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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.23 n.3 São Paulo Jun. 1989

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101989000300001 

EDITORIAL

 

Biossistemática e Saúde Pública

 

Biosystematics and Public Health

 

 

Oswaldo Paulo Forattini

Editor

 

 

Muito oportuno os comentários de Oliver (1988) sobre o estado precário em que se encontram as instituições científicas norte-americanas, no que concerne à capacidade de identificação de organismos. Faço-os meus, no que concerne ao Brasil. Em outras palavras, trata-se de crise acentuada no desenvolvimento da biossistemática, em especial modo a referente a artrópodes. Vários são os motivos apontados pelo autor, mas o essencial é aquele comum à maioria das sociedades atuais, ou seja, os crônicos cortes de verbas.

A identificação correta das plantas e animais constitui o fundamento para grande parte das áreas de pesquisa biológica. A deficiência desses estudos dificulta ou mesmo torna inviáveis os conhecimentos sobre a diversidade biológica, repercutindo nas decisões a serem tomadas e que objetivam o saneamento ambiental e o controle de pragas e de vetores de doenças. Questões momentosas e que estão na ordem do dia, como a das florestas, amazônica e atlântica, ameaçadas de rápida extinção juntamente com seu inestimável patrimônio gênico, necessitam urgentes e intensos estudos taxonômicos que possam fornecer conhecimentos indispensáveis sobre a diversidade biológica nelas existentes.

A aplicação prática da taxonomia em saúde pública tem-se revelado cada vez maior. O recente episódio da introdução do mosquito Aedes albopictus em território nacional encontrou, na sua identificação correta, a possibilidade de dimensionamento do problema e da realização de pesquisas sobre os seus hábitos. Outro exemplo constitui a necessidade premente de estudos sobre a possível diversidade populacional de Anopheles darlingi, o mais importante vetor da malária na vertente atlântica do Continente Sul-Americano. Assim, pois, pergunta-se comumente o que vem a ser um taxonomista "puro". Poderia ser um biólogo que trabalhando com elevado número de espécies não disporia de tempo a não ser para dedicar-se à classificação e à filogenia. Mas, desde que se restrinja seu campo , o conhecimento especializado as sim adquirido propiciar-lhe-ia considerável po tencial para descobertas em genética, ecologia, etologia e fisiologia. E então, ele passaria a ser especialista, como: geneticista, ou ecólogo, ou etólogo, ou fisiologista (Wilson in Steyskal, 1978). Da mesma forma, pode-se dizer que em condições análogas, e concernentes ao vasto campo da saúde pública, esse taxonomista passaria a ser encarado como epidemiologista.

Os serviços e laboratórios de biossistemática sobre artrópodes de interesse médico e veterinário estão sofrendo processo de esquecimento ou mesmo de marginalização, como fenômeno mundial. Forma-se assim verdadeiro ciclo vicioso onde a deficiente alocação de recursos, para essa atividade, gera inevitável declínio da produção e isto, como conseqüência, propicia aquela deficiência. Que estímulo podem receber os estudantes, se a atividade se restringe e os recursos são escassos? Se esse quadro ocorre em países cientificamente avançados como os EUA, que dizer no Brasil? Será mais proveitoso para um jovem dedicar-se à área de pesquisa científica incluída na assim chamada "main stream", como o campo da biologia molecular, e que desperta o interesse do poder econômico, do que penhorar sua vida a um trabalho silencioso, embora de grande utilidade para a população.

Todavia, sempre existe a possibilidade de obviar essa situação. Necessário seria a divulgação dos poucos meios ainda existentes, defender a necessidade de alocação de recursos e de criação de laboratórios especializados, desenvolver recursos humanos e oferecer perspectivas profissionais atraentes para a juventude. Comparados com os que são requeridos pela maioria dos atuais campos de investigação biológica, os recursos para o desenvolvimento das pesquisas em biossistemática são bastante modestos. Dir-se-ia serem até significativamente baratos. Não há como negar a importância de pesquisas sobre doenças degenerativas, sobre AIDS, e sobre engenharia genética e outras biotecnologias de alta sofisticação. Todavia, não se pode por de lado outros problemas que afligem a população brasileira, e que dependem de estudos básicos como a taxonomia em nivel alfa. O país, pelas suas Universidades e Institutos de Pesquisa, tem a obrigação de sustentar e desenvolver sua própria capacidade de investigação no campo das doenças veiculadas por artrópodes. Para tanto, há que se sensibilizar os órgãos financiadores no sentido de, ao estabelecerem suas prioridades para auxílio à pesquisa, incluam significativamente este campo de estudos. Afinal, a biossistemática daqueles taxa, constitui o fundamento indispensável para tal capacidade.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

OLIVER Jr., J.H. Crisis in biosystematics of arthropods. Science, 240:967, 1988.

STEYSKAL, G.C. What is systematic entomology? Proc. Entomol. Soc. Wash., 80:43-50, 1978.