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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.24 n.3 São Paulo Jun. 1990

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101990000300012 

RESUMOS DE LIVROS BOOK REVIEWS

 

 

Fabíola Zioni Comes

Departamento de Prática de Saúde Pública — FSP/USP

 

 

Crítica metodológica, investigação social e enquete operária, por Michel J. M. Thiollent. 5a ed. São Paulo, Ed. Polis, 1987. 270 p. (Coleção Teoria e História, 6).

O objetivo deste livro, conforme colocação do autor, é apresentar textos que incentivem a discussão metodológica nas Ciências Sociais.

Para realizar esse intento inicia por uma apresentação de caráter didático das principais técnicas de pesquisa e um resumo de certas definições de caráter técnico.

No segundo capítulo discute, a partir das concepções de Pierre Bordieu, a questão da neutralidade em Ciências Sociais. Nesse capítulo apresenta uma crítica contundente tanto aos procedimentos usuais em "pesquisas empiricistas" como ao embasamento teórico e ideológico de algumas experiências desse tipo de pesquisa notadamente em enquetes eleitorais.

Continuando a crítica à abordagem "empiricista" no capítulo III discute-se o processo de entrevista não diretiva como alternativa de instrumento de pesquisa sociológica reconhecendo problemas epistemológicos que envolvem a relação sociologia e psicologia.

No IV capítulo a "Enquete Operária" é apresentada como alternativa metodológica e definida como "... questionário, ou de modo geral, questionamento, no contexto da investigação social ligada à prática política da classe operária". Ainda que propondo, de maneira polêmica e militante, a associação da pesquisa à ação política, o autor reconhece os limites dessa proposta para algumas questões metodológicas.

 


 

 

Fabíola Zioni Gomes

Departamento de Prática de Saúde Pública — FSP/USP

 

 

A doença, por Giovanni Berlinguer. São Paulo, Hucitec. Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, 1988.150 p. (Coleção Saúde em Debate).

Reconhecendo as já tradicionais dificuldades para a definição do fenômeno o autor identifica doença à "... incapacidade permanente ou transitória — de manter a homeostasia, o equilíbrio entre as funções do organismo e é um processo; isto é, tem um início, uma história e uma conclusão. Melhor seria falar de um ciclo contínuo saúde-doença que se desenvolve não somente no interior do organismo mas entre esse e o ambiente". Reconhecendo as influências culturais sobre a definição de doença destaca a necessidade de se resgatar o ponto de vista do doente que, segundo ele, revesteria a concepção de doença de cinco dimensões: sofrimento, diversidade, perigo, sinal e estímulo. Essas dimensões são tratadas pelo autor em cinco capítulos, naquele referente ao "sofrimento" (por dor ou perda de poder físico/dignidade) ressalta a situação social do indivíduo como influindo na percepção do sofrimento aliada aos fatores cognitivos e de cunho psicológico. No capítulo seguinte discute a doença como diversidade ou anormalidade; critica a idéia de catalogar saúde como normal e patológico como desvio, visto que ambos fazem parte do mesmo processo e dado que as bases biológicas e psicológicas da doença são revestidas de juízo social de valor. Para o autor a doença deve ser entendida como diferença e não como desvio.

Desenvolvendo o tema "perigo", denuncia a possibilidade de manipulação e discriminação social a partir da idéia de doença como fonte de perigo para o indivíduo ou para a comunidade. Lembra que por "perigosa" a doença dever ser combatida, mas nunca o portador do mal.

Nos capítulos 5 e 6 discorre sobre a doença como "sinal" e "estímulo". Como "sinal" a doença pode combater — com o uso da epidemiologia - o fenômeno freqüente de ocultamente da situação responsável pelo seu aparecimento. Uma vez desvendada essa situação a doença pode ser convertida em estímulo à transformação social.

Concluindo o autor aponta — a partir da discussão da doença — algumas perspectivas para a saúde: possibilidade de erradicação de doenças, de previsão e prevenção de doenças e de "prover saúde para todos no ano 2000."

Para o autor essas perspectivas se abrem graças ao desenvolvimento tecnológico e à ênfase contemporânea às diferentes formas de solidariedade social.

 


 

 

Evelin Naked de Castro Sá

Departamento de Prática de Saúde Pública — FSP/USP

 

 

As novas realidades no governo e na política, na economia e nas empresas, na sociedade e na visão do mundo; trad., por Peter F. Drucker. São Paulo, Pioneira, 1989. 239 p. trad., por Peter F. Drucker. São Paulo, Pioneira, 1989. 239 p.

Drucker, já é um autor bastante conhecido e utilizado entre nós, no ensino de Administração Geral, como base para a Administração Sanitária, Planejamento em Saúde, Políticas e Sistemas de Saúde. Drucker nos auxilia inúmeras vezes, na relação docente/aluno, quando é necessário abordar os pioneiros da Administração Cientifíca — Fayol, Taylor, etc. Isso porque, cultua-se um mito, um preconceito: o de que a administração, o administrativo, é sinônimo de pouca flexibilidade, inoperância, burocratismo, etc., tudo o que na opinião pública, combina com os "velhinhos" da Administração. Drucker é um autor moderno que, sem abandonar as teorias histórico/seqüenciais da Administração, amplia seus escritos na direção de uma abrangência do ambiente externo e quase que filosofa sobre o sentido da Administração no conjunto das práticas para o social.

O presente livro está estruturado em prefácio, 4 partes, conclusão e índice remissivo. No prefácio, Drucker considera que já estamos vivendo o próximo século, e que o curso de ação à nossa frente já pode ser discernido, com novas realidades que não as dos políticos, economistas, estudiosos, empresários e líderes sindicais falam e traduzem em livros, fornecendo-nos uma "profunda sensação de irrealidade que caracteriza grande parte da política e da economia contemporâneas". (Prefácio, XI).

O desenvolvimento do tema está em 16 capítulos distribuídos pelas citadas quatro partes: I) As realidades políticas; II) O governo e os processo políticos; III) Economia, ecologia e o contexto econômico; IV) A nova sociedade instruída. A conclusão consta do artigo "Da análise à percepção da nova visão do mundo". É aqui que o autor considera que colocou com maior profundidade os temas que abordou só na superfície nos capítulos do livro: política e governo, sociedade, economia e política, organização social e educação.

Destaco a atualidade e importância didática da segunda parte, "O Governo e os Processos Políticos", constando dos capítulos os limites do governo (pg.49 a 62), e os novos pluralismos (pg.63 a 86), O perigo do carisma: as novas exigências feitas à liderança política (pg. 87 a 92). No desenvolvimento docente de um bloco de disciplinas versando sobre Saúde, Estado e Sociedade, o capítulo "os limites do governo" vem a calhar, pois aborda, na perspectiva da Administração Pública, questões tais como: sabemos muito bem o que queremos que o governo faça, ou o que achamos que o governo tenha o dever de fazer, mas pouco discutimos o que o governo pode fazer. Colocando-nos um pouco nostálgicos do sucesso do Welfare State, das doutrinas e ideologias e vemo-nos com uma série enorme de limitações. Drucker coloca neste capítulo os dilemas da estatização x privatização, se a motivação dos governos na escolha das prioridades é moral ou econômica, as atividades (funções) fáceis e as difíceis, o que o dinheiro não pode comprar e o que os impostos não podem fazer, os limites do estado fiscal e as resistências dos contribuintes quando os impostos são altos demais.

Somente por este capítulo o livro já se recomenda para administradores públicos e os envolvidos na definição de políticas públicas. Os demais dão uma visão histórica passada e as perspectivas futuras que, igualmente, ajudam a ilustrar o pano de fundo das novas realidades.