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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.25 n.1 São Paulo Feb. 1991

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101991000100005 

ARTIGOS ORIGINAIS ORIGINAL ARTICLES

 

Atração miraxonal exercida por Biomphalaria straminea, Lymnaea columella e Physa sp, sobre miracídios de Schistosoma mansoni da linhagem BH*

 

The miraxonal attraction exercised by Biomphalaria straminea, Lymnaea columella and Physa sp over miracidia of Schistosoma mansoni

 

 

Luiz A. MagalhãesI; Eliana M. Zanotti-MagalhãesI; José F. de CarvalhoII; Marina FaraoneIII

IDepartamento de Parasitologia do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) - Caixa Postal 6109 - 13081 Campinas, SP - Brasil. Pesquisadores do CNPq
IIDepartamento de Estatística do Instituto de Matemática e Ciências da Computação da UNICAMP
IIIDepartamento de Parasitologia da UNICAMP Estagiária

 

 


RESUMO

Utilizando-se um artefato de vidro composto de duas câmaras unidas por um canal, testamos a atração miraxonal exercida por Biomphalaria straminea, Lymnaea columella e Physa sp, sobre larvas de Schistosoma mansoni da linhagem BH. Os moluscos, ou suas águas de condicionamento (SCW), foram colocados aleatoriamente em uma das câmaras, contendo o restante do artefato somente água declorada. Dez miracídios foram depositados no centro do canal. O comportamento dos miracídios foi observado por 15 min. Foram feitas dez replicações de cada experimento, utilizando-se espécimens de moluscos e miracídios diferentes. Verificou-se que todos os moluscos e suas SCW exerceram atração miraxonal, sendo que Physa sp atraiu mais que Lymnaea columella. Foi isolado um único exemplar de B. straminea que exerceu efeito repulsivo sobre os miracídios de S. mansoni.

Descritores: Biomphalaria, fisiologia. Lymnaea, fisiologia. Schistosoma mansoni, fisiologia. Atividade motora.


ABSTRACT

The attraction exercised over Schistosoma mansoni miracidia by Biomphalaria straminea, Lymnaea columella and Physa sp using a specially designed apparatus consisting of two circular glass chambers joined by an open channel were studied. The molluscs or their snail-conditioned water (SCW) was placed in one of the chambers (randomly chosen). In the channel ten miracidia was deposited and the count of miracidia in each of the three compartments (the two chambers and the channel) was recorded during fifteen minutes. Ten replications of each experiment with different specimens of molluscs and miracidia were made. Statistical and ad-hoc exploratory data analysis showed that: a) the three species of molluscs and their SCW attract the miracidia; b) Physa sp attract more miracidia then L. columella. There was an isolated single B. straminea specimen that had a repulsive effect to the miracidia.

Keywords: Biomphalaria, physiology. Lymnaea, physiology. Schistosoma mansoni, physiology. Motor activity.


 

 

Introdução

Após os trabalhos de Kloetzel4,5 (1958,1960), Etges e col.6 (1963) e Brasio e col.1 (1985), ficou confirmada a existência de atração exercida por moluscos vetores sobre miracídios de Schistosoma mansoni.

Foi verificado que os moluscos Helisoma anceps e Bulinus sp, não vetores de S. mansoni (Etges e col.6, 1963), e girinos de Hyla fuscovaria (Brasio e col.1, 1985) não exerciam atração miraxonal sobre larvas deste trematódeo.

A atração do miracídio exercida pelos hospedeiros intermediários faz-se mediante a ação de substâncias emanadas pelo caramujo na água. A água contendo essas substâncias, convencionou-se chamar de SCW, "snail conditioned water" (Chernin2, 1972). Brasio e col.1 (1985) constataram a ação miraxonal de várias substâncias contidas na SCW e na hemolinfa de moluscos planorbídeos.

No presente trabalho pesquisamos a atração miraxonal exercida por Biomphalaria straminea e por sua SCW sobre miracídios de S. mansoni da linhagem BH (Paraense e col.8,1963). Testamos também a possível atração miraxonal de Lymnaea columella e Physa sp (moluscos não vetores de S. mansoni) e de suas SCW sobre miracídios do mesmo trematódeo.

A pesquisa de atração miraxonal em moluscos não vetores do S. mansoni tem interesse em saúde pública, uma vez que os miracídios deste trematódeo poderão ser desviados de seus hospedeiros invertebrados em focos onde subsistam espécies de moluscos resistentes à infecção.

 

Material e Método

Os moluscos utilizados no experimento foram exemplares adultos obtidos do moluscário do Departamento de Parasitologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Os exemplares de B. straminea eram descendentes de moluscos capturados no campo em Picos, Piauí. Os exemplares de L. columella e Physa sp eram descendentes de moluscos capturados na região de Campinas, SP.

Para a observação do comportamento dos miracídios, utilizou-se um artefato de vidro composto de duas câmaras circulares com 30mm de diâmetro e 20mm de profundidade, unidas por um canal de 40mm de comprimento, 11mm de largura e 10mm de profundidade (Brasio e col.1, 1985). Os experimentos foram realizados colocando-se um molusco ou a SCW correspondente, aleatoriamente, em uma das câmaras. A SCW foi obtida de um "pool" de moluscos, segundo Chernin2 (1972). Os miracídios de S. mansoni da linhagem BH, em número de 10, foram depositados no centro do canal. A outra câmara foi preenchida com água declorada. Durante 15 min. observou-se o comportamento das larvas em lupa estereoscópica com lente frontal redutora (X 0.5). O experimento foi repetido 10 vezes com iluminação abundante, homogeneamente dispersa e, em número igual de vezes, na penumbra. Em cada replicação foram utilizados diferentes espécimens de moluscos e de larvas. A fim de comprovar a neutralidade da água utilizada quanto ao aspecto de atração miraxonal e também testar a eficiência do artefato, verificamos o comportamento dos miracídios quando as duas câmaras continham somente água declorada.

Utilizamos para análise o modelo de regressão logística multivariada devido a Cox3 (1970). Com o modelo, buscamos estudar as probabilidades p (A), p (B) e p (C) das larvas passarem a câmara A ou B, ou permanecerem no canal. Cada combinação dos fatores estudados: iluminação, tipo (molusco ou SCW) e espécie (L. columella, Physa sp ou B. straminea) forma uma população, com valores dessas probabilidades, que devem ser comparadas entre as populações.

Os cálculos foram feitos com o sistema SAS, em micro-computador compatível com IBM PC-XT, sob DOS 3.2.

 

Resultados

Os dados numéricos do experimento estão contidos nas Tabelas de 1 a 5.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No decorrer do experimento com exemplares de B. straminea, observou-se que um exemplar exercia uma ação repulsiva sobre os miracídios. Em cerca de 3 min. todos os miracídios dirigiram-se a câmara oposta. Este exemplar foi então separado para a realização de um experimento isolado. Foram feitas 10 observações com o mesmo molusco, e com miracídios diferentes, sob a luz (Tabela 5). O exemplar morreu dias após a realização do experimento, não tendo sido possível obter descendentes.

A Tabela 6 mostra que não houve interação entre os fatores, isto é, eventuais diferenças entre as probabilidades, se existirem, são constantes para quaisquer pares populacionais. Além disso, dos efeitos princípais apenas o Molusco revelou-se significativo: existe diferença entre as probabilidades por espécies de moluscos. Não houve diferença na atração entre o molusco e sua SCW. A iluminação tampouco teve efeito.

 

 

Finalmente, comparando-se apenas as câmaras A e B (deixando-se o canal C), para ver se, realmente P (A) > P (B), obtivemos o resultado constante da Tabela 7.

 

 

Vê-se que apenas a primeira comparação de molusco foi significativa (p = 0.0005): esta corresponde a L. columella versus B. straminea. Não há diferença na atração entre B. straminea e Physa sp.

 

Discussão e Conclusões

Ao contrário de Etges e col.6 (1963), verificou-se que moluscos não vetores de S. mansoni (L. columella e Physa sp) atraíram miracídios deste trematódeo. A presença de moluscos não vetores, que atraem miracídios de S. mansoni em um foco, é uma condição que certamente interferirá no ciclo do trematodeo. Os miracídios poderão ser atraídos por moluscos nos quais não terão condições de se desenvolver.

É interessante assinalar que B. straminea atraiu fortemente miracídios de S. mansoni de linhagem mantida na natureza, por outra espécie de vetor. Brasio e col.1 (1985) observaram haver certo grau de especificidade na atração miraxonal exercida por moluscos B. tenagophila sobre miracídios de S. mansoni da linhagem S J.

Quanto ao efeito iluminação, Brasio e col.1 (1985) verificaram que miracídios da linhagem BH de S. mansoni apresentaram maior atração pelos moluscos vetores na presença da luz, e que miracídios da linhagem SJ apresentaram maior atividade na penumbra. No presente experimento não houve efeito da iluminação.

O fato de ter sido observado um exemplar de B. straminea com efeito refratário sobre miracídios de S. mansoni, sugere que este exemplar deveria conter, em sua hemolinfa ou em suas secreções, substâncias repulsivas aos miracídios. Pode-se especular que, além do componente genético condicionante da susceptibilidade à infecção (Newton7, 1953; Richards e col.9, 1972), os moluscos poderiam possuir também outros fatores, como a emanação de substâncias repulsivas aos miracídios que dificultariam ou impediriam sua infecção.

Houve atração miraxonal exercida por B. straminea, Lymnaea columella e Physa sp e pelas SCW destes moluscos. Physa sp atraiu mais do que Lymnaea columella quando estes moluscos foram utilizados no mesmo experimento, em câmaras diferentes. B. straminea atraiu mais do que L. columella. Não houve diferença significativa entre a atração miraxonal exercida por B. straminea e Physa sp. Não houve efeito de iluminação.

 

Referências Bibliográficas

1. BRASIO, B.C.; MAGALHÃES, L.A.; MILLER, J.; CARVALHO, J.F. Atração de miracídios de Schistosoma mansoni por hospedeiros invertebrados: comportamento de miracídios frente a girinos de Hyla fuscovaria. Rev. Saúde públ., S. Paulo, 19: 18-27,1985.        [ Links ]

2. CHERNIN, E. Penetrative activity of Schistosoma mansoni miracidia estimulated by exposure to snail conditioned water. J. Parasit., 58: 209-12, 1972.        [ Links ]

3. COX, P.F. The analysis of binary data. London, Methuen, 1970.        [ Links ]

4. KLOETZEL, K. Observações sobre o tropismo do miracídio do Schistosoma mansoni pelo molusco Australorbis glabratus. Rev. bras. Biol., 18: 223-32, 1958.        [ Links ]

5. KLOETZEL, K. Novas observações sobre o tropismo do miracídio de Schistosoma mansoni pelo molusco Australorbis glabratus. Rev. Inst. Med. trop. S. Paulo, 2:341-46,1960.        [ Links ]

6. ETGES, F.J.; CASTER, O.S.; WEBBE, G. Behavioral and developmental physiology of schistosoma larval as related to their molluscans host. Ann. N.Y. Acad. Sci., 266: 480-96,1963.        [ Links ]

7. NEWTON, W.L. The inheritance of susceptibility to infection with Schistosoma mansoni in Australorbis glabratus. Exper. Parasit., 2: 242-57,1953.        [ Links ]

8. PARAENSE, W.L. & CORRÊA, L.R. Sobre a ocorrência de duas raças biológicas do Schistosoma mansoni no Brasil. Cienc. e Cult., 15(3): 245-6, 1963.        [ Links ]

9. RICHARDS, C.S. & MERRIT, J.W. Genetic factors in the susceptibility of juvenile Biomphalaria glabrata to Schistosoma mansoni infection. Amer. J. trop. Med. Hyg., 21: 425-34,1972.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 12/6/1990
Aprovado para publicação em 8/11/1990

 

 

* Realizado com auxílio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq - Processo no 405937/88).