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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.20 n.5 São Paulo Oct. 1986

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101986000500001 

EDITORIAL

 

O declínio das doenças cardiovasculares como causa de morte

 

 

Ruy Laurenti

Prof. Titular do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP

 

 

As doenças cardiovasculares (DCV) tem-se destacado, principalmente nos Estados Unidos e países industrializados da Europa, porque representam desde as primeiras décadas deste século causas importantes de morte e têm mostrado uma tendência crescente. Em alguns daqueles países as DCV passaram, a partir do início da década de 50, a representar 50% ou pouco mais do total das mortes. Não que sua representatividade fosse crescente apenas devido a redução de outras causas - por exemplo as doenças infecciosas - mas o risco de morrer pelas DCV era também crescente.

A partir do final da década de 40, quando medidas preventivas tornaram possível a redução das complicações cardíacas da febre reumática com consequente queda da mortalidade, duas causas vem se destacando entre as DCV: as doenças isquêmicas do coração (DIC) e as doenças cerebrovasculares (DCbV). Nos Estados Unidos a participação crescente das DIC na mortalidade levou alguns autores a chamarem a doença de "a epidemia do século" e passou-se a se interessar vivamente por estudos não mais somente do tipo descritivo dado pelas estatísticas vitais, mas por aqueles analíticos que permitissem um melhor conhecimento dos fatores de risco para o desenvolvimento da doença. Surgiram então numerosos projetos que se propuseram a estudar prolongadamente grupos populacionais segundo várias características. Merece ser mencionado pela importância, pela duração e pelos numerosos resultados que apontam fatores de risco, o estudo de Framingham.

Por outro lado, além destes estudos que proporcionaram à população, pelos seus resultados, conhecimentos que possibilitam a prevenção primária, outros levaram a um grande avanço tecnológico do ponto de vista terapêutico, quer clínico quer cirúrgico. Assim, ao mesmo tempo que equipamentos cada vez mais sofisticados vinham e vêm possibilitando a recuperação de muitos casos de "ataque cardíaco", aumentando a sobrevida, os conhecimentos adquiridos a respeito dos fatores de risco da doença aterosclerótica induziram, em maior ou menor grau, à redução do fumo, a evitar alimentos gordurosos, ao controle da hipertensão arterial, a fazer exercícios, entre outros.

Conseqüência ou não da prevenção primária ou dos avanços terapêuticos, ou de ambos ou ainda de ambos mais alguma coisa que se desconhece (e porque não o próprio comportamento da doença?) começou-se a verificar, após décadas de ascensão, um declínio da mortalidade por DCV, principalmente devido ao comportamento da DIC, ao qual foi dado maior destaque, mas também ao declínio da mortalidade por DCbV.

A tendência declinante da mortalidade por DIC iniciou-se nos Estados Unidos e Canadá, no final da década de 60. Mais especificamente, nos Estados Unidos, em 1968. O fato chamou tanto a atenção que, em 1978, foi promovida uma conferência reunindo clínicos, cardiologistas, epidemiologistas, estatísticos, dentre outros, em Bethesda, Maryland, EUA, pelo "National Heart, Lung and Blood Instiute"1. O objetivo foi discutir se a redução de mais de 20% no declínio da mortalidade por DIC observado de 1968 a 1976 era real; discutir possíveis causas e recomendar estudos ulteriores para elucidar essas causas. Entre outras conclusões, chegaram-se às seguintes: o declínio da mortalidade por DIC, nos EUA, era real e não devido a artefatos; quer a prevenção primária, atuando por meio de mudanças em alguns fatores de risco, quer a melhoria da assistência médica específica, contribuíram para a redução, porém não explicavam totalmente o declínio, e uma quantificação mais precisa das causas de declínio necessitava ser avaliada por meio de vários estudos, especialmente aqueles planejados para verificar se a freqüência de casos não fatais da DIC estava mudando.

Nos Estados Unidos a tendência ao declínio iniciada em 1968 continuou existindo. Em numerosos outros países também tem ocorrido o fato: Inglaterra, Japão, Austrália, Nova Zelândia e quase todos da Europa Ocidental.

No Município de São Paulo um estudo recente2 mostrou que, para maiores de 20 anos, a tendência de mortalidade por DIC foi crescente até 1976 e, a partir desta data, vem declinando continuamente, sendo o declínio maior no sexo feminino.

Neste número da Revista de Saúde Pública (p.343) está publicado outro trabalho mostrando a tendência da mortalidade por DCbV no Município de São Paulo. Da mesma maneira como nos países desenvolvidos, também entre nós está se verificando um declínio da mortalidade por este grupo de doenças. O declínio iniciou-se em 1975 e até 1981 foi de 11,1% (13,6% para homens e 8,5% para mulheres).

Será que as mesmas causas que levaram ao declínio em outros países estão também atuando entre nós? Tudo leva a crer que sim, mas dentre elas quais as mais importantes? Aquelas que estão levando a população a modificar seu estilo de vida, no sentido de evitar os fatores de risco? Ou são mais importantes as medidas terapêuticas clínicas e cirúrgicas que, cada vez mais, ao que tudo indica, vêm sendo utilizadas no Município de São Paulo, um dos maiores centros de cardiologia da América Latina? Ou é a tendência da doença em todo mundo? Estão havendo menos casos ou a sobrevida é maior?

Os estudos que vêm sendo feitos em outros países ainda não têm encontrado respostas satisfatórias. Entre nós só se tem conhecimento destes dois estudos que mostram o declínio das DIC e das DCbV, porém, não se tem notícia de algum estudo que esteja sendo realizado ou planejado visando analisar especificamente a incidência e a sobrevivência.

Esta é uma tarefa que deve ser pensada conjuntamente pelos epidemiologistas e clínicos: que tipos de estudos devem ser planejados objetivando uma resposta às indagações que vêm sendo feitas em outros países e agora passam a ser feitas também entre nós. É preciso ficar claro que não se tratam de indagações puramente acadêmicas pois, parece claro, que os resultados poderão trazer subsídios importantes ao conhecimento clínico e epidemiológico das DCV - especificamente as DIC e as DCbV - o que poderá contribuir para diminuir a incidência e/ou aumentar a sobrevida.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. HAVLIK, R.J. & FEINLEIB, M., ed. Proceedings of the Conference on the Decline in Coronary Heart Disease Mortality. Washington, D.C., US Department of Health, Education and Welfare, 1979. (NIH-79 -1610).

2. LOLIO, C.A. de & LAURENTI, R. Mortalidade por doença isquêmica do coração no Município de São Paulo: evolução de 1950 a 1981 e mudanças recentes na tendência. Arq. bras. Cardiol., 46: 153-6, 1986.