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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.18 n.2 São Paulo Apr. 1984

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101984000200002 

EDITORIAL

 

Qualidade dos dados na informação médica

 

Quality of medical information data

 

 

Antônio Ruffino Netto

Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP Ribeirão Preto, SP - Brasil

 

 

Vivemos cercados de seres que ao se apresentarem ou se mostrarem (para aqueles que os procuram) se transformam em objetos, cujos sentido e significado são dados por aqueles que os percebem.

A sensibilidade da percepção depende de toda uma semiologia apreendida no transcorrer da vida, especializando-se cada um em sinais indicativos (de maior ou menor relevância) dentro de seu espaço de viver e da sua atuação profissional. Assim, cada pessoa aprende a ver o seu mundo de acordo com a sua bagagem semiológica.

O sentir, primeiro passo para percepção (e como tal importante), acrescido da interpretação que fornecemos aos seres (reificando-os) formam o referencial para conceituarmos, julgarmos e articularmos os diferentes juízos daquilo que nos cerca.

Sem entrar em discussão ontológica ou metafísica que o assunto poderia suscitar (pois não estamos equipados "semiologicamente" para tanto, além de não ser esse o objeto fundamental deste Ponto de Vista), gostaríamos apenas (em caráter preliminar) de focalizar aspectos ligados à qualidade dos dados de informação com os quais se trabalha no campo da medicina, ou seja, o conjunto das informações com que os médicos (sejam eles militantes profissionais ou pesquisadores) fundamentam a conceituação e julgamento dos seus problemas.

Se o julgamento correto poderá não assegurar por si só a ação correta (nisso contrariando um pouco Descartes para o qual "basta julgar bem para agir bem; e faz melhor quem julga melhor". . . Discurso do Método, parte III), ele constitui, pelo menos, uma segurança para, ao se agir, fazê-lo da maneira mais adequada (ou menos errada) possível.

A adequação das ações no campo da Saúde Pública ou da medicina individual dependerá sem dúvida do julgamento correto (ou pelo menos com o menor viés possível) que se faça do problema, bem como da forma como foi visto e conceituado.

Tem-nos chamado a atenção no campo médico (seja na atividade profissional ou em menor monta, na pesquisa) o pouco cuidado não só na conceituação como na própria mensuração das variáveis que estão sendo utilizadas. Vejamos alguns destes exemplos ou suas conseqüências. Numa anamnese, o médico (dentro do seu referencial sócio-econômico-cultural) interroga o paciente (pertencente a outro referencial), utilizando palavras que são de uso comum para ambos, embora apresentando significados diferentes. Assim, o valor da informação obtida ao se questionar se: o indivíduo apresenta ou não determinado sintoma, se ele foi ou não vacinado, medicado, radiografado, etc.; se sua casa tem ou não o "bicho barbeiro", poderá apresentar ampla gama de variação (do mínimo ao máximo de crédito).

Parece que pouca preocupação é colocada nas características essenciais dos instrumentos de medidas (estabilidade, fidelidade, sensibilidade, justeza, especificidade). Conseqüentemente, é comprometido o valor preditivo (positivo ou negativo) das informações coletadas, apesar das mesmas servirem para nortear a feitura do diagnóstico da patologia do indivíduo ou mesmo da pesquisa (às vezes até científica) que o médico tem em mente.

Nem sempre se está atento na "co" ou "re-codificação" ao se passar do referencial cultural do médico para o do paciente e vice-versa. As palavras fluem de um para outro como se fossem relações biunívocas guardando significado único-permanente-imutável, a-histórico e a-pessoal. Acrescenta-se a isso a não observância das diferentes formas de verbalização dos sujeitos questionados sobre fatos sociais do qual ele participa.

É comum se fazer todo um raciocínio correto em cima de conceitos e juízos que pouco resistiriam a uma análise mais cuidadosa; entre os diferentes componentes dessa fragilidade, destacaríamos a qualidade dos dados. Assim, ao se estudar a idade da criança por ocasião do desmame com leite materno e suas causas, é óbvio que um conjunto grande de fatores estarão interferindo no fato em si e não as poucas palavras apresentadas pela mãe que, racionalizando (às vezes) também crê que a verdadeira causa seja aquela apontada; ao se efetuar inquérito sobre ingestão alimentar é muito comum aceitarem-se as informações como que apresentando sensibilidade e especificidade de 100%, o que seguramente não ocorre. Ao se questionar da ocorrência de alguma pessoa doente num domicílio (em levantamentos de morbidade) ou de sintomáticos respiratórios, nem sempre é lembrado de se procurar saber qual é o referencial de morbidade introjetado e usado por aquelas pessoas que respondem aos inquéritos. Uma série bem grande de exemplos poderiam ser enumerados justificando, dessa maneira, o objeto de preocupação deste Ponto de Vista.

Assim, se é importante estar atento às qualidades dos instrumentos de medidas efetuadas ao nível do laboratório (em geral, medidas diretas de fenômenos naturais) tão ou mais importante deverá ser o cuidado na escolha dos instrumentos que captarão as variáveis que envolvem o homem, ser com o qual trabalha a medicina humana.