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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.26 n.4 São Paulo Aug. 1992

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101992000400005 

Mortalidade feminina no período reprodutivo em localidade urbana da região sudeste do Brasil. Evolução nos últimos 20 Anos

 

Female mortality during the reproductive period in a city of Southeastern Brazil. Evolution over the last 20 years

 

 

Clarisse D.G. Carvalheiro; Amábile R. X. Manço

Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo - Ribeirão Preto, SP - Brasil

 

 


RESUMO

Estudou-se o comportamento da mortalidade na mulher de 15 a 49 anos, no período 1985 a 1989 comparando-o a 1970 a 1974, no Município de Ribeirão Preto, SP (Brasil). Os dados de óbitos foram obtidos nos Cartórios de Registro Civil e os de população estimados a partir dos 2 últimos censos. Analisou-se a mortalidade segundo procedência, estado civil, 7 grupos etários qüinqüenais e causas, segundo a Classificação Internacional de Doenças (9a Revisão, 1975). Ocorreram 1.471 óbitos no período, sendo 705 os de residentes. As 4 principais causas de morte em ordem decrescente, foram: doenças do aparelho circulatório, neoplasmas, lesões e envenenamentos e doenças infecciosas e parasitárias. Os coeficientes específicos de mortalidade segundo grupos etários qüinqüenais, aumentam de modo geral com o avançar da idade, porém com valores menores que os da década anterior, particularmente aqueles codificados no Capítulo I. Os indicadores estudados mostram tendência ao declínio das doenças infecciosas e parasitárias e aumento concomitante das doenças crônico-degenerativas, ou seja, a ocorrência de uma transição epidemiológica vinculada às contradições inerentes ao estado atual de desenvolvimento do país.

Descritores: Mortalidade, tendências. Fecundidade. Causa de morte, tendências.


ABSTRACT

Information about women's mortality during the childbearing years has become of increasing interest in the health area in view of women's health programs. On this basis, the mortality of women aged between 15 and 49 years of the municipality of Ribeirão Preto, S. Paulo, Brazil, was studied for the period from 1985 to 1989 and compared to that of the period from 1970 to 1974. Mortality data were obtained from the civil Registry Offices of the municipality and population data were estimated on the basis of the last 2 censuses. Mortality was analyzed according to origin, marital status, seven 5-year age groups, and causes according to CID, 9th Revision, 1975. A total of 1,471 deaths occurred during the period under study, 705 of them being of town residents. The 4 major causes of residents' deaths in decreasing order of importance after calculation of proportional mortality rates, were: Chapters VII, II, XVII and I. Chapters III and V, which were very infrequent during the period from 1970 to 1974, had tended to increase owing to AIDS and chronic alcoholism, respectively. The 4 major causes continued to be the same as those of 1970, thought in a different order. The mean quinquennial death coefficients according to causes and age groups showed a gradual increase with age, more marked from 35 years on for Chapters VII, I and II. Chapter XVII showed a lower amplitude of variation from younger to older women in the periods studied. When the data were compared for a 15 - year period, the general trend was a decrease in coefficient values, especially in Chapter I. It is concluded that the indicators studied show a tendency towards a decline in infectious and parasitic diseases and a concomitant increase in chronic-degenerative disease, i.e., the occurrence of and epidemiological transition linked to the contradictions inherent in the present state of development in Brazil.

Keywords: Mortality, trends. Fertility. Cause of death.


 

 

Introdução

O conhecimento da mortalidade da mulher no período reprodutivo tem despertado interesse crescente na área da saúde, tendo em vista os programas de saúde da mulher que pretendem abranger não só a questão da reprodução, como também aquelas relacionadas às suas condições específicas de trabalho e de vida. Neste sentido, verifica-se que nas últimas décadas a mulher brasileira assume posições de diferenciada dimensão social com a intensa queda da fecundidade nos últimos 20 anos, a crescente participação na força de trabalho e modificações na organização familiar1,9.

Questões vinculadas à saúde, educação e emprego tornam-se importantes na determinação das condições concretas de vida e morte da mulher. Neste contexto, surge a necessidade de se conhecer o quadro de mortalidade feminina atual e suas possíveis variações nas últimas décadas.

Assim, estudou-se o comportamento da mortalidade feminina no período reprodutivo, entre 1985 e 1989, comparando-a com o período de 1970 a 19742.

 

Material e Método

Os dados foram obtidos das Declarações de Óbito registradas nos 4 Cartórios de Registro Civil (3 urbanos e 1 rural), do Município de Ribeirão Preto, Estado de São Paulo, nos anos de 1985 a 1989, e comparados com os anos 1970 a 1974. Foram coletadas as informações referentes a mulheres no período reprodutivo (15 a 49 anos), considerando-se: procedência, estado civil, idade e causa do óbito.

A procedência foi agrupada segundo: residentes no município e não residentes, incluindo-se neste item todos os demais municípios do Estado de São Paulo e de outros Estados.

A idade foi classificada em 7 grupos etários qüinqüenais: 15-19, 20-24, 25-29, 30-34, 35-39, 40-49, 45-49 anos.

As causas de óbitos foram estudadas de acordo com os 17 Capítulos da Classificação Internacional de Doenças (CID), 9a Revisão, 1975.

Na análise dos dados, foram calculados os índices de mortalidade proporcional, os coeficientes de mortalidade específicos, segundo Capítulos da CID6.

Os valores populacionais constantes nos denominadores dos coeficientes foram obtidos por estimativa aritmética a partir dos dados dos Censos de 1970 e 1980 e calculados para o sexo feminino, em grupos etários qüinqüenais.

 

Resultados e Discussão

Entre 1985 e 1989 ocorreram 1.471 óbitos sendo 705 de residentes e 766 de não residentes.

A distribuição dos óbitos segundo a procedência, nos 5 anos considerados (Tabela 1), mostrou percentual alto de invasão (entre 48,3% e 58,3%), que deve estar associado à disponibilidade de serviços de assistência médico-hospitalar no município estudado, que é sede de ampla região.

 

 

Quanto à distribuição por grupos etários qüinqüenais, observou-se, de maneira geral, que a mortalidade no período aumentou com o avançar da idade, em números absolutos, tanto para residentes quanto para não residentes (Tabela 2), como se espera.

 

 

Como tendência geral, comparando-se os óbitos segundo a procedência e a idade, nota-se maior percentual de óbitos dos 2 grupos etários mais jovens, entre os não residentes. Nos grupos etários mais velhos, a partir de 35 anos, os residentes é que têm maior percentual de óbitos, enquanto que não se observa tendência marcante nos grupos etários intermediários, que apresentam maior percentual de óbitos ora entre residentes, ora entre não residentes.

Os coeficientes específicos de mortalidade, segundo idade (Tabela 3), corroboram o mesmo achado para os óbitos de residentes. Para os não residentes, o mesmo cálculo se tornou impraticável, já que não se dispunha de população de referência. Os coeficientes analisados para a população residente mostram, no tempo, que para os grupos etários de 20 a 24, 25 a 29 e 30 a 34 anos há tendência a diminuição. Nos grupos de 35 a 39 e 40 e 44 anos há uma oscilação dos valores no período. Nos grupos extremos houve tendência ao declínio das taxas no ano de 1986, sendo que no final do período houve um aumento das mesmas. No ano de 1987 houve queda dos valores das taxas em todos os grupos, com exceção do último, fato para o qual não se encontrou nenhuma explicação.

 

 

Ao se comparar estes achados com os do período 1970-1974 (Tabela 4), para as residentes, notou-se tendência geral de diminuição dos valores dos coeficientes.

 

 

Nota-se, no decorrer do tempo, oscilação dos valores das taxas, o que se verifica com freqüência quando se analisam dados de mortalidade, ano a ano. Tentando corrigir essa variação, pode-se calcular, como já tem sido feito, coeficientes médios trienais ou qüinqüenais.

Assim, a Tabela 5 mostra os coeficientes de mortalidade médios qüinqüenais, nos dois períodos analisados. Verifica-se que em todos os grupos etários houve diminuição dos valores dos coeficientes do primeiro período (1970 a 1974), com relação ao segundo (1985 a 1989).

 

 

Na análise das causas básicas de morte foram considerados apenas os óbitos de residentes (Tabela 6). Pode-se observar calculando-se os índices de mortalidade proporcional, segundo os Capítulos da CID, que as 4 principais causas em ordem decrescente de importância, foram: Capítulo VII - Doenças do Aparelho Circulatório, Capítulo II - Neoplasmas, Capítulo XVII - Lesões e Envenenamentos; e Capítulo I - Doenças Infecciosas e Parasitárias, exceto para os anos de: 1986, quando a quarta posição foi ocupada pelos Capítulos VIII - Doenças do Aparelho Respiratório e XVI - Sintomas, Sinais e Afecções Mal Definidas, vindo a seguir o Capítulo I - Doenças Infecciosas e Parasitárias e 1989, em que a quarta posição foi do Capítulo XVI e a quinta, dos Capítulos III - Doenças das Glândulas Endocrinas, da Nutrição e do Metabolismo e Transtornos Imunitários e V - Transtornos Mentais. Verifica-se na última coluna (média do período) que 70% dos óbitos no período foram devidos às causas relacionadas aos 4 Capítulos, grupos citados em ordem decrescente de importância.

 

 

Nota-se ainda que os óbitos pelas causas dos Capítulos III e V, que eram muito pouco freqüentes no período de 1970 - 1974 (Tabela 7), tenderam a aumentar em anos recentes, devido respectivamente à AIDS (Capítulo III) e Alcoolismo Crônico (Capítulo V).

 

 

Os óbitos codificados nos Capítulos III, V, VIII, IX, X, XI e XVI, da CID, ocuparam da quinta à nona posição em ordem de freqüência, com variações na sua ordenação nos 5 anos considerados, com as exceções anteriormente assinaladas para os anos de 1986 e 1989. As demais causas de óbitos apareceram com uma freqüência muito menor no período e se encontram assinaladas como demais Capítulos.

As 4 principais causas permaneceram as mesmas desde a década de 70, observando-se, no entanto, uma ordenação diferente.

Assim, a Tabela 7, baseada em trabalho anterior, realizado em 1975, sobre a mortalidade feminina no período reprodutivo no Município de Ribeirão Preto entre 1970 e 19742, mostrou ter ocorrido variação na ordem de freqüência: em primeiro lugar o Capítulo VII, seguindo-se respectivamente os Capítulos: I, II e XVII. Comparando os dados das Tabelas 6 e 7 notou-se, em linhas gerais, aumento da mortalidade proporcional por Doenças do Aparelho Circulatório, Neoplasmas e Lesões e Envenenamentos, e uma nítida redução da mortalidade por Doenças Infecciosas e Parasitárias.

No entanto, ao se analisar os riscos de morte nos períodos considerados, calculando-se os coeficientes médios qüinqüenais (1985 -1989) segundo as causas de morte mais freqüentes e grupos etários (Tabela 8 e Figuras 1 e 2), verificou-se com relação às Doenças do Aparelho Circulatório, Neoplasmas e Doenças Infecciosas e Parasitárias, ter ocorrido aumento gradativo da mortalidade com a idade, mais acentuado a partir dos 35 anos, referente aos Capítulos VII eIe mesmo no Capítulo II. Quanto a Lesões e Envenenamentos, observou-se menor amplitude de variação entre os valores da mortalidade dos grupos mais jovens aos mais idosos. Achado semelhante foi encontrado para o período de 1970 a 1974. Na comparação entre os dados acima com os do qüinqüênio 1970 - 1974 (Tabela 9), observou-se ter ocorrido, como uma tendência geral, diminuição dos coeficientes médios qüinqüenais no período de 15 anos, particularmente acentuada no Capítulo I. Esta diminuição é compatível com achados de outros autores7.

 

 

 

 

 

 

 

 

Nos anos 70 a 74, a principal causa de óbito no Capítulo I, foi a Doença de Chagas, que apesar do declínio acentuado nos últimos anos permanece, no entanto, ainda como primeira causa de óbito dentre as Doenças Infecciosas e Parasitárias.

No Capítulo VII predominam como primeira causa de óbito, nos últimos 5 anos, as Doenças Cerebro-Vasculares, vindo a seguir, pela ordem, Doenças da Circulação Pulmonar e outras formas de Doenças do Coração, Doença Hipertensiva, Febre Reumática, Doença Isquêmica e Outras Doenças do Aparelho Circulatório conforme está assinalado na Tabela 10. No Capítulo II, Neoplasmas da mama ocupam a primeira posição no ano de 1987 e nos demais aparecem na segunda ou terceira posição. Neoplasmas do útero e ovários alternam-se com os de mama, na segunda ou terceira posição. Em primeiro lugar, estão, outros Neoplasmas malignos em 4 dos 5 anos.

 

 

Trabalho realizado por Yunes e col10, no início da década de 80 em que analisaram entre outros aspectos a mortalidade de mulheres de 15 a 49 anos no Brasil, assinalaram que as causas mais freqüentes, em ordem decrescente de importância, foram Doenças do Aparelho Circulatório, Neoplasmas e Lesões e Envenenamentos, fato observado também com dados de 1985 a 1989, quanto às 3 primeiras causas, em Ribeirão Preto. Mais recentemente, estudo de Lolio5, com dados do Município de São Paulo de 1986 mostra os mesmos achados.

Vale a pena ressaltar que mortes decorrentes de Doenças da Gravidez, Parto e Puerpério não se encontraram durante todo o período entre as principais causas, sendo que em alguns anos apareceram na quinta posição e em outros, ainda abaixo desta. Este achado deve ser analisado com certo cuidado, pois a subenumeração de mortes maternas no Brasil já tem sido assinalada3, sendo que no período a que se refere o presente estudo desconhece-se o valor desta subenumeração, no Município de Ribeirão Preto.

Concluindo, pode-se dizer que as 4 principais causas de óbito no município estudado, permaneceram as mesmas desde a década de 70, variando apenas sua ordenação. Temos em ordem decrescente: Doenças do Aparelho Circulatório, Neoplasmas, Lesões e Envenenamentos e Doenças Infecciosas e Parasitárias. As demais causas de óbito apareceram com freqüência muito menor no período.

Os coeficientes específicos de mortalidade segundo grupos etários qüinqüenais aumentaram de modo geral com o avançar da idade, porem com valores menores do que os observados para a década anterior, fato este particularmente acentuado com relação às mortes devidas a causas do Capítulo I.

Assim, os indicadores estudados mostraram tendência ao declínio das mortes por Doenças Infecciosas e Parasitárias, com aumento concomitante das doenças crônico-degenerativas, o que sugere estar o Município de Ribeirão Preto vivendo a mesma transição epidemiológica4, percebida no restante do país, com a peculiaridade de expor simultaneamente a população a "riscos provenientes do atraso e da modernidade"8, ou seja, das contradições inerentes ao estado atual de desenvolvimento do país.

 

Referências

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2. CARVALHEIRO, C.D.G. Estudo de algumas variáveis associadas à população feminina em idade fértil. Ribeirão Preto, 1975. [Tese de livre-Docência -Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP]        [ Links ]

3. LAURENTI, R. et al. Mortalidade de mulheres em idade fértil no Município de São Paulo (Brasil), 1986. I - Metodologia e resultados gerais. Rev. Saúde públ., S. Paulo, 24: 128-33, 1990.        [ Links ]

4. LAURENTI, R. Transição demográfica e transição epidemiológica. In: Congresso Brasileiro de Epidemiologia, 1o, Campinas, 1990. Anais. Campinas, 1990. p. 143-64.        [ Links ]

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6. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Manual da classificação estatística internacional de doenças, lesões e causas de óbitos; 9a revisão. São Paulo, Centro da OMS para Classificação de Doenças em Português, 1978.        [ Links ]

7. ORTIZ, L.P. & YASAKI, L.M. As causas de morte e a diminuição da mortalidade. S. Paulo Perspect., 1(2): 14-22, 1985.        [ Links ]

8. POSSAS, C. Epidemiologia e sociedade: heterogeneidade estrutural e saúde no Brasil. São Paulo, Hucitec, 1989.        [ Links ]

9. SZWARCWALD, C.L. & CASTILHO, E.A. de Características da mortalidade da mulher brasileira in: Labra, L.E., org. Mulher, saúde e sociedade no Brasil. Petrópolis, Vozes, 1989. p. 135-61.        [ Links ]

10. YUNES, J. et al. Assistência à infância, à adolescência e à maternidade no Brasil. Bol. Ofic. Sanit. panamer., 103: 33-42, 1987.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 11/11/1991
Reapresentado em 24/3/1992
Aprovado para publicação em 30/3/1992

 

 

Separatas/Reprints: C. D. G. Carvalheiro - Av. Bandeirantes, 3900 - 14049-900 - Ribeirão Preto, SP - Brasil.
Publicação financiada pela FAPESP. Processo Saúde Coletiva 91/4994-0