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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.17 n.4 São Paulo Aug. 1983

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101983000400007 

NOTAS E INFORMAÇÕES

 

Malária falciparum resistente à cloroquina e ao Fansidar R tratada com minociclina

 

Minocycline treatment of chloroquine-and Fansidar R-resistant falciparum malarial

 

 

José J. Ferraroni

Da Universidade do Amazonas e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, INPA – Caixa Postal 478 – 69.000 – Manaus, AM – Brasil

 

 


RESUMO

Em abril de 1978 uma infecção malárica causada por Plasinodium falciparum foi diagnosticada em um paciente adulto do sexo masculino, nativo da Amazônia brasileira. O parasito foi resistente in vitro à cloroquina e in vivo à associação pirimetamina + sulfadoxina (FansidarR). O paciente foi tratado com minociclina (MinomaxR); contudo, sua resposta imune ao parasito pode ter tido um importante papel na eficácia do tratamento com a minociclina.

Unitermos: Plasmodium falciparum. Malária, tratamento. Minociclina.


ABSTRACT

In April 1978, a Plasmodium falciparum infection was diagnosed in an adult male in Brazilian Amazonia. The parasite was resistant in vitro to chloroquine and resistent in vivo to pyrimethamine-sulfadoxine (FansidarR). The patient was successfully treated with minocycline (MinomaxR); however, his immune response to the parasite may have played an important role in the efficacy of the minocycline treatment.

Uniterms: Plasmodium falciparum. Malaria, treatment. Tetracyclines.


 

 

INTRODUÇÃO

A habilidade para desenvolver resistência às drogas antimaláricas pelas espécies de plasmódios, especialmente pelo Plasmodium falciparum, é muito conhecida16,17. Em 1976, a Organização Mundial de Saúde passou a recomendar o Fansidar R, que consiste de pirimetamina + sulfadoxina, como o melhor agente quimioprofilático e terapêutico contra a malária humana causada pelo P. falciparum19. Desde 1976, FansidarR vem sendo usado em larga escala em praticamente todas as áreas malarígenas, tendo sido registrados casos de resistência.

Descreve-se, neste trabalho, o tratamento, com sucesso, pela minociclina, de um paciente portador de uma cepa de P. falciparum resistente ao FansidarR e à cloroquina.

 

DESCRIÇÃO DO CASO

Em 4 de abril de 1978, um paciente masculino com 20 anos de idade, nativo do Amazonas, chegou ao nosso labaratório queixando-se de cefaléia, mialgia e mal estar geral iniciados há dois dias. Ao exame físico, todos os sinais vitais estavam dentro da normalidade, mas com baço e fígado palpáveis. O paciente tinha visitado recentemente três lugares no alto Rio Amazonas, Coari, Codajás e Tefé, e regressara a Manaus três dias antes do aparecimento dos sintomas; vinha fazendo uso de cloroquina como quimioprofilaxia por muito tempo e não havia apresentado ataque de malária, anteriormente. O exame de sangue realizado de imediato evidenciou que o paciente estava infectado com P. falciprum apresentando 5.200 parasitos/ml de sangue, com trofozoítos jovens e maduros, sem esquizontes. É do conhecimento a existência na área de cepas de P. falciparum resistentes à cloroquina7, 8, 18. Como o paciente havia tomado cloroquina, como medida preventiva, foi efetuado teste in vitro para verificar o grau de sensibilidade do parasito à cloroquina. Usou-se técnica descrita por Rieckmann e col.12 (1968). O parasito foi resistente in vitro a cloroquina até a máxima concentração da droga, 3.0 nanomols de cloroquina/ml de sangue.

Vinte e quatro horas após o primeiro exame físico, o paciente apresentava uma parasitemia de 10.000 parasitas/ml de sangue periférico, temperatura de 39,6°C, calafrios e náuseas. Fansidar R (1,5 g sulfadoxina e 75 mg pirimetamina) foi administrado pela via parenteral, em dose única, uma vez que o FansidarR era considerado a droga de escolha em casos de malária falciparum resistentes à cloroquina 5, 9, 10. Após o tratamento com FansidarR, a parasitemia periférica e febre foram verificadas de 12/12 horas, por 11 dias. A parasitemia periférica baixou rapidamente e após 48 h não foram encontrados parasitos assexuados no sangue periférico. A temperatura voltou ao normal, passando a indicar cura aparente.

 

RECRUDESCÊNCIA

No 16o dia após o tratamento com FansidarR, o paciente retornou ao laboratório queixando-se de mal estar geral e cefaléia. O exame de sangue revelou 3.400 parasitos/ml de sangue (trofozoítos jovens e maduros, nenhum esquizonte), o que foi interpretado como infecção por P. falciparum resistente, também, ao FansidarR. Durante os 16 dias, após o tratamento com Fansidar, o paciente permaneceu em Manaus, área livre de transmissão de malária14. Administrou-se no paciente minociclina (MinomaxR) desde que tratamento de malária por P. falciparum com minociclina foi descrito, recentemente1, 2, 15 com sucesso em pacientes com baixa parasitemia 6. Administrou-se, inicialmente, dose oral de 200 mg de minociclina e depois 100 mg, de 12/12 horas até totalizar 700 mg. A parasitemia baixou lentamente tornando-se negativa em 60 horas, a temperatura corporal normalizou-se em 48 horas após o tratamento. O sangue periférico foi examinado de 2/2 dias, durante dois meses e não foi encontrado parasito assexuado.

 

DISCUSSÃO

A resistência pelos plasmódios é assinalada frente às drogas usadas rotineiramente no tratamento da malária9. FansidarR é largamente utilizado nas áreas malarígenas, como na Tailândia4 e na Amazônia Brasileira11. Os parasitos da malária resistente ao FansidarR provavelmente aumentarão nos próximos anos. Têm sido descritos na Indonésia13 e New Guinea3, casos de resistência ao FansidarR pelo P. falciparum. Por isso, é importante para o pessoal de Saúde Pública o conhecimento de outra opção de tratamento para os casos de P. falciparum, resistentes ao FansidarR e à cloroquina.

Neste caso, a minociclina foi eficaz no tratamento de uma cepa de P. falciparum, resistente ao FansidarR e cloroquina, em que a parasitemia era baixa. Isto não quer dizer que minociclina cure infecções maláricas resistentes à cloroquina e ao Fansidar R, especialmente em altos níveis de parasitemia. Além do mais, o paciente era natural de área endêmica de malária. Seu estado de imunidade parcial presumível poderia ter interferido na eficácia do tratamento pela minociclina.

 

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Recebido para publicação em 18/02/1983
Aprovado para publicação em 27/06/1983