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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.23 n.5 São Paulo Oct. 1989

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101989000500006 

ARTIGO ORIGINAL

 

O uso do "Face-Hand Test" como instrumento para rastrear as síndromes psicorgânicas. Estudo piloto

 

The use of the Face-Hand Test to screen for organic brain syndromes. A pilot study

 

 

Sergio Luís BlayI; Jair de Jesus MariI; Luiz Roberto RamosII

IDepartamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina - Rua Botucatu, 740 - 04023 - São Paulo, SP - Brasil
IIDepartamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina - Rua Botucatu, 740 - 04023 - São Paulo, SP - Brasil

 

 


RESUMO

Foi aplicada uma versão reduzida do "Face-Hand Test", o FHT-R, em 91 pessoas com 65 anos ou mais em uma amostra ao acaso de idosos vivendo na comunidade (São Paulo, Brasil), com objetivo de testar a habilidade do instrumento em detectar as síndromes psicorgânicas. Os escores do FHT-R foram comparados com as avaliações de um psiquiatra utilizando uma entrevista semi-estruturada, a "Clinical Interview Schedule". Cinco pessoas foram consideradas como sendo portadoras de distúrbios psicorgânicos e 86 como não sendo portadoras de tais distúrbios. No ponto de corte 0/1 os coeficientes de validação obtidos foram: sensibilidade 60%, especificidade 94%, valor prognóstico positivo 38%, valor prognóstico negativo 98%, e taxa de classificação incorreta 8%. A utilização do Teste em pesquisas epidemiológicas é discutida no corpo do trabalho.

Descritores: "Face-Hand Test". Exames de massa, métodos. Distúrbios mentais orgânicos, prevenção. Escalas de graduação psiquiátrica. Idoso.


ABSTRACT

A reduced version of the Face-Hand Test (FHT), the FHT-R, was applied to a random sample of 91 elderly subjects living in the community (S. Paulo-Brazil), to study the instrument's ability to detect Organic Brain Syndromes (OBS). The scores of the FHT-R test were then compared with a psychiatric assessment using the Clinical Interview Schedule. Five persons were regarded as OBS "cases" and 86 as OBS "non cases". At the cut-off point 0/1 the validity coefficients were as follows: Sensitivity 60%, Specificity 94%, Positive Predictive Value 38%, Negative Predictive Value 98% and Overall Misclassification Rate 8%. The usefulness of this clinical test to screen for OBS in epidemiological surveys is discussed.

Keywords: Mass screening, methods. Face-Hand Test. Organic mental disorders, prevention. Psychiatric status rating scales. Aged.


 

 

INTRODUÇÃO

O "Face-Hand Test" (FHT) é um teste clínico concebido para detectar as Síndromes Psicorgânicas (SPO) em populações idosas8. Já foi utilizado em pacientes hospitalizados13 e em residências para idosos6,7,13. Também já foi incorporado a outros protocolos de pesquisa como o "Geriatric Mental State Schedule" ou o "Comprehensive Assessment and Referral Evaluation" para avaliar o desempenho cognitivo5,11. A versão completa do FHT se compõe da avaliação de 20 itens. Uma versão reduzida do teste, contendo seis itens (o FHT-R) também existe, porém sua validade ainda não foi estabelecida.

O objetivo do presente trabalho é avaliar as condições de aplicabilidade desta versão reduzida do FHT e validar o instrumento para detectar as SPO numa amostra de idosos vivendo na comunidade.

 

INSTRUMENTOS

O FHT consiste em promover uma dupla estimulação simultânea nos indivíduos. Os estímulos são realizados na face e no dorso das mãos em combinações diferentes. São realizadas séries de duplas estimulações (contendo dez itens cada): uma com os olhos abertos e outra com os olhos fechados. Extinção é o erro mais comum, onde só um estímulo é reconhecido. Deslocamento é outro tipo de erro, onde dois estímulos são reconhecidos porém um deles é deslocado para alguma outra parte do corpo. Erros no teste são contabilizados quando o indivíduo não consegue localizar ambos os estímulos durante o exame. Um escore total é obtido somando-se o número de erros obtidos no teste. Detalhes adicionais sobre a realização do FHT podem ser encontrados em outras fontes10,12.

A versão reduzida do teste FHT-R consiste em promover uma série de seis duplas estimulações simultâneas com os olhos dos pacientes abertos. As estimulações mão-face se organizam da seguinte maneira: duas contralaterais (exemplo: face direita – mão esquerda); duas ipsilaterais (exemplo: face direita e mão direita) e duas combinações simétricas (exemplo: face direita e face esquerda). O exame é iniciado após o paciente receber instruções e fazer um teste de demonstração.

Caso o indivíduo não consiga identificar ambos os estímulos, uma segunda tentativa é realizada. Um erro será assinalado quando o indivíduo falhar em reconhecer os estímulos em ambas as tentativas. Um escore total será obtido somando-se o número de erros. Desta forma, o FHT-R pode variar de 0 a 6.

A entrevista psiquiátrica foi conduzida utilizando-se da "Clinical Interview Schedule" (CIS)9 . A CIS é uma entrevista psiquiátrica semi-estruturada especialmente concebida para estudar os distúrbios psiquiátricos na comunidade e no atendimento primário. A entrevista se baseia na história atual, antecedentes pessoais e familiares. Acrescente-se a isto o exame de 22 sintomas (10 sintomas relatados e 12 observados) que são avaliados numa escala de cinco pontos (que vai desde Æ, isto é, a ausência do sintoma até 4, ou seja, a presença do sintoma de forma grave). Um escore total pode ser obtido pela somatória dos 22 itens, constituindo o Escore Total Ponderado. A sintomatologia investigada é aquela presente na semana anterior ao exame. Ao final da entrevista o investigador faz uma Avaliação da Gravi- dade Clínica (AGC) do caso, também numa escala de S pontos, isto é, de O a 4. É importante assinalar que os critérios para definição de caso da CIS correlaciona-se bem como os critérios estabelecidos pelo Present State Examination -PSE4. Já existe uma versão brasileira da CIS e este instrumento mostrou-se apropriado e confiável para uso em nosso meio15,18 . Aversão brasileira da CIS já foi utilizada em populações adultas16,17 e idosas2,3.

 

MÉTODO

Este estudo foi realizado numa amostra ao acaso de pessoas, com 65 anos ou mais, vivendo em 3 subdistritos na cidade de São Paulo. Maiores detalhes do processo de amostragem podem ser encontrados em outro trabalho19. Uma subamostra foi selecionada para este estudo.

Um diagnóstico psiquiátrico foi formulado na dependência de existir distúrbio mental. A Síndrome Psicorgânica (SPO) foi definida de acordo com Kay e col.14 que dividiu os casos de SPO em dois subgrupos: casos leves, isto é, aqueles indivíduos que mostravam uma decadência mental maior do que aquela esperada para os indivíduos do mesmo grupo etário, porém sem apresentar sinais evidentes de demência (correspondiam a uma avaliação de gravidade, AGC de 1 ou 2 na entrevista psiquiátrica); casos moderados ou graves, pacientes com quadro clínico de demência e/ou outras síndromes orgânicas (a AGC correspondia a 3 ou 4). O psiquiatra não utilizou nenhum instrumento padronizado para chegar ao diagnóstico. Desta forma o diagnóstico reflete basicamente um julgamento clínico.

À medida do necessário, foram formulados outros diagnósticos psiquiátricos utilizando a classificação proposta pela Diagnostic and Statistical Manual - DSM-III1. Nestes casos, foram formuladas questões adicionais além daquelas propostas pela CIS de forma a preencher os critérios diagnósticos desta classificação.

Toda a avaliação foi feita pelo autor principal (SLB), que aplicou o FHT-R e a entrevista psiquiátrica. Cumpre assinalar que a entrevista psiquiátrica foi realizada antes do FHT-R. Desta forma, o julgamento clínico foi feito antes e independentemente dos escores do FHT-R.

 

RESULTADOS

De uma amostra ao acaso de 111 pessoas, 20 não foram contatadas. Elas não foram encontradas em casa após pelo menos duas visitas, n=19; recusaram-se a participar, n=1. Uma amostra de 91 pessoas concordou em ser examinada. A faixa etária desta amostra variou de 65 a 94 anos. Quanto ao sexo, 35 eram homens e 55 mulheres; quanto à cor, 71 eram brancos, 11 negros e 9 pardos. O nível educacional era de um modo geral baixo: 71 pessoas não completaram a escolaridade primária e só 3 chegaram ao nível universitário.

Cinco pessoas apresentaram síndromes psicorgânicas e 86 não apresentavam esta condição. Na Tabela estão calculados os coeficientes de validação do FHT-R. Como podemos observar no ponto do corte 0/1 encontramos 5 falsos-positivos e 2 falsos-negativos. Os coeficientes de validação foram: sensibilidade 60%, especificidade 94%, valor prognóstico positivo 38%, valor prognóstico negativo 98% e taxa de classificação incorreta 8%.

 

 

DISCUSSÃO

O FHT-R mostrou-se um instrumento útil para detectação de distúrbios orgânicos em diferentes ambientes de estudo6,7,13 e opera relativamente bem sem muita interferência de fatores culturais. Neste estudo piloto a versão reduzida do FHT mostrou-se mais específico do que sensível (a sensibilidade foi 60% e a especificidade 94%). O instrumento é de fácil aplicação e poderia, portanto, ser útil em estudos epidemiológicos.

Esta investigação não foi realizada de forma independente. Este viés pode, evidentemente, limitar o significado destes achados. Entretanto, neste estudo piloto o FHT-R e a entrevista psiquiátrica foram realizadas no mesmo momento. Alguns estudos de validação não levaram em consideração este importante aspecto metodológico relacionado ao curso flutuante de numerosas condições psiquiátricas, aplicando a entrevista padrão várias semanas após o questionário de rastreamento.

Detectamos 5 falsos-positivos: um com distúrbio de ansiedade, um com desordem afetiva (depressão), um com distúrbio de ajustamento com humor depressivo, um com distúrbio de personalidade e um em estado de luto. Consideramos que a situação de testagem cria um clima ansiogênico para alguns indivduos. Devido a isto, algumas pessoas apresentaram dificuldades para se concentrar na tarefa e, conseqüentemente, ocasionaram falsos-positivos. Os 2 falsos-negativos foram indivíduos que apresentaram quadros demenciais leves com AGC de 1 ou 2. Esta situação nos faz levantar a hipótese de que o teste é provavelmente menos hábil para detectar esses tipos de casos.

Para que possamos ter uma melhor conclusão a respeito da habilidade do teste em detectar as síndromes psicorgânicas, novas investigações deveriam ser conduzidas examinando o teste com uma avaliação psiquiátrica independente, ou examinando algum outro teste que poderia resultar em coeficientes de validade mais altos.

 

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Recebido para publicação em/Received in: 22/3/1989
Aprovado para publicação em/Accepted in: 20/6/1989