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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.17 n.4 São Paulo Aug. 1983

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101983000400005 

REVISÃO

 

Comportamento tintorial do Mycobacterium leprae. Revisão histórica

 

Tinctorial behavior of Mycobacterium leprae. A historical review

 

 

Luiz Fernando de Góes SiqueiraI; Regina Gomes de AlmeidaII; Walter BeldaI

IDo Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo – Av. Dr. Arnaldo, 715 – 01255 – São Paulo, SP – Brasil e do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde – Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 188 – 05403 – São Paulo, SP – Brasil
IIDa Divisão de Hansenologia e Dermatologia Sanitária do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde – Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 188 – 7o andar – 05403 – São Paulo, SP – Brasil

 

 


RESUMO

Foi feita revisão histórica sobre os corantes utilizados na identificação do Mycobacterium leprae. Foram analisadas para cada corante, sua composição química, propriedades tintoriais e a capacidade de assimilação pelo bacilo nas diversas técnicas de coloração.

Unitermos: Mycobacterium leprae. Corantes. Bacilos, coloração.


ABSTRACT

A historical review was made of the dyes utilized to identify the Mycobacterium leprae. The chemical composition and the tinctorial properties of these substances and the dye assimilation capacity of the bacilli were analyzed.

Uniterms: Mycobacterium leprae. Dyes. Bacillus, stains and staining.


 

 

INTRODUÇÃO

A era científica da hanseníase teve início com a demonstração, por Hansen, de um bacilo como seu agente etiológico.

Desde então, a identificação da micobactéria é peça importante, fundamentalmente na caracterização dos quadros clínicos que se desenvolvem nos indivíduos Mitsuda negativos.

Conseqüentemente, há tentativas renovadas no sentido de aprimoramento das técnicas visando melhor e mais fácil visualização do Mycobacterium leprae. Assim se multiplicam os estudos sobre o comportamento tintorial, os fatores de interferência e como melhor utilizar os corantes existentes.

Em revisão histórica pretendeu-se, nesta primeira comunicação, acompanhar no tempo a utilização dos corantes em função, basicamente, da capacidade de sua assimilação pelo bacilo de Hansen.

Os anos de pesquisa, neste campo, puseram em evidência um denominador comum ao gênero Mycobacterium: a capacidade de assimilação de substâncias corantes básicas e, menos intensamente, aquelas ácidas possuidoras de, pelo menos, dois grupos auxocrômicos básicos (Campana, 1887; Balthazard, 1907; Rodriguez, 1942; Vegas e Espin, 1943; Ibars, 1949; Lillie, 1965; Delville, 1980).

Tentando uma sistematização que permitisse visão mais abrangente, procuramos não só identificar os corantes utilizados na coloração do Mycobacterium leprae, em termos de suas características químico-farmacêuticas, desde os precursores até os de atual uso, como reunir a bibliografia específica sobre a sua aplicação.

Corantes

Ácido ósmico

Classe química: Óxido metálico.

Sinonímia: Tetróxido de ósmio, anidrido ósmico ou ácido pirósmico.

Propriedades físico-químicas: Ponto de fusão = 40° C.

Características: Cristais dimorfos, incolor ou amarelados. Odor acre análogo ao do cloro. Produtor de vapores venenosos prejudiciais aos olhos, trato respiratório e pele. Possue poder oxidante.

Solubilidade: Solúvel em benzeno, alcool, eter, hidróxido de amônio, oxicloreto de fósforo, água (a 25°C: 7,24 ± 0,01 g/100 g) e tetracloreto de carbono (a 25°C: 375 ± ± 17 g/100 g) (The Merck Index, 1968).

Fómula estrutural:

 

 

Ao tempo de Hansen o ácido ósmico já era utilizado como fixador e indicador de substâncias gordurosas. Não é um corante mas um óxido instável, que é reduzido a dióxido de ósmio em presença de gorduras insaturadas e ácidos graxos e que são então visualizados como massas escuras (Mallory, 1938; Lillie, 1965).

Segundo Ibars (1949), Hansen (1868), estudando cuidadosamente as células, que Virchow (1864) denominara de "Leprazellen" e que já tinham sido descritas por Danielssen e Boeck (1848), viu nelas uns elementos pardos, que suspeitou mais tarde serem corpos bacilares que se tingiam pelo ácido ósmico. As primeiras fotografias dos achados de Hansen, feitas de 1871 a 1873, publicadas por Hansen e Looft (1895) e por Jeanselme (1934), fazem supor que o que foi identificado, inicialmente, foram massas gordurosas coradas.

Na publicação de Hansen e Looft (1895), na descrição do exame a fresco de esmagado de "lepromas", encontramos: "Com lente de maior aumento percebe-se no fluído da preparação, pequenos filamentos indestrutíveis pela potassa. São os bacilos da lepra, pela primeira vez observados no ano de 1871. Se essas preparações forem esmagadas em solução de ácido ósmico ou for o nódulo conservado nessa solução, por algumas horas, antes de ser feita a preparação, os filamentos tomarão uma coloração parda e serão observados em maior número nas células".

Posteriormente, autores como Unna, Mantegazza e Joseph, citados por Klingmuller (1930), utilizaram o ácido ósmico em suas preparações.

O abandono desta substância está ligado ao seu difícil manuseio, toxicidade, custo elevado e, fundamentalmente, ao fato de corar apenas gorduras.

Violeta

Cristal de Violeta

Classe química: Triarilmetano.

Sinonímia: Cloreto de hexametil pararosanilina, violeta de genciana, violeta de anilina, cloreto de metilrosanilina, violeta de metila 6B, "brilliant violet 5B", "violet 5BO", "DCS brilliant", "hexamethyl violet" ou "Arizon crystal violet".

Classificação segundo C.I.: Basic Violet 3, C.I. 42.555.

Características: Pó ou cristais brilhantes verde escuro.

Solubilidade: Solúvel em água quente, fria, clorofórmio e etanol. Uma grama se dissolve em cerca de 10 ml de álcool ou em 15 ml de glicerina. Praticamente insolúvel em eter (The Merck Index, 1933; Colour Index, 1971).

 

 

Violeta de Metila

Classe química: Triarilmetano.

Sinonímia: Violeta de genciana, violeta de metila, violeta de anilina, violeta de metila 2B, "methylene violet", "brilliant violet Co", "dahlia B" ou "dahlia violet B".

Classificação segundo C.I.: Basic Violet 1, C.I. 42.535.

Solubilidade: Solúvel em água quente, fria e etanol (Colour Index, 1971).

Violeta de Etila

Classe química: Triarilmetano.

Sinonímia: violeta de etila AX, "ethyl purple 6B" ou "ethyl violet GGA EX".

Classificação segundo C.I.: Basic Violet 4, C.I. 42.600.

Solubilidade: Solúvel em água quente, fria e etanol (Colour Index, 1971).

Fórmula estrutural:

 

 

Na forma de cristal de violeta, violeta de metila ou violeta de etila, foi um dos primeiros corantes a serem utilizados. Jeanselme (1934) e Campana (1.894) afirmam ter sido Neisser, em 1879, o primeiro a utilizá-lo com esta indicação, segundo o método de Weigert-Koch. Cornil (1884) considerou-o "corante ideal" para o bacilo de Hansen. Este corante usado em métodos apropriados foi adotado por Hansen (1886) (citado por Rotberg e Bechelli em 1944), Peltier (1891) e por outros (Bertaccin, 1936; Versari, 1923; Wade, 1962a). Encontramos em Loizaga (1936) que Gram aplicara seu método na coloração do bacilo de Hansen, observando então um "envólucro" não corado e grânulos corados no seu interior, não havendo referência a Gram positividade ou Gram negatividade. Lutz (1946), Unna (1891) e Castro (1947), em seus próprios métodos, utilizaram o violeta para estudo dos grânulos, então conhecidos como "coccothrix". Outros métodos foram desenvolvidos baseados no método de Gram, para o estudo das granulações, que passaram a ser conhecidas como granulações de Lutz-Unna (Cerqueira, 1923; Rodriguez e col., 1933; Ibars, 1949). O método de Fontes (1909), associação dos métodos de Ziehl e Gram, até hoje é indicado para tal estudo (Loizaga, 1936; Horta, 1941; Ibars, 1949).

A Gram positividade do bacilo de Hansen vem sendo reafirmada por muitos autores (Pernet, 1903; Emile-Weil, 1905; Campana, 1907; Larouche, 1921; Lesieur e Mouriquand, 1923; Castronuovo, 1936; Amaya, 1947; Cabral, 1947; Wilson, 1947; Ibars, 1949; Yasumoto, 1953; Silva, 1960) como mais uma característica da espécie sem, no entanto, explicitar se a coloração utilizada foi a descrita originalmente por Gram, ou se foi uma de suas variações.

A partir de 1910, inúmeros autores têm demonstrado ser o método de Gram indicado para evidenciar formas não ácido-resistentes do Mycobacterium leprae (Arning e col., 1909; Rodriguez e col., 1933; Fite, 1938; Wilson, 1947; Nájera, 1949; Silva Jr., 1949; Portugal e Azulay, 1950; Azulay, 1952; Azulay e Andrade, 1952; Berg, 1953a; Convit e Pinard, 1972; Delville, 1974, 1977, 1980; Harada e col., 1976).

Emile-Weil (1905) e outros autores (Balthazard, 1907; Campana, 1907; Marchoux, 1919; Viola, 1933; Castronuovo, 1936; Amaya, 1947; Lastra, 1950) citam o método de Baumgarten (1884) que, utilizando a violeta, permitiria a diferenciação entre as espécies leprae e tuberculosis.

Atualmente, embora assimilado pelo bacilo, o violeta não é considerado elemento de importância nos métodos de coloração específicos.

Fucsina

Pararosanilina

Classe química: Triarilmetano.

Sinonímia: Fucsina, parafucsina, paramagenta, rosanilina base, "basic rubin" ou "calcozine magenta N".

Classificação segundo C.I.: Basic Red 9, C.I. 42.500.

Solubilidade:. Solúvel em água quente e etanol. Fracamente solúvel em água fria. (Colour Index, 1971).

Fórmula estrutural:

 

 

Rosanilina

Classe química: Triarilmetano.

Sinonímia: Fucsina, fucsina básica, cristal de fucsina, magenta, fucsina brilhante, "basic magenta B", "orient basic magenta", "diabasic magenta", "astra fuchsine" ou "rosaniline lake acetate".

Classificação segundo C.I.: Basic Violet 14, C.I. 42.510.

Solubilidade: Solúvel em água quente, fria e álcool. Praticamente insolúvel em eter. (Color Index, 1971).

 

 

Fucsina Nova Classe química: Triarilmetano.

Sinonimia: magenta III, nova magenta, "astra new fuchsine", "elcozine magenta" ou "isorubin".

Classificação segundo C.I.: Basic Violet 2, C.I. 42.520.

Solubilidade: Solúvel em água e álcool. (Colour Index, 1971).

Fórmula estrutural:

 

 

Produzindo ótimas colorações, este corante foi inicialmente usado em óleo de anilina segundo a técnica de Ehrlich, citada nos trabalhos de Bezançon (1920) e Mazza e col. (1921). Esta solução em óleo apresentava o inconveniente de ser altamente instável, daí não poder ser preparada com antecedência. O problema foi eliminado por Ziehl, com a adição de fenol (ou ácido fênico, ou ácido carbólico) à solução. Pouco tempo depois Lubinoff (1888 a, b) afirmava ter aperfeiçoado o método, substituindo o ácido fênico por ácido bórico. Posteriormente, vários pesquisadores estudaram e deram novas justificativais para o uso do fenol, entre as quais aumentar a solubilidade da fucsina nos lipídeos da parede bacilar (Hanks, 1961b; Lartigue, 1962; Harada, 1976b; Delville, 1980).

Com o uso da fucsina e a introdução do álcool, o método passou a ser conhecido como Ziehl-Neelsen, segundo relata Hallberg (1946). Com o tempo, foi submetido a várias modificações no intuito de melhorar a visualização dos bacilos, porém a fucsina sempre persistiu como corante principal. No início a fucsina não era bem caracterizada. Com o advento da tecnologia dos corantes foram determinadas três classes de fucsina: I, II, III (Wade, 1952, Harada e col., 1976). Fite (1938) considerou a fucsina III (ou fucsina nova, ou magenta III) como a mais eficiente. Muitos autores passaram também a utilizá-la, obtendo melhores resultados em suas pesquisas (Tilden e Tanaka, 1945; Putt, 1951; Berg, 1953b, Beamer e Firminger, 1955; Wheeler, 1964). Pensa-se hoje que a fucsina utilizada como fucsina básica teria sido uma mistura destas três formas (Harada, 1977; Harada e col., 1976).

O uso alternativo da solução corante a frio, a quente ou a diversas temperaturas (Pacheco e col., 1931; Dubois, 1937; Van Breuseghem e Moules, 1937; Fite, 1933; Inaba, 1938; Wade, 1949; Putt, 1951; Nakamura e col., 1969; Andersen, 1970), a diferentes concentrações (Rudel, 1928; Wade, 1928; Lowe, 1934; Brandt e col., 1954; Lillie, 1965) e faixas de pH (Sato e Mayama, 1950; Fite e Fite, 1965), o tempo de atuação desta (Dubois, 1937; Vieira, 1949; Ogden, 1952), além de outros fatores de interferência (Dharmendra e Mukerjee, 1949; Serial, 1951; Corcos, 1953), foram discutidos em trabalhos com a finalidade de aprimorar o método tradicional proporcionando algumas vantagens.

Outros pesquisadores indicaram a adição de novas substâncias para facilitar a assimilação de fucsina (Faraco, 1938; Chabaud, 1942; Castro, 1947; Fite e col., 1947; Blanco e Fite, 1949; Pottz, 1948; Faria, 1949; Kawakami, 1949; Wilkinson, 1951; Fielding 1934; Lowy e col., 1954; Wade, 1957; Hanks, 1961a; Reyes, 1963; Andersen e Chang, 1970; Reich e col., 1972; Harada, 1973, 1976b; Mohysen e Alemayehu, 1973; Periaswami, 1974; Castro e Coelho, 1977; Harada e col., 1976; Harada e Kasai, 1978, a e b; Delville, 1980), como por exemplo os tensio-ativos (Chermock e Muller, 1946; Aubert, 1950; Wade, 1950, 1952; Marti e Johson, 1952; Martinez e Calero, 1946; Chasles, 1961; Ridley e Ridley, 1971). No entanto, com umas poucas modificações, a técnica de Ziehl-Neelsen permanece até hoje como a mais indicada para coloração do Mycobacterium leprae, assim como outros bacilos alcool-ácido resistentes (Pernet, 1901; Fick, 1907; Bard, 1911; Clegg, 1916; Lespinasse, 1919; Zinsser e Russell, 1922; Hasseltine e Gorman, 1924; Argañaraz, 1927; Ohmichi, 1928; Bertrand, 1930; Hoffman, 1933; Lowe, 1934; Carpano, 1936; Dubois, 1937; Van Breuseghem e Moules, 1937; Fite, 1938; Inaba, 1938; Manalang, 1939; Klingmuller, 1930; Fite, 1940; Viola, 1933; Cowdry, 1943; Davison, 1943, Jordan e Burrows, 1943; Maillory, 1938; Torres, 1944; Cowdry, 1940; Montel, 1946a, b; Montel e Giroud 1946; Amaya, 1947; Cabral, 1947; Pardo-Castello e col., 1947; Percival e col., 1947; Zanetti, 1947; Wilson, 1947; Bale, 1948; Bechelli, 1948; Nájera, 1949; Silva Jr., 1949; Marie-Suzanne, 1950; Khanolkar, 1951; 1952; Putt, 1951; Azulay e Andrade, 1952; Beaudiment e Laviron, 1952; Krajian e Gradwohl, 1952; Ramanujam, 1952; Yasumoto, 1953; Azulay e Andrade, 1954; Jopling e Ridley, 1954; Pottz, 1948; Chaterjee e col., 1955; Dubois, 1955; Ishihara e Hagihara, 1954; Jayraj, 1956; Hanks, 1956a, b; Johnston e Lynch, 1957; Rhodes-Jones, 1959; Wade, 1957; Davison, 1960; Ootaka e col., 1959; Silva, 1960; Rees e Valentine, 1962; Serié, 1962; Shepard, 1962; Wade, 1962a, b; Padma, 1963; Lillie, 1965; Wheeler e col., 1965; Greef e col., 1967; Vestal, 1969; Azulay, 1971; McRae e Shepard, 1971; Reich, 1971; Ridley, 1971; Samuel e Chaterjee, 1971; Periaswami, 1974; Harada, 1976a,b; Harada e col. 1976; Harada e Kasai, 1978; Wheeler e Draper, 1980).

Azul de metileno

Classe química: Tiazina.

Sinonímia: Cloreto de 3,9 – bis dimetilamino fenazotianio, cloreto de metiltionina, cloreto de tetrametiltionina ou "Swiss blue".

Classificação segundo C.I.: Basic Blue 9, C.I. 52.015.

Características: Cristais verde escuro com brilho metálico, sem odor.

Solubilidade: Solúvel em clorofórmio, em água (uma grama se dissolve em cerca de 25 ml de água) e em álcool (uma grama se dissolve em 65ml de álcool). Insolúvel em eter. (The Merck Index, 1968; Colour Index, 1971).

 

 

O azul de metileno, em solução aquosa ou alcoólica, é bem assimilado pelo Mycobacterium leprae podendo ser usado como corante principal, e assim o foi inicialmente (Unna, 1891; Bosco e Nicastro, 1937; Fite, 1938; Alexander-Jackson, 1945; Lutz, 1946).

Danielssen, citado por Hansen e Looft (1895), empregou empiricamente o azul de metileno na terapêutica da hanseníase. Posteriormente, tendo em vista sua ação antisséptica, vários autores( Lombardo, 1934, 1936, 1937; Prudohome, 1935; Baccareda, 1937; Bosco e Nicastro, 1937; Spada, 1937; Nagao, 1945; Degos e Lotat-Jacob, 1947; Piccardi e Radaeli, 1948; Freitas, 1960) observaram a absorção pelo bacilo, justificando seu uso na terapêutica. Lombardo (1936), embora aceitando a ação corante, questiona a eficácia terapêutica, que foi totalmente rejeitada por Bertaccini (1936) e Nagao (1945). Com estas restrições o produto permaneceu, por algum tempo, como prova diagnóstica "in vivo" das formas bacilíferas (Bertaccini, 1936; Lombardo, 1938).

Este procedimento foi abandonado, permanecendo até hoje sua indicação como corante de fundo na baciloscopia da hanseníase.

Azul vitória

Classe química: Triarilmetano.

Sinonímia: "Aizen victoria blue BH", "corn blue BN", "fat blue B" ou azul vitória B.

Classificação segundo C.I.: Basic Blue 26, C.I. 44.045.

Solubilidade: Solúvel em água quente, fria e etanol (Colour Index, 1971).

Fórmula estrutural:

 

 

Unna (1910) empregou este corante, em método de dupla coloração, tentando demonstrar as possibilidades de separação do bacilo vivo do bacilo morto. Foi assim um dos precurssores da pesquisa para determinação da viabilidade ou não do bacilo, através de métodos tintoriais. Após longo período de esquecimento, esta substância voltou a ser empregada, por alguns autores, como corante principal (Lillie, 1965; Harada, 1976a,c).

Azul noite

Classe química: Triarilmetano.

Sinonímia: "night blue" ou "nachtblau".

Classificação segundo C.L: Basic Blue 15, C.I. 44.085.

Solubilidade: Solúvel em água e etanol (Colour Index, 1971).

Fórmula estrutural:

 

 

Hallberg (1941) introduziu o azul noite em método próprio para coloração de bacilos álcool-ácido resistentes. Reenstierna, em nota publicada junto ao trabalho de Hallberg (1941), relata o uso deste método pela primeira vez na coloração do Mycobacterium leprae. Hallberg, em 1946, enfatiza sua superioridade na coloração de cortes histológicos de hanseníase com relação ao método de Ziehl-Neelsen.

Curban (1946) chama atenção sobre a excelência deste método na identificação do bacilo de Hansen, assim aceito por outros autores (Pardo-Castello e col. 1947; Ibars, 1949).

Verde malaquita

Classe química: Triarilmetano.

Sinonímia: Verde anilina, verde da China, verde sólido, "benzaldehyde green", "benzol green", "fast green" ou "light green N".

Classificação segundo C.I.: Basic Green4, C.I. 42.000.

Solubilidade: Solúvel em água quente, fria, etanol, metanol e álcool amílico (Colour Index, 1971).

Fórmula estrutural:

 

 

Como todo corante básico, cora bem o Mycobacterium leprae. Biryukova (1967, 1968a,b, 1969), citando Sack (1953), Silver (1956) e Murohashi e col. (1957, 1958, 1960), usou o verde malaquita como corante principal na tentativa de distinguir o bacilo vivo do bacilo morto. Kanetsuna (1964) em seu trabalho também confirmou os achados de Murohashi e col. (1957, 1958) e Murohashi (1960, 1961), comprovando-os de maior eficiência que o método de distinção de bacilos viáveis proposto por outros autores.

O seu uso como corante de fundo permanece até hoje (Bertrand, 1930; Baccareda, 1937; Fite, 1938; Harada e Kasai, 1978 a).

Nitrato de prata

Classe química: Sal metálico.

Sinonímia: Nitrato argêntico, "piedra infernal" ou azotato de prata.

Características: Cristais incolores transparentes, inodoros e com sabor amargo.

Solubilidade: uma grama se dissolve em 0,4 ml de água, 0,1 ml de água fervente, 30 ml de álcool, 6,5 ml de álcool fervente, 253 ml de acetona. Rapidamente solúvel em água de amônia e lentamente solúvel em eter (The Merck Index, 1968).

 

 

Embora possa agir como tal, esta substância não é um corante. Rodriguez (1942), relatando o método desenvolvido por Unna, a empregou, com sucesso, para identificação de granulações bacilares.

Cunha (1933), Horta (1941) e Ibars (1949) descrevem uma técnica que denominam "Método de Yamamoto", a qual, usando o nitrato de prata como corante principal, propõe um método diferencial entre Mycobacterium leprae e Mycobacterium tuberculosis.

Alguns autores (Sutter e Roulet, 1965; Krieg e Meyers, 1979) aplicaram o método de Gomori (1937), fundamentado no nitrato de prata, na identificação do Mycobacterium leprae.

Vegas e Espin (1943), utilizando o nitrato do prata não só como corante, mas também como mordente, em uma combinação de técnicas, observou bons resultados principalmente na identificação de granulações.

Outros métodos baseados na prata foram propostos por vários autores (Blanco e Fite, 1948; Peruchena, 1949; Sanchez, 1953; Balasubrahmanyan e col., 1954), no intuito de evidenciar melhor o bacilo de Hansen.

As dificuldades de seu manuseio e os artefatos de técnica freqüentes, desistimularam a utilização na hansenologia.

Corantes fluorescentes

Auramina O

Classe química: Difenilmetano.

Sinonímia: Amarelo canário, "Pyrktanin", "arizen auramine", "auramine lakeyellow O" ou "calcozine auramine OO".

Classificação segundo C.I.: Basic Yellow 2, C.I. 41.000.

Solubilidade: Solúvel em água quente e fria (Colour Index, 1971).

 

 

Rodamina B

Classe química: Xanteno.

Sinonímia: Tetraetilrodamina, "Aizen rhodamine BH", "acid brilliant pink B" ou "brilliant pink B".

Classificação segundo C.I.: Basic Violet 10, C.I. 45.170.

Solubilidade: Solúvel em água e álcool. Fracamente solúvel em acetona e ácido clorídrico (Colour Index, 1971).

 

 

Berberina

Classe química: Corante básico natural.

Sinonímia: "Barberry extract", "Barbery root", "Umbellatine", "Assan Wood", "Dar hald" ou "Dam hald".

Classificação segundo C.I.: Natural Yellow 18, C.I. 75.170.

Características: A berberina básica é instável e assume a forma aldeídica, mas seus sais são derivados da forma amoniacal. Presente em muitas plantas, por exemplo no caule e raízes da Berberis vulgaris.

Solubilidade: Solúvel em água quente (The Merck Index, 1968; Colour Index, 1971).

Fórmula estrutural:

 

 

Com o advento da microscopia de fluorescência novos métodos tintoriais foram aplicados ao Mycobacterium leprae. O bacilo demonstrou boa assimilação quando tratado pela berberina (Henderson e col., 1942; Dubois e Swerts, 1950), auramina O pura (Henderson e col., 1942; Hernandez e col., 1952; Prendes e col. 1953; Shimizu, 1953; Von Haeblert e Murray, 1954; Gilkerson e Kanner, 1963; Koch, 1965; Lillie, 1965; Mansfield, 1970; Ridley e Ridley, 1971; Smithwick e David, 1971; Harada, 1973, 1976c; Delville, 1977, 1980) e auramina O associada à rodamina B (Kuper, 1960; Akers e Morse, 1966; Ridley e Ridley, 1971; Faria, 1974; Jariwala e Kelbar, 1979; Mansfield, 1969; Vestal, 1969).

Dada as dificuldades de sua execução e custo, a microscopia de fluorescência não é empregada, no momento, na rotina de identificação do bacilo de Hansen.

Outros corantes

Alguns corantes menos usuais têm sido testados na identificação do Mycobacterium leprae. A safranina (C.I. 50.240), nigrosina (C.I. 50.420), "sudan black" (C.I. 26.150), carmin (C.I. 75.470) e "Bismarck brown" (C.I. 21.010), apesar de básicos, não coram o bacilo de Hansen, ou se o fazem é de maneira insatisfatória (Fite, 1938; Burdon, 1946; Ibars, 1949; Chaussinand, 1950; Bermann, 1953; Chaussinand e Viette, 1956; Contreras e col., 1956; Hanks, 1961a; Fisher e Barksdalle, 1973).

A tionina (C.I. 52.000), o azul de toluidina (C.I. 52.040) e o "eriochrome cyanine R" (Azul Mordente 3 – C.I. 43.820), apesar de corarem metacromaticamente o bacilo, não são de uso prático (Fite, 1938; Zabary-Simon, 1947; Fite, 1960).

Outros corantes básicos foram submetidos a avaliação de seu poder de tingimento, com boa assimilação, como: verde Janus (C.I. 11.045), verde de metila (C.I. 42.590), dália (C.I. 42.530), alaranjado de acridina (C.I. 46.005), amarelo de acridina (C.I. 46.025), azul de Meldola (C.I. 51.175), azul de Nilo (C.I. 51.180), sudan III (C.I. 26.100), violeta de ametista (C.I. 50.225) e vermelho neutro (C.I. 50.040) (Fite, 1938; Wenger, 1941; Ibars, 1949; Fite e Fite, 1965; Biryukova, 1969).

O bacilo mostrou-se corado quando submetido ao Giensa, solução de azure II e eosina), em métodos especiais (Mahdihassan, 1946; Montel, 1946; Aplas, 1965).

O azul de Tripan foi empregado "in vivo" por alguns autores, com resultados contraditórios (Gujo, 1924; Cavazzoni, 1934). Em coloração "in vitro" o azul de Tripan, assim como todos os demais corantes ácidos, não foram assimilados pelo bacilo de Hansen (Fite e Fite, 1965).

Ja com relação aos corantes ácidos possuidores de pelo menos dois grupamentos auxocrômicos básicos, ligados à estrutura principal, testados em relação ao Mycobacterium leprae, somente o "direct green" (C.I. 30.290) e o "Brilliant milling green" (C.I. 42.100) apresentaram resultados positivos. O primeiro cora fortemente e o segundo discretamente (Fite e Fite, 1965).

Inúmeros corantes como: "thioflavin T" (C.I. 49.005), "phosphine GN" (C.I. 46.045), "acriflavine" (C.I. 46.000), "neutral violet" (C.I. 50.030), "indulin scarlet" (C.I. 50.080), "janus black B" (C.I. 11.825), "chrysoidin Y" (C.I. 11.270), "celestin blue" (C.I. 51.050), "brilliant cresyl blue" (C.I. 51.010), "toluylene blue" (C.I. 49.410), azure A, azure B, azure C, "rhoduline blue 6G" (C.I. 42.025), "pironin Y" (C.I. 45.005), "pironin B" (C.I. 45.010), "pinacyanole" e "methylene green" (C.I. 52.020), embora não testados com relação ao Mycobacterium leprae, evidenciaram coloração satisfatória para outras micobactérias (Fite e Fite, 1965), confirmando o antigo conceito de que os corantes básicos são de escolha na identificação de tais bacilos (Campana, 1888; Balthazard, 1907; Rodriguez, 1942; Vegas e Espin, 1943; Ibars, 1949; Lillie, 1965; Delville, 1980).

Aceita-se hoje que os corantes ácidos, possuidores de pelo menos dois grupos auxocrômicos básicos, também podem ser utilizados em eventuais métodos de coloração do Mycobacterium leprae.

 

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Recebido para publicação em 23/12/1982
Aprovado para publicação em 06/04/1983