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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.23 n.3 São Paulo Jun. 1989

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101989000300013 

CARTAS AO EDITOR/LETTER TO THE EDITOR

 

 

Oncocercose no Solimões

 

 

Victor Py-Daniel

Departamento de Ecologia – Divisão de Entomologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, INPA/MCT – Caixa Postal 478 – 69000 – Manaus, AM – Brasil

 

 

Em uma expedição do INPA ao rio Japurá, em agosto de 1979, fizemos a cidade de Tefé, no médio rio Solimões, como centro de apoio para as nossas pesquisas na região, onde obtivemos informações primárias, pelo Sr. Yoshimori Esashika, chefe da colônia de pescadores, de que tenha existido entre os religiosos daquele lugar o caso de um padre que há muito tempo teria vindo do Continente Africano e que apresentava problemas oculares. Disse, inclusive, que o remédio que o Padre tomava teria sido Hetrazan.

Fomos então à prelazia de Tefé, falar com o Bispo Dom Joaquim de Lange (Congregação de Padre Espírito Santo, originária da França, mas atualmente multinacional), sendo que o mesmo não só confirmou as observações do Sr. Yoshimori, como também acrescentou que: O Padre Jan Van Dungen, holandês que morreu na fóz do rio Jutai, era o irmão encarregado de cuidar do Padre Vienney (francês), que morreu em 1972 (com cerca de 75 anos e com a profissão de carpinteiro). O irmão Vienney veio para Tefé em 1938, proveniente da África Ocidental (Gabão e Camarões) e realmente tinha oncocercose, pela qual sofria muito com problemas oculares. Dom De Lange afirmou categoricamente, que conhecia bastante a doença pois ele próprio veio de Angola (em 1946/47) onde manteve vários contatos com pessoas doentes.

Estas informações devem ser levadas muito a sério, pois podem representar caso de introdução de oncocercose na região amazônica brasileira, muito tempo antes do assinalado por Bearzoti e col.1 (1967) indicando que:

1. Existem possibilidades reais da oncocercose estar presente na região de Solimões, além da outra filaria já constatada, ou seja, a Mansonella ozzardii.

2. Aspecto que deve ser levado em consideração é o fato de que, na tentativa de prestarem o apoio espiritual e material nas regiões tropicais, os religiosos podem servir, ativamente, de veículos para o transporte de moléstias intercontinentais.

Embora de difícil comprovação, deve ser levada em conta abordagem muito anterior, ou seja, o próprio período de conquista e desbravamento das nossas terras e civilizações, por pessoas que já tinham estado no Continente Africano.

Este breve histórico e o complexo de hipóteses deve, além de sua importância como fato, alertar as nossas autoridades sanitárias para dois tópicos:

1. Necessidade de vigilância sanitária em pessoas, grupos e/ou associações que tenham livre trânsito em regiões tropicais de diferentes Continentes (nos portos marítimos, fluviais e aeroportos).

2. Necessidade de levantamento epidemiológico urgente, sobre oncocercose na calha do rio Solimões.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

BEARZOTI, P.; LANE, E.; MENEZES FILHO, J. Relato de um caso de oncocercose adquirido no Brasil. Rev. Paul. Med., 70:102, 1967.

 

 

Recebido para publicação em 28/3/89
Aprovado para publicação em 4/4/89