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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.22 n.2 São Paulo Apr. 1988

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101988000200012 

Cartas ao Editor Letters to the Editor

 

 

Senhor Editor: Na quarta-feira, 26 de agosto de 1987, na única sessão do final da tarde do IV Congresso dos Sociólogos na Cidade Universitária, USP, realizou-se a homenagem ao Professor Cândido Procópio Ferreira de Camargo, apresentando diferentes momentos de sua vida e contribuição acadêmica. Participaram da mesa, Oracy Nogueira, José Reginaldo Prandi, Antonio Flávio Pierucci (organizador da mesma) e eu.

Tive o prazer de ser convdiada para discorrer, naquela oportunidade, sobre a atuação de Procópio no campo da demografia e na Faculdade de Saúde Pública, instituição onde iniciou e aprimorou grande parte de suas contribuições na área, e onde permaneceu durante dez anos. A matéria que segue resume o meu pronunciamento, destacando a parte referente à sua contribuição científica e acadêmica. No mencionado evento discorri também sobre características de sua personalidade, suas posições políticas, sua maneira de se conduzir com colegas e alunos, contando casos e histórias, que tornaram a apresentação viva e atraente aos presentes, antigos e jovens cientistas sociais.

Nessas circunstâncias seria interessante a publicação da matéria na Revista de Saúde Pública, como homenagem à memória de Cândido Procócio Ferrreira de Camargo.

Maria Stella Ferreira Levy

 

 

Cândido Procópio Ferreira de Camargo, amigo, mestre e colega

 

 

Maria Stella Ferreira Levy

Departamento de Epidemiologia — FSP/USP

 

 

Cândido Procópio Ferreira de Camargo, ao deixar a Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionava Filosofia e Sociologia do Conhecimento, ingressou, em 1966, no grupo constituído por Elza Berquó, catedrática de Estatística Aplicada, na então Faculdade de Higiene, para aprofundar o conhecimento em demografia e criar o primeiro Centro de População no Brasil, o futuro Centro de Estudos de Dinâmica Populacional — CEDIP.

Em outubro de 1967, foi oferecido no Brasil o 1.° Curso de Especialização em Dinâmica Populacional, na Faculdade de Higiene, com a coordenação de Elza Berquó, Paulo Singer e Procópio Camargo. Quando em 1971, o CELADE (Centro Latino Americano de Demografia) ofereceu o curso de demografia na PUC/RJ, já se realizava na Faculdade de Saúde Pública, o 5.° Curso de Especialização em Dinâmica Populacional.

O dinamismo de Procópio à frente do CEDIP — Centro à esse tempo assessor do INPA (Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia) para assuntos populacionais — fez com que ministrássemos, naquela época, vários cursos de demografia: em 1968 e 1969, isso foi feito no NAEA (Núcleo de Altos Estudos da Amazônia) em Belém do Pará. Em 1970 no PRH (Programa de Recursos Humanos), da Universidade Federal da Bahia em Salvador, e também em 1970 na ESALQ/USP, em Piracicaba. Bem mais tarde, no final da década de 70, com base nessa experiência de várias gerações de alunos e professores do CEDIP, surgiu a idéia de se fazer, em nosso meio, o primeiro livro didático nesse campo, publicado em 1980, sob o título: Dinâmica Populacional — teoria, métodos e técnicas de análise, pela T.A.Q. e organizado por Jair Lício Ferreira Santos, Tamas Szmrecsányi e eu própria. Procópio tem aí dois capítulos que sintetizam idéias particulares e interessantes: um quanto à política populacional e outro quanto à relação entre os tempos biológico e social.

No campo de estudos da política populacional, no que diz respeito à fecundidade, a conceituação de Procópio, inspirada na Sociologia do Conhecimento, foi pioneira. Considerava que políticas populacionais "não podem ser entendidas de um modo abstrato, como se fossem produzidas em um vazio social e demográfico. Sua referência é sempre histórica e concreta".

Ao partir desse ponto de vista, sua concepção de política demográfica era abrangente, e segundo ele, envolvia "intenções e ações do Estado e de Instituições variadas visando alterar, em um dado momento de tempo, as tendências das variáveis demográficas". Seu interesse por esta área incluia igualmente "o conteúdo social e ideológico da orientação assumida pela política populacional". Naturalmente essa visão detinha um conteúdo crítico ao pensamento neomalthusiano, bem como à concepção funcionalista, na explicação dos fenômenos populacionais.

Sobre essa temática apresentou trabalhos em congressos e reuniões, publicou artigos e deu entrevistas. Escreveu em A População do Brasil, editado pelo CICRED (Comitê Internacional de Coordenação de Pesquisas Demográficas) e em vários números dos Cadernos do CEBRAP. Essas idéias foram sumarizadas no capítulo: "Sociedade, Estado e População", do nosso livro didático. Nessa sua linha de pensamento em relação ao tema, orientou alunos da Faculdade de Saúde Pública, de outras unidades da USP e de outras instituições de ensino.

Decorrente de suas reflexões sobre a política de população, Procópio elaborou uma proposta de explicação a respeito da ocorrência da mesma, em um momento em que predominava o economicismo, nos estudos de população. Tambem sumarizada no livro mencionado, essa formulação, bem menos divulgada, mas de igual importância e alcance, só podia nascer de sua cabeça privilegiada, erudita, desprovida de preconceitos, atenta ao conjunto, sempre pronta a disseminar a interdisciplinaridade, o entendimento mais global.

Trata-se da articulação de dois tempos: o tempo biológico e o tempo social.

No curso do tempo biológico, que vai do nascimento à morte de cada um, as pessoas se reproduzem, transformando o biológico no social. O tempo biológico pode adequar-se ou contrapor-se aos requisitos sociais, marcados que são por um outro tempo. Então como pressuposto, pode haver uma distância ou contradição entre esses dois tempos, por sua vez relacionados a uma especificidade histórica. Essa contradição proporciona o ensejo de interferência, e cria espaço para a existência de políticas populacionais.

Nesse contexto, onde se articulam os vários níveis-cultural, psicológico, social, econômico, pode-se indagar: a quem interessa uma política populacional?

Essa contribuição original enriqueceu o pensamento demográfico, contribuindo para que essa disciplina transcedesse os modelos simplistas e mecaniscistas em que estava envolvida.

Procópio, pelo seu conhecimento e sensibilidade à realidade social, antes desse assunto tornar-se corriqueiro, já falava na queda da fecundidade para o Brasil, tanto que, as hipóteses utilizadas por Jair Lício F. Santos em seu artigo apresentado à SBPC em 1973, e publicado no número especial sobre a população brasileira, da Revista de Saúde Pública, e que se mostraram tão adequadas, foram delineadas qualitativamente por ele.

No início de 1969, momento conturbado da vida nacional, encontramos no setor universitário, a reforma em pleno andamento. Muitos de seus proceres foram expurgados da Universidade. Procópio assume a regência na Faculdade de Saúde Pública da cadeira de Estatística Aplicada, onde fica até 1970, quando o Departamento de Epidemiologia é criado, acumulando nesse período, a diretoria do CEDIP, que exercia de direito desde 1.° de junho de 1968, e a chefia do Departamento de Estatística Aplicada.

Nessa ocasião era diretor na Faculdade de Saúde Pública, Rodolfo dos Santos Mascarenhas, médico e também sociólogo, e que respeitava a idéia defendida pelo Procópio, de que a de doença era uma opção. Assim em novembro de 1970, se realizaria no Chile, a Conferência das Escolas de Saúde Pública da Améria Latina (ALAESP) com o tema: Saúde e População. Para esse evento com o apoio do Diretor, Procópio conseguiu com a ajuda de nós todos, e mais especificamente do João Yunes, Tamas Szmrecsányi e Ruy Laurenti, levar para o Chile não só uma comissão da Faculdade de Saúde Pública, chefiada pelo próprio Mascarenhas, na qual se integravam os recém-citados, e mais outros dois professores dessas areas: Armando Piovesan e Cyro Ciari; mas também, um relatório da Faculdade, onde estavam colocadas as linhas de atuação quanto à aplicação da demografia no Planejamento e Saúde, na Higiene Materno-Infantil, e na Epidemiologia. A atuação do grupo foi muito significativa, e, com base no documento da Escola e de sua discussão, foi elaborado o Inforne Final, que contemplava as linhas de pensamento que vinham caracterizar a atuação do CEDIP nessa área.

Vale a pena relembrar sua atuação no PISPAL (Programa de Investigações Sociais para América Latina) desde a concepção do Programa. Esse foi um grande esforço dos latino-americanos a fim de que os recursos para pesquisa fossem canalizados não mais pelos norte-americanos e sim, pelas nossas instituições. Era necessario que o PISPAL fosse uma instituição muito poderosa. A autoridade do nome Procópio e o brilhantismo de suas idéias, suas firmes e delicadas intervenções somadas às de outros colegas brasileiros, foram quebrando barreiras, modificando maneiras de pensar, alterando estruturas burocráticas e de poder, assim ganhando a comunhão de intenções de profissionais importantes, tais como Carmen Miró. Dessa forma foi criada a Unidade Central, que incentivava a produção de pesquisas, definidas pelo grupo como prioritárias, e repassava os recursos para instituições e pesquisadores.

Como bem salientaram Oracy Nogueira e Paulo Singer, em seus artigos "Cândido Procópio e a Sociologia da Religião" ("D.O." de 3/4/1987) e "Cândido Procópio,o gentil combatente" (Novos Estudos, CEBRAP, 5/1987) o grande interesse do Procópio foi sem dúvida a Religião, e isso pode ser visto no conteúdo de suas publicações, na sua postura perante a vida, no seu trato com as pessoas.

Contudo, ressaltamos aqui uma parte de sua contribuição na área demográfica, que vem sendo multiplicada pela atuação de seus inúmeros alunos e colegas. Sua intuição, sua sensibilidade abrangente e profunda, e seus recursos humanos, intelectuais e políticos foram extremamente importantes para a eficiente condução multidisciplinar do Centro de População desta Faculdade, e para os rumos imprimidos nos Estudos de População.