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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.18 n.2 São Paulo Apr. 1984

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101984000200008 

NOTAS E INFORMAÇÕES

 

Estudo sobre malária e parasitoses intestinais em indígenas da tribo Nadëb-Maku, Estado do Amazonas, Brasil

 

A study of malaria and intestinal parasites among the Nadëb-Maku Indians of Amazonas State-Brazil

 

 

Odair GenaroI; José J. FerraroniII

IDo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) - Estrada do Aleixo, 1756 - 69000 - Manaus, AM - Brasil
IIDo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Universidade Federal do Amazonas - 69000 - Manaus, AM - Brasil

 

 


RESUMO

Em março de 1983 detectou-se uma epidemia de malária por Plasmodium falciparum na tribu indígena Nadëb-Maku localizada às margens do Rio Uneiuxi, alto Rio Negro, no Estado do Amazonas (Brasil). Foram obtidas e examinadas para hematozoários amostras de sangue periférico de 76 indígenas. Vinte e sete (35,5%) dessas amostras estavam positivas para plasmódios. A infecção malárica foi tratada com Fansidar® (pirimetamina + sulfadoxina), mefloquina e/ou primaquina. A única espécie de anofelino coletada na aldeia durante o período da epidemia foi Anopheles mediopunctatus. Amostras de fezes obtidas de 49 indígenas foram examinadas para parasitas intestinais e 100% delas estavam positivas. A maioria dos indígenas estavam parasitada por mais de uma espécie de parasita.

Unitermos: Plasmodium falciparum. Malária, tratamento. Índios brasileiros.


ABSTRACT

In March, 1983, a falciparum malaria outbreak occurred in the Nadëb-Maku Indian tribe in Amazonas State, Brazil. Seventy six blood samples were obtained and examined for hematozoa with 27 (35.5%) positive for Plasmodium falciparum. Malaria infections were treated with Fansidar® (Pyrimethamine plus sulfadoxine), mefloquine and/or primaquine. The only Anopheles species collected in the Indian tribe during the outbreak period was Anopheles mediopunctatus. All 49 stool samples obtained from the Indians were positive when examined for intestinal parasites.

Uniterms: Plasmodium falciparum. Malaria, treatment. Indians, Brazil.


 

 

INTRODUÇÃO

Em março de 1983 fomos informados da ocorrência de febre alta nos indivíduos componentes da tribo indígena dos Nadëb-Maku. Esta tribo habita uma aldeia localizada aproximadamente a 01° 12' sul e 66° 04', oeste no Estado do Amazonas, às margens do Rio Uneiuxí, afluente do Rio Negro (Figura). Com a devida permissão da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) foi imediatamente prestada assistência aos indígenas e ao mesmo tempo feito diagnóstico de saúde daquela população. A urgência de se atingir o local prendia-se ao fato de que alguns ameríndios haviam chegado a Manaus para praticar comércio, juntamente com outros caboclos. Alguns tinham problemas de saúde, com história clínica de febre há vários dias, acompanhada de cefaléia e vômitos. Dentre eles, 4 eram portadores de malária por P. falciparum. O problema era preocupante por saber que esta área do Estado do Amazonas era considerada livre de malária. A possibilidade de existir um vetor potencial na área poderia levar ao risco de uma epidemia às populações adjacentes, embora distantes, mas de contacto devido ao comércio realizado entre os índios e caboclos da área.

Este trabalho apresenta e discute os resultados da expedição científica e em linhas gerais o diagnóstico de saúde dos habitantes da aldeia Nadëb-Maku.

 

MATERIAL E MÉTODOS

A população da aldeia era constituída de 79 indivíduos, incluindo adultos e crianças de ambos os sexos, habitando 12 malocas situadas próximas uma das outras, à margem direita do Rio Uneiuxí. Foram coletadas amostras de sangue de todos os índios da aldeia. De cada amostra preparou-se gota espessa em lâminas coradas pelo Giemsa para pesquisa de plasmódios, seguindo os padrões clássicos recomendados pela Organização Mundial da Saúde. Todo índigena, com presença de parasitas no sangue periférico, foi tratado. As drogas utilizadas foram pirimetamina + sulfadoxina (Fansidar®) 20 mg/kg/ peso, dose única oral (Laboratório Roche, Rio de Janeiro); Mefloquina (Ro 21-5998/ 603) 10 mg/kg/peso, dose única oral (Laboratório Roche, Neuilly, França) e primaquina 1,0 mg/kg/peso divididos em 01 dose diária por 3 dias consecutivos, via oral. Um único paciente recebeu Fansidar® intramuscular. A parasitemia periférica foi acompanhada até 10 dias após o tratamento.

Foram coletados anofelinos intra e peridomiciliar durante quatro dias consecutivos obedecendo ao horário das 18:00 às 24:00 horas, mediante o uso de isca humana.

Coletou-se também amostras de fezes da maioria da população, as quais foram conservadas em Mertiolate, Iodo e Formol (MIF) para pesquisas de helmintos e protozoários. Essas fezes foram estudadas pelo método de Ritchie, considerado simples e eficiente tanto para helmintos como protozoários. Todos os indivíduos da aldeia foram tratados com anti-helmíntico polivalente.

Na última semana, antes de nossa chegada à área, haviam falecido quatro índios da tribo, com história clínica compatível de malária. No dia de nossa chegada à tribo, faleceram mais 3 índios de malária falciparum. Esses índios foram a óbitos antes mesmo de iniciarem o tratamento.

 

RESULTADOS

Dos 76 índios examinados para malária, 27 (35,5%) apresentaram parasitemia periférica por P. falciparum. O grupo etário mais atingido foi o menor de 10 anos, com maior prevalência para o sexo masculino (Tabela 1). Vinte e dois indivíduos com parasitas no sangue periférico foram tratados e seguidos por 10 dias (não foi possível fazer o seguimento de cinco pacientes), dos quais 20 eram do sexo masculino e 2 feminino: 17 receberam Fansidar® e 5 foram tratados com Mefloquina. A parasitemia periférica variou de 01 parasita por lâmina até 200 parasitas por campo em gota espêssa. Ambos os tratamentos foram eficazes, e no segundo dia de tratamento, não se encontrava parasitas no sangue periférico dos pacientes (Tabela 2). Durante as quatro noites de coleta (18:00 a 2400 horas) somente 15 exemplares de anofelinos foram capturados na aldeia, no período entre as 19:00 e 21:00 h., e todos pertencentes à mesma espécie: Anopheles (A) mediopunctatus.

 

 

Em todas as 49 amostras de fezes observou-se a presença de parasitas intestinais, com maior prevalência para helmintos, em particular ancilostomídeos, com 47 (96%) seguidos por Trichiurus trichiura e Ascaris lumbricoides com 33 (67,3%) e 30 (61,2%), respectivamente. Entre os protozoários a Entamoeba histolytica foi a mais representativa com 18 (36,7%) (Tabela 3). A Tabela 4 mostra o comportamento do poliparasitismo intestinal nesta população indígena. É interessante observar que houve indivíduos parasitados por 5, 6 e até 7 espécies de parasitas. Em somente 4 indivíduos observou-se um único parasita intestinal. A Tabela 5 evidencia a distribuição por grupo etário e sexo das 49 amostras de fezes desta população, com as respectivas espécies de parasitas.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

A malária não tem afetado muito a população indígena estável da Amazônia. Isto é fácil de ser entendido pois a malária está intimamente relacionada com a mobilidade das populações, como nos projetos de assentamento dirigido, núcleos de colonização, minerações e aberturas de estradas. Os migrantes infectados, após passarem por áreas endêmicas, são verdadeiros disseminadores da infecção, mesmo porque nos indivíduos não imunes os gametócitos permanecem por um maior espaço de tempo no sangue periférico.

Não foi possível detectar uma história antiga, pregressa, correta da população Nadèb-Maku, relacionada à malária. Contudo, pelas informações obtidas parece não ter havido esta infecção antes deste surto entre estes indígenas, mesmo porque, nesta área do Estado do Amazonas, os casos de malária são raros.

Em relação ao tratamento da malária nestes indivíduos, podemos verificar (Tabela 2) que tanto o Fansidar® ou Mefloquina foram eficazes na supressão da parasitemia. No segundo dia de tratamento todos os pacientes apresentavam a negativação da parasitemia periférica. Em todos os pacientes foi feito primaquina com o intuito de quebrar o ciclo esporogônico. Isto parece ter tido efeito, pois no décimo dia de tratamento não se encontrou gametócitos no sangue periférico destes indivíduos.

Não se usou os derivados 4-aminoquino-leinas (Cloroquina) para o tratamento das infecções por P. falciparum uma vez ser sabido a ampla distribuição geográfica na Amazônia de cepas desta espécie resistentes a essa droga5,17. Utilizou-se Fansidar® que, embora sejam conhecidas cepas de P. falciparum refratária a esse tratamento na Amazônia6 e assim como em outras áreas16, ele é ainda considerado um dos melhores antimaláricos para infecções por P. falciparum resistentes à cloroquina14.

Por ter se esgotado o Fansidar® e ter-se únicamente Mefloquina, utilizou-se essa droga em doses baixas, uma vez que se conhece a eficácia deste fármaco no tratamento da malária falciparum3,10. Esta parece ter sido a primeira vez que se utiliza a Mefloquina em ameríndios. Não foram observados efeitos colaterais e a parasitemia periférica negativou-se em dois dias.

A parasitemia periférica do paciente que recebeu Fansidar® intramuscular comportou-se, praticamente, de maneira idêntica aos que receberam a droga oralmente.

Neste surto epidêmico a infecção malárica foi mais prevalente na população jovem (54,9%) e principalmente no sexo masculino (Tabela 1). Este é um indicador de que houve a transmissão da malária na aldeia uma vez que, pela própria estrutura social da tribo, não se deslocam da aldeia com a mesma freqüência que os adultos. Em dois índios foram encontrados apenas gametócitos. O tempo entre o período pré-patente e o aparecimento de gametócitos é de cerca de 7 a 12 dias para P. fakiparum13, e é possível que ambos os pacientes sejam remanescentes dos primeiros indígenas infectados e que sobreviveram à fase aguda do ataque malárico.

Durante o surto epidêmico na aldeia só se conseguiu coletar A. mediopunctatus. É difícil afirmar que este anofelino tenha sido o vetor responsável pela epidemia. Contudo, é uma hipótese bastante provável, mesmo porque, ele apresenta uma acentuada antropofilia, sendo o suspeito de ser transmissor da malária em algumas áreas. Ainda mais, esse anofelino foi encontrado naturalmente infectado em Narinõ e Valle del Cauca, Colômbia8 . O A. mediopunctatus é encontrado em vários países da América do Sul9, especialmente na Amazônia2. Esta epidemia teve alguns aspectos semelhantes a uma que ocorreu entre os índios de Roraima4 onde encontrou-se prevalência de 39% de infecção. Contudo, na aldeia de Roraima foi coletado A. darlingi e houve a ocorrência das duas espécies, P. falciparum e P. vivax.

Alguns indivíduos mostraram aparente grau de desnutrição e elevado índice de cáries dentárias. A população está relativamente aculturada. Diarréia foi uma afecção observada nessa população, principalmente no grupo etário mais jovem e pode não estar somente associada à infecção por protozoários, mas também alimentar, com o uso de alimentos recentemente introduzidos pela cultura branca, como foi observado.

O alto grau de infestação por helmintos e protozoários (100%) e de poliparasitismo traz em evidência o baixo nível de saúde desta tribo. Houve indígenas parasitados por até 7 espécies de parasitos. Cerca de 32,6% da população estudada estava parasitada por 3 espécies de parasitos. Esta alta freqüência pode ser explicada pelas péssimas condições de higiena em que vivem. As necessidades fisiológicas são executadas ao ar livre e sempre próximo às malocas. Esses resultados estão em concordância com estudos realizados em populações indígenas da Amazônia. Neel e col.12 (1968) encontraram 96,7% de ancilostomídeos entre os índios Xavantes. Praticamente as mesmas percentagens foram verificadas por Lawrence e col.11 (1980) em várias populações ameríndias da Amazônia, inclusive com alto grau de poliparasitismo. É interessante notar que em populações não indígenas do interior da Amazônia, a taxa de prevalência para ancilostomídeos são mais baixas. Costa1 (1947) encontrou prevalência de 37% para ancilostomídeos, em quatro cidades, enquanto Ferraroni e col.7 (1979) encontraram 30% de prevalência para o mesmo parasita na cidade de Nova Olinda do Norte, Amazonas.

 

AGRADECIMENTOS

A Mary E. H. Weir, Jorge R. Arias e Robert Landford pelo apoio logístico e à FUNAI pela permissão de visitar a tribo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 13/06/1983
Aprovado para publicação em 24/12/1983