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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.29 n.1 São Paulo Feb. 1995

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101995000100003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Culicídeos do lago de Itaipu, no rio Paraná, Sul do Brasil*

 

Culicidae of Itaipu lake, Paraná River, southern Brazil

 

 

Ueslei Teodoro; Ana Lúcia Falavigna Guilherme; Ana Leuch Lozovei; Vicente La Salvia Filho; Yoshiaki Fukushigue; Roberto Palma Spinosa; Maria Eugênia Moreira Costa Ferreira; Orlando Carlos Barbosa; Edson Maurício de Lima

Departamento de Análises Clínicas (U.T., A.L.F.G., V.S.F., E.M.L.)Departamento de Estatística (Y.F.) e Departamento de Geografía (M.E.M.C.F.) da Universidade Estadual de Maringá - Brasil
Departamento de Patologia Básica da Universidade Federal do Paraná (A.L.L.)
Fundação Nacional de Saúde do Ministério da Saúde - Londrina (R.P.S., O.C.B.)

 

 


RESUMO

De janeiro a dezembro de 1991 foram realizadas capturas mensais de culicídeos, no Município de Guaíra, Estado do Paraná (Brasil), na margem esquerda do lago de Itaipu, ao lado da via de acesso que conduzia aos Saltos das Sete Quedas, usando-se armadilha luminosa de Shannon, e isca humana em área urbanizada. Obtiveram-se informações sobre a fauna culicidiana, as espécies prevalentes, a variação sazonal, o horário de maior densidade e a afinidade dos mosquitos em relação ao hospedeiro humano. Foram identificadas 41 espécies de culicídeos dos gêneros Anopheles, Aedes, Aedomyia, Coquillettidia, Culex, Mansonia, Psorophora e Uranotaenia. Capturaram-se 21.280 mosquitos em armadilha de Shannon e 1.010 em isca humana. As espécies mais freqüentes em armadilha de Shannon - Coquillettidia shannoni, Mansonia humeralis, Anopheles triannulatus, Aedes scapularis e Anopheles albitarsis - perfizeram 82,78% dos mosquitos capturados. Em isca humana Aedes scapularís, Mansonia humeralis e Anopheles albitarsis, somaram 91,21% dos insetos capturados. Em armadilha de Shannon o horário de maior atividade das espécies prevalentes foi entre 19 e 22 h. Em isca humana Aedes scapularis teve maior densidade das 20 às 21 h, enquanto Mansonia humeralis e Anopheles albitarsis prevaleceram das 18 às 19 h. Dentre as espécies prevalentes em armadilha de Shannon, Coquillettidia shannoni, Mansonia humeralis e Anopheles albitarsis tiveram pico de atividade no mês de abril, Anopheles triannulatus em janeiro e Aedes scapularis em fevereiro.

Palavras-chave: Culicidae. Ecologia de vetores.


ABSTRACT

Mosquito catches were made in Guaíra county, Paraná State, southern Brazil, in the vicinity of Itaipu dam, from January to December 1991. The catches were made with a Shannon light trap and human bait. The Shannon light trap was installed beside the highway that used, formerly, to lead to the Sete Quedas cataracts and the human bait was used in the urban area. Data about the Culicidae fauna were obtained as to predominant species, seasonal variation, time of highest density and affinity with human host. Forty-one species were identified as belonging to the Anopheles, Aedes, Aedomyia, Coquillettidia, Culex, Mansonia, Psorophora and Uranotaenia genera. With the Shannon light trap 21,280 mosquitoes were caught and with human bait 1,010. In the catches made with the Shannon light trap, Coquillettidia shannoni, Mansonia humeralis, Anopheles trianulatus, Aedes scapularis and Anopheles albitarsis accounted for 82.78% of all mosquitoes taken. In the catches made on human bait the highest densities of these mosquitoes occurred between 7 p.m. and 9 p.m. Aedes scapularis, Mansonia humeralis and Anopheles albitarsis represented 91,21% of all mosquitoes caugth with human bait. The highest densities of Aedes scapularis, on human bait, were found between 8 p.m. and 9 p.m. and those of Mansonia humeralis and Anopheles albitarsis between 6 p.m. and 7 p.m. Among the genera caught with the Shannon ligth trap Coquillettidia shannoni, Mansonia humeralis and Anopheles albitarsis were most frequent in April, Anopheles triannulatus in January and Aedes scapularis in February.

Keywords: Culicidae. Vector ecology.


 

 

Introdução

No Estado do Paraná, mais recentemente, têm sido feitas diversas investigações sobre a fauna e o comportamento de culicídeos2,22,23,33, porém nas áreas que sofreram alterações ambientais, como conseqüência da construção de hidrelétricas nos rios Paraná e Paranapanema, os trabalhos vêm sendo mais freqüentes5,7,17,18,19,34.

Os lagos formados pelas barragens da hidrelétrica de Itaipu, no rio Paraná, e hidrelétricas de Salto Grande, Capivara, Taquaruçu e Rosana, no rio Paranapanema, cobrem grandes extensões de terra propiciando a formação de criadouros de pernilongos. Este fato põe certas áreas do Estado do Paraná sob risco de transmissão de plasmódios da malária humana e de epidemias de arboviroses, pois além da associação dessas doenças com os culicídeos8,11, existe circulação de pessoas entre este Estado e o Norte do Brasil, onde a malária é endêmica e ocorrem epidemias de arboviroses.

Além disso, a inexistência de controle de mosquitos, nas áreas banhadas pelas águas dos lagos mencionados, pode estar facilitando o aumento da densidade populacional desses dípteros, os quais poderão vir a ser causa de grande desconforto para os habitantes que vivem nessas áreas.

O presente trabalho tem como objetivos fornecer informações sobre a composição faunística, as espécies prevalentes, o horário e mês de maior freqüência, e a afinidade de culicídeos em relação ao hospedeiro humano, numa área banhada pelas águas do reservatório de Itaipu, no Estado do Paraná.

 

Material e Método

As capturas de culicídeos foram feitas com armadilha luminosa de Shannon e com isca humana, no Município de Guaíra, Estado do Paraná.

A descrição das características geográficas gerais da região, onde se situam os locais de capturas, foi feita segundo o Brazilian Committee on Large Dams3 (1982), a Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística16 (1990), Maack27(1968), Nimer31 (1990), Universidade Estadual de Maringá35 (1991) e Veloso e Góes-Filho36(1992).

O local de capturas de mosquitos, com armadilha de Shannon, fica a Noroeste da sede do Município de Guaíra, situando-se há poucas centenas de metros do Salto de Sete Quedas, hoje submerso, no rio Paraná. Esse ponto corresponde ao topo do salto, próximo de 223 m de altitude, coincidindo com a cota de manutenção do nível de água no reservatório (Fig. 1). A área sofreu modificação drástica a partir do preenchimento do reservatório da hidrelétrica de Itaipu, que represou o rio Paraná desde o município citado até o Município de Foz do Iguaçu, no Sudoeste do Estado do Paraná. O reservatório inundou uma área de 1.460 km2, com extensão de cerca de 180 km de comprimento, submergindo grandes áreas de mata estacionl semidecídua do lado paraguaio, além de amplos espaços cultivados, do lado brasileiro.

A área pertence à mesorregião do Oeste Paranaense e a agricultura é a principal atividade econômica, em solos predominantemente férteis (latossolo roxo) e de relevo suave e ondulado. Insere-se no domínio da Bacia do Paraná e corresponde a uma parcela do compartimento geomorfológico denominado Terceiro Planalto Paranaense. Em Guaíra afloram sobretudo as litologias que intercalam derrames basálticos com arenitos. O material vulcânico consolidou-se formando soleiras ou diques de diabásio; o Salto de Sete Quedas corresponde a um degrau estrutural de rocha vulcânica.

Os locais de coletas de mosquitos situam-se em um compartimento beira rio bastante aplainado com altitudes em torno de 250-300 m; os rios Paraná e Piquiri apresentam, na região, vale encaixado. O primeiro apresentava, a partir de Guaíra, curso encaixado em um profundo "canyon" de paredões basálticos muito abruptos, contrastando com o padrão de canais anastomosados e extensas várzeas, comuns no trecho ao Norte da cidade de Guaíra. A jusante corria fortemente encaixado, criando série de pequenas quedas d'água na confluência com os rios tanto da margem direita (Paraguai) como da margem esquerda. Tais cachoeiras foram submergidas após o represamento do rio principal. Tem-se, então, nesse local, drástica alteração do ambiente aquático que, de lótico passou a lêntico, favorecendo a proliferação de mosquitos cujos criadouros envolvem, preferencialmente, águas calmas, em nítido contraste com o antigo ambiente de águas turbulentas.

O clima, de características subtropicais, apresenta período seco anual pouco nítido e chuvas regularmente distribuídas, sendo classificado como zona de transição do clima tropical para o temperado. O clima é classificado como Subquente Superúmido com Subseca acompanhando os vales dos rios Paraná e Piquiri. As temperaturas são elevadas no verão, com média de 24 a 26°C em janeiro. O inverno é ameno com temperaturas, no mês mais frio, oscilando entre 15 e 18°C, embora a área possa ser afetada por mínimas até inferiores a zero grau, em virtude do caráter de continentalidade climática. Os totais pluviométricos anuais estão em torno de 1.550 mm.

A mesorregião do Oeste Paranaense, originalmente recoberta pela Floresta Estacional Semidecidual Submontana, dadas as condições de topografia, solos e clima favoráveis à agricultura, sofreu um processo de ocupação e colonização altamente predatório, tendo sido as áreas de mata substituídas pelos cultivos, mais comumente do tipo temporário (algodão, soja, trigo, mandioca). Não se previu a manutenção de reservas de porte médio, para preservação das matrizes e do equilíbrio ecológico. A mata secundária da pequena reserva do exército, local onde foram efetuadas as capturas de mosquitos, com armadilha de Shannon, apresenta poucos indivíduos do estrato emergente, predominando as espécies do estrato arbóreo inferior; tem características de mata secundária, pois trata-se de área que havia sido muito alterada pela infra-estrutura de turismo, até o desaparecimento do salto. Destaca-se a predominância de trepadeiras e bambus (Bambusa sp), estas próprias de zona ribeirinha.

Outras formas de degradação ambiental decorrentes da formação do reservatório, passíveis de ocorrer exigem, ainda, uma verificação objetiva. São elas: mudanças climáticas, especialmente a formação de nevoeiros; possível alteração nas taxas de evaporação e de evapotranspiração; modificações na circulação atmosférica, com formação de correntes locais de brisa na área do reservatório; alteração no nível do lençol freático; mudança no perfil longitudinal dos rios que desembocam no lago artificial e modificações geodinâmicas decorrentes deste fato. Algumas dessas modificações, por exemplo: aumento da umidade relativa do ar à noite, alteração no regime de circulação do ar e aumento das temperaturas poderão favorecer a proliferação de mosquitos. O problema mais grave com relação ao funcionamento da hidrelétrica é o intenso assoreamento que vem ocorrendo na represa em função da acumulação de sedimentos, provenientes das bacias de contribuição regionais, que se depositam ao chegar ao ambiente lêntico do reservatório. A acumulação de matéria orgânica e de minerais eutrofizantes nas reentrâncias ou braços da represa facilita o desenvolvimento de vegetação marginal e reduz a profundidade do espelho d'água a uns poucos centímetros, promovendo o aquecimento da mesma e favorecendo a proliferação de mosquitos.

As capturas com armadilha de Shannon foram realizadas na margem esquerda do rio Paraná, numa área de propriedade da Itaipu Binacional (Figura 1). A armadilha era instalada em mata alterada, ao lado da via de acesso que conduzia aos Saltos das Sete Quedas, de janeiro a dezembro de 1991, com capturas uma vez ao mês, sempre na primeira quinzena, e por dois indivíduos, num total de 144 h. No centro da armadilha de Shannon usava-se um lampião a gás de 300 velas.

As capturas em isca humana foram feitas por duas pessoas, também na margem esquerda do rio Paraná, em área urbana, sujeita a inundações, nos fundos da sede da Fundação Nacional de Saúde, na margen esquerda do rio Paraná (Fig. 1), de janeiro a setembro de 1991, das 17 às 21 h, somando 40 horas.

Em ambos os tipos de capturas foram utilizados tubos de ensaios contendo algodão embebido com clorofórmio. Os insetos coletados eram acondicionados em pequenas caixas de papelão impregnadas com naftalina, para posterior identificação.

Os resultados foram testados pelo qui-quadrado (x2) e pelo teste Z da diferença de duas proporções, em nível de 5% de significância (p<0,05), do "software" estatístico SYSTAT.

 

Resultados

Foram identificadas 41 espécies de mosquitos de 8 gêneros. Obteve-se um total de 22.290 culicídeos, dos quais 21.280 foram capturados em armadilha de Shannon (Tabela 1) e 1.010 em isca humana (Tabela 2). Alguns exemplares foram identificados somente em nível de gênero ou subgênero.

Em armadilha de Shannon foram capturados 5.470 (25,7%) exemplares de Cq. shannoni, 4.382 (20,6%) Ma. humeralis, 3.971 (18,6%) An. triannulatus , 2.738 (12,7%) Ae. scapularis e 1.030 (4,8%) An. albitarsis, perfazendo um total de 82,6% dos mosquitos capturados nesta armadilha (Tabela 1).

Os mosquitos mais abundantes nas capturas com isca humana foram 710 (70,3%) Ae. scapularis, 138(13,1%) An. albitarsis e 63 (6,2%) Ma. humeralis, somando 90,2% dos insetos aqui capturados (Tabela 2).

Houve diferença na quantidade de culicídeos capturados em isca humana, no período entre 17 e 21 h (x2=29,8). O horário de maior freqüência foi das 20 às 21h (40,9%), seguido das 18 às 19h (29,7%), das 19 às 20h (28,1%) e, por último, das 17 às 18h (Tabela 2). Ocorreu diferença significativa (x2=73,7) entre as espécies de maior prevalência, nos diversos horários de capturas. Das 18 às 19h prevaleceu Ae. scapularis (46,3%), vindo em seguida An. albitarsis (26,3%) e Ma. humeralis (9,7%). Entre 19 e 20h novamente prevaleceu Ae. scapularis (73,2%), seguido por An. albitarsis (15,8%) e Ma. humeralis (6,7%) (x2=231,4). Das 20 às 21h continuou prevalecendo Ae. scapularis (87,9%), acompanhado por Ad. squamipennis (4,1%) que se igualou estatisticamente a Ma. humeralis (3,6%) (x2=609,5%). No horário das 17 às 18h somente An. albitarsis foi capturado (Tabela 2).

Em armadilha de Shannon houve diferença de densidade (x2=4.627,1) entre Cq. shannoni, Ma. humeralis, An. triannulatus, Aedes scapularis e An. albitarsis, no período das 18 às 6 h.(Fig. 2). As densidades foram distintas nas capturas efetuadas entre 18 e 6h, considerando-se Cq. shannoni (x2= 236,1), Ma. humeralis (x2= 1.208,8), An. triannulatus (x2=952,3), Ae. scapularis (x2= 2.432) e An. albitarsis (x2= 174,8), isoladamente (Fig. 2). Cq. shannoni teve maiores freqüências entre 20-21h (16,8%), 21-22h (16,6%) e 19-20h (15,7%), que são estatisticamente iguais. Ma. humeralis teve maiores densidades, e iguais estatisticamente, das 20-21h (16,8%) e 19-20h (16,4%). A terceira espécie dominante, An. triannulatus, foi mais abundante entre 21-22h (14,9%), e depois entre 0-1h (12,4%) e 20-21h (12,4%), que se igualam estatisticamente. Ae. scapularis, a quarta espécie predominante, compareceu com maior e igual freqüência estatística das 21-22h (21,8%)e 20-21h (21,1%).An. albitarsis foi mais freqüente entre 20-21 h (16,3%) e, a seguir, entre 21-22h (13,7%) e 22-23h (10,8%) (Fig. 2).

Durante os doze meses de capturas houve diferença de densidades (x2=2.151,8) para o conjunto de culicídeos dominantes, verificando-se as maiores em abril (34,1%) e, em seguida, dezembro (17,4%) e janeiro (13,4)%) (Fig. 3).

As freqüências foram distintas nos meses de capturas, considerando-se individualmente Cq.shannoni (x2= 2.468,9), Ma. humeralis (x2= 3.572,4), An. triannulatus (x2= 13.014,9), Ae. scapularis (x2=3.533,5) e An. albitarsis (x =798,6) (Fig. 3). Cq. shannoni teve freqüência elevadíssima em abril (76,8%). Ma. humeralis foi mais freqüente nos meses de abril (24,2%), junho (16,5%), dezembro (14,9%) e março (14,4%). An. triannulatus teve densidades mais elevadas em janeiro (46,8%) e dezembro (36,4%). Com Ae. scapularis verificou-se maior freqüência em fevereiro (34,6%) e depois em junho (14,7%) e março (14,6%), que são iguais estatisticamente e, finalmente, em abril (10,1%). A quinta espécie dominante, An. albitarsis, compareceu em maior número em abril (27,9%) e depois em janeiro (16,1%) e março (14,6%), com densidades estatisticamente iguais (Fig. 3).

 

Discussão

Os culicídeos identificados no presente trabalho foram anteriormente assinalados no Estado do Paraná por vários investigadores2,6,7,17,18,19,22,23,32,33,34. Comparando-se os resultados aqui obtidos com os de trabalhos anteriores nos municípios de Terra Boa2 e Querência do Norte33,na região Noroeste, verifica-se a ocorrência de maior número de espécies de culicídeos no Município de Guaíra.

Das cinco espécies prevalentes - Cq. shannoni, Ma. humeralis, An. triannulatus, Ae. scapularis e An albitarsis - em Guaíra, a quarta e quinta espécies também predominaram no município de Querência do Norte33, enquanto no Município de Terra Boa2 apenas Ae. scapularis foi dominante. Em Querência do Norte33 utilizaram-se armadilhas luminosas de Falcão e isca humana, e em Terra Boa armadilhas luminosas de Falcão e Shannon.

No Estado do Paraná, Cq. shannoni foi assinalada no Município de Foz do Iguaçu5,7, em áreas sob influência do lago de Itaipu, nos municípios de Terra Boa2 e Querência do Norte33 e em áreas sob influência do lago da hidrelétrica de Taquaruçu, no rio Paraná, nos municípios de Porecatu e Centenário do Sul18,19. Tubaki e Berenstein34 (1993) verificaram que Cq. shannoni foi uma das espécies dominantes nos municípios de Santo Inácio e Porecatu, também em áreas sob influência do lago de Taquaruçu. O represamento das águas do rio Paraná pode estar favorecendo a formação de criadouros de Cq. shannoni, a exemplo do que vem ocorrendo em Tucuruí20, onde os mosquitos, de um modo geral, vem causando grandes transtornos à população.

Ma. humeralis foi a segunda espécie de maior prevalência em armadilha de Shannon e a terceira em isca humana. Forattini ecol.15(1993) fizeram referência à presença de Ma. humeralis em estação experimental de cultivo de arroz, no Vale do Ribeira, Estado de São Paulo. Klein e col.21 (1992) verificaram que este díptero foi capturado mais freqüentemente em bovinos e comentaram ainda sobre a dificuldade de se aplicar medidas de controle de espécies de Mansonia na região amazônica, devido a vasta quantidade de água.

An. triannulatus, a terceira espécie mais freqüente em armadilha de Shannon, esteve presente em todos os horários de coletas. Esse anofelino tem sido assinalado no Estado do Paraná, em diversos municípios banhados pelas águas do lago de Itaipu 5,7, e nos municípios de Querência do Norte33, Porecatu, Centenário do Sul e Santo Inácio17,18,19. Consolim e Galvão6 (1973), antes da construção da barragem de Itaipu, constataram a presença de An. triannulatus em densidades apreciáveis acima e abaixo do Salto das Sete Quedas, no Município de Guaíra, e pequena densidade nas alturas do mesmo. No presente trabalho, coletou-se grande número deste anofelino que por sua vez foi capturado em pequeno número entre a barragem de Itaipu e a foz do rio Iguaçu7, onde as águas são muito velozes.

Outra espécie prevalente que compareceu em todos os horários de capturas, em armadilha de Shannon, foi Ae. scapularis. Esse inseto vem mostrando grande adaptação nos ambientes antropogênicos10,12,14,15,25, com maior atividade especialmente no crepúsculo vespertino10,12,25. Fato observado também no Estado do Paraná7,17,18,19,33,34. Este díptero foi muito freqüente nos meses de março e junho, porém sua maior incidência foi em fevereiro. Vários investigadores10,12,14,26,33 têm observado que, via de regra, Ae.scapularis comparece às capturas em todos os meses do ano, especialmente nos meses mais quentes e úmidos, corroborando os resultados aqui obtidos. No Estado do Paraná, Ae. scapularis vem monstrando acentuada antropofilia nos municípios de Foz do Iguaçu, São Miguel do Iguaçu, Santa Helena, Guaíra , Querência do Norte, Santo Inácio, Centenário do Sul e Porecatu7,17,18,19,34. Outros autores11,12,13,14,24,25 também têm verificado notável antropofilia deste mosquito. Forattini e col.11(1978) associaram Ae. scapularis ao vírus da encefalite .

An. albitarsis, a quinta espécie mais freqüente em armadilha de Shannon, também compareceu em todas as horas de capturas. Esse díptero tem sido assinalado no Estado do Paraná, nas bacias dos rios Paraná4,5,6,7 e Paranapanema17,18,19,34, entre as espécies de maior prevalência e com maior atividade no crepúsculo vespertino. An. albitarsis foi capturado em todos os meses do ano, mas foi mais numeroso em janeiro, março e, sobretudo, abril. No Município de Querência do Norte33, a mais ou menos 100 km de Guaíra, esse inseto foi coletado em maior número no mês de julho. Forattini e col.15 (1993), em cultura irrigada de arroz, no Vale do Ribeira, Estado de São Paulo, assinalaram a presença de An. albitarsis em todos os meses do ano, sendo considerado o mosquito que possue o maior grau de sinantropia entre todos os capturados. Este anofelino tem ampla distribuição no Brasil8 e no Estado do Paraná32 e tem papel secundário na transmissão dos plasmódios da malária humana, porém adquire maior importância onde j á ocorre a transmissão por An. darlingi8,9. Ressalta-se que An. darlingi encontra-se presente em diversas áreas ao redor do lago de Itaipu5,7, onde recentemente ocorreram surtos de malária por Plasmodium vivax (Tomich,*1991). Esses achados sugerem que as áreas banhadas pelas águas do lago de Itaipu são vulneráveis à malária, tendo em vista a possível presença de fontes de infecção entre pessoas procedentes da região Norte do Brasil, onde a parasitose é endêmica1,28,29,30.

 

Conclusões

1. Com o represamento das águas do rio Paraná, para a formação do lago de Itaipu, o rio perdeu velocidade e isto pode estar criando condições favoráveis para o aumento da população de culicídeos nas áreas sob influência do lago.

2. O crescimento da população de mosquitos nessas áreas pode trazer incômodos para os moradores que vivem nas suas proximidades , aumentando, do ponto de vista epidemiológico, o risco de transmissão de malaria e arboviroses.

3. A presença de anofelinos no lago de Itaipu, especialmente de An. darlingi e An. albitarsis, sugere a necessidade de se estabelecer vigilância epidemiológica permanente nas áreas de influência do lago.

4. Sugere-se que a Itaipu Binacional, juntamente com os municípios que margeiam o lago, providenciem e executem programa de controle de culicídeos em suas áreas de influência, para conter o crescimento da população desses insetos.

 

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Recebido em 29.7.1994
Aprovado em 21.11.1994

 

 

Separatas/Reprints: Ueslei Teodoro - Departamento de Análises Clínicas da Universidade Estadual de Maringá. Av. Colombo, 3690 - 87020-900 - Maringá, PA - Brasil
Financiado pelo Conselho de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Ensino Superior e de Ciência e Tecnologia do Estado do Paraná.

* G. TOMICH. Comunicação Pessoal. 1991. SUCAM -Superientendência de Campanhas de Saúde Pública - Curitiba, Paraná, Brasil.