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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.22 n.5 São Paulo Oct. 1988

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101988000500008 

Perfil de crescimento de crianças matriculadas em programa de suplementação alimentar1

 

Growth profile of children attending a supplementary feeding program

 

 

Barbara Regina LernerI; Dóris Lucia Martini LeiI; Lenise MondiniII; Sandra Pinheiro ChavesI; Maria Lucia Rosa StefaniniI

IInstituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde — Rua Santo Antonio, 590 — 01314 — São Paulo, SP — Brasil
IISecretaria Estadual de Abastecimento - Av. Dr. Gastão Vidigal, 1946 - 05316 - São Paulo, SP -Brasil

 

 


RESUMO

Com o objetivo de conhecer o perfil de crescimento de beneficiários de um programa de suplementação alimentar, estudou-se 1511 crianças de 6 a 72 meses de idade, de cinco municípios da Grande São Paulo, Brasil que freqüentaram o Programa de Nutrição em Saúde (PNS), pelo período de um ano. Foram utilizados indicadores peso e altura para a idade, expressos em valores de percentís correspondentes ao padrão antropométrico de referência NCHS. Esse perfil foi traçado no momento da matrícula e após um ano de programa, segundo grupos etários, momento em que o perfil encontrado estava desviado para a esquerda, tanto para as distribuições de peso como de altura, concentrando maior freqüência de crianças nos primeiros decis e escassez no últimos, caracterizando uma população desnutrida. O perfil correspondente aos dois indicadores, após um ano de programa, evidenciou melhora do estado nutricional, uma vez que houve acentuada diminuição da freqüência das crianças no primeiro decil (P10) em todas as faixas etárias, tanto para peso como para altura, destacando-se a faixa de 12 a 24 meses, cuja freqüência no primeiro decil de altura passou de 49%, na matrícula, para 18%, após 12 meses de suplementação alimentar.

Unitermos: Suplementação alimentar. Antropometria. Estado nutricional. Crescimento. Criança.


ABSTRACT

The growth profile of 1,511 children attending a supplementary feeding program was studied over the year after admission. The children, aged 6 to 72 month and from five cities of the Greater S. Paulo region (Brazil), were attending the official Brazilian supplementary "Nutrition and Health Program" (PNS). Weight and height for age were used as indicators, and were expressed as centile values of the anthropometric reference standard (NCHS). At admission, the profile for weight and for height was deviated to the left, showing a great concentration of children in the lower deciles and few in the higher ones, thus characterizing a malnourished population. One year later, the growing profile of the children showed an improvement of the nutritional status, as there had been a noteworthy decrease in the number of children in the first decile for all ages in both weight and height. The height of the children age 12 to 24 month showed a great improvement as 49% of them had been in the first decile at admission, but this percentage diminished to 18% after just one year on the program.

Uniterms: Supplementary feeding. Anthropometry. Nutritional status. Growth. Child.


 

 

INTRODUÇÃO

O crescimento e a manutenção das dimensões corporais da criança estão diretamente relacionados com sua condição de nutrição e saúde. A monitorização deste crescimento é de grande utilidade para análise do efeito de programas que interferem nas condições existentes, visando à promoção da saúde de uma população de determinada região.17

A escolha do exame antropométrico para seguir o crescimento infantil e diagnosticar a desnutrição energético-protéica decorre de sua praticidade e baixo custo, além de ser um instrumento altamente sensível para esse diagnóstico.9

O acompanhamento do perfil de crescimento de crianças, submetidas a programas que visem à melhoria de suas condições nutricionais, permite a avaliação da eficácia de tais intervenções.16

O Programa de Nutrição em Saúde (PNS)2 foi uma intervenção que pertenceu à linha de suplementação alimentar estabelecida pelo II Programa Nacional de Alimentação e Nutrição (PRONAN). A coordenação e financiamento do PNS estavam a cargo do Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição (INAN), que mantinha convênio com as Secretarias Estaduais de Saúde para a sua execução.

O PNS foi implantado em 1980 em 5 municípios da Grande São Paulo, ampliando-se em 1983 para mais 8 municípios, quando atendia cerca de 150.000 beneficiários, entre gestantes, nutrizes e crianças menores de 7 anos.

A equipe de nutrição do Instituto de Saúde da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo foi responsável pela coordenação, implantação, supervisão e avaliação do PNS no Estado.

O PNS tem sido avaliado em São Paulo quanto à operacionalidade do programa4,6 e quanto ao efeito do suplemento alimentar no estado nutricional da população alvo.5,7,14,15

O presente estudo teve como objetivo avaliar o perfil de crescimento de crianças beneficárias do PNS após 12 meses de programa.

 

METODOLOGIA

A população de estudo foi composta por 1.511 crianças de 6 a 72 meses de idade dos municípios de Jandira, Santana do Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, Cajamar e Mairiporã, que entraram no PNS em 1983. Essas crianças foram todas as que se matricularam nos dois primeiros meses de Programa e que nele permaneceram, no mínimo, por um ano.

Os dados necessários para a avaliação do estado nutricional foram colhidos da ficha familiar do Programa.

O peso foi tomado em balança do tipo pesabebê para os menores de 2 anos e em balança antropométrica para as crianças acima dessa idade.

A estatura das crianças menores de 2 anos foi tomada com antropômetro horizontal, e a das maiores, com o do tipo vertical, segundo técnica recomendada por Jelliffe3, pelo pessoal auxiliar treinado pela equipe coordenadora e supervisionado pelo responsável local do Programa.

Para a avaliação das medidas de peso e de altura foi adotado o padrão de referência do National Center for Health Statistics (NCHS)1, que é utilizado internacionalmente, conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde12, 18.

Esses dados foram classificados conforme a sua localização na distribuição de percentís de peso e de altura da população de referência, na matrícula e após 12 meses, sendo usado o "software" do NCHS para a análise do comportamento do perfil global de crescimento das crianças estudadas.

O perfil de crescimento, representado por um conjunto de histogramas, foi construído segundo a localização do peso e da altura das crianças estudadas, nos dez intervalos da distribuição dos valores normais esperados para idade e sexo da população de referência, correspondendo, esses intervalos, aos decís do padrão.

Este procedimento permite visualizar a freqüência das crianças em cada intervalo.

Um padrão de referência, assim distribuído, apresenta proporções uniformes de crianças, ao redor de 10%, em cada intervalo ou decíl. Se o perfil de crescimento da população estudada acompanhar aquele do padrão de freqüência, essa mesma distribuição será encontrada. Na presença de déficits de crescimento da população analisada, encontrar-se-à uma freqüência de crianças superior a 10% nos primeiros decís e conseqüentemente, nos últimos intervalos apresentar-se-ão freqüências inferiores a esse valor.

 

RESULTADOS

A Tabela apresenta a distribuição das crianças segundo idade e sexo, por ocasião da matrícula.

 

 

Para efeito de análise dos dados de peso e altura, meninos e meninas foram agrupados, uma vez que as diferenças nas medidas dos dois sexos são ainda relativamente pequenas na idade pré-escolar10.

As Figuras 1 e 2 apresentam, respectivamente, os perfis de peso e de altura da população de crianças, segundo faixas etárias, por ocasião da matrícula e após 12 meses de participação no Programa.

Por ocasião da matrícula, o perfil de crescimento relativo ao peso e à altura mostra-se desviado para a esquerda, para todos os grupos etários, concentrando maior freqüência de crianças nos primeiros decís, evidenciando com isso um quadro de desnutrição.

Na observação do perfil da distribuição de peso (Fig. 1), nota-se que a faixa etária mais jovem apresenta uma menor freqüência de crianças no primeiro decil (20%), sendo que nos demais grupos etários essa freqüência situa-se ao redor de 40%.

Em relação ao perfil da distribuição de altura (Fig. 2), nota-se desvio mais pronunciado para a esquerda variando a freqüência de crianças no primeiro decil de 30%, no primeiro ano de vida, a 49% no segundo ano.

Após 12 meses de Programa, pode-se observar um deslocamento da freqüência das crianças do primeiro decil para os demais, nas distribuições de peso e de altura, em todos os grupos etários, com exceção das crianças menores de 12 meses, no que diz respeito à altura. Nota-se, ainda, que o deslocamento da freqüência de crianças no primeiro decil da distribuição de altura, no grupo etário de 12 a 24 meses, é o mais marcante, passando essa freqüência de 49%, na matrícula, para 18% depois de um ano na suplementação alimentar.

 

DISCUSSÃO

O estudo de medidas antropométricas para caracterizar o estado nutricional de uma população e analisar o efeito de programas de suplementação alimentar, mediante comparação com padrões de referência, vem sendo realizado segundo três métodos: distribuição em centís, desvio padrão (Z-score) e percentagem da mediana18.

Especialistas da OMS12,19 consideram que o uso da distribuição em centís permite facilmente visualizar o efeito de uma intervenção nutricional mediante as mudanças ocorridas nessa distribuição.

O estado nutricional das crianças estudadas, por ocasião da matricula no PNS, mostra que o padrão de crescimento dessas crianças é inferior ao padrão esperado para crianças com adequado estado de saúde.

O desvio à esquerda encontrado nas distribuições de peso e de altura dessas crianças é mais acentuado do que aquele encontrado por Monteiro11, no estudo das condições de saúde de crianças de O a 4 anos de idade do Município de São Paulo (em 1984/85) bem como o apontado por Lustosa8 na análise dos dados do ENDEF2 com crianças das regiões urbana e rural do Estado de São Paulo (1974/75). No que diz respeito aos dados da região Nordeste, naquele trabalho, nota-se que esse desvio é superior ao encontrado no presente estudo, principalmente no que se refere à distribuição de altura. Rios13 encontrou resultados semelhantes aos apresentados por Lustosa na Região Nordeste, ao estudar crianças de 6 a 36 meses de idade que freqüentaram o PNS no Estado da Bahia.

Vários autores têm mostrado um predomínio de formas crônicas de desnutrição no Brasil, reflexo das precárias condições sócio-econômicas e ambientais a que estão sujeitas as populações infantis, como ocorre nas crianças deste estudo5, 8,11,13.

O período de maior vulnerabilidade para o crescimento e nutrição das crianças estudadas é, sem dúvida, o segundo ano de vida, como pode ser observado nos perfís de distribuições de peso e altura. (Figs. 1 e 2) e nos perfis descritos por Monteiro11.

Comparando os perfís de crescimento das crianças estudadas, no momento da matrícula e após doze meses de freqüência no PNS, podese observar melhora no estado nutricional. O grupo etário de 12 a 24 meses apresenta melhora bastante evidente, tanto em peso como em altura. Isto vem mais uma vez ressaltar a preocupação que se deve ter em dar prioridade a crianças menores de 2 anos de idade para o atendimento em programas de saúde.

O efeito da suplementação alimentar no estado nutricional das crianças atenua o processo crônico da desnutrição, resultado esse que vem ao encontro ao de Rios13.

A análise mais detalhada e específica da evolução do estado nutricional daquelas crianças que se concentraram no primeiro decil das distribuições de peso e altura será objeto de outro estudo que procurará verificar sua velocidade de crescimento quando submetidas a um programa de suplementação alimentar.

 

AGRADECIMENTO

Ao Engenheiro Jacques Lerner, por sua assessoria e orientação técnica na fase operacional de computação.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 12/2/1988
Reapresentado em 14/7/1988
Aprovado para publicação em 20/7/1988

 

 

1 Trabalho apresentado no I Congresso Nacional da Sociedade Brasileira de Nutrição e Alimentação (SBAN), outubro, 1987.
2 Estudo Nacional da Despesa Familiar.