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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.23 n.3 São Paulo Jun. 1989

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101989000300012 

NOTAS E INFORMAÇÕES/NOTES AND INFORMATION

 

Aegla platensis Schmitt, 1942 (Decapoda: Anomura) um predador de imaturos de Simuliidae (Diptera: Culicomorpha)

 

Aegla platensis Schmitt, 1942 (Decapoda: Anomura) a predator of Simuliidae imature stages (Diptera: Culicomorpha)

 

 

Sandra Tonetti MagniI; Victor Py-DanielII

IServiço de Controle de Vetores e Zoonoses da Secretaria da Saúde e Meio Ambiente/SSMA – Av. Julio de Castilho, 596 – 90030 – Porto Alegre, RS – Brasil
IIDepartamento de Ecologia – Divisão de Entomologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, INPA/MCT – Caixa Postal 478 – 69000 – Manaus, AM - Brasil

 

 


RESUMO

Observações de campo e de laboratório evidenciaram, pela primeira vez, a predação preferencial, de larvas e pupas de simulídeos pelo crustáceo. Aegla platensis Schmitt, 1942. Foram feitas observações de campo e coletas no arroio Carpintaria, Município de Dois Irmãos, Rio Grande do Sul, Brasil. É ressaltada a possibilidade de ser usado esse caranguejo em manejo integrado no controle de simulídeos.

Unitermos: Simuliidae, controle de insetos. Aegla platensis.


ABSTRACT

For the first time, preferential predation of larvae and pupae of Simuliidae by the crustacean, Aegla platensis Schmitt, 1942, was observed in the field and in the laboratory. Field observations and collections were done in the Carpintaria stream, Dois Irmãos, Country Rio Grande do Sul, Brazil. The possibility of using this freshwater crab in an integrated control of Simuliidae is discussed.

Keywords: Simuliidae. Insect control. Aegla platensis.


 

 

INTRODUÇÃO

Edwards4 (1928) examinou e determinou larvas e pupas de simulídeos, provenientes de Uganda, assinaladas sobre caranguejos (Potamon niloticum) pelo Dr. W.T. Calman.

Van Someren e Macmahon8 (1950), trabalhando com Simulium sp., proveniente do Kenia, determinaram que era uma foresia a associação com o crustáceo Potamonautes (Potamon) sp.. Nesta associação forética, que envolve caranguejos do gênero Potamonautes (Decapoda: Potamidae) e simulídeos do subgênero Lemsellum está situada uma das espécies vetoras da filária Onchocerca volvulus (Leuckart, 1893), Simulium (L.) neavei Roubaud, 1915.

A constatação de predação preferencial, em Simuliidae, por crustáceos, ainda não tinha sido assinalada.

A maioria dos estudos realizados sobre crustáceos do gênero Aegla trata da distribuição geográfica, sistemática e biometria como Schimitt7 (1942); Vaz Ferreira, Gary e Ferreira9 (1945); Ringuelet5,6 (1949); Buckup e Rossi2 (1977).

Outras associações com crustáceos do gênero Aegla já foram constatadas: protozoários (Epystilus sp., Lagenophrys sp.), epizoários (Temnocephales sp., Stratiodriolus sp.), algas e bactérias (Bennati-Mouchet1, 1932 e Dioni3, 1967.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As observações e coletas dos simulídeos e caranguejos foram realizadas entre 2/5 e 1/10/1986, no arroio Carpintaria, afluente do rio Feitoria, na localidade de Picada Verão, Município de Dois Irmãos, Rio Grande do Sul.

O arroio Carpintaria, nessa localidade, apresenta-se sombreado por vegetação marginal, sendo o leito constituído de rochas e areia.

A água apresentava uma alta taxa de oxigenação, devido ao grande número de cachoeiras e uma temperatura entre 18-19°C.

Os caranguejos ficavam, normalmente, nas fendas entre as rochas, saindo para predar tanto larvas como pupas de simulídeos.

Ocasionalmente foram observados exemplares desses caranguejos nos medidores fixos, utilizados para obter-se a vazão da água (calhas modelo Parshall, modificadas) do arroio, onde ocorria uma razoável concentração de imaturos de simulídeos.

Verificou-se, experimentalmente, a predação de uma ninfa de Ephemeroptera, muito mais ágil que as larvas de simulídeos; o caranguejo apresentou grande dificuldade para capturá-la e presume-se que, na natureza, este tipo de predação deva ser pouco provável.

Em laboratório conseguiu-se manter dois exemplares de Aegla platensis, por 10 dias, alimentados com larvas de simulídeos e pequenos pedaços de carne bovina.

Simulium (Chirostilbia) pertinax Kollar, 1832, Simulium (Inaequalium) sp. e Simulium (Chirostilbia) riograndense Py-Daniel, Souza & Caldas, 1988, foram as espécies de simulídeos que Aegla platensis predava na natureza.

Simulium (C.) pertinax é a principal espécie alvo nos estudos de biologia, ecologia e controle, que estão sendo desenvolvidos nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, pois as fêmeas apresentam acentuada antropofilia o que causa danos aos sistemas agropecuários e turísticos.

Fêmeas de Simulium (C.) riograndense apenas foram observadas alimentando-se de bovinos e eqüinos.

Em observações posteriores (agosto de 1988), em cursos d'água da Bacia hidrográfica do alto rio Uruguai (extremo norte do estado do Rio Grande do Sul), constatamos que exemplares jovens de Aegla sp. estavam em rochedos com altitudes maiores que 30m e com inclinações próximas a 70°, entre as folhas da vegetação hidro-rupestre (onde ocorria uma grande concentração de imaturos de simulídeos), enquanto formas maiores desses caranguejos, localizavam-se nas partes inferiores do rochedo, onde eram formados pequenos desvios do curso hídrico, com velocidades reduzidas da água.

Tanto as observações de predação natural como experimental dos imaturos de simulídeos por Aegla platensis e também as de que as formas jovens deste crustáceo atingem lugares inacessíveis a limpezas mecânicas e impraticáveis para o uso de larvicidas (pela extrema velocidade atingida pela água), levam a indicar que esses caranguejos, se manejados adequadamente, poderão representar valiosa ajuda aos planos de controle integrado de simulídeos.

 

AGRADECIMENTOS

Aos colegas do Serviço de Controle de Vetores e Zoonoses da Secretaria da Saúde e Meio Ambiente do Rio Grande do Sul: Eduardo P. Caldas e Maria Amélia Torres Souza, pelo apoio institucional; a José Luiz Bica de Melo, pela valiosa colaboração nos serviços de campo; e à pesquisadora Nice Maria Micelli, da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul (FZB-RS), pela determinação dos crustáceos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 . BENNATI-MOUCHET, S. Notes sur la biologic du galathéide Aegla laevis (Latr.). Bull. Soc. Zool. France, 57:316-40, 1932.        [ Links ]

2. BUCKUP, L. & ROSSI, A. O gênero Aegla no Rio Grande do Sul, Brasil (Crustácea, Decapoda, Anomura, Aeglidae). Rev. bras. Biol., 37:879-92, 1977.        [ Links ]

3. DIONI, W. Vehiculismo sobre Aegla (Decapoda, Anomura) los seres epizoicos y sus relaciones interespecíficas. Physis, 27:41-52, 1967.        [ Links ]

4. EDWARDS, .W. Simulium larvas and pupae on a crab. Entomologist, 61:42, 1928.        [ Links ]

5. RINGUELET, R. Consideraciones sobre las relaciones filogenéticas entre las espécis del género Aegla. Notas Mus. La Plata, 14(120):111-8, 1949.        [ Links ]

6 RINGUELET, R. Los anomuros del género Aegla del nordeste de la República Argentina. Rev. Mus.LaPlata, 6(36): 1-45, 1949.        [ Links ]

7. SCHIMITT, W.L. Two species of Aegla, endemic South American freshwater crustaceans. Proc.U.S.Nat.Mus., 91:431-519, 1942.        [ Links ]

8. VAN SOMEREN, V.D. & MCMAHON, J.P. Phoretic association between Afronurus and Simulium species and the discovery of the early stages of Simulium neavei on freshwater crab. Nature, 166:350-1, 1950.        [ Links ]

9. VAZ FERREIRA, R.; GARY, R.; VAZ FERREIRA, M. Notas biométricas sobre los crustáceos Decápodos del gênero Aegla (Leach). Com. Zool. Mus. Montevideo, 1(24):1-6, 1945.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 21/11/89
Reapresentado em 4/5/89
Aprovado para publicação em 5/5/89
Trabalho desenvolvido pelo Projeto Piloto de "Controle de Simulídeos" da Secretaria da Saúde e Meio Ambiente do Rio Grande do Sul