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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.25 n.4 São Paulo Aug. 1991

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101991000400001 

EDITORIAL EDITORIAL

 

O cólera ou a cólera

 

On the gender of the world cholera in portuguese

 

 

José Alberto Neves Candeias

Editor Associado

 

 

A colaboração de José Leite de Vasconcellos nos estudos de filologia portuguesa é de extrema importância para quem se interesa com o aperfeiçoamento dos conhecimentos nesta área. É pelo caráter utilitário de suas obras, das quais tenho algum conhecimento, que me atrevo a abeirar-me de quem considero tão intangível celebridade e de sua especialidade, para dar conta do que acho ser esclarecedor sobre um curioso aspecto lingüístico muito em voga, no momento.

Quando do centenário do nascimento de José Leite de Vasconcellos foi publicada a 3a edição de suas Lições de Filologia Portuguesa, em 1959, pela Editora Livros de Portugal, no Rio de Janeiro. No Prefácio, escreveu Serafim da Silva Neto: "O grande mestre português vai continuar a ser lido pela mais nova geração de estudiosos brasileiros... e vai de certo despertar novas vocações filológicas. A atividade do Dr. Leite de Vasconcellos é única e incomparável. Dominava todo o campo das ciências do homem; sabia que uma língua só pode ser integralmente estudada se a pusermos no seu lugar próprio, que é a etnografia". Não há dúvida que esse autor é fonte inesgotável de conhecimentos. Recentemente, voltando a ler aquelas Lições, passei pelo capítulo "Erros de linguagem no uso quotidiano" e deparei com o que o autor classifica como "erros nos gêneros", abordando o termo cólera, não sem antes ter eu acompanhado o que escreveu sobre o "desmoronamento da língua", E ali estão enumeradas o que considera as quatro causas fundamentais de tão preocupante situação, a saber: "frouxa ou nenhuma leitura de nossos clássicos", "desconhecimento cada vez maior do latim", "influência da língua francesa" e "falta de sentimento patriótico". Naturalmente, este meu interesse é um aspecto inteiramente pessoal da questão, com que, provavelmente, ninguém teria nada que ver, se não implicasse todo o problema de liberdade, isto é, da interferência do capricho de alguns com os interesses e necessidades de outros. E estes outros, muito embora saibam que não é possível aceitar que uma língua possa ser imutável, no decorrer do tempo, sem se ajustar e sem refletir os "acidentes sociais, os progressos do espírito, as mudanças dos hábitos, os cruzamentos étnicos", também sabem que ela tem que respeitar normas fundamentais, como o chamado "gênio idiomático" e a correção. Muito haveria que escrever sobre ambas estas normas, mas trata-se de digressão que foge ao teor do presente editorial.

Voltando ao exemplo cólera, no contexto dos erros nos gêneros, sabemos que esta palavra tanto caracteriza uma doença, como um sentimento e que este último, no grego e no latim era do gênero feminino. Uma tendência imitativa parece ter contaminado um grande número de membros da classe médica e o próprio vulgo, forçando a mudança no gênero da palavra. Para isto contribuiu o modismo imitativo do francês, "o gosto que todos têm pela novidade e pela presunção de empregar locuções estranhas". Na língua francesa a palavra "le cholera" é masculina, como, em geral, o são todas as palavras de terminação em a, ao contrário do que ocorre na língua portuguesa, onde os nomes em a são geralmente femininos. É verdade que o gênero de um substantivo não se conhece nem pelo significado, nem pela terminação, mas para facilitar o aprendizado convém conhecer algumas regras. Assim, como já escrevemos, a terminação em a átono, na língua portuguesa, confere ao substantivo o gênero feminino fugindo a esta regra palavras como dia, poeta, colega e outras. Alguns substantivos alteram o sentido na mudança de gênero. Um exemplo, lamentavelmente muito atual, refere-se à palavra dengue, cujos significados muito se distanciam, no gênero masculino (faceirice) e no gênero feminino (virose hemorrágica). É ainda interessante referir os chamados substantivos de gênero vacilante, para os quais se recomendam certas preferências, umas do gênero masculino, outras femininas. A palavra cólera pareceria ser um exemplo apropriado daquela vacilação, dando-lhe uns preferência feminina, outros masculina. Não é realmente o que ocorre, pois é bem seguro, não vacilante o seu gênero feminino, já definido tanto no grego, quanto no latim. Não há assim, como fugir da aceitação de que deve dizer-se a cólera e não o cólera, dispensando-nos de atender aos que consideram necessário usar um marcador que possa distinguir a doença do sentimento. Mas se persistem em respeitar tal critério de distinção é oportuno reportá-los ao no 42 da revista "Saúde Pública" (Porto) publicado em 1886...

Fugindo um pouco de todos estes argumentos fílológico-gramaticais, se assim se pode dizer, vale lembrar ainda aqueles que chegam considerar que o gênero do agente etiológico da doença, o vibrião colérico (V. cholerae) condicionaria o gênero da palavra que identifica a doença por ele causada. Nesta ordem de idéias o pneumococo (S. pneumoniae) causaria o pneumonia...

Não gostaríamos de terminar este comentário pessoal, sem voltar a considerar que o que acabamos de escrever, em alguns aspectos, faz lembrar o que poderíamos chamar de parasitismo de linguagem, dentro de um consenso não muito analítico, mas, em nosso entender, eminentemente realista.

Aquela tendência imitativa do francês é uma realidade, e uma forma peculiar de parasitismo em que só um dos sócios julga tirar vantagem da associação. Julgamento este que de fato não é mais do que uma expressão de preciosismo e, quem sabe!, de uma preguiça intelectual em procurar saber o que sua própria língua lhe oferece de apropriado e correto.