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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.23 n.5 São Paulo Oct. 1989

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101989000500009 

ARTIGO ORIGINAL

 

Saúde, nutrição e classes sociais: o nexo empírico evidenciado em um grande centro urbano, Brasil

 

Health, nutrition and social class: the empirical link demonstrated

 

 

Carlos Augusto Monteiro; Isabel Cristina Martins de Freitas; Regina Maria Baratho

Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo - Av. Dr. Arnaldo, 715 - 01255 -São Paulo, SP - Brasil

 

 


RESUMO

Embora freqüentemente assumida como verdadeira, a relação entre classe social e estado de saúde e nutrição raramente tem sido estudada no plano empírico. Adotando-se proposta classificatória que permite a identificação operacional do conceito de classe social em sociedades de organização complexa, procurou-se estabelecer e comparar o estado de saúde e nutrição de uma amostra das crianças da cidade de São Paulo pertencentes a distintas classes sociais. A partir da observação da distribuição do índice altura/idade, evidenciou-se crescimento normal - e portanto condições ótimas de saúde e nutrição – apenas entre as crianças pertencentes à burguesia e à pequena burguesia, as quais correspondem a cerca de 30% da população. Diferenças significantes (p < 0,01) em relação a um padrão esperado de alturas de crianças bem nutridas foram encontrados para o proletariado ligado ao setor de serviços, para o proletariado ligado à produção e transporte de mercadorias e para o subproletariado. Diferenças de renda e de acesso à escolaridade entre as classes sociais consubstanciam o nexo empírico evidenciado entre condição de classe e estado de saúde e nutrição.

Descritores: Saúde da criança. Estado nutricional. Classe social. Antropometria.


ABSTRACT

The relationship between social class and nutritional status, although frequently presumed true, has scarcely ever been studied empirically. The health and nutritional status of a sample of children from different social classes in the city of S. Paulo (Brazil) are studied by means of an on operational classification of social class. Through the analysis of the height for age distribution normal growth – and, therefore, favourable health status – eas found only among the burgeoisie and the small-burgeoisie, these two classes together constituting about 30% of the total population. Significant divergences from an expected anthropometric standard were found among all the segments of the working-class population. Differences in income and schooling among the classes corroborate the empirical link found between social class and health and nutritional status.

Keywords: Child health. Nutritional status. Social class. Anthropometry.


 

 

INTRODUÇÃO

Em sociedades de economia capitalista, os bens e serviços produzidos pelo conjunto da sociedade, incluindo os alimentos e a assistência à saúde, não são igualmente acessíveis a todos os indivíduos; antes dependem da sua inserção no processo social de produção, ou seja, da sua condição de classe. Em face desta situação, com freqüência assume-se que é a classe social do indivíduo aquela que, em última instância, irá determinar os limites mais prováveis dentro dos quais se situará seu estado de saúde e nutrição.

Embora o conceito de classe social date de muitas décadas11,14, sua incorporação em estudos empíricos sobre determinantes de condições de saúde tem sido pouco freqüente. Uma das razões para este fato decorre certamente da amplitude do conceito de classe social, o qual envolve instâncias econômicas, jurídico-políticas e ideológicas. Captar todas estas instâncias por meio de instrumentos como questionários e entrevistas é tarefa de difícil cumprimento. Nesta medida é comum que estudos empíricos lancem mão das chamadas "proxies" da classe social, como nível de renda, nível de escolaridade e outras variáveis que, em maior ou menor medida, dependem da condição de classe.

Em nosso meio, recentemente, alguns autores têm tentado superar as dificuldades interpostas pela complexidade do conceito de classe social, buscando alternativas operacionais que viabilizem a apreensão do conceito por meio de questionário2,13,25. A partir de uma destas alternativas, o presente artigo busca estabelecer e comparar o estado de saúde e nutrição de indivíduos pertencentes a diferentes classes sociais. O material empírico examinado envolve uma amostra probabilística da população de crianças do maior centro urbano brasileiro – a cidade de São Paulo – fato que deve garantir uma presença diversificada de classes e estratos de classes sociais. Os indicadores com que se trabalha estão baseados na avaliação do crescimento infantil – condição que deve conferir considerável abrangência aos achados.

 

METODOLOGIA

A população estudada é parte da amostra da pesquisa: "Saúde e nutrição das crianças de São Paulo". A referida pesquisa examinou uma amostra representativa das crianças residentes na cidade de São Paulo com idades entre O e 59 meses, tendo seu processo de amostragem já sido descrito em outra publicação19 . No presente estudo são investigadas 784 das 1.016 crianças que constituíram a amostra original da pesquisa. Os motivos para a não inclusão de todas as crianças prenderam-se à existência de dados incompletos ou a situações não previstas pela classificação social adotada (chefes de família aposentados, por exemplo).

A classificação das crianças segundo classes e estratos de classes sociais foi executada conforme a proposta formulada por Lombardi e col.13 . A referida proposta atém-se à instância econômica do conceito de classe social, considerando, entretanto, quatro diferentes dimensões: a posição que o indivíduo ocupa em um sistema de produção historicamente determinado; sua relação com os meios de produção; seu papel na organização social do trabalho e a magnitude e a forma de apropriar-se da parte da riqueza social de que dispõe. A partir destas quatro dimensões, e considerando a situação específica do componente da unidade familiar com maiores rendimentos, as famílias das crianças examinadas foram classificadas como pertencentes a seis classes ou estratos de classes sociais, a saber:

burguesia (proprietários de meios de produção que empregam cinco ou mais pessoas e têm renda individual superior a quinze salários mínimos);

nova pequena burguesia (assalariados do setor público ou privado que exercem funções de direção e assalariados e profissionais autônomos cujo trabalho requer formação profissional universitária);

pequena burguesia tradicional (agentes sociais que, sem possuir formação universitária, possuem a capacidade de reproduzir-se de maneira independente por disporem de meios de produção próprios, ainda que utilizem basicamente mão-de-obra familiar);

proletariado não típico (trabalhadores cujas atividades têm relação apenas indireta com a produção, como bancários, trabalhadores de escritórios e funcionários públicos);

proletariado típico (trabalhadores que desempenham atividades diretamente vinculadas com a produção e o transporte de mercadorias);

subproletariado (agentes sociais que desempenham uma atividade predominantemente não assalariada, em geral instável, com a qual obtêm rendimentos inferiores ao custo mínimo da reprodução da força de trabalho).

As informações utilizadas na classificação social das crianças foram coletadas por sociólogos em entrevistas domiciliares prévias ao exame clínico-antropométrico.

As condições de saúde e nutrição próprias de cada classe social foram estabelecidas a partir do estudo da distribuição das alturas registradas pelas crianças nas diferentes idades. Como se verá, esta distribuição de alturas contrastada à distribuição esperada em condições ótimas de saúde e nutrição possibilita avaliar com precisão o desempenho do crescimento em cada classe ou estrato de classe. O contraste entre as distribuições encontradas nas várias classes dá a medida da distância que as separa em termos da adequação do crescimento e, portanto, de seu estado de saúde e nutrição. Adotou-se o padrão antropométrico do National Center for Health Statistic (NCHS)8 como indicativo da distribuição de alturas em condições otimizadas de nutrição e saúde. O referido padrão, baseado na população americana, é recomendado pela Organização Mundial de Saúde para uso internacional22 . As medidas de altura foram tomadas nos domicílios das crianças por médicos pediatras com treinamento padronizado, adotando-se procedimentos e equipamentos recomendados pela "American Public Health Association" . Os contrastes entre as distribuições de alturas foram analisados estatisticamente pela prova de Kolmogorov- Smirnov24, utilizando-se a prova para uma amostra, no caso da comparação entre as classes e o padrão de referência, e a prova para duas amostras, no caso da comparação entre as classes.

 

RESULTADOS

A Tabela 1 apresenta a distribuição das crianças estudadas segundo seis classes ou estratos de classes sociais. O proletariado é a classe majoritária, observando-se que os trabalhadores do setor de serviços (proletariado não típico) superam em importância os trabalhadores diretamente envolvidos com a produção e o transporte de mercadorias (proletariado típico). Cerca de 30% das crianças pertencem à pequena burguesia, sendo próximas as freqüências encontradas entre a nova pequena burguesia e a pequena burguesia tradicional. Ao subproletariado pertencem menos do que 10% das crianças e à burguesia menos do que 1%.

 

 

O primeiro passo para se avaliar a distribuição dos valores de altura das crianças consiste em se proceder à sua classificação, tendo como base de referência um padrão de crianças bem nutridas, no caso o padrão NCHS. Este passo foi executado por programa para microcomputador10 que, a partir do conhecimento da altura, idade e sexo da criança, identifica a posição exata em que a mesma se encontra no padrão NCHS. A referida posição é expressa tanto em unidades de desvio-padrão com relação à mediana como em percentis. No caso presente, buscou-se o percentil que a criança examinada ocupava no padrão de referência.

A Tabela 2 apresenta a distribuição de alturas observada em cada uma das classes ou estratos de classes sociais. A referida distribuição obedece aos dez decis do padrão NCHS, de modo que na primeira categoria (ou primeiro decil) encontram-se todas as crianças cuja altura tenha sido classificada entre os percentis 1 e 10 do padrão, na segunda categoria todas as crianças entre os percentis 11 e 20 do padrão e assim por diante. Dada a natureza das categorias adotadas, se o crescimento das crianças de classe ou estrato de classe acompanhar o padrão de referência, em cada categoria (ou decil) serão encontradas proporções uniformes de crianças, ao redor de 10%. Excesso de crianças (mais do que 10%) nos primeiros decis e escassez relativa (menos do que 10%) nos últimos decis determinarão perfis desviados à esquerda, próprios de populações expostas a déficits de crescimento, sendo mais intenso o desvio à medida que maior seja o risco da exposição.

Para facilitar a inspeção e interpretação dos resultados da Tabela 2, foram construídos os gráficos reunidos na Figura. Evidencia-se ali que os perfis de crescimento encontrados entre as crianças pertencentes à burguesia e à nova pequena burguesia são superponíveis ao padrão, sendo portanto semelhantes àqueles esperados em condições otimizadas de saúde e nutrição. Entre as crianças da pequena burguesia tradicional detecta-se perfil de crescimento ligeiramente desviado à esquerda. O referido desvio já é flagrante no proletariado não típico e intensifica-se no proletariado típico e no subproletariado.

A análise estatística das diferenças observadas entre as várias classes e o padrão NCHS revela diferenças significantes tanto para os dois estratos do proletariado quanto para o subproletariado (p < 0,01). Entre si, estes três estratos não diferiram significativamente quanto à distribuição de alturas.

 

COMENTÁRIOS

Nos primeiros anos de vida, a avaliação do crescimento é considerada a medida singular que melhor reflete o estado de saúde e nutrição dos indivíduos 9,26,27 . No plano coletivo, o estudo da distribuição dos valores de altura que as crianças alcançam nas várias idades constitui forma prática e sensível de se aferir a qualidade de vida a que uma dada população está submetida4,21 .

A forte influência que a condição social exerce sobre o crescimento infantil já havia sido demonstrada por diversos estudos realizados no Brasil23 e em outros países5 . Tais estudos, entretanto, têm se utilizado, como regra geral, de variáveis que, embora dependam da condição de classe, com ela não se confundem. São exemplos desta situação o uso do nível de renda3 e o uso do nível de escolaridade20 . Apenas em contextos rurais onde a condição de classe é facilmente identificada através da posse ou não dos meios de produção, é que se registram estudos empíricos que trataram diretamente com o conceito de classe social12,15,22.

Uma outra limitação dos estudos existentes refere-se à utilização de classificações clínicas do crescimento. Tais classificações, como a de Gomez e col.7 e a de Waterlow28, por exemplo, embora sejam extremamente úteis para se estabelecer prognósticos individuais e estimativas da prevalência de modalidades de desnutrição, não permitem a adequada avaliação do crescimento no plano populacional, sobretudo quando há o interesse em se comparar diferentes estratos da mesma população16 .

Utilizando um sistema de classificação que possibilita a apreensão do conceito de classe social em contextos urbanos complexos e através do estabelecimento dos perfis de crescimento que caracterizam as diferentes classes e estratos de classe, o presente estudo pôde situar o nexo empírico entre classe social e condições de saúde e nutrição.

Na medida em que a condição de classe deve determinar o crescimento infantil através da mediação de vários fatores, torna-se interessante examinar, no contexto da cidade de São Paulo, a relação que estes fatores mantêm com a condição de classe e com o próprio crescimento. Em artigos anteriores18,20, a partir da mesma amostra de crianças, mostramos a forte associação que renda familiar e acesso à escolaridade mantinham com o crescimento infantil. A relação que une renda e escolaridade à condição de classe é apresentada nas Tabelas 3 e 4 deste artigo.

De acordo com a Tabela 3 verifica-se que situações favoráveis de renda são observadas apenas no caso da burguesia e da nova pequena burguesia. Nestes estratos a maioria das crianças pertence a famílias cujos rendimentos são pelo menos duas vezes superiores a um salário mínimo per capita, que é o nível de renda mínimo para que uma família de São Paulo possa satisfazer suas necessidades com alimentação e outras despesas básicas como moradia e transporte6. O montante da renda começa a se deteriorar quando se passa para a pequena burguesia tradicional, onde já se verifica que cerca de metade da população tem rendimentos inferiores a um salário mínimo per capita. Comprometimento maior dos níveis de renda se observa nos dois estratos do proletariado, onde são mais de 70% as crianças na categoria de renda inferior à mínima. No subproletariado a situação é a pior possível, com cerca de 90% das crianças ostentando níveis de renda incompatíveis com a satisfação de simples necessidades básicas.

Outro fator importante na mediação dos efeitos da condição de classe sobre o crescimento infantil é o acesso à escolaridade. Em uma sociedade urbana como São Paulo é lógico supor que níveis mínimos de escolaridade sejam imprescindíveis para permitir a interação eficiente do indivíduo com o ambiente, com os outros indivíduos e com as instituições em geral. Nesta situação melhores níveis de escolaridade dos pais poderão significar menor exposição da criança a doenças infecciosas, utilização mais apropriada dos serviços públicos e melhores e maiores oportunidades de emprego.

De acordo com a Tabela 4, nota-se que situações favoráveis de escolaridade são observadas novamente apenas no caso da burguesia e da nova pequena burguesia, onde a maioria dos chefes de família possui curso colegial ou curso superior. Na pequena burguesia tradicional situações onde os chefes de família sequer possuem instrução primária (4 anos de escolaridade) já somam cerca de 30%. Os níveis de escolaridade do proletariado não típico igualam-se praticamente aos de pequena burguesia tradicional, sendo bastante pior a situação do proletariado típico e do subproletariado, onde os índices de virtual analfabetismo atingem, respectivamente, cerca de 50% e de 60%.

A relação que une classe social à renda e à escolaridade consubstancia assim o nexo empírico evidenciado entre classe social e estado de saúde e nutrição.

Merece destaque final a constatação do estudo de que na cidade mais desenvolvida do país apenas as crianças pertencentes à burguesia e à pequena burguesia (no total cerca de 30% da população) desfrutem de condições de saúde e nutrição compatíveis com a realização plena de seu potencial de crescimento. Impressiona verificar que os déficits de crescimento e as precárias condições de saúde e nutrição compatíveis com a realização pleta de seu potencial de crescimento. Impressiona verificar que os déficits de crescimento e as precárias condições de saúde e nutrição que eles anunciam sejam freqüentes em todos os estratos do proletariado e não apenas, como se poderia pensar, entre os agentes sociais marginalmente ligados à atividade produtiva. Nesta medida, há todo sentido em se advertir que as famílias trabalhadoras do centro urbano hegemônico do país sequer têm condições para reprodução satisfatória de sua força de trabalho.

 

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Recebido para publicação em 21/4/1989
Reapresentado em 25/7/1989
Aprovado para publicação em 31/7/1989