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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.18 n.1 São Paulo Feb. 1984

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101984000100005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Brucella canis. Inquéritos sorológico e bacteriológico em população felina

 

Brucella canis. Serological and bacteriological surveys in the feline population

 

 

Maria Helena Matiko Akao LarssonI; Carlos Eduardo LarssonI; Wilson Roberto FernandesI; Elizabeth Oliveira da CostaII; Mitika K. HagiwaraI

IDo Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP – Cidade Universitária – 05508 – São Paulo, S.P. – Brasil
IIDo Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP – Cidade Universitária – 05508 – São Paulo, SP – Brasil

 

 


RESUMO

De 134 soros de felinos domésticos examinados pela prova de soroaglutinação lenta em tubos, 4 (3%) foram positivos para Brucella canis, todos com título igual a 100. Não se obteve êxito na tentativa de isolamento de Brucella canis através de hemocultura desses animais.

Unitermos: Brucella canis. Sorodiagnóstico. Soroaglutinação.


ABSTRACT

Of the 134 feline sera tested by tube agglutination test, 4 (3%) were positive for Brucella canis antibodies, all with titer 100. It was not possible to isolate Brucella canis by blood culture in the case of these animals.

Uniterms: Brucella canis. Serodiagnosis. Agglutination tests.


 

 

INTRODUÇÃO

Em 1966, Carmichael2 (1976) isolou o agente do aborto canino, a Brucella canis, que desde então vem sendo incriminada como causa de um processo infeccioso que se manifesta por alterações dos tecidos linfóides, aborto, infertilidade (Moore15, 1969; Spinier19, 1970; Meyer14, 1974; Carmichael e George3, 1976; George e col.7, 1979; Larsson 12, 1933 e Report of the Symposium on Immunity20, 1970) e prolongada bacteremia (Spink19, 1970; Van Hoosier Jr. e col.21, 1970; Larsson12 1983).

A partir da publicação do trabalho de Carmichael e col.4 (1968) ficou evidenciado o perigo da transmissão da brucelose canina ao homem, ocasião em que os autores relataram dois casos de infecção em humanos por Brucella canis. A caracterização da brucelose canina como uma antropozoonose pode também ser evidenciada pelos trabalhos de prevalência de aglutininas anti Brucella canis em soros humanos (Lewis Jr. e Anderson13 1973; Hoff e Schneider9, 1975; Flores-Castro e Segura6, 1976; Barg e col.1, 1977; Weber e Bruner 23, 1977; Varela-Diaz e Myers22, 1979; Larsson10; 1980).

Apesar do cão ser considerado o único animal em que a infecção por Brucella canis ocorre naturalmente (Lewis Jr. e Anderson 13, 1973), pela compilação da literatura encontraram-se os trabalhos de Randhawa e col.18, 1977 sobre prevalência de soro-reagentes para Brucella canis numa população felina e o de Pickerill16, 1970 sobre infecção experimental de felinos com Brucella canis. Assim sendo, se o gato pode se infectar pela Brucella canis como foi demonstrado nestes trabalhos, ele pode também desempenhar um importante papel na epidemiologia da doença, atuando, inclusive, como fonte de infecção para outros suscetíveis, dentre os quais o próprio homem (Center for Disease Control5, 1977; Godoy e col.8, 1977; Ramacciotti17, 1980).

Baseados na escassa literatura a respeito do assunto, o presente trabalho tem por objetivo determinar a freqüência de infecção por Brucella canis, mediante prova sorológica e de tentativas de isolamento através de hemocultura, numa população de felinos domésticos do Estado de São Paulo.

 

MATERIAL E MÉTODOS

A amostragem foi composta de 134 soros de felinos, sendo 63 machos e 71 fêmeas, 89 animais eram adultos e os demais 45 eram jovens.

As amostras de sangue destinadas à obtenção de soro foram colhidas, no período compreendido entre outubro de 1979 e fevereiro de 1981, de animais oriundos dos canis do Instituto Pasteur da Secretaria de Negócios da Saúde do Estado de São Paulo, Instituto de Ciências Biomédicas e da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, além de gatos mantidos em uma associação de amparo aos animais.

Prova de Soroaglutinação Lenta

Nas 134 amostras de soros, pesquisou-se a presença de anticorpos anti Brucella canis, utilizando-se a reação de Soroaglutinação lenta, considerando-se como título inicial aquele igual ou maior a 100, segundo técnica descrita em trabalho anterior (Larsson10, 1980). Os soros foram mantidos a –20°C até o momento da execução da reação, utilizando-se apenas aqueles sem evidência de hemólise.

Hemocultura

Para a comprovação de bacteremia e tentativa de isolamento do agente, procedeu-se à hemocultura de todos os animais. Para tanto, 2 ml de sangue eram coletados assepticamente da veia jugular e, imediatamente, inoculados em tubos contendo Brucella-broth* citratado a 1%, segundo técnica descrita previamente (Larsson e Costa11, 1980).

 

RESULTADOS

Dos 134 soros de gatos domésticos examinados por meio da prova de Soroaglutinação lenta, 4(3%) foram positivos para Brucella canis, todos com títulos igual a 100. Destes 4 animais soro-reagentes, todos adultos, 2 eram machos e 2 eram fêmeas.

Relativamente às hemoculturas realizadas, em nenhuma delas se obteve êxito no isolamento de Brucella canis.

 

DISCUSSÃO

O único trabalho relativo à pesquisa de aglutininas anti Brucella canis em gatos domésticos, de autoria de Randhawa e col.18, 1977, revela uma prevalência que varia de 5,3 a 11,4%, conforme a técnica sorológica utilizada e o grupo experimental (animais hospitalizados). No presente trabalho, obtivemos uma percentagem de 3% de animais soro-reagentes.

Freqüentemente, os felinos apresentam abscessos dos quais se isola, principalmente, a Pasteurella multocida, que pode dar reação sorológica cruzada com a Brucella canis (Randhawa, e col.18, 1977). Entretanto, neste trabalho, em que se procedeu à pesquisa sorológica, nenhum dos 4 felinos soro-reagentes foi positivo, bacteriologicamente, para Brucella canis ou para qualquer microrganismo.

A soropositividade dos 4 animais, a despeito de não se detectar bacteremia, talvez possa ser creditada a infecções antigas ou mesmo a infecções recentes, mas com bacteremia não contínua. A manifestação de bacteremia prolongada, todavia não contínua, já foi relatada, em cães, por Van Hoosier Jr. e col.21, 1970; Carmichael2, 1976 e Larsson e col.32, 1983. Deste modo, cremos que o felino pode se infectar com Brucella canis, bem como servir de fonte de infecção para outros suscetíveis, dentre os quais o próprio homem. Entretanto, consideramos que o assunto deva ser explorado mais detalhadamente, com a finalidade de definir melhor o papel desempenhado pelos felinos domésticos, na cadeia epidemiológica da brucelose devido à Brucella canis.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 08/08/1983
Aprovado para publicação em 24/10/1983

 

 

* Difco.