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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.19 n.6 São Paulo Dec. 1985

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101985000600001 

Victório Barbosa — 1921 - 1984

 

 

Oswaldo Paulo Forattini

 

 

 

A 21/12/1984 deu-se o inesperado passamento de Victório Barbosa.

Este fascículo da Revista de Saúde Pública vem à luz decorrido algum tempo daquela data, contudo situa-se no mesmo período e é dedicado à memória daquele que viveu entre nós de maneira significante.

Victório Barbosa nasceu em Novo Horizonte, SP, a 10/2/1921. Freqüentou o curso de médico da Escola Paulista de Medicina onde se graduou em dezembro de 1950. Em igual época de 1954 recebia o título de médico sanitarista após ter feito o curso da Faculdade de Saúde Pública da USP, onde viria a conquistar o grau de doutor em 1963, graças ao seu brilhante desempenho no Curso de Doutorado daquela instituição e julgamento de distinção que foi atribuído à sua tese, subordinada ao título "Contribuição para o conhecimento da epidemiologia da poliomielite no município de São Paulo".

Tendo ingressado no serviço público em 1952, fê-lo no então Serviço de Profilaxia da Malária, atual Superintendência de Controle de Endemias (SUCEN) da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo. Em 1955 foi convidado pelo Prof. Augusto Leopoldo Ayrosa Galvão para integrar a então Cadeira e atual Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo onde, em 1967, obteve o título de Professor Livre-Docente de Epidemiologia, após submeter-se a concurso de títulos e provas no qual foi aprovado com distinção. Ali, em sua carreira, iria galgar nova posição ao alcançar, em 1972, o título de Professor Adjunto.

Durante todo esse período, sua presença foi marcada pelo desempenho marcante tanto em atividades universitárias como executivas públicas. Dentre estas destacam-se as correspondentes às diretorias dos Serviços de Centros de Saúde da Capital, de 1967 a 1969, e do Departamento Regional de Saúde da Grande São Paulo, de 1969 a 1971, e à Coordenadoria de Saúde da Comunidade de 1977 a 1979 e finalmente como Secretário da Saúde do Governo do Estado de São Paulo, em 1982.

Em suas atividades universitárias incluem-se não somente as que desempenhou nesta Unidade, mas também as que resultaram de sua colaboração à Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo e à Escola Paulista de Medicina.

Sua presença científica encontra-se testemunhada por 34 publicações onde se destaca a freqüência da temática sobre os aspectos imunitários utilizados na profilaxia de infecções, em especial modo da poliomielite, para a qual deu marcante contribuição.

A pessoa de Victório Barbosa revelava comportamento autêntico que transbordava em seu caráter extrovertido. Talvez dele, como homem, tenhamos pouco conhecido ou então pouco nos revelou aquele aspecto de franca exuberância que, na realidade, escondia acentuadas emotividade e sensibilidade. Contudo Victório Barbosa foi personalidade que deixou indeléveis marcas nas aparentes contradições de sua passagem. Incansável no trabalho, dedicado aos elevados objetivos que norteiam aqueles que servem à Sociedade, a lealdade em seus elevados parâmetros lhe foi feição característica. Surpreendido pela morte em pleno exercício profissional, foi-se de nosso convívio. Sua presença inscreveu-se para sempre na galeria dos nomes daqueles que por esta instituição passaram. À sua memória as homenagens desta Redação.

 


 

Coerência de contrastes

 

 

Cornélio Pedroso Rosenburg

 

 

Mergulhada na bruma do tempo aos poucos rompida, assim se vislumbra a imagem daquele que em vida se conheceu como Victório Barbosa.

Num primeiro instante, se distingue o imenso corpanzil, coroado de vasta cabeça, talhada em linhas grossas e que nem de longe lembram a figura de um Adonis.

Vóz potente e até tronitroante, que a todos envolve; e aos poucos se transforma em arauto de uma presença, temida às vezes, admirada outras, respeitada sempre.

Presença de Victório

Reflexo de alma cândida, seráfica mesmo, repositório de bem querer!

Pudica de suas virtudes, busca no ciclópico físico que a encerra, refúgio próprio para disfarçar sua nudez.

Busca permanente e inglória.

Como é fácil para quem dessa presença se aproxima, usufruir daquela nudez.

Aqui se apresenta catita a alegria de viver, vestida com o sisudo manto da responsabilidade e do senso do dever; mais além a mancha larga da agressividade, de contornos ásperos e reflexos explosivos, toda ela permeada de olvido e compreensão;

Adiante o culto do perfeccionismo sobre o qual se derrama a inquietude do pesquisador e do cientista; em outra parte a crítica contundente carregada de humanidade; mais além a indisfarçável vaidade, fruto da consciência de seu imenso saber; e a visão caleidoscópica de Victório segue por essa trilha interminável toda ela povoada de contrastes que se materializa nas figuras do Professor, do Cientista, do Administrador, do Político, e do HOMEM, VICTÓRIO BARBOSA.