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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.18 n.3 São Paulo Jun. 1984

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101984000300003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Prevalência de hipovitaminose A em pré-escolares de município da Área Metropolitana de São Paulo, Brasil

 

Prevalence of hypovitaminosis A in preschool children in a town of the Metropolitan Area of S. Paulo, Brazil

 

 

Maria José Roncada; Donald Wilson; Eliza Tieko Okani; Seiko Amino

Do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP – Av. Dr. Arnaldo, 715 – 01255 - São Paulo, SP - Brasil

 

 


RESUMO

Foram realizadas dosagens de vitamina A e caroteno plasmáticos em 362 pré-escolares de 3 a 6 anos de idade, residentes na área urbana do Município de Cotia, situado a 34 km de São Paulo, SP (Brasil), usando-se amostra representativa. O método utilizado foi o de Carr-Price e os critérios de classificação dos resultados foram propostos pelo "Interdepartmental Committee on Nutrition for National Defense" (ICNND). A prevalência de hipovitaminose A em nível bioquímico foi de 30,2%.

Unitermos: Vitamina A, deficiência. Caroteno. Inquéritos nutricionais.


ABSTRACT

Three-hundred and sixty-two preschool children between the ages of three and six years were examined for plasma levels of vitamin A and carotene. All were residents of the urban area of the city of Cotia, thirty-four km from S. Paulo, Brazil. A representative sample was taken for the purpose. The Carr-Price laboratory method was used as were the Interdepartmental Committee on Nutrition for National Defense (ICNND) criteria for classifying results. Prevalence of vitamin A deficiency at biochemical level was 30.2%.

Uniterms: Vitamin A, deficiency. Carotene. Nutritional surveys.


 

 

INTRODUÇÃO

A ingestão reduzida de alimentos ricos em vitamina A, por tempo prolongado, causa diminuição da reserva hepática desse nutriente, e conseqüente abaixamento dos níveis circulantes, estabelecendo-se, assim, a hipovitaminose A. Esta moléstia carencial poderá levar a alterações oculares de diferentes graus de intensidade, culminando em cegueira, parcial ou total, que urna vez instalada é irreversível.

No Brasil foi constatado, em nível nacional, pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (FIBGE), por meio do Estudo Nacional de Despesa Familiar (ENDEF)2,3,4,5, grande inadequação no consumo de vitamina A, pois os resultados, em quase todos os locais pesquisados, foram geralmente inferiores a 100% de adequação. Tais resultados concordam com aqueles relatados por Roncada e col.9, referindo-se a onze comunidades paulistas estudadas pelo Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

No que se refere às informações bioquímicas, não há dados a respeito do país como um todo. Por isso, especialistas reunidos pelo Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição (INAN)6 concluiram que os dados existentes são em pequeno número e, geralmente, pouco consistentes para que se possa definir com segurança o problema da hipovitaminose A no Brasil.

Dado o interesse do INAN em obter subsídios para a implementação de um sistema diagnóstico e de vigilância nutricional em relação à hipovitaminose A, bem como para programas de combate a essa carência, foi firmado um convênio entre essa entidade e a Universidade de São Paulo, através de sua Faculdade de Saúde Pública, para a execução do Projeto Hipovitaminose A, cujo primeiro objetivo, escopo deste trabalho, é o levantamento da prevalência de hipovitaminose A em pré-escolares expostos ao risco.

 

METODOLOGIA

Universo

O universo deste trabalho foi a população de 3 a 6 anos de idade, residente na área urbana do Município de Cotia, São Paulo, um dos 37 municípios integrantes da Grande São Paulo.

O Município de Cotia situa-se a oeste da Área Metropolitana de São Paulo, ocupando uma superfície de 417 km2. Sua sede localiza-se a 34 km de São Paulo, possuindo clima temperado e altitude média de 750 m.

O censo de 1980 mostrou uma população de 62.569 habitantes, 51% do sexo masculino e 49% do feminino, havendo predominância dos grupos etários mais jovens (37,3% com menos de 15 anos de idade).

Amostragem

Cadastramento da População – Foi realizado um cadastramento para o qual utilizou-se uma ficha especificamente elaborada para este fim. Inicialmente, foi feita a atualização da planta da cidade fornecida pela Prefeitura Municipal (Planta de 1978). Em seguida, visitaram-se todas as residências do perímetro urbano, sendo as informações necessárias para o preenchimento da ficha de cadastramento solicitadas a indivíduos adultos residentes na moradia visitada.

Este cadastramento permitiu separar as famílias residentes na área que contavam em sua composição com pré-escolares de 3 a 6 anos de idade, restringindo-se, assim, o universo. Preencheram tal requisito 1.083 famílias, totalizando 1.426 crianças com a idade exigida.

Extração da Amostra – As famílias componentes deste universo restrito foram numeradas arbitrariamente, utilizando-se uma tabela de números ao acaso; sorteou-se um número de famílias de modo a ter uma amostra de 500 pré-escolares de 3 a 6 anos, representada pela soma dos pré-escolares de cada família.

O mesmo critério foi utilizado sempre que se tornou necessário repor uma família perdida por recusa ou mudança de domicílio.

Após a extração da amostra, foi ela comparada ao universo, segundo os atributos sexo, idade e local de residência, revelando-se representativa.

Colheita de sangue e processamento das amostras

Foram colhidos de cada criança 5 ml de sangue por venopunção, usando material descartável (equipamento Vacutainer®) contendo etilenodiamintetracetato dissódico-EDTA- como anti-coagulante.

As amostras eram cuidadosamente misturadas por inversão e colocadas em caixa de isopor fechada e resfriada, onde permaneciam até sua chegada ao laboratório do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, no qual foram realizadas as análises.

O processamento das amostras de sangue no laboratório dava-se até 3 horas após a colheita, quando então os tubos eram homogeneizados para a retirada das alíquotas que serviriam à micro-determinação de hemoglobina*; em seguida, o plasma era separado por centrifugação a 3.000 r.p.m. por 10 min , colocado em tubos plásticos de cor âmbar, submetido a tratamento com nitrogênio e congelado a -20°C. As análises de vitamina A e caroteno foram realizadas em prazo que variou entre o mesmo dia da colheita das amostras até um máximo de 10 dias.

A condição "sine qua non" para a realização da colheita de sangue foi a anuência dos responsáveis pelos pré-escolares.

Método bioquímico

O método adotado para as dosagens de vitamina A e caroteno plasmáticos foi o de Carr-Price1, conforme recomendação do International Vitamin A Consultative Group (IVACG)10 para trabalhos de campo e também por ser preferível, segundo Strohecker e Henning11, na determinação de vitamina A em compostos nos quais sua concentração é baixa, como no caso do leite e do sangue. Utilizou-se espectrofotômetro Coleman 295.

Houve a preocupação de proteger as amostras contra a ação da luz e da oxidação em todas as fases (colheita, transporte, manuseio, armazenamento e análise), sendo descartadas as amostras hemolisadas. O controle de qualidade foi realizado com amostras-controle igualmente conservadas a -20°C.

Critérios para interpretação dos resultados

Utilizaram-se os critérios propostos pelo Interdepartmental Committee on Nutrition for National Defense (ICNND)7:

a) Para vitamina A plasmática:
Deficiente (D) - < 10 mg/100ml
Baixo (B)-10-19,9mg/100ml
Aceitável (A)- 20-49,9mg/ 100ml
Alto (H)- >50 mg/100ml

b) Para caroteno plasmático:
Deficiente (D) - < 20 mg/100ml
Baixo (B)-20-39,9 mg/100ml
Aceitável (A) - 40 - 99,9 mg/100ml
Alto (H)->100mg/100ml

Também, segundo o ICNND, existe um problema de Saúde Pública com relação à vitamina A quando 5% ou mais da amostra apresentam um valor plasmático de vitamina A menor do que 10 mg/100ml ou 15% abaixo de 20 mg/100ml. Deve-se enfatizar que os dados bioquímicos tomados isoladamente são indicativos apenas de carência de vitamina A, não expressando um problema de xeroftalmia.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Como costuma ocorrer em trabalhos desta natureza, não se conseguiu colher sangue de um certo número de crianças, ou porque os responsáveis não permitiram a colheita ou por dificuldades técnicas. No presente trabalho colheu-se sangue de apenas 362 pré-escolares.

Examinado-se a Tabela 1, pode-se observar que os resultados médios, em todas as categorias de idade e nos dois sexos, são superiores a 20mg/100ml, considerado valor limite de normalidade7. Não houve variações significantes segundo idade ou sexo.

Levando-se em consideração, por outro lado, a classificação de resultados proposta pelo ICNND, observa-se uma alteração nesse quadro. Assim, vê-se na Tabela 2 que 13 crianças (3,6%) apresentaram valores de vitamina A plasmática < 10 mg/100ml e 96 delas (26,6%) valores entre 10 e 19,9 mg/100ml. Portanto, segundo o ICNND, 109 crianças (30,2%) têm resultados abaixo do limite mínimo normal, ou seja, quase um terço das crianças examinadas bioquimicamente. Além disso, chama a atenção o fato de que nenhuma das crianças apresentou um valor considerado "Alto", por essa classificação. Também não houve variações significantes quanto a sexo ou idade.

Em Lomba do Tarumã (Viamão, RS), Wilson e Nery12 encontraram 43,9% de resultados de dosagens bioquímicas de vitamina A em pré-escolares abaixo de 20 mg/100ml, sendo 24,2% menores que 10 mg/100ml. Roncada e col.8, estudando crianças de 2 a 7 anos de idade, filhos de migrantes nacionais em trânsito pela Capital de São Paulo, encontraram 51,4% de valores plasmáticos de vitamina A abaixo do normal, dos quais 13,9% classificados como "Deficiente". Wilson e col.13, examinando pré-escolares internados em uma instituição para menores, também na Capital, verificaram que 73,9% dos examinados apresentavam valores plásmáticos de vitamina A abaixo de 20 mg/100 ml, compreendendo 39,4% na categoria "Deficiente".

Lembrando o critério estabelecido pelo ICNND para caracterizar a hipovitaminose A como problema de Saúde Pública, verifica-se existir tal problema na localidade em pauta, embora não apresentando a mesma magnitude desses outros grupos estudados pelo Departamento de Nutrição. O fato deve, porém, ser encarado com muita atenção, dada a informação que fornece a programas de combate à desnutrição e a sistemas de vigilância nutricional.

Quanto ao caroteno plasmático, que exprime a ingestão recente de alimentos ricos em pró-vitaminas A, os resultados estão expressos às Tabelas 3 e 4.

Os valores médios das dosagens de caroteno plasmático revelaram-se acima do nível considerado normal (40 mg/100ml). Entretanto, pode-se notar que cerca de 11% das crianças apresentaram resultados que, pelo ICNND, estão abaixo de "Aceitável", o que revela uma ingestão baixa de fontes de carotenóides, no mínimo por ocasião próxima à colheita de sangue.

 

CONCLUSÕES

1. A prevalência de hipovitaminose A em nível bioquímico nos pré-escolares de 3 a 6 anos de idade, na localidade de Cotia, é de 30,2%.

2. Segundo o ICNND, a hipovitaminose A nesta localidade é problema de Saúde Pública (30,2% abaixo de 20 mg/100ml), embora a proporção de valores na categoria "Deficiente" esteja aquém de 5%.

3. Em magnitude, o problema é inferior aos encontrados em outras pesquisas realizadas pelo Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

4. O caroteno plasmático apresenta proporção de 11,6% de valores considerados inferiores ao limite de normalidade.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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3. FUNDAÇÃO IBGE. Consumo alimentar; antropometria; Região II – São Paulo; Região IV – Minas Gerais e Espírito Santo. Rio de Janeiro, 1977. (Estudo Nacional da Despesa Familiar, v.1:dados preliminares, t.1).        [ Links ]

4. FUNDAÇÃO IBGE. Consumo alimentar; antropometria; Região V – Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. Rio de Janeiro, 1977. (Estudo Nacional da Despesa Familiar, v.1: dados preliminares, t.1).        [ Links ]

5. FUNDAÇÃO IBGE. Consumo alimentar; antropometria; Região VI – Distrito Federal; Região VII – Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará, Amapá, Goiás e Mato Grosso. Rio de Janeiro, 1978. (Estudo Nacional da Despesa Familiar, v.1: dados preliminares, t.1).        [ Links ]

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10.SOMMER, A.; McLAREN, D. S. &OLSON, J. A. Assessment of vitamin A status. IVACG Task Force on Assessment. In: Guidelines for the eradication of vitamin A deficiency and xerophthalmia; a report of the International Vitamin A Consultative Group (IVACG). New York, The Nutrition Foundation, 1976. p.I-1-I-7.        [ Links ]

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Recebido para publicação em 11/01/1984
Aprovado para publicação em 26/03/1984
Trabalho subvencionado pelo Convênio n.° 08/81, realizado entre o Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição (INAN) e a Faculdade de Saúde Pública/USP

 

 

* Dados Inéditos.