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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.23 n.6 São Paulo Dec. 1989

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101989000600008 

TAXONOMIA

 

Simuliidae (Diptera: Culicomorpha) no Brasil. X - Descrição de Simulium (Psaroniocompsa) guaporense sp.n

 

Simuliidae (Diptera: Culicomorpha) in Brazil. X - Simulium (Psaroniocompsa) guaporense sp.n. description

 

 

Victor Py-Daniel

Departamento de Ecologia, Divisão de Entomologia do INPA - Caixa Postal 478 - 69000 - Manaus, AM - Brasil

 

 


RESUMO

É descrita uma nova espécie para o subgênero Simulium (Psaroniocompsa) Enderlein: S. (P.) guaporense proveniente da Província Hidrogeológica do Escudo Central, pertencente ao grupo "siolii" (S. siolii, S. lourencoi, S. damascenoi) descrito por Py-Daniel (1988).

Descritores: Simuliidae, classificação.


ABSTRACT

Simulium (Psaroniocompsa) guaporense, found in the Hydrogeological Province of the Central Shield, is described. S.(P.) guaporense belongs to the "siolii" group (S.siolii, S.lourencoi, S.damascenoi) described by Py-Daniel (1988).

Keywords: Simuliidae, classification.


 

 

INTRODUÇÃO

Após exame mais acurado das espécies provenientes da Província Hidrogeológica do Escudo Central, constatou-se que uma larva proveniente do Igarapé da Cachoeira, Bacia do Rio Guaporé (Estado de Rondônia), antes considerada como S. (P.) siolii Py-Daniel, 1988, conjuntamente com outro material proveniente do Igarapé Ponte de Pedra (localidade próxima à primeira), na realidade são representantes de uma espécie nova, cujas as pupas têm 6 filamentos branquiais terminais, e as larvas possuem 1+1 tubérculos dorsais no segmento abdominal I.

Com a descrição de Simulium (P.) guaporense sp.n., o subgênero passa a ter 18 espécies.

Simulium (Psaroniocompsa) guaporense sp.n.

Simulium (P.) siolii Py-Daniel, 1988; p. 300 (parte).

Imagos - Desconhecidos.

LARVA- Coloração geral cinza com faixas escuras nos segmentos (material em álcool). Comprimento do corpo 4,37 mm. Máxima largura da cápsula cefálica = 0,5 mm. Cápsula cefálica (Fig. 4), regiões torácica e abdominal com setas simples; os últimos segmentos abdominais dorsalmente com uma fileira transversas de escamas achatadas, poliapicais (Fig. 3).

Contorno do corpo como na Figura 1: apresenta protuberâncias subtriangulares dorsais que aumentam de tamanho no sentido anteroposterior, nos 6 primeiros segmentos abdominais (1+1 nos segmentos I e VI; 2+2 nos segmentos II-V) e sem apresentar nenhuma no segmento VII (a região posterior dos tubérculos é mais escurecida e apresenta escamas evidentemente esclerotizadas); ventralmente apresenta protuberâncias (Fig. 3) arredondadas que também aumentam de tamanho no sentido antero-posterior, mas sem diferenciação tegumentar. Tubérculos ventrais posteriores (Fig. 2) subtriangulares; tubérculos laterais posteriores arredondados. Apódema cefálico (Fig. 4) castanho claro com setas simples, afiladas, relativamente longas (algumas pequenas) em grande número (Fig. 5). Manchas da cabeça fracamente positivas. Antenas (Fig. 7) com o mesmo comprimento das hastes dos leques cefálicos. Terceiro segmento antenal mais escuro que os anteriores. Proporção entre os segmentos antenais I-II-III = 1:0,92:1,36. Leques cefálicos normais, com 37-39 raios, sendo que cada raio apresenta uma mancha escura no ápice do quarto basilar e quando os raios se apresentam juntos o leque cefálico aparenta ter uma linha escura contínua. Escleritos cervicais pequenos, elipsóides e livres na membrana. Hipostômio (Fig. 11) com 5+5 setas laterais e 3+3 no disco; dentes hipostomiais: sendo 1+1 dentes pontas, 1 dente central, 3+3 dentes intermediários (externo e interno iguais e maiores que o mediano), 2+2 dentes laterais e 7+7 serrilhas; os dentes central, pontas e intermediários apresentam uma projeção basilar. Fenda gular (Fig. 6) profunda e submitral; proporção entre a ponte prégular / hipostômio = 1:6,57. Esclerito labral segundo Fig. 8. Mandíbula (Figs. 9,10) com 2 dentes externos; l dente apical; 4 dentes pré-apicais que decrescem no sentido anteroposterior; 13 dentes internos; 2 dentes marginais (o segundo é alargado e tem a base, anteriormente, ligada ao primeiro); com 1 PLM simples, fino, sinuoso e com o ápice ultrapassando a margem inferior da mandíbula. Esclerito anal como Figura 12. Região anterior a cavidade anal com poucos espinhos simples e/ou bífidos, com esclerotização fraca. Disco anal com 79 fileiras de ganchos e com 10-15 ganchos por fileira. Brânquias anais não foram observadas.

PUPA - Comprimento do casulo, dorsal = 2,5 mm./ ventral = 3,3-3,4 mm. Comprimento dos filamentos branquiais = 2,2-2,3 mm. Casulo em forma de "chinelo" (Fig. 13), com trama visível, cobrindo apenas o terço posterior do tórax com a borda anterior reforçada e mais escurecida, com 1 + 1 reduzidas projeções anterodorsais (Fig. 14). Brânquias (Figs. 15 e 18) de cor castanha clara, sendo que da base comum partem 2 troncos primários: o dorsal curto (0,14mm.) que se subdivide dando dois secundários, que por sua parte se subdividem dando um total de 4 filamentos terminais; o ventral longo (1,2 - 1,6 mm.) que se bifurca dando 2 filamentos terminais, totalizando 6 filamentos terminais. Fórmula branquial = 1 [1 (2+2)+ 1(2)]. As brânquias possuem o retículo composto de tubérculos enfileirados. Ápice dos filamentos afilado. Fronto-clípeo (Fig. 16) com tubérculos pequenos arredondados e agudos. Tórax (Fig. 17) com a metade anterior apresentando tubérculos de tamanho pequeno sendo desde agudos a hemicirculares simples e com a metade posterior apresentando tubérculos reduzidos hemicirculares simples. Ornamentação do fronto clípeo com 2+2 tricomas frontais, longas, trífidas e/ou múltiplas (3-4 ramos), com 1 + 1 tricomas faciais, longas, trífidas e/ou múltiplas (3-4 ramos). Estojos antenais lisos. Tórax com a quetotaxia sendo 5+5 tricomas centro-dorsais (bífidas/trífidas/quadrífidas), médias, filiformes e com o ápice simples; 1 + 1 tricomas supra-laterais simples, médias, filiformes, ápice simples; 3+3 tricomas laterais simples, filiformes, ápice simples (as tricomas inferiores de tamanho igual as médias e maiores que as superiores). Tergitos abdominais nitidamente membranosos. Tergitos I-V sem dentículos anteriores. Tergitos VI-IX com 1+1 áreas anteriores apresentando dentículos tanto do tipo pequeno como do grande. Tergito I com 1+1 longas setas filiformes fronto-laterais, não apresentando setas na região centro-anterior. Tergito II com 5+5 setas espiniformes subiguais (sendo 4+4 setas com o ápice no sentido longitudinal do abdome e 1+1 setas transversais, frontais ao espaço entre as setas mais externas). Tergitos III-IV com 4+4 ganchos simples, na região posterior e l +1 setas, espiniformes, transversais, frontais ao espaço entre os dois (2) ganchos mais externos. Tergito V com 3-4+3-4 setas espiniformes, simples ou bífidas, no terço posterior. Tergitos VI-VII com 2+2 setas espiniformes, simples, no terço posterior. Tergito VIII com 3+3 setas espiniformes, simples. Tergito IX sem setas. Ao longo do abdome, ao nível pleural, existem 3+3 setas espiniformes, por segmento. Espinhos terminais do abdome pequenos. Esternitos III-IV e VI-VIII apresentando áreas com dentículo em forma de pente. Esternito V não apresentou tais áreas (uma variação teratológica??). Segmento esternal III sem setas. Segmento esternal IV (Fig. 19) com 3+3 setas simples, espiniformes. Segmentos VI-VIII divididos, medianamente, por áreas membranosas estriadas, longitudinais. Placas esternais do segmento V com 2+2 ganchos bífidos/trífídos, muito próximos e com 2+2 setas espini-filiformes, latero-externas aos ganchos externos. Segmentos esternais VI-VII com 2+2 ganchos (os externos simples, os internos bífidos e/ou trífidos) e com 3+3 setas espini-filiformes (1 + 1 setas frontais aos ganchos externos, 1 + 1 setas entre os ganchos externos e internos, 1+1 setas = no segmento VI latero-externas aos ganchos externos, no segmento VII frontais as setas inter-ganchos). Nas membranas intersegmentares, tanto dos tergitos como dos esternitos existem 1 + 1 microsetas, espiniformes, translúcidas. Sem áreas esclerotizadas, nas estrias das membranas intersegmentares.

Etimologia - Simulium guaporense é uma homenagem à bacia hidrográfica do Rio Guaporé, da qual provém os exemplares.

MATERIAL EXAMINADO - BRASIL, Rondônia: Bacia do rio Guaporé, Igarapé da Cachoeira, rodovia RO-399 (Vilhena/Colorado), 1 larva (em álcool) - INPA 5851,14. VI. 1981. V. Py-Daniel leg. (citada por Py-Daniel, 1988 como pertencente a S.siolii); Igarapé Ponte de Pedra, Km 27 da rodovia RO-399, Fazenda Régis (Vilhena/Colorado), 1 pupa em lâmina (INPA 5849-1-HOLÓTIPO), 1 larva em lâmina (INPA 5849-2- PARÁTIPO), 1 pupa (INPA 5849-3) e uma larva (INPA 5849-4), em álcool, e ambos PARÁTIPOS, 14.VI.81, V.Py-Daniel leg.

 

DISCUSSÃO

Nas descrições de Py-Daniel (1988), feitas para S.siolii, 5. lourencoi e 5. damascenoi o primeiro segmento abdominal das larvas apresentava prótuberâncias subtriangulares (na realidade a numeração dos segmentos teve que ser refeita: S. siolii, S. lourencoi e S. damascenoi sem tais protuberâncias, S. guaporense com 1+1 protuberâncias; todas as 4 espécies com 2+2 tubérculos nos segmentos II-V e 1 +1 no segmento VI; apenas S.damascenoi com 1 protuberância central, arredondada no segmento VIII).

Todas as espécies do grupo "siolii" apresentam, dorsalmente, escamas achatadas poliapicais, sendo que em S.guaporense são mais esclerotinizadas, em maior número e também dispostas em fileiras nos últimos segmentos.

Os filamentos branquiais nas pupas de S.guaporense e S.damascenoi apresentam-se sempre muito menores que o comprimento ventral do casulo, enquanto em S.siolii e S.lourencoi variam de subiguais a maiores.

Os caracteres diferenciais, novas interpretações, ou mesmo os novos caracteres, para as larvas e pupas, deste grupo estão representados nas Tabelas 1 e 2.

 

 

 

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

PY-DANIEL, V. Simuliidae (Diptera: Culicomorpha) no Brasil VI. - Sobre Simulium (Psaroniocompsa) siolii sp.n., Simulium (P.)lourencoi sp.n., e Simulium (P.) damascenoi sp.n. Rev. Saúde públ., S.Paulo, 22: 292-310,1988.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 26/6/1989
Aprovado para publicação em 15/8/1989
Financiado, em parte, pelo Programa POLONOROESTE/CNPq e parte pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)