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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.24 n.3 São Paulo Jun. 1990

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101990000300010 

ARTIGO ORIGINAL

 

Demanda de serviço de saúde comunitária na periferia de área metropolitana1

 

The demand for community health services in the metropolitan periphery area

 

 

Sônia Maria RadaelliI; Silvia M. Pasa TakedaII; Luisa Isabel D. GimenoI; Mário B. WagnerIII; Flávio José KanterI; Vera M. de MelloI; João César BorgesI; Bruce B. DucanIII

IUnidade Sanitária Murialdo da Secretaria da Saúde e do Meio Ambiente — Rua Vidal de Negreiros, 443 — 90000 — Porto Alegre, RS — Brasil
IIServiço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição — Rua Domingos Rubo, 20 — 90000 — Porto Alegre, RS — Brasil
IIIDepartamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Rua Sarmento Leite, esq. Luiz Englert, s/no — 90050 — Porto Alegre, RS — Brasil

 

 


RESUMO

Para melhor conhecer o conteúdo da assistência ambulatórial em Assistência Primária à Saúde, procedeu-se a um estudo com uma amostra de 4.319 atendimentos, representando 7% da população atendida de março de 1985 a março de 1986. O estudo foi realizado na Unidade Sanitária Murialdo (SSMA), localizada na Vila São José, na periferia de Porto Alegre, RS (Brasil). O sexo feminino ocupou 67% do total de atendimentos. A composição etária esteve mais significativamente representada por crianças até 10 anos (37%) e mulheres em idade fértil (21%). As vinte primeiras razões de encontro corresponderam a 63% do total, e a razão principal de procura do serviço foi para renovação de receitas e pedido de medicamentos (9,3%). De todos os diagnósticos do estudo, os vinte primeiros correponderam a 61%, sendo que hipertensão arterial sistêmica (8,8%), infecções de vias aéreas superiores (7,8%) e imunizações (5,5%) foram os mais freqüentes. O procedimento mais realizado foi fornecer, prescrever ou administrar medicação. Foram encaminhadas 7,3% do total das pessoas atendidas, mais da metade (5,0%) para profissionais do próprio serviço e apenas 0,6% foram encaminhadas para hospitalização. Estes dados, acrescidos daqueles de pesquisas que captaram os aspectos de morbi-mortalidade não facilmente obtidos em estudos de demanda, poderiam servir para orientar o planejamento dos serviços sanitários e treinamento de pessoal.

Descritores: Pesquisa sobre serviços de saúde. Cuidados primários de saúde. Necessidade e demanda de serviços de saúde. Morbidade.


ABSTRACT

The content of 4,319 consultations in primary health care representing 7% of all consultations from March, 1985 to March, 1986 at the Murialdo Health Center, was analyzed The health center is located in the outskirts of Porto Alegre, RS (Brazil). Woman represented 67% of the total demand. Most consultations were for children under 10 years of age (37%) and woman of childbearing age (21%). The first twenty reasons for the visit corresponded to 63% of the total, and the most common reason for visiting the health center was for renewal of prescriptions and/or ordering medication (9,3%). Of all the diagnoses, the first twenty accounted for 62% of the total number of patients and the most frequent were: hypertension (8.8%), upper respiratory tract infection (7.8%), and immunization (5.5%). Prescription and administration of medication were the most common actions performed. Referáis resulted in 73% of the visits. Of these, 5% were sent to other providers within the Murialdo service. Only 0.6% were referred for hospitalization. These findings, combined with others which describe aspects of morbimortality not easily measured in studies of spontaneous demand for medical services, should help in the planning of primary health care services and in the training of health personnel.

Keywords: Health services research. Primary health care. Health services needs and demands. Morbidity.


 

 

INTRODUÇÃO

Estudar o conteúdo fundamental da prática médica, no marco da assistência primária à saúde em unidades sanitárias que prestam serviços neste nível, é hoje uma tarefa que se impõe. Planejar, programar, treinar, avaliar e retroalimentar, nos serviços de saúde, fazem parte de um processo que necessita espelhar-se em dados concretos da realidade.

A morbidade pode ser pesquisada por meio de inquérito domiciliar ou pela demanda das pessoas que se apresentam espontaneamente ao serviço.

Cada uma dessas abordagens permite observar uma parte da realidade, e só sua conjunção pode oferecer um quadro completo da morbidade na coletividade.

Dentro da abordagem por utilização do serviço, existem três elementos da consulta que em seu conjunto dão um perfil da morbidade: a razão de encontro, o diagnóstico e/ou problema e o procedimento.

Os estudos pormenorizados da morbidade em contextos relevantes à experiência brasileira são recentes. A bibliografia em nível regional e/ou nacional é escassa, e os trabalhos realizados em nível internacional5,6,7,10,14,21 geralmente são pouco aplicáveis.

No caso do Brasil temos referências de estudos como este em Ribeirão Preto, SP20, Pelotas, RS3, Porto Alegre, RS9,11,15 e um estudo multicêntrico8 que abrange cinco serviços em São Paulo e um em Pelotas. Embora os estudos de Ribeirão Preto e Pelotas trouxessem informações importantes, a metodologia não padronizada e pouco detalhada limitou sua utilidade. Os resultados das três pesquisas anteriores realizadas em Porto Alegre também foram limitados por seus objetivos e/ou esquemas de amostragem. O estudo multicêntrico8 teve como objetivo testar um dos sistemas de classificação utilizado nesse estudo. Assim, seus resultados foram relatados somente por componentes (categorias) da classificação, e não por motivos de consulta específicos. O relato do estudo concluiu que "o próximo passo será avaliar o uso dessa classificação na prática da assistência primária".

Contudo, obteve-se acesso a estudo4 realizado em outro serviço de saúde comunitária no Rio Grande do Sul. Tal estudo empregou a mesma metodologia e classificações que este trabalho. As características da população analisada eram muito semelhantes às da população aqui referida. Ainda, por outro estudo realizado em Murcia (Espanha)12 ,com o qual foi possível estabelecer um paralelo pela semelhança na estruturação dos serviços, na metodologia e nos instrumentos de classificação empregados.

Os principais objetivos do presente trabalho foram conhecer as razões de encontro mais freqüentes, os diagnósticos realizados ou problemas listados e os procedimentos comumente efetuados em um serviço de medicina comunitária da rede estadual, com a finalidade de contribuir ao melhor conhecimento do perfil sanitário.

 

MATERIAL E MÉTODO

O presente estudo foi realizado na Unidade Sanitária Murialdo, localizada na Vila São José, na periferia da cidade de Porto Alegre, RS. Esta Unidade contava com oito postos avançados, cada um responsável pelo atendimento em cuidados primários para a população de uma determinada área geográfica. A escolha do serviço ficava a critério do paciente. Assim, nem todos os moradores da área de abrangência faziam uso da Unidade. Dispunha também de um centro de saúde onde funcionavam os serviços de segunda linha, de laboratório e de plantão (noturno, fim-de-semana e feriado). Nestes locais trabalhavam técnicos com diferentes formações: auxiliares de saúde, assistentes sociais, psicólogos, veterinários, médicos e enfermeiros, além de pessoal em treinamento; médicos residentes e assistentes sociais.

Para fins deste estudo foram considerados os atendimentos prestados em dois postos avançados, incluindo o atendimento no plantão das pessoas procedentes das áreas de abrangência desses dois postos. (O atendimento de plantão é unificado em um único local). O critério de escolha destes postos residiu no fato de serem os mais representativos da situação sócio-econômica dos moradores da Vila São José, de acordo com os dados do Censo do IBGE, 19861.

Segundo dados da Secretaria de Saúde e do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, a população estimada da área que o serviço cobria era de 78.500 habitantes, sendo que cada um dos postos onde este estudo foi realizado abrangia uma população com cerca de 7.000 habitantes.

Foi realizado treinamento e um teste piloto com todas as pessoas que participaram do estudo, o que subsidiou o aperfeiçoamento do instrumento de coleta de dados e a familiarização do grupo com o instrumento.

Os atendimentos do serviço durante uma semana de cada estação do ano foi o objeto de observação. Durante o estudo, para cada atendimento era aberta uma ficha de coleta de dados onde se registrou o número do posto de saúde, a estação do ano, o local de atendimento (posto, plantão ou domicílio), o responsável pelo atendimento (auxiliar de saúde, assistente social, médico, enfermeiro, veterinário, psicólogo e outros), até duas razões de encontro, até cinco diagnósticos e/ou problemas e até três procedimentos.

No que se refere ao preenchimento das fichas, os responsáveis pelo atendimento registraram todos os itens, com exceção do item "diagnóstico e/ ou problema" que só foi registrado pelos médicos.

As razões de encontro, como relatadas pelos próprios pacientes, foram classificadas através da "International Classification of Primary Care" (ICPC)16.

Para codificar os diagnósticos foram utilizadas as categorias diagnósticas da "International Classification of Health Problems in Primary Care-2" (ICHPPC-2)18, ressalva feita aos diagnósticos nos eixos psicológico e social (cap. V e XVIII da ICHPPC-2) que foram codificados através da Classificação Tri-axial da OMS para problemas em assistência primária à saúde2,17.

Preferiu-se a ICHPPC-2 - revisão de 197918, e não a ICHPPC-2-Defined19 porque esta última exige alto grau de precisão diagnóstica que não foi possível em nosso nível de assistência primária à saúde.

Para codificar os procedimentos foi utilizada lista própria elaborada especificamente para este fim.

 

RESULTADOS

Gerais

Nesta pesquisa foram estudados 4.319 atendimentos. Eles representaram 7% das pessoas que procuraram o serviço em dois postos avançados da Unidade Sanitária Murialdo, no período de março de 1985 a março de 1986.

Destes 4.319 atendimentos que compuseram o total da amostra, tivemos 5.357 razões de encontro e 3.380 diagnósticos e/ou problemas listados. Isto constituiu uma média de 1,3 razões de encontro por pessoa. Por outro lado, nem todos os encontros resultaram em um diagnóstico, uma vez que tivemos uma média de 0,8 diagnóstico por atendimento. Isso se deveu pelo fato de que, conforme estabelecido previamente, nos atendimentos realizados pelos auxiliares de enfermagem e outros técnicos não-médicos não era preenchido o item "diagnóstico". Foram realizados 1.944 atendimentos médicos, o que significa que em cada um destes foram feitos em média 1,7 diagnósticos.

Em relação ao sexo, houve uma predominância de mulheres com 67% da demanda frente a 33% de homens. Ao analisar a faixa acima de 10 anos, o predomínio de atendimento a mulheres foi ainda mais evidente, ficando as mesmas responsáveis por 73% do serviço e os homens por 27% (Figura).

Com relação à idade, de todos os grupos, o que mais procurou atendimento foi o das crianças de 0 a 10 anos, para ambos os sexos, com 37% do total de encontros. O segundo grupo a destacar foi o das mulheres de 20 a 40 anos com 21% dos encontros. Nove por cento dos atendimentos prestados foram a pessoas com 60 anos ou mais (Figura).

Em 45% dos casos, os atendimentos foram realizados por médicos; em 43%, por auxiliares; em 9%, por médicos e auxiliares; e, finalmente, em 3% por outros técnicos (psicólogos, enfermeiro, assistente social e outros).

A estação do ano de maior número de atendimentos foi a do outono, quando ocorreu 30% da procura, seguida pela primavera com 26%, inverno com 23% e, por último, pelo verão com 21%.

Foram realizados nos postos avançados, 76% dos encontros; no plantão, 23%; e nos domicílios, 1,2%.

Perfil Nosológico

As vinte razões de encontro mais freqüentes corresponderam a 63% de um total de 5.357. As cinco principais foram: renovação de receitas, encontro administrativo, aferição de pressão arterial, febre e aplicação de injeção (Tabela 1).

 

 

Destas vinte primeiras, 18,0% representaram razões clínicas propriamente ditas como febre, sintomas e queixas da garganta, tosse, gripe, dor de cabeça, feridas e infecções, vômito, encátarrado e diarréia; 6,1% corresponderam a medidas de prevenção como imunizações, anticoncepção oral e prenatal; 32,2% corresponderam a atividades de seguimento como: renovar receitas e pedir medicamentos, medir pressão, aplicar injeção, fazer curativos, pesar, receber o resultado de exames e consultar novamente; e 6,7% corresponderam a atividade sobretudo de tipo administrativo: pedido de atestados, marcação da consultas e abertura de prontuário de família (Tabela 1). Menos de 1% das razões de encontro expressas foram problemas sociais.

Houve 278 diferentes razões de encontro, porém mais de 200 destas tiveram uma freqüência menor do que 0,2%.

De um total de 3.380 diagnósticos, os vinte primeiros corresponderam a 61% de todos os diagnósticos. Os cinco principais diagnósticos pela ordem de freqüência foram: hipertensão arterial sistêmica, infecções agudas das vias aéreas superiores, imunizações, amigdalites e paciente sadio (Tabela 2).

 

 

Cabe evidenciar a alta freqüência de doenças infecciosas (49% de todos os diagnósticos). As mais freqüentes foram infecções de vias aéreas superiores, amigdalites, pneumonia, impetigo, diarréia, parasitoses intestinais, pediculose e escabiose, cistite e infecção urinária e otite média. As doenças crônicas e/ou degenerativas ocuparam 16,6% de todos os diagnósticos sendo que as mais freqüentes foram hipertensão arterial sistêmica, asma, diabetes mellitus e psicoses não especificadas (Tabela 2).

Observou-se nos diagnósticos e/ou problemas a presença de alguns itens que não são patologias em sentido estrito, mas que a classificação utilizada considera como diagnósticos. Isso explica o surgimento das imunizações, do paciente sadio, do cuidado pré-natal e da anticoncepção oral na listagem dos diagnósticos.

Quando se agruparam todos os diagnósticos por sistema ou tipo de problema, de acordo com a classificação utilizada (Tabela 3), constatou-se que os grupos mais representativos foram os do sistema respiratório (19%), das doenças infecciosas e parasitárias (13%) e das doenças dos sistema circulatório (12%).

 

 

Chamou a atenção a freqüência de registros no grupo "Medicina Preventiva", no qual as imunizações, o pré-natal e a anticoncepção foram os três diagnósticos mais freqüentes (9%).

Observando a variação sazonal dos cinco diagnósticos mais freqüentes verificou-se uma relativa constância na freqüência de diagnóstico de hipertensão arterial sistêmica e imunizações em cada estação. A variação sazonal foi um pouco maior para pré-natal e paciente sadio, porém infecções de vias aéreas superiores tiveram um comportamento diferente: após sofrer um aumento moderado na primavera, diminuiram consideravelmente no verão.

Considerando que o grupo das mulheres de 15 a 44 anos (Figura) foi aquele que mais consultou (27% do total da amostra) foram analisados detalhadamente os principais diagnósticos deste grupo (Tabela 4). Hipertensão arterial foi o diagnóstico mais freqüente. Ao se comparar com os homens (Tabela 5) da mesma faixa etária, observou-se que o número de mulheres com diagnóstico de hipertensão foi quase duas vezes maior. Embora as mulheres consultassem três vezes mais do que os homens, elas não o fizeram principalmente por problemas específicos da mulher. Do total de diagnósticos de mulheres de 15 a 44 anos (1.067 diagnósticos), 75% deveram-se a patologias comuns aos dois sexos, e somente os 25% restantes corresponderam a patologias específicas do sexo feminino.

 

 

 

 

Conforme demonstra a Tabela 6, percebeu-se que, do total de procedimentos analisados, 39% referiram-se ao Grupo "Medicação" (fornecimento, prescrição e administração); 20% corresponderam a "Aconselhamento e educação para a saúde" em nível grupal e/ou individual.

 

 

Seguindo a ordem de freqüência, "Acompanhamento" (medir pressão arterial, pesar e fazer curativo) corresponderam a 15,7% dos procedimentos.

"Procedimentos administrativos" ocupam 8,2% de todos os procedimentos. Neste item foram incluídos agendamentos de consulta (4,9%), atestados de saúde e doença (2,1%), abertura de prontuário (0,7%), agendamento de visitas domiciliares (0,5%).

De todas as pessoas atendidas, 7,3% foram encaminhadas, sendo que 4,6% para profissionais de segunda linha dentro do próprio serviço e 2,1% foram referidas para fora do sistema. Somente 34 pacientes (0,6%) foram encaminhados para hospitalização.

 

COMENTÁRIOS

Gerais

Em relação ao sexo, as mulheres foram as que mais procuraram o serviço. Alguns aspectos para explicar o fato foram levantados: as mulheres estão mais em contato com o serviço de saúde uma vez que são elas que levam os filhos ao médico, preocupam-se com a anticoncepção e com a própria gestação. O horário de funcionamento dos postos (diurno) enquanto favorece o acesso da população feminina (na maioria donas de casa, diaristas e domésticas) dificulta este mesmo acesso à população masculina, em função dos seus horários de trabalho (construção civil e setor terciário da produção).

Em relação à idade, houve o predomínio das crianças até os 10 anos para ambos os sexos na amostra estudada. Fazendo a leitura para a faixa que vai até os cinco anos, observou-se que é ainda maior a concentração neste grupo. Supôs-se que isto ocorreu em função da alta freqüência de doenças infecciosas para as quais condutas bem desenvolvidas, necessitando pouco apoio laboratorial e de alta resolutividade, são disponíveis na rede pública, e em função da priorização dada pela Secretaria da Saúde e do Meio Ambiente a este grupo etário, o qual possui programas específicos como imunizações, suplementarão alimentar e puericultura.

Frente aos objetivos para se efetuar visitas domiciliares, ou seja, atendimento médico, busca de faltosos em programas, pesquisas epidemiológicas do processo saúde-doença e rastreamento de fatores de risco e prioridades, considerou-se o número de visitas realizadas, 1,2%, baixo.

Perfil Nosológico

Os dez primeiros motivos de consulta corresponderam a 51,4% do total, sendo que os cinco mais freqüentes perfizeram um terço (32%) do total (Tabela 1). Estes dados evidenciaram que alguns problemas neste nível de assistência à saúde eram freqüentes e mereceram maior atenção por parte dos formadores de técnicos na área de saúde.

Em comparação com o estudo do Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição4, a procura para renovação de receitas e pedido de medicamentos foi muito alto: 9,3% no Murialdo comparado a 1,2% no Conceição. Para avaliar melhor este dado foram verificados os diagnósticos das pessoas cuja razão de encontro era buscar medicação. Assim, das doenças crônicas, a lista vem encabeçada por patologias no eixo psiquiátrico e/ou neurológico (ansiedade e epilepsia, principalmente). Convém chamar a atenção para a necessidade de estudos que verifiquem se há excesso de medicação nas práticas de saúde. Convém, também, avaliar se o paciente que faz uso crônico de medicamentos é revisado regularmente sobre a adequação da dosagem, o surgimento de efeitos colaterais e necessidade ou não de manter a droga.

Salienta-se que um pequeno número de problemas concentrou grande parte dos diagnósticos. Os dez primeiros diagnósticos corresponderam a 46%. Se tomados comparativamente, os dez primeiros diagnósticos corresponderam no Conceição4, a 42%; no estudo de Murcia, a 39%; e no "National Ambulatorial Medical Care Survey" (NAMCS), a 41%7,12.

Destes estudos comparou-se também a freqüência para alguns diagnósticos. Chamou a atenção que em três dos cinco diagnósticos mais comuns (infecção das vias aéreas superiores, hipertensão arterial sistêmica e amigdalite) a ordem de freqüência foi muito semelhante (Tabela 7).

 

 

No estudo realizado o pré-natal ocupa o 8o lugar em ordem de freqüência. Considerando a taxa bruta anual de fecundidade igual a 3%13, esperava-se para a população de referência (14.000 habitantes) uma prevalência de 315 mulheres grávidas a cada mês durante nove meses (420 por ano). Colocando como meta nove consultas por gestante durante a gravidez, estima-se que em um período de quatro semanas deveriam ocorrer 315 consultas pré-natais. Durante o presente estudo foram realizadas 147 consultas, ou seja, 47% de cobertura em relação à meta proposta.

Supõe-se que algumas causas para a baixa cobertura encontrada foram: a) desconhecimento da importância do pré-natal; b) inserção da gestante no mercado de trabalho; c) sistema de saúde voltado mais para atividades curativas do que preventivas; d) procura de outros serviços que garantam a internação no momento de parto, uma vez que na Unidade Sanitária Murialdo não existe um sistema de referência e contra-referência formal. Salienta-se a necessidade de um estudo que avalie melhor os índices de cobertura e adequação dos pré-natais.

Na área onde o trabalho foi realizado havia grande quantidade de problemas sociais (altos índices de desemprego, baixa cobertura de saneamento básico). Porém, os registros deste trabalho não acompanharam esta constatação. Os diagnósticos no eixo social tiveram freqüência menor que a esperada. Talvez exista sub-registro, provavelmente porque a grande maioria dos médicos não se deteve a investigar problemas nesse eixo e nem a registrá-los. Esta atitude é o reflexo da tendência dos médicos a reduzirem os problemas a seus aspectos biopsíquicos. Acredita-se que se o item "Diagnósticos" fosse preenchido não exclusivamente por médicos, seria maior o registro de problemas sociais.

A investigação das razões de encontro dos pacientes que receberam diagnóstico de paciente sadio mostrou que as principais razões foram as seguintes: encontro administrativo, aferição do peso para obtenção de rancho, consulta de revisão, exame ginecológico, imunizações, aferição da pressão arterial e planejamento familiar.

Comparando os diagnósticos agrupados segundo a ICHPPC-2 deste estudo com o da Espanha12, observou-se que houve semelhanças na freqüência em algumas categorias. As doenças dos sistema respiratório e circulatório encontraram-se entre as mais freqüentes em ambos os estudos (Tabela 7). No que se refere aos grupos das doenças infecto-contagiosas (13,4% no Murialdo e 2,6% em Murcia), da gravidez, parto e puerpério (6,6% no Murialdo e 0,2% em Murcia) e das doenças mentais (8,0% no Murialdo e 3,0% em Murcia), no Murialdo esses grupos sobressaíram com uma freqüência quase três vezes maior. Salienta-se que para desordens mentais utilizou-se neste estudo a classificação Triaxial da OMS17, e em Murcia, a ICHPPC-218.

Procedimentos

O aconselhamento e a educação foram o segundo item em ordem de freqüência com 20% dos procedimentos. Isto foi reflexo, em parte, das atividades do grupo praticadas, tanto terapêuticos (pacientes com doenças psiquiátricas, com hipertensão arterial sistêmica, com abuso crônico de álcool e desnutrição) como preventivas (gestantes).

Nos "Encaminhamentos" de um modo geral, Murialdo situou-se em uma posição intermediária em relação à freqüência de encaminhamentos dos outros estudos. Em ordem crescente, no NAMCS7 foram encaminhados 6,0% dos pacientes; no Conceição4, 6,8%; no Murialdo, 7,3%; e Murcia12 foi o que mais encaminhou, com 10%. Nos encaminhamentos especificamente para hospitalização, Murialdo e Conceição se comportaram igualmente com 0,6%; NAMCS7 apresentou o maior índice de referência para hospitalização, com 3,6%.

Sobre solicitação de "Exames complementares", Murialdo solicitou pouco se comparado com trabalhos realizados em outros serviços. No estudo de Pelotas3 foram solicitados exames complementares em 9,5% dos casos; Murcia12,10%; Conceição4,19%; NAMCS7, 22%; e Murialdo, apenas 4,5%. Isto ocorreu principalmente porque no Murialdo, ao contrário dos outros trabalhos que observaram exclusivamente a demanda médica, foram também analisados os atendimentos prestados por técnicos não-médicos, o que contribuiu para baixar o percentual de solicitação de exames complementares do total dos procedimentos. Por outro lado, cabe colocar que no Murialdo não se contava com serviço próprio ou de referência que suprisse a falta de alguns exames complementares básicos como culturas, raio-X, radioimunoensaio, entre outros.

Limitações

É importante salientar que os objetivos deste trabalho limitaram-se a caracterizar os atendimentos, quase na sua totalidade, de procura espontânea dos pacientes ao serviço.

Embora o serviço do Murialdo tivesse base geográfica, é sabido que existia certo grau de evasão para outros serviços por parte dos moradores desta área. Assim, os resultados descritos espelharam a realidade dos atendimentos feitos e não a necessidade total da população da região servida.

Temos uma visão parcial do perfil sanitário da coletividade: os problemas de saúde daqueles que procuraram o serviço de saúde. É necessário que estas informações sejam complementadas com o conhecimento dos problemas daqueles que não vêm2.

Devido às características da Unidade (horário de atendimento, espectro de serviços oferecidos, e outros) existiam necessidades reprimidas, que este estudo não foi delineado para medir. Além disso, o estudo não pretendeu mostrar a relação entre o que foi descrito e seus determinantes histórico-sociais, limitando-se conceitualmente às manifestações individuais das doenças.

 

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Recebido para publicação em 5/7/1989
Reapresentado em 30/1/1990
Aprovado para publicação em 30/1/1990

 

 

1 Apresentado no 11o Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Geral Comunitária, Florianópolis, SC, 1987. Financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (Processo no 404795/84 — MP - 29.10.84)
2 Relatório final do Seminário Interinstitucional sobre Pesquisas de Morbidade, promovido pela FUNDAP, São Paulo, 1984. (Dados inéditos)
3 Não publicado. Original à disposição com os autoresdo presente trabalho