas e reação de Montenegro condizentes com o diagnóstico de leishmaniose visceral subclínica (Iversson e col.22, 1979).

A existência de mata residual próxima sugeria a possível presença, não confirmada em algumas capturas efetuadas em outubro de 1978, da Lutzomyia longipalpis, considerada o principal vetor da moléstia no continente americano. No entanto, não foram conduzidas, recentemente, pesquisas entomológicas continuadas nessa como em outras matas residuais da Grande São Paulo. Não se dispunha, porisso, de elementos para concluir sobre a ausência ou presença desse díptero, já identificado em Salto de Pirapora, Cássia dos Coqueiros, Pirapora do Bom Jesus, outros municípios do Estado de São Paulo (Forattini e col.19,20, 1970, 1976). Há, no entanto, em 1912, uma referência de Lutz e Neiva26 (1912) à sua presença, durante vários anos, no bairro do Bosque da Saúde, município de São Paulo, localidade - tipo da espécie.

Os eventos humanos poderiam voltar a se repetir porque a transmissão natural da L. donovani ocorrida em 1978, em um dos casos mencionados, poderia não representar apenas um evento raro resultante da vinda ocasional para a área de um cão infectado. Também persistiam condições para a ocorrência de doença pós transfusional. De fato, em novembro de 1980, um novo caso de leishmaniose em uma criança de 2 anos de idade, sempre residente no município de São Paulo, um dos 37 municípios da Grande São Paulo, foi notificado às autoridades sanitárias por clínicos que diagnosticaram a moléstia e trataram o paciente. Aspectos da evolução clínica e das primeiras providências tomadas pelos notificantes, para elucidar a fonte de infecção, foram descritas em publicação anterior (Amato Neto e Blanco Filho5, 1981).

O presente trabalho relata a investigação epidemiológica realizada com o objetivo de esclarecer o problema e indicar as medidas profiláticas.

 

METODOLOGIA

Depois da verificação do diagnóstico, estabelecido após isolamento da Leishmania donovani de material medular, foram realizadas investigações junto ao hospital, onde se encontrava internado o paciente, e na residência do mesmo, obtendo-se as seguintes informações:

O doente F. O., de 2 anos de idade, nasceu em 27/9/78, no município de São Paulo, nunca tendo dele se afastado. Nascido de parto hospitalar, o paciente esteve internado 7 vezes em 4 hospitais diferentes, com sintomatologia pulmonar, durante as quais recebeu, em 6 ocasiões (30/3/79, 3/4/79, 4/8/78, 17/10/80, 18/10/80 e 25/10/80), transfusões sangüíneas. As três últimas foram realizadas um dia antes ou após a data da confirmação da leishmaniose visceral, 18/10/1980.

A mãe de F. O. nasceu em zona rural de Governador Valadares, Estado de Minas Gerais, e morou em zona urbana de Belo Horizonte e São Paulo. Recebeu há 6 anos uma transfusão sangüínea.

A residência do paciente está situada no bairro de Capão Redondo, sub-distrito de Capela do Socorro, Município de São Paulo (Figura 1). Trata-se de um dos precários barracos de madeira de uma favela construída no alto e na encosta de um morro, em meio à vegetação pouco densa formada por elementos de pequeno porte, principalmente bananeiras (musa paradisíaca). Situa-se há aproximadamente 1.500m dos limites de uma área de 1.250.000 m2 pertencente a uma instituição de ensino, ocupada em parte por mata residual. Entre essa área, localizada também em elevação, e a favela se estende um vale onde se observam espaços livres revestidos por vegetação rasteira e espaços preenchidos por denso casario (Figuras 2, 3, 4 e 5).

 

 

O sub-distrito de Capela do Socorro ocupa no município de São Paulo uma área de 151,06km2, com uma taxa de urbanização de 95,93%. Esse município, situado a uma altitude de 792 m, apresenta uma temperatura média anual de 18,8°C, temperatura média do mês mais quente de 21,6°C, temperatura média do mês mais frio de 15,2°C e umidade média relativa de 80 HR%34,35.

Diante dessas informações procurou-se investigar as mais prováveis vias de transmissão da moléstia: natural por vetor biológico, por via congênita e por transfusão de sangue.

A transmissão direta de canídeos ao homem, teoricamente possível tendo em vista o intenso pasitismo cutâneo nestes animais (Deane e Deane 14, 1955), não tem apresentado significado epidemiológico.

Para verificar a possibilidade de transmissão congênita, realizaram-se na mãe da criança exame clínico e provas sorológicas de imunofluorescência indireta (IFI) e hemaglutinação passiva (H.A.) com antígenos de L. donovani.

Afim de esclarecer uma possível transmissão transfusional coletaram-se informações que permitissem localizar os doadores das 3 primeiras transfusões de sangue e as outras pessoas que haviam recebido sangue proveniente dos mesmos frascos que foram utilizados no doente.

Para averiguar a eventualidade de transmissão natural, procedeu-se a inquéritos sorológicos em população humana e canídea e à pesquisa entomológica em mata próxima.

Inquérito sorológico em população humana

Coletaram-se amostras de sangue por punção digital profunda em papel de filtro de 344 pessoas residentes na favela. Para eluição das amostras foram recortados discos de 2 cm de diâmetro. A quantidade de sangue coletada de cada indivíduo foi calculada por diferença de pesos, em miligramas, dos discos impregnados de sangue e do mesmo volume de discos não impregnados. Os discos foram imersos em volumes calculados de solução tamponada fosfatada (STF), pH 7,2, necessários para a obtenção de amostras diluídas a 1/20, que foram em seguida analisadas em diluição dobradas, pelas provas de imunofluorescência indireta (IFI) e hemaglutinação passiva (H.A.), utilizando-se antígenos de L. donovani, L, braziliensis e T, cruzi.

As pessoas pesquisadas representavam 69% (344/495) dos moradores da favela, dos quais 65% (225/344) eram menores de 15 anos de idade e 25% (85/344) eram menores de 5 anos. Residiam em 146 barracos agrupados em dois conglomerados num raio de 200 m em torno da casa do doente. Uma proporção de 95% dos residentes (470/495) foi submetida a exame físico, visando observar principalmente a presença de adenopatias e hepatoesplenomegalia. Aplicou-se a essas pessoas um questionário em que se pesquisou a idade, naturalidade, tempo de residência no local, outros locais de moradia e antecedente conhecido de leishmaniose, moléstia de Chagas, malária, esquistossomose, tuberculose e hanseníase.

Nas 42 pessoas que apresentaram algum título nas provas sorológicas foi realizada em junho de 1981 uma segunda coleta de sangue, por punção venosa, e se repetiram as provas. Nessas pessoas e nos que com elas coabitavam, 92 pessoas no total, efetuou-se a intradermoreação de Montenegro.

Nos soros que apresentaram títulos compatíveis com diagnóstico de leishmaniose realizaram-se testes de inibição da hemaglutinação e de hemaglutinação passiva para L. donovani depois das amostras de soro terem, sido absorvidas com L. donovani, L. braziliensis e T. cruzi.

Para as provas de imunofluorescência indireta, foram utilizadas como antígeno formas epimastigotas de T. cruzi cepa Y e promastigotas de L. donovani e L. braziliensis, cultivadas em meio de Salles Gomes (Salles Gomes33, 1960) a 28oC durante 5 a 7 dias. A leitura foi feita em microscópio de epi iluminação Standard 18 Zeiss para imunofluorescência com filtro excitador FITC, barreira BG53 com lâmpada de halogênio 100 W e 12 V. Foram considerados positivos os soros que apresentaram título a partir de 40.

As provas de hemaglutinação para a pesquisa de anticorpos contra L. donovani e T. cruzi foram realizadas conforme descrito por Hoshino-Shimizu, S. e col.21 (1978). Para o preparo desses antígenos, foram usadas formas epimastigotas de T. cruzi cepa Y e promastigotas de L. donovani, obtidas por culturas em meio LIT, Liver Infusion Triptose (Fernandes e Castellani17, 1966), a 28°C durante 7 a 10 dias. Foram considerados positivos os soros reagentes em diluições a partir de 1/160, e duvidosos os que apresentaram título igual a 80.

Para o teste de inibição de hemaglutinação utilizou-se como inibidores os extratos antigênicos solúveis de T. cruzi e L. donovani. Cada antígeno foi misturado com o próprio diluente da reação (STF pH 6, 4), em quantidade suficiente para uma concentração final idêntica àquela utilizada para a sensibilização das hemácias. A concentração desses antígenos foi determinada tomando como referência seu conteúdo protéico, dosado através do método de Lowry e col.25 (1951).

Para o teste de Montenegro foi utilizada suspensão ultrassonada de leishmanias em salina fluoretada fenicada contendo 22,98 mg/ml de proteína. Foi aplicado, intradermicamente, 0,1 ml desta suspensão na superfície de flexão do antebraço esquerdo, sendo a leitura efetuada após 72 horas. A positividade da reação foi indicada pela formação de vesícula, pápula ou área de infiltração perceptível pelo tato com diâmetro > a 8 mm.

Inquérito sorológico em população canina

Foram pesquisados anticorpos para L. donovani, L. braziliensis e T. cruzi por teste de imunofluorescência indireta em 14 cães pertencentes a famílias em que pelo menos um dos componentes tivesse apresentado título nas provas de I.F.I, e H.A. Em um dos animais que apresentou anticorpos para L. donovani em título baixo, procedeu-se à pesquisa do parasita em material de biópsia de pele de orelha, pelo exame direto (impressão em lâmina) após cultura em meio de Ducrey e após inoculação em hamsters (Mesocricetus auratus), sacrificados após trinta e sessenta dias.

Pesquisa entomológica

Foi realizada pesquisa entomológica na mata residual próxima tendo sido efetuadas três capturas com Barraca de Shannon, em 27/11/80, 28/1/80 e 23/2/80, no horário vespertino e noturno, em dias de tempo bom, sem vento, umidade relativa acima de 80 HR%. Não foi obedecido programa previamente traçado.

 

RESULTADOS

Investigação de transmissão congênita

O exame físico da mãe de F.O. foi normal. Os testes de I.F.I, e H.A. foram negativos (soros não reagentes). O exame físico dos seus outros 4 filhos de 3, 6, 8 e 10 anos foi normal. Os testes sorológicos dessas crianças foram negativos (soros não reagentes).

Investigação de transmissão transfusional

Os endereços residenciais dos três doadores dos sangues transfundidos em 20/3/79, 3/4/79 e 4/8/80 foram exaustivamente investigados.

L.J.C. residente no bairro do Ipiranga, município de São Paulo, não foi localizado no endereço mencionado; para a localização de N.F., residente no município de Mauá, foram percorridas 16 ruas que apresentavam o mesmo nome, não tendo sido encontrado o doador; em relação a C.A.R., residente no bairro Americanópolis, município de São Paulo, foram percorridas as duas ruas do local que têm a denominação constante do endereço, com resultados negativos.

Procurou-se também investigar nos Bancos de Sangue a existência de outras pessoas que houvessem recebido sangue dos mesmos frascos utilizados nas transfusões de F.O. O frasco de sangue de L.J.C. não foi utilizado em nenhuma outra transfusão. O sangue de N.F. foi transfundido também em um menor de 6 meses de idade que apresentava broncopneumonia, gastroenterocolite e desidratação de 2o grau e que faleceu 7 dias depois da transfusão. O sangue de C.A.R. foi também aplicado em 3/8/79 em uma paciente adulta, com diagnóstico de carcinoma de intestino, que evoluiu para óbito em 18/8/79.

Investigação de transmissão natural

Inquérito sorológico em população humana. Entre os 344 investigados, 15 pessoas apresentaram títulos positivos nos dois testes realizados ou em um deles para L. donovani, L. braziliensis e T. cruzi. Entre esses, 5 pessoas apresentaram títulos condizentes com infecção por leishmania, cujos resultados estão expressos na Tabela 1. As outras 10 pessoas apresentaram ou só título para T. cruzi ou título 4 vezes maior para esse hemoflagelado.

Observa-se na Tabela 1 que os resultados positivos referem-se em geral ao teste de hemaglutinação e que ocorreu em C.C.S., S.F. e D.S. uma queda nos títulos entre as duas amostras colhidas com 5 meses de intervalo.

Um fato de interesse epidemiológico é que C.C.S., A.L.M. e S.F. nasceram e sempre viveram no município de São Paulo, em bairros próximos, estando residindo no atual local de residência há 5, 4 e 1 anos, respectivamente. L. C. L., de 25 anos, e D.S., de 50 anos, são naturais da Bahia morando no local há 3 e 4 anos, respectivamente. A.L.M. é vizinha do doente e as demais moram a 100 m do doente.

O exame físico das 5 pessoas foi normal, não se observando adenopatias, esplenomegalia ou hepatoesplenomegalia.

Para tentar eliminar reatividade sorológica heteróloga foram realizados testes de inibição de hemaglutinação e hemaglutinação passiva após absorção dos soros com antígenos totais de L. donovani, L. braziliensis e T. cruzi, Os resultados (Tabelas 2 e 3) evidenciam que os títulos diminuiram 4 vezes ou mais na reação de hemaglutinação após absorção dos soros por L. donovani e L. braziliensis e não se alteraram, ou apresentaram diminuição menor quando os soros foram absorvidos por T. cruzi. Também ocorreu total inibição da hemaglutinação quando se usou o antígeno de L. donovani e inibição apenas parcial com T. cruzi.

 

Tabela 4

 

Inquérito na população humana com intradermoreação de Montenegro – Duas pessoas apresentaram reação positiva (8 mm). Trata-se de adultos procedentes da Bahia, residentes no local há 2 e 10 anos, respectivamente. Nos testes de hemaglutinação apresentaram título <40; no teste de imunofluorescência os soros não foram reagentes. O exame físico nada revelou de anormal.

Inquérito sorológico em população canina

- Nenhum dos 14 cachorros investigados apresentou resultado positivo no teste de imunofluorescência indireta. Em um dos cães foi observado título 20, tendo sido o exame repetido com o mesmo resultado. A pesquisa da leishmania em pele de orelha deste animal foi negativa (exame direto, após cultura e inoculação em hamsters).

Pesquisa entomológica - Observou-se que a reserva florestal está completamente alterada, tendo sido cortada parte da vegetação baixa e arbustiva. A área central da mata foi derrubada para plantio de cereais, de tal forma que a reserva atual é um círculo de mata que vista do lado de fora parece ter grandes proporções.

 

COMENTÁRIOS E CONCLUSÕES

O doente investigado, a semelhança de um dos casos de calazar anteriormente mencionados, recebeu transfusões de sangue proveniente de doadores remunerados que não foram localizados.

Com os elementos disponíveis não pode ser eliminada a possibilidade de ter ocorrido transmissão transfusional da leishmaniose visceral. É bem verdade que o encontro do parasita no exame direto do sangue periférico de pacientes, na região neotropical, não é usual (Deane e col.15, 1938; Deane e Deane13, 1955; Sherlock37, 1964; Torrealba40, 1970), ao contrário de que sucede no calazar indiano em que, desde 1904 quando Christophers 10 relatou a presença do parasita em sangue periférico, essa parasitemia tem sido assinalada de forma constante, com alta freqüência e intensidade (Donovan16, 1905; Patton31, 1914; Mackie 27, 1915; Knowles23, 1920; Young e Van Sant 41, 1923; Knowles e Das Grupta 24, 1924; Short e col.38, 1927).

As observações ocasionais de alguns pesquisadores revelam que a leishmaniose visceral neotropical, embora as leishmanias sejam raras no sangue circulante, elas estão presentes, uma vez que a hemocultura (Deane e Deane13, 1955) ou a inoculação em hamster (Torrealba 40, 1970) mostram resultados positivos freqüentemente.

Um argumento desfavorável a ser lembrado em relação à probabilidade da transmissão da parasitose por via transfusional é que a proporção de adultos doentes, possíveis fontes de infecção como doadores de sangue, é baixa, uma vez que 81% a 83% dos casos da moléstia, nas áreas de maior endemicidade no país, ocorrem em crianças menores de 10 anos de idade (Alencar e col.2,3, 1956, 1975).

Existia, no entanto, em nosso meio na época do fato assinalado, um risco grande a ser levado em consideração de se poder adquirir infecções por via transfusional. Até 30 de abril de 1980, quando a Portaria Interministerial no 7/BSB estabeleceu as Diretrizes Básicas do Programa Nacional de Sangue e Hemoderivados, Pró-Sangue, que preconiza a coleta de sangue só em doadores voluntários, o doador remunerado representava uma parcela significativa no abastecimento dos Bancos de Sangue do país. O sangue desse indivíduo, de baixa condição socio-econômica-cultural, procedente de áreas rurais onde grassavam diversas endemias, constituia-se em fonte de infecção comprovada e relevante dessas moléstias. Amato Neto4 (1979), estima, baseado no número anual de transfusões realizadas no país, aproximadamente 4.000.000, e na proporção de doadores infectados pelo T. cruzi, que ocorriam cerca de 20.000 casos anuais de doença de Chagas transfusional. Camargo e Leser7 (1974), ao relatarem dois casos de doenças de Chagas pós-transfusional, ocorridos em hospitais de alto padrão da cidade de São Paulo, chamam a atenção para a "urgência da fiscalização mais rigorosa de antígenos e reagentes comercializados, de qualidade muito variável e freqüentemente sujeitos a deterioração que passa despercebida aos técnicos que realizam os testes". Em se tratando de leishmaniose visceral não há legislação em vigor que proiba um indivíduo com antecedente da moléstia, de ser doador de sangue (Ministério da Saúde28, 1977; Secretaria de Estado da Saúde36, 1979). Há, no entanto, publicações referentes a ocorrência de calazar pós-transfusional em outros países. Chung e col.11 (1948) relatam pela primeira vez esse fato em duas irmãs de quatro e seis anos de idade que haviam sido inoculadas por via intramuscular com 20 ml de sangue da mãe doente, 9 a 10 meses antes dos primeiros sintomas da moléstia. André e col.6 (1957) e Cayla e col.9 (1957) descrevem o caso de um recém-nascido que recebeu uma exosangüíneo-transfusão onde foi utilizado sangue de doente e que 8 meses depois apresentou leishmaniose visceral. Nas situações mencionadas houve um atento seguimento das crianças transfundidas, pois o diagnóstico da doença nas fontes de infecção foi realizado após a administração do sangue.

É possível que quando esse estado de alerta não tenha se estabelecido, a via de transmissão ou a própria moléstia possam não ter sido identificadas. Abdalla 1 (1980), em área endêmica do Sudão, encontrou 3,3% de soros com reações de imunofluorescência indireta positivas para L. donovani entre 300 doadores de sangue aparentemente sadios. Embora São Paulo não seja área endêmica, uma parte da população de doadores que abastecia seus Bancos de Sangue possivelmente provinha de áreas endêmicas.

Concluindo, a única forma de se excluir a transmissão transfusional na criança investigada seria a certeza inequívoca de ter ocorrido transmissão natural.

Os dados sorológicos sugerem que 5 das 344 pessoas pesquisadas apresentaram títulos de anticorpos compatíveis com o diagnóstico de infecção leishmânica. A ausência de sintomas e sinais clínicos leva a pensar em infecções subclínicas. O fato de três dessas pessoas sempre terem vivido no município de São Paulo induz a pensar em infecções autóctones.

Os testes de absorção dos soros com T. cruzi, T. donovani e L. braziliensis preconizados por Camargo e Rebonato8 (1969) e os testes de inibição de hemaglutinação para L. donovani utilizando L. donovani e T. cruzi, realizados com a finalidade de remover a reatividade heteróloga, permitiram eliminar a possibilidade de infecção por T. cruzi, mas não o fizeram para L. braziliensis. Considerando a inexistência de lesões cutâneas e mucosas nos investigados e o antecedente epidemiológico, poderia ser considerada a probabilidade de se tratar de infecção por L. donovani.

A ausência das reações intradérmicas positivas, usualmente observadas em assintomáticos residentes em regiões onde a leishmaniose visceral é endêmica e onde não se encontra leishmaniose tegumentar (Pampiglione e col.29,30, 1974, 1975; Teixeira39, 1977), não invalida essa probabilidade, pois a positividade não é achado obrigatório nos doentes após a cura.

Da mesma forma não o fazem a não localização de reservatório infectado no limitado inquérito realizado em população canina ou a ausência de vetor conhecido, L. longipalpis, nas raras capturas efetuadas. Uma revisão bibliográfica recente, relativa a inquéritos em cães, em áreas endêmicas da região neotropical, mostrou que a proporção de animais infectados pela L. donovani oscila entre 0,1% a 46,5% dos animais examinados, com valores mais freqüentes abaixo de 10% (Forattini18, 1973). De acordo com esses dados é possível não se encontrar animais infectados quando uma quantidade pequena de cães for pesquisada. Não pode ser afastada também a possibilidade de que nessa transmissão urbana da leishmaniose visceral participem roedores, presentes no local investigado.

Em relação a não identificação da L. longipalpis, o número de capturas realizada não autoriza uma conclusão. Além disso, outros flebotomíneos, como já suspeitado em primeiros casos da moléstia observados em outros locais do continente (Pifano e Romero32, 1964; Courmes e col.12, 1966), podem estar envolvidos na transmissão.

Por outro lado, o aspecto paisagístico do local da residência do doente, em zona urbana da periferia do município, próximo a reserva florestal, em terreno acidentado junto a um vale, assim como as condições de temperatura e umidade apresentam similaridades com o caso autóctone da doença notificado em 1978, residente em área geográfica próxima (Iversson e col.22, 1979).

Levando em consideração todos os dados disponíveis há indícios consistentes de que ocorreu transmissão natural da moléstia, mas não se pode afirmar. Impõe-se a necessidade de pesquisas dirigidas a reservatórios e vetores, que permitam observações em períodos longos de tempo, pois existem hiatos não preenchidos em relação a forma com que está ocorrendo a transmissão natural da leishmaniose visceral na Grande São Paulo.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Dr. Mario E. Camargo, Chefe da Seção de Imunologia do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo, pela valiosa colaboração fornecendo globulina anti-cão e cepa de L. donovani.

À Dra Rosely Sichieri, Dra Vera Maria Galesi e equipe do Centro de Saúde de Santo Amaro que coletaram os dados pessoais e de exame físico das pessoas investigadas.

Ao Dr. Arnaldo Vilanova, diretor do Centro de Zoonoses de São Paulo e a Da Ana Maria Frontini Soares, da mesma Instituição, pelo auxílio prestado na coleta de sangue de cães examinados.

 

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Recebido para publicação em 10/02/1982
Aprovado para publicação em 14/04/1982
Apresentado no VII Congresso da Sociedade Brasileira de Parasitologia, realizado em Porto Alegre, em 1982

 

 

* Dados não publicados.
O arquivo disponível sofreu correções conforme ERRATA publicada no Volume 16 Número 4 da revista.