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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.22 n.2 São Paulo Apr. 1988

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101988000200010 

Helmintoses intestinais. I — Conhecimentos, atitudes e percepção da população

 

Intestinal helminths in Brazil. I — Knowledge, attitudes and perception of population

 

 

Dalva A. MelloI; Sérgio PripasIII; Marta FucciIII; Maria Cristina SantoroIII; Elisete Silva PedrazzaniII

ICentro de Pesquisa em Ciência e Tecnologia — Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico — Quadra 5, Bloco H, sala 803 — 70740 — Brasília, DF — Brasil
IIUniversidade Federal de São Carlos — Caixa Postal 676 — 13560 — São Carlos, SP — Brasil
IIICentro de Saúde I — São Carlos — Rua Amadeu Amaral, s/n.° — 13560 — São Carlos, SP — Brasil

 

 


RESUMO

Com o objetivo de coletar subsídios que norteassem parte de um programa de intervenção em helmintoses intestinais, foi realizada uma pesquisa, no Município de São Carlos, SP (Brasil), sobre conhecimentos, atitudes e percepção da população local, sobre o assunto. A pesquisa foi realizada com responsáveis por escolares, no período de três meses (1984-1985), por meio de questionário aplicado em uma amostra da população, correspondendo a 50% + 2 do universo de estudo. Os resultados mostraram que a população detém uma codificação para identificação de helmintoses, asssim como conceituação própria sobre sinais e sintomas, aspectos epidemiológicos e formas de tratamento. Esses achados são de fundamental importância para o planejamento das campanhas e projetos educacionais em verminoses.

Unitermos: Conhecimentos, atitudes e práticas. Helmintíase, prevenção e controle. Educação em saúde.


ABSTRACT

A research project into knowledge, attitudes and perception regarding human intestinal parasitic helminths was carried out in Brazil. The study was conducted by means of interviews with parents of scholers during three months (November and December/1984 and January/1985). The data collected included 88 interviewed. The results obtained showed that the population has an appropriate codefication for the identification of parasitic helminths, and accumulated knowledge concerning clinical aspects of the disease. Theses results are useful for planning control programmes of intestinal parasites, based on community participation. Beside that they are also important as useful insights as a baseline for health education programmes.

Uniterms: Knowledge, attitudes, practice. Helminthiasis, prevention and control. Health education.


 

 

INTRODUÇÃO

As helmintoses intestinais constituem ainda importantes entidades mórbidas para o homem pois têm ampla distribuição geográfica, elevados índices de prevalência e em alguns casos morbilidade significante. Botero3,4 (1979, 1981), fazendo uma revisão sobre o assunto na América Latina, conclui que a situação não se modificou nos últimos 50 anos e salienta que a distribuição geográfica desses parasitas se estende concomitantemente com o subdesenvolvimento. Esse autor ressalta que os índices de freqüência das helmintoses intestinais constituem indicador socioeconômico das comunidades por onde se disseminam. Aguilar1 (1981) apresenta dados da Divisão de Epidemiologia dos Serviços de Saúde da Guatemala que situam as helmintoses intestinais entre as 10 principais causas de morbidade e mortalidade geral do país. No Chile, apesar de melhoria das condições de saneamento nos últimos dez anos, a prevalência em algumas regiões de importância econômica para o país, é bastante alta (Schenome e col.18, 1981).

No Brasil, o primeiro grande levantamento helmintológico data do período de 1916 a 1921 e foi realizado com o auxílio direto da Fundação Rockfeller8. Foram examinadas 77.436 amostras fecais de 10 Estados. Os percentuais de freqüência total variaram entre 78,2% e 99,4%. Posteriormente, Pellon e Teixeira16 (1950) realizaram novos levantamentos, desta vez com uma população definida. Foram examinados 440.786 escolares na faixa etária de 7 a 14 anos, em 11 unidades federativas. Os índices de pravelência situaram entre 19,9% e 98,84%. Posteriormente, Vinha19 (1968) compilou dados de exames coprológicos realizados pelo Ministério da Saúde em diferentes regiões do país. De um total de 55.735.755 exames, os resultados se distribuíram como segue: Ancilostomídeos — 27,7% a 28,8%; A. lumbricoides — 60,60% a 66,6% e T. trichiura — 35% a 38,4%. A avaliação feita por aquele autor é a de que no país existem cerca de 103,5 milhões de portadores de helmintos intestinais. Chieffi e col.6 (1982), tambem compilando dados de 6.142.264 exames coprológicos, realizados nos laboratórios do Instituto Adolfo Lutz de São Paulo, no período de 1960-1979, verificaram os seguintes resultados: A. lumbricoides — 17,0% a 38,1%, T. trichiura — 10,4% a 23,6%, Ancilostomídeos — 9,2% a 23,6%, S. stercoralis — 2,8% a 6,6%.

Vinha20 (1975) ressalta que a importância das helmintoses intestinais no Brasil não comporta contestação. Os índices são altos, há uma ampla distribuição geográfica da doença atingindo principalmente grupos da população de baixo padrão socioeconômico, os quais pagam maiores tributos de saúde e não usufruem de assistência médica e sanitária. Esse autor acrescenta ainda que — "A redução das condições físicas e de atividades de cada indivíduo parasitado representa uma perda óbvia previsível em dias de trabalho, capacidade para o aprendizado, atraso no desenvolvimento físico, mental e social" — e salienta que o binômio "verminose-nutrição" reforça a necessidade de programas contra esses helmintos, em comunidades assistidas oficialmente com enriquecimento alimentar (por exemplo, a merenda escolar), pois os distúrbios no metabolismo, resultantes das lesões intestinais, impedem absorção adequada dos nutrientes.

Botero3,4 (1979, 1981) considera que, embora a erradicação das helmintoses seja complexa, devido aos múltiplos fatores que determinam sua prevalência, a melhoria das condições ambientais e pessoais aliadas ao tratamento de massa, periódico, seriam capazes de reduzir a prevalência. Salienta ainda que o custo do controle por meio de quimioterápicos é menor do que as clássicas medidas preconizadas.

Jancloes11 (1979), trabalhando na República do Zaire (África), mostrou ser possível baixar os níveis de infecção por helmintoses intestinais com quimioterápicos. Esse autor mostra que as comunidades apreciam e participam de campanhas de massa bem conduzidas, uma vez que estas são motivos concretos para as pessoas se engajarem em ações educativas. No Japão, entretanto, o sucesso no controle das geo-helmintoses foi obtido através de ações conjuntas que envolveram tratamento de massa, saneamento e atividades educativas amplas9.

Definir formas de intervenção para qualquer doença transmissível requer não apenas conhecimentos sobre o agente etiológico, fatores biológicos e ambientais como também sobre o hospedeiro humano. No caso das parasitoses intestinais, fatores humanos de grande complexidade intervém em programas de controle e prevenção que se pretenda implantar em qualquer região. Na realidade, "eles representam a parte mais importante do ecosistema no qual circulam os parasitas. a comunidade deve ser informada sobre o problema e participar das soluções" (OMS15, 1981).

Dunn7 (1979), Bizerra e col.2 (1981) e Ogunmekan14 (1983), trabalhando com parasitoses, consideram fundamental identificar aspectos do comportamento, percepção, atitudes, conhecimentos da população em relação ao assunto. Para esses autores, os dados obtidos são fundamentais para a planificação racional de eventuais programas de intervenção.

Diante da importância das helmintoses no Brasil como delineado acima, procurou-se desenvolver um projeto de pesquisa sobre intervenção, o qual foi conduzido em várias etapas. A primeira apresentada no presente trabalho, teve por objetivo o estudo de conhecimentos, atitudes e percepção da população sobre helmintoses intestinais.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Descrição Geral da Localidade

O subdistrito de Santa Eudóxia, no Município de São Carlos, no Estado de São Paulo, está situado a 42 km via rodovia municipal, na direção noroeste de São Carlos. Este subdistrito é formado por uma vila com características rurais e algumas fazendas, tendo respectivamente uma população aproximada de 866 e 1.982 habitantes (censo 1980).

As atividades econômicas de sustentação da região são de caráter predominantemente agropecuária (cana, laranja, café, gado). Na vila há um comércio varejista, principalmente de produtos alimentícios. Em relação aos serviços públicos, Santa Eudóxia possui: uma agência bancária da Caixa Econômica Estadual; uma agência de correio; duas escolas (uma do Estado e outra do Município); uma creche mantida pela igreja, Legião Brasileira de Assistência e voluntários da cidade; rede de água, luz e telefone; um posto de saúde com um agente e um servente residente na vila, e dois médicos de São Carlos que prestam serviços pela manhã, duas vezes por semana, em um período de duas horas cada; duas igrejas com um pároco em serviço temporário; e uma freira (residentes em São Carlos) que conduz trabalho de pastoral de jovens e catecismo uma vez por semana.

Inexiste no subdistrito rede de esgoto e qualquer forma de coleta de lixo. O destino dos dejetos é determinado por soluções individuais, na maioria das vezes inadequadas. A análise da água distribuída pela rede pública, realizada pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto de São Carlos (SAAE), indicou boas condições de potabilidade. O tratamento com cloro e flúor está dentro dos níveis recomendados pelos serviços de saneamento e a colimetria indicou ausência de contaminação fecal.

População Estudada

A pesquisa sobre conhecimentos, atitudes e percepção da população de Santa Eudóxia, em relação aos helmintos intestinais, foi realizada em uma amostra aleatória simples das pessoas responsáveis (pai, mãe ou outro adulto) pelas crianças que freqüentam as escolas locais. Para este fim procedeu-se a um sorteio dos endereços dos alunos matriculados na vila, agrupando-se irmãos. Quando os endereços não eram localizados ou quando as pessoas haviam se mudado, outros sorteios eram realizados. A amostra definida em 174 endereços foi de 88 pessoas, correspondendo, portanto, a 50% mais 2, da amostra.

Instrumento Utilizado para a Pesquisa

O instrumento utilizado para a pesquisa, constou de questionário com 23 perguntas abertas e fechadas (Anexo). Essas perguntas abordaram os seguintes aspectos sobre helmintoses intestinais: espécies, etiologia da verminose, aspecto do ciclo evolutivo de importância epidemiológica (fontes de infecção, porta de entrada, vias de eliminação, "habitat" do hospedeiro, sobrevida dentro e fora do hospedeiro), diagnóstico, sintomatologia, tratamento, importância e medidas preventivas. Algumas questões, embora formuladas de maneira diferente, tiveram o objetivo de obter informações sobre o mesmo assunto. Tal procedimento foi justificado no sentido de se ter maior segurança nas respostas obtidas. Procurou-se ainda obter dos entrevistados informações quanto ao grau de instrução, idade, sexo e profissão.

O questionário foi aplicado pelos autores do projeto, nos meses de dezembro (1984), janeiro e fevereiro (1985), duas vezes por semana, em dias alternados pela manhã e no sábado à tarde. A duração de cada expediente de trabalho era em torno de três horas. Cada entrevistador conseguia abordar 3 a 4 pessoas por dia.

 

RESULTADOS

As entrevistas foram realizadas com toda amostra definida, ou seja, 88 pessoas, entre as quais 32 eram responsáveis por alunos da escola municipal e 56 por alunos da escola estadual.

O grau de instrução dos entrevistados foi como segue: 17% eram analfabetos, 56% tinham primário incompleto e 26% primário completo. Quanto à ocupação: 75% desenvolviam atividade doméstica, 9% trabalhavam no campo, 7% no comércio e 9% em atividades diversas. Dos entrevistados, 97% foram mulheres e 2,2% homens. A média da faixa etária foi de 36,2 anos com amplitude de 15 a 63 anos. Todos moravam em casa com rede de água e fossa.

Entre os entrevistados, 82 pessoas conheciam helmintos. Essas pessoas codificavam as espécies da seguinte maneira: Lombriga — 54, Solitária — 29, Bicha — 21, Verme — 19, Oxiuros — 14, Amarelão — 5, Outros — 9. Mas todos desconheciam a palavra verminose.

Na Tabela 1 estão tabuladas as respostas das questões de 5 a 13, do questionário (Anexo), referentes a aspectos do ciclo evolutivo de importância epidemiológica. A primeira coluna dessa Tabela, que resume as respostas dadas às questões 5 e/ou 6, sobre às fontes de infecção, mostra que quatro elementos foram destacados pela população: terra — 68, alimentos sujos — 53, sujeira — 35, água — 23. A porta de entrada do parasita (questão 7), foi identificada pela maioria como sendo: pés — 47 e boca — 36. Em relação ao "habitat" dos helmintos (questões 8 e/ou 9), a maioria dos entrevistados identificou como sendo o intestino — 58 e a barriga — 26. Quanto às vias de eliminação e local de deposição dos vermes (questões 10 e 11), verifica-se (Tabela 1) que enquanto 48 pessoas afirmaram que os helmintos são eliminados pelas fezes — "as pessoas põem eles" — 34 desconheciam o destino deles; 66 não sabiam o local aonde eram depositados; e apenas 20 afirmaram que ficavam no local aonde a pessoa defecava. No que se refere à sobrevivência dos vermes dentro do organismo (questão 12), os dados mostram que: 46 pessoas responderam que eles acompanhavam o homem por toda a vida e 26 responderam que se houvesse tratamento adequado eles morreriam. Em relação ao que acontecia com os helmintos no ambiente externo (questão 13), 37 pessoas afirmaram que morriam, 13 que continuavam vivos e 21 nada sabiam.

Na Tabela 2 está a listagem dos dados (questões 14 e/ou 15), que indicam como as pessoas entrevistadas diagnosticam clinicamente as helmintoses intestinais (apenas 3 pessoas não responderam sobre o assunto). A causa dos sintomas relacionados à presença dos vermes (questão 16) foi identificada pelas pessoas como segue: 18 afirmaram que eles "tiram os alimentos que são ingeridos"; 14 que "prejudicam a saúde"; 52 não souberam responder a essa questão, e 4 atribuíram a fatores diversos não pertinentes ao assunto.

 

 

A atitude que os entrevistados tomam quando suspeitam que os filhos estão com vermes é a de procurar alguma forma de tratamento, seja através da medicina dos "doutores" ou da medicina popular. Nesse sentido, 56 pessoas responderam que levam os filhos ao posto de saúde da vila e/ou ao médico da cidade; 45 à benzedeira e 23 à farmácia. Em relação ao tratamento, 33 pessoas responderam que seus filhos já tomaram remédios de "doutor" mas apenas 6 se inteiraram sobre o tipo de medicamento. Muitas utilizam chás caseiros independentemente da receita médica. Os chás mencionados foram: Hortelã — 46; Erva Santa Maria — 21; Alho — 24; Poejo — 9. Na Tabela 3 estão listados esses chás e suas respectivas qualidades terapêuticas. Todos os entrevistados negaram o recurso de curandeiro para tratamento de verminose. No entanto, 22 pessoas responderam que usam ou já usaram "simpatias" buscando a cura das "bichas ou lombrigas" de seus filhos. A maioria não quis revelar essas "simpatias". Na Tabela 4 estão relatadas algumas dessas simpatias que foram descritas pelos entrevistados, e outras recomendações para cuidados com a criança com verminose.

 

 

 

 

Em relação às medidas preventivas (questão 21), 63 pessoas responderam que "sabe como não pegar verme", reconhecendo duas medidas básicas: 1) cuidados higiênicos — lavar os alimentos, as mãos, não andar descalço, manter as unhas curtas e a casa limpa; 2) cuidados com a água — ferver e/ou filtrar. Dos entrevistados, 25 desconheciam qualquer medida de prevenção. Quando se procurou verificar que atitudes tomam para prevenir a doença provocada por vermes (questão 22), responderam: não sabe — 26; é difícil de fazer qualquer coisa — 32; não faz nada — 8; usa água filtrada ou fervida — 7; lava sempre os alimentos — 3; faz limpeza na casa — 2; tenta fazer as crianças lavarem as mãos e/ou não andar no barro — 4; procura explicar e aconselhar as crianças sobre o assunto — 1.

A percepção sobre a importância da doença por vermes intestinais (questões 19, 20 e 23) foi respondida como segue: 66 pessoas consideraram que os vermes causam problemas e é uma doença ruim; 18 não perceberam como sendo um problema sério de saúde; e 4 afirmaram que "isso é coisa simples, pois as pessoas já nascem com eles". Mesmo assim, 80 pessoas consideraram que é importante não pegar verme, 4 não souberam se é importante, 4 afirmaram que é coisa que todo mundo tem. As expressões mais comuns formuladas para explicar percepção da importância do problema, estão listadas na Tabela 5.

 

 

COMENTÁRIOS E CONCLUSÕES

Dunn7 (1979) afirma que o problema do comportamento humano, incluindo igualmente fatores culturais, sociais, psicológicos na pesquisa de doenças parasitárias, tem sido consideravelmente negligenciado. Esse autor recomenda que na planificação de pesquisas em doenças parasitárias é de grande utilidade considerar-se esses aspectos, pois permitirá uma planificação mais racional dos programas de controle.

Bizerra e col.2 (1981) desenvolveram trabalho sobre conhecimentos e atitudes em uma população rural do interior do Estado de Goiás, em Doença de Chagas. Os autores entrevistaram cerca de 159 pessoas no Município de Mambaí, região endêmica, aonde estava implantado um núcleo de pesquisas desde 1973. Portanto, a comunidade local estava em contato com os técnicos que trabalhavam na região há cerca de 7 anos. A pesquisa teve origem quando foi constatada falta de participação da população, durante a fase de implantação do controle da endemia. Os resultados das entrevistas indicaram que, embora as pessoas reconhecessem que o barbeiro (vetor), pelo fato de "chupar o sangue", poderia causar doença no homem, desconheciam, entretanto, qual a sua gravidade. Havia total ignorância e confusão sobre o assunto. Diante dos resultados obtidos, os autores concluíram que deveria ser estabelecido um programa de educação da população, que tivesse por objetivo esclarecê-la sobre o problema, de tal forma que sua participação no trabalho de controle fosse efetiva. Esses autores foram enfáticos ao afirmar que: "o sucesso ou o fracasso do problema de controle da doença de Chagas, em Mambaí, dependia amplamente de suporte e participação da população local em detectar e avisar de pronto a infestação das casas pelo barbeiro". Porém, mais da metade da população desconhecia esse inseto.

Ogunmekan14 (1983) trabalhando em Lagos (Nigéria) com malária, verificou a necessidade de identificar o universo de conhecimentos da população sobre essa parasitose, para implantar o programa de controle. Entrevistou 141 mulheres, sendo: 50% analfabetas, 33% escolaridade primária e 16% pós-primária. Dos entrevistados, 106 reconheciam que a malária tinha causas específicas, embora as desconhecessem. Essas causas, supunham, eram diversas e ligadas a fatores ambientais tais como: trabalhar no sol, mudanças de temperatura, água suja; ou ainda a hábitos alimentares, comer alimentos estragados, excesso de óleo de palmeira. Só 52% acreditavam que a malária poderia ser espalhada por mosquitos e que as medidas preventivas estariam relacionadas com limpeza da água, drenagem de águas estagnadas ou ainda tomando medicamentos como a pirimetamina. O autor considerou que o nível de ignorância foi alto em relação a causa da doença e sugeriu que seria importante um programa de educação para a população, específico sobre o assunto.

Said17 (1984) desenvolveu um trabalho sobre percepção popular sobre leishmaniose tegumentar americana, em uma localidade endêmica denominada Pau da Fome, no Estado do Rio de Janeiro. Os trabalhos sobre o controle e prevenção da doença na área já haviam sido iniciados em 1974, por vários órgãos governamentais (Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (SUCAM) e Secretaria Municipal de Saúde). A autora trabalhou "qualitativamente" realizando entrevistas com gravadores em 34 moradores, mas sem critério amostral. Embora suas conclusões sejam confusas, é possível aceitar, no entanto, que "a percepção dos moradores em relação às lesões foi afetada pela intervenção médica, operada na área, provocando mudanças no comportamento dos mesmos em relação às lesões". Não é possível, porém, avaliar até que ponto as modificações foram "substantivas e definitivas".

No trabalho aqui apresentado, foram analisados alguns aspectos sobre conhecimentos, atitudes e percepção de uma população rural do interior do Estado de São Paulo, em relação à helmintoses intestinais, com o objetivo de desenvolver um projeto de intervenção na área.

Os resultados obtidos mostram que a população tem uma codificação própria para nominar os helmintos intestinais: bicha, lombriga, bichinho miúdo, geográfico e solitária e outros. A Tabela 1, aonde estão os dados sobre aspectos da biologia desses helmintos voltados aos interesses da epidemiologia, indica que a população detém conhecimentos razoavelmente corretos sobre o assunto. Assim é que a maioria respondeu adequadamente em relação às fontes de infecção, porta de entrada (terra, alimentos sujos, sujeira, pés e boca). O "habitat" dos parasitas no homem também foi indicado de forma correta: intestino e barriga. No entanto, as pessoas desconheciam como se dava todo o trajeto dos vermes no organismo assim como as fases de desenvolvimento e reprodução (ciclo evolutivo). Embora 54,5% (48) dos entrevistados tenham afirmado que as fezes sejam as vias de eliminação dos vermes, não sabem, entretanto, identificar quais as formas que vão infectar o homem (ovo e/ou larva). As pessoas referiam sempre que "as crianças põem as bichas ou as lombrigas pelas fezes". Mas 38,6% (34 pessoas) desconheciam se existiam vias de eliminação e 75% (66) não foram capazes de relacionar a eliminação dos vermes e a contaminação ambiental ou ainda contaminação fecal-solo-doença. Apenas 20 pessoas indicaram que os vermes "que é ponhado" ficam no local onde a criança defeca, 5 na terra, 4 nos alimentos, 2 na fossa e um no esgoto.

Há uma grande confusão e contradição na exposição que a população faz de seus conhecimentos sobre mecanismos de transmissão, como está explicitado na Tabela 1. Em momento algum é explicado como os vermes entram no corpo do homem. Ao estudar concepção popular, em Sobradinho, DF, sobre o ciclo de Ascaris lumbricoides, Ibañez-Novion10 (1976) verificou que a lombriga é percebida como sendo "um bicho dotado de inteligência e intenções duvidosas . . aguçado gênio malicioso, podendo assim instalar-se no corpo humano enquanto a pessoa permanece na ignorância do fato assim como da via de condições de seu acesso".

As respostas referentes às fontes de infecção e contaminação do ambiente são dissociadas. Deve entretanto, ser aqui considerado que a população de Santa Eudóxia, de uma forma ou de outra, já teria absorvido alguns conhecimentos científicos sobre o assunto, através dos meios de comunicação que atingem a vila: televisão, jornal, rádio e outros. É possível, também, que os filhos, principalmente aqueles que freqüentam com assiduidade a escola, projetem seus conhecimentos, adquiridos na instituição, para os pais. Os livros didáticos de ciências, no primeiro grau, abordam alguns conteúdos sobre problemas de saúde.

Ibañez-Novion10, trabalhando com uma população de imigrantes na cidade satélite de Sobradinho, DF, sobre o impacto dos meios de comunicação, mostrou como as pessoas incorporam ou tomam emprestado idéias da "ciências dos doutores". Há recodificação e novos conceitos de teorias e práticas de saúde, médicas e populares, em relação ao A. lumbricoides. Este autor verificou haver "superposição, combinação e adaptação de novas idéias da ciência dos doutores" aos conhecimentos integrantes no campo lógico da comunidade em estudo. Dessa forma, a noção de geração espontânea era intercalada com uma etapa intermediária que seria o ciclo na terra — "A lombriga só pode viver no corpo, quando expulsa, morre, ela não é causadora de doença, sua presença é normal" —. Mas, explica o autor, que a incorporação de novos conhecimentos se processa de forma lenta. Pode também estar diretamente relacionado com a idade como demonstrou Kar12 (1981/ 82), ao estudar atitudes e comportamento de mulheres da Venezuela, em relação a contracepção, com objetivo de subsidiar politicamente programas de controle de natalidade. Em geral, afirma aquele autor que a estratégia de mudança de atitudes e comportamento foi eficaz em mulheres jovens, as quais eram mais acessíveis às informações do que as mais velhas.

No estudo de Santa Eudóxia, apesar de se ter verificado que a população utiliza os serviços de Saúde (Posto de Saúde da vila e/ou médico da cidade) constatou-se também uma grande valorização da medicina popular, a exemplo do uso da benzedeira, de chás caseiros e simpatias, no tratamento das crianças com vermes (Tabelas 3 e 4). A população mostrou habilidades em reconhecer as categorias de sinais e sintomas da doença por vermes intestinais (Tabela 2). Assim é que o diagnóstico clínico é feito acuradamente. Esse fato define a importância de como o problema é percebido e caracterizado pela população (Tabela 5). À exceção de 4 pessoas entrevistadas, que ainda acreditam em geração espontânea, a maioria (66) respondeu positivamente às perguntas: os vermes causam problemas?; é uma doença ruim?. As explicações foram diversas, mas precisas, concretas e objetivas.

As atitudes quanto às medidas preventivas, foram declinadas de acordo com aquelas recomendadas em manuais de saúde, livros, textos didáticos, mas reconhecidas de difícil prática. Dessa forma, quando se perguntou: você faz alguma coisa para não pegar vermes? — a maioria das respostas (71) foi negativa (não faz — 8; não sabe — 26; é difícil — 32; tenta fazer — 5). É possível concluir portanto, que houve apenas aquisição e repetição de conhecimentos da "ciência-dos-doutores", mas não a "plena incorporação destes à lógica explicativa do universo cognitivo"14. A valorização desses conhecimentos não pareceu efetiva a ponto de despertar a consciência da população no sentido de levá-la a lutar pela solução do problema. Sente-se aqui que esta é ainda sujeito passivo na sociedade em que vive. Aliás, "consciência e conhecimento se constroem, se estruturam e se enriquecem em cima de um processo de ação e reflexão. ." (Brandão5, 1984).

Dunn7 (1979) afirma que "muitos tipos de comportamento podem influenciar sobre a epidemiologia e lutas desenvolvidas contra as doenças parasitárias". Recomenda ainda que os métodos de controle não devem ser escolhidos apenas em função de considerações meramente técnicas e análises operacionais. É necessário compreender como as pessoas organizam e reorganizam seus conhecimentos e como os definem e interpretam.

Katz e Wallace13 (1974) mencionam vários exemplos de dificuldades que programas diversos em saúde pública têm em ajustar teoria e prática. Para efetivar tais programas há necessidade de uma análise holística da sociedade à qual eles se propõem. Em outras palavras: "é preciso conhecer a realidade para poder transformá-la" (Brandão5, 1974).

 

AGRADECIMENTOS

À professora Célia Aparecida Masuccio Redondo, Coordenadora da Escola Parque de Santa Eudóxia, pelo apoio e ajuda, fundamental ao entrosamento da equipe de trabalho com a população local.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em: 4/5/1987
Aprovado para publicação em: 17/11/1987

 

 

* Trabalho realizado com auxílio financeiro da FESIMA — Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico — CNPq. Processo n.° 406472/84-MP.