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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.22 n.4 São Paulo Aug. 1988

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101988000400005 

Dados biométricos em esquistossomóticos adultos, Bahia (Brasil)*

 

Biometric data in adult schistosomotics of Catolândia, Bahia, Brazil

 

 

José Tavares-NetoI; Eduardo Forleo-NetoII; Ernesto Wilhelms-NetoIII; Aluízio PrataI

INúcleo de Medicina Tropical e Nutrição/UnB e Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro — Praça Thomaz Ulhoa, 706 — 38025 — Uberaba, MG - Brasil
IIAcadêmico de Medicina da Universidade de Brasília — Brasília, DF — Brasil
IIIEstudante de Educação Física da Universidade de Brasília — Brasília, DF — Brasil

 

 


RESUMO

De dezessete indivíduos esquistossomóticos, hepatosplênicos, pareados com outros dezessete controles, hepatointestinais, da mesma região, foram aferidas 17 medidas antropométricas. Todas as pessoas tinham de 21 a 50 anos de idade. Esta e outros critérios foram previamente estabelecidos como fatores de pareamente, de inclusão e exclusão no estudo. Porém, não se observou diferenças estatísticas entre as médias dos dois grupos de pacientes.

Unitermos: Esquistossomose, mansônica. Antropometria. Grupos controle.


ABSTRACT

Seventeen antropometric measurements were evaluated from seventeen hepatosplenic schistossomotic individuals paired with seventeen control hepato-intestinal schistosomotic patients. All of them were from the same region, and all of them belonged to an age group ranging from 21 to 50 years. Age and other criteria were previously established, such as pairing factors, to determine inclusion in or exclusion, from the study. However, statistical differences were not observed between the averages of the two groups of patients.

Uniterms: Schistosomiasis mansoni. Anthropometry. Control groups.


 

 

INTRODUÇÃO

O atraso no desenvolvimento somático dos portadores da esquistossomose hepatosplênica tem sido freqüentemente relatado (Marques5, 1944; Pessoa8, 1953; Ferreira3, 1957; Nabawy e col6, 1961; Carvalho e Horwith1, 1972: Sucupira e Pupo11, 1976 e Prata10, 1982). Sucupira e Pupo11 (1976) não encontraram alterações endocrinas nos hepatosplênicos e especularam sobre o efeito da desnutrição, explicando o hipodesenvolvimento físico desses indivíduos.

No entanto, a dificuldade em controlar a influência do estado nutricional dos pacientes tem origem na heterogeneidade das amostras; inclusive com respeito à procedência variada do grupo controle, muitas vezes inexistente. Por outro lado, a nossa observação corrente em estudos longitudinais era que o hipodesenvolvimento físico se mantém muito raramente nos indivíduos adultos, hepatosplênicos, em amostras não selecionadas.

Para avaliar o desenvolvimento físico dos indivíduos hepatosplênicos planejamos um estudo pareado, com o objetivo de minimizar o efeito da nutrição, com a aferição de algumas medidas antropométricas.

 

CASUÍSTICA E MÉTODOS

Os indivíduos foram selecionados, em maio de 1986, na população do município de Catolândia, cidade do oeste do Estado da Bahia e-área hiperendêmica da esquistossomose onde o hospedeiro intermediário é a Biomphalaria glabrata (Tavares-Neto12, 1987).

Na amostra inicial, 26 indivíduos hepatosplênicos (HE) foram pareados aos controles (n = 26), por sexo, idade (± 3 anos), nível sócio-econômico e local de residência (sede-cida-de de Catolândia ou fazendas-próximas). A idade variava entre 21 a 50 anos, e os HE fora dessa faixa etária foram previamente excluídos. Nessa área de estudo estavam matriculadas 1.649 pessoas (Tavares-Neto12, 1987), sendo a população examinada, periodicamente, no período de 1976 a 1986 (6o exame clínico, de fevereiro a abril).

Consideramos como portador da forma hepatosplênica da esquistossomose mansônica (HE), os indivíduos com baço no rebordo costal ou além, sem manobras inspiratórias (Prata10, 1970). Os controles hepatointestinais (HI) não tinham baço palpável, mesmo à inspiração profunda e nem o lobo hepático esquerdo nodular e/ou proeminente, nas avaliações clínicas anteriores (Tavares-Neto12, 1987). Essas formas clínicas estavam presentes na época do 6o exame clínico periódico. Até junho de 1986, todos os indivíduos amostrados tinham dois a quatro tratamentos com oxamniquine; em maio daquele ano foi realizado o quarto tratamento em massa, da população. A partir de 1976, na área do projeto, foram realizados, por indivíduo matriculado, de dois a quatorze exames parasitológicos de fezes, pelo método de Kato-Katz (Tavares-Neto12, 1987). Em julho de 1986, todos os indivíduos relacionados tinham fezes sem ovos do Schistosoma mansoni.

Na época (julho, 1986) do estudo antropométrico, realizado in loco, da amostra inicial, foram excluídos os pares, quando um ou ambos os indivíduos apresentavam as seguintes situações: gravidez, tempo de afastamento da área maior ou igual a 12 meses (antes de completar 21 anos de idade) e doença grave não relacionada à esquistossomose, antes de completar 21 anos. Desse modo, a amostra final foi de 17 hepatosplênicos e 17 controles.

Todas as medidas antropométricas foram realizadas pelo mesmo observador (EWN), que desconhecia o diagnóstico dos pacientes, utilizando-se dos seguintes aparelhos: plicômetro, taquímetro antropométrico, antropômetro, balança de mola e trena antropométrica. Assim, de cada indivíduo tomou-se as seguintes medidas: peso, altura, segmento superior e inferior, envergadura, circunferência torácica, perímetro do pulso direito, dobras cutâneas (triceps, subescapular, supra-ilíaca, abdominal e perna) diâmetros (punho, úmero e fêmur) e perímetros (braço e perna). Essas medidas foram tomadas de pacientes despidos, observando-se as recomendações uniformemente, inclusive quanto à postura e tempo de respiração (De Rose e col.2, 1984). Com bases naquelas medidas, foram calculados percentagem de gordura, peso de gordura, peso limpo, peso ósseo, peso residual, peso muscular e compleição física (De Rose e col.2, 1984). A reprodutividade das medidas foi previamente avaliada em dez pessoas e em duas ocasiões diferentes; o nível de erro era inferior a 2%

Os resultados foram analisados no Centro de Processamento de Dados da Universidade de Brasília (CPD/UnB), através do programa SPSS-v8, e em todos os cálculos trabalhou-se com cinco dígitos decimais. Os números foram ajustados nas tabelas em uma casa decimal, para efeito de simplificação. A hipótese Ho seria rejeitada com P<0,05.

 

RESULTADOS

Os indivíduos, de cada par, tinham nível sócio-econômico semelhante. Cada grupo de pacientes era constituído por nove mulheres e oito homens; entre os HE a idade variou de 21 a 49 anos, média de 32,6 ± 8,0 e os HI com idade variando de 21 a 50 anos (31,7 ± 7,7). A variância da idade dos dois grupos foi semelhante (F = 1,08; p > 0,88), bem como as médias (t32 = 0,35 p > 0,73).

Na Tabela 1, a média () e o desvio padrão (DP) das 17 medidas antropométricas foram listadas nos dois grupos de pacientes; entre eles não se observou diferença estatisticamente. As demais medidas calculadas, a partir daquelas, como o fracionamento do peso total e a compleição física, foram relacionadas na Tabela 2. Também, para essas medidas, os dois grupos de indivíduos não diferiram, não obstante, as variancias da compleição física ficarem no limite de significância estatística, sendo as médias semelhantes. Desse modo, com base nos dados apresentados, pode-se inferir que os indivíduos hepatosplênicos e hepatointestinais têm medidas antropométricas semelhantes (Ho: 1 = 2).

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Em estudo como esse, com alguns critérios de inclusão e exclusão, o tamanho da amostra fica reduzido; conseqüentemente pode ser causa de distorção na análise. Por isso, também, os indivíduos não foram comparados entre os grupos raciais, apesar das diferenças antropométricas conhecidas (Oliveira e Azevedo7, 1977), inclusive em relação à forma hepatosplênica da esquistossomose mansônica (Tavares-Neto12, 1987).

Nossos dados corroboram a hipótese de não existir fator determinante para a manutenção do hipodesenvolvimento físico no indivíduo adulto hepatosplênico, quando avaliado numa amostra não selecionada. Possivelmente, os casos relatados de hipodesenvolvimento estejam mais relacionados à desnutrição associada (Ferreira3, 1957 e Sucupira e Pupo11, 1976). Apesar dos casos graves, com comprometimento somático e/ou puberal, a esplenectomia (Ferreira3 1957) e terapêutica da esquistossomose, em alguns casos, revertem esse quadro clínico. No entanto, o infantilismo é uma complicação da esquistossomose mansônica, hepatosplênica e com baixa prevalência (Prata10, 1982); por isso, essa situação clínica é observada muito raramente em estudos semelhantes. Obviamente, em casuísticas hospitalares pode aparecer como problema superdimensionado.

Em áreas hiperendêmicas da esquistossomose, a associação com as enteroparasitoses e a desnutrição crônica é muito habitual. Por certo, esses três fatores provocam sérios danos à economia orgânica, os quais, porém, seriam aparentemente homogêneos, atingindo igualmente esquistossomóticos hepatointestinais e hepatosplênicos.

 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. CARVALHO, A.C.M. & HORITH, M. Hepatoesplenic schistosomiasis mansoni associated with retarded growth and sexual development: endocrine evaluation. Gaz. med. Bahia, 72:69-84, 1972.         [ Links ]

2. DE ROSE, E.H.; PIGATTO, E.; DE ROSE, R.C.F. Cineantropometria educação física e treinamento desportivo. Brasília, Ministério da Educação e Cultura/SEED, 1984. p. 15-28, 39-58.         [ Links ]

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9. PRATA, A. Como caracterizar a forma hepatosplênica da esquistossomose? In: Simpósio sobre Esquistossomose, 2o, Salvador, 1969. Salvador, Ministério da Marinha/Universidade Federal da Bahia, 1970. p. 179.         [ Links ]

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12. TAVARES-NETO, J. Recorrência familial e a composição racial na esquistossomose mansônica. Brasília, 1987. [Dissertação de Mestrado — Universidade de Brasília].         [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 12/11/1987
Reapresentado em 5/5/1988
Aprovado para publicação em 9/5/1988

 

 

* Realizado com suporte financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Processo no 0172.0250/85 e Walter Reed Institute. Processo Umb/Walter Reed (Convênio).