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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.30 n.6 São Paulo Dec. 1996

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101996000600002 

Artigo Especial

Special Article

 

Revista de Saúde Pública: 30 anos de evolução
Revista de Saúde Pública: 30 years of evolution

Luiz Jacintho da Silva*

Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP - Brasil

 

 

RESUMO

São analisadas as principais características da Revista de Saúde Pública ao longo dos seus 30 anos de existência. Faz-se um paralelo com a evolução da saúde pública brasileira. O aspecto dinâmico, adaptativo da Revista, é ressaltado como uma de suas principais virtudes. Seu futuro papel na constituição do Mercosul é discutido.

Periódicos, história. Revista de Saúde Pública.

ABSTRACT

Analysis of the main characteristics of the "Revista de Saúde Pública" during the 30 years of its existence. A parallel is traced with the evolution of brazilian public health. The dynamic aspect of the "Revista" is remembered as one of its main virtues. Its future in the constitution of the Mercosul regional block is discussed.

Periodicals, history. Revista de Saúde Pública.

 

 

Durante os últimos 30 anos a situação da saúde pública, no Brasil e no mundo, evoluiu rápida e profundamente. Esta transformação foi determinante e conseqüência da evolução verificada nos conceitos e na prática da saúde pública. Determinante por ter catalisado a pesquisa aplicada, estabelecido prioridades e por ter trazido uma realidade diferente, em constante evolução, que pedia, e pede, conceitos novos para ser adequadamente compreendida. Conseqüência por sofrer a influência da aplicação destes novos conceitos e das técnicas deles resultantes.

Ao perder seu poder explicativo, os paradigmas em ciência dão lugar a novo. A progressão geométrica da transformação do cenário nacional e mundial vem causando mudanças cada vez mais freqüentes. Talvez seja exagero afirmar que houve uma mudança radical de paradigma na saúde pública ao longo dos últimos 30 anos, mas sem dúvida verificaram-se trocas de paradigmas nas inúmeras disciplinas que constituem seu embasamento científico.

Essas mudanças influenciaram o pensamento em saúde pública, mas esta não é uma disciplina acadêmica exclusivamente. Pela sua própria natureza, a saúde pública tem muito, senão tudo, a ver com o contexto econômico, social, cultural e político.

A Evolução da Saúde Pública Brasileira e a Revista de Saúde Pública

Duas recentes e extensas análises da situação da saúde pública brasileira contemporânea5, 6 são unânimes em afirmar que houve uma significativa mudança no perfil de morbi-mortalidade da população brasileira nos últimos 30 anos, moldada, esta mudança, em grande parte pelo expressivo crescimento da economia na década de 70 ­ a década do "milagre econômico" ­, seguido da recessão dos anos 807 ­ a "década perdida" ­ que resultou na estabilização econômica e política verificada após os anos Collor.

Uma revista científica, mais do que apenas um veículo de difusão de idéias, é um espelho, um testemunho de uma época. Ao mesmo tempo trator e tracionada, deve refletir as preocupações de cada época, as preocupações e inquietações, não as certezas, pois estas têm seu lugar nos manuais.

Herdeira dos Arquivos da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo, a Revista de Saúde Pública nasce de uma evolução, tanto institucional como científica. Em 1967, o termo higiene já se desgastara e a revista deixava de ser apenas um veículo institucional para assumir o papel de difusora de uma área de conhecimento e prática em franca expansão no País. Esta evolução tem sido uma característica constante ao longo destas 3 décadas, fundamental para refletir o dinamismo do seu campo de conhecimento4.

Os dois primeiros artigos do primeiro número da Revista ilustram bem o seu papel de espelho da época1, 2. Um levantamento das condições sanitárias das águas utilizadas para irrigar hortas no Município de São Paulo e o isolamento de vírus de verduras plantadas no município simboliza o dualismo avanço ­ retrocesso vivido pela saúde pública no Brasil nestes últimos 30 anos. Nenhuma menção ao vibrião colérico e uma preocupação com os vírus da poliomielite. A cólera, ausente do Brasil desde a virada do século, recém iniciara sua sétima pandemia, a pandemia Eltor, a esta altura porém, ainda restrita à Ásia. Ainda não atingira a África e a América se considerava distante de uma doença que simbolizava, e ainda simboliza, o atraso e as más condições de saneamento. Por outro lado, a poliomielite era então um crescente problema de saúde pública. Por muitos anos considerado um problema de países industrializados, em 1967 o País já conhecia o drama das epidemias de polio. A vacina oral contra a poliomielite ainda era timidamente aplicada. Um quarto de século depois, a cólera já se estabelecera como endêmica no Nordeste e a poliomielite estava eliminada8. Resultado, a primeira da dívida social que se acumulou no País, a segunda do esforço da saúde pública.

Analisado por esta ótica, o primeiro número da Revista já refletia o paradoxo da saúde pública no Brasil. Ao mesmo tempo avanço e retrocesso, próprio de um País que cresceu, modernizou-se mas descuidou da sua população3.

Fiel ao seu papel de observadora crítica do cenário da saúde pública, a Revista não se omitiu dos eventos marcantes destes 30 anos. Uma rápida passagem pelo conteúdo dos fascículos publicados reafirma esta vocação.

Aspectos gerais da Revista de Saúde Pública

Inicialmente de periodicidade semestral, passou a trimestral em 1971 e a bimestral em 1980, a Revista assistiu e discutiu a reintrodução do Aedes aegypti, o crescimento da morbidade e da mortalidade por doenças ocupacionais, o crescimento da participação das doenças não transmissíveis na morbidade, assim como da violência. Ao mesmo tempo, participou ativamente da redução da mortalidade materna e infantil e ao crescimento da prática do aleitamento materno. Foi cronista daquilo que Monteiro6 denominou de evolução da agenda tradicional da saúde pública.

O caráter dinâmico da Revista é exemplificado pelas mudanças no seu "lay-out" externo ­ 8 ao longo destes 30 anos ­ o primeiro, de 1967, já uma mudança em relação aos Arquivos de Saúde Pública, foi alterado em 1973, e posteriormente sofreu mudanças em 1982, 1984, 1985, 1991, 1995 e finalmente em 1996, quando adotou o sumário na primeira capa, seguindo uma tendência mundial das revistas científicas, além de um visual mais leve.

Curiosidades que refletem as condições de cada período: até 1982 a Revista trazia seu endereço telegráfico, o número de fax foi colocado à disposição em 1993 e finalmente em outubro de 1995 a Revista passou a ostentar um endereço eletrônico ­ REVSP@org.usp.br. Talvez pareça uma tolice chamar a atenção para estas trivialidades, mas elas refletem o contexto e os costumes de uma época, e não significam apenas meios de comunicação, mas tendências mesmo de vigilância epidemiológica. Telégrafo, fax e Internet foram construindo a globalização que marca este fim de século.

Globalização, formação de Blocos Regionais e a Revista de Saúde Pública

A globalização molda o contexto da vida econômica, particularmente com a formação de blocos regionais. Estes blocos regionais já se refletem nas publicações científicas: são inúmeras as revistas européias ­ os inúmeros European Journal of ... ­ publicadas na Comunidade Européia. Seguindo a mesma tendência, a Revista toma os primeiros passos para a integração da comunidade científica da saúde pública do Mercosul, ao programar a ampliação do uso do idioma espanhol. Esta tendência não é mero modismo, resulta do processo de formação dos blocos regionais, econômicos, políticos, científicos e culturais. A constituição do Mercosul deverá passar pela integração das medidas, normas e regulamentos de saúde pública, que deverão ser homogeneizados da mesma maneira que as tarifas aduaneiras e a legislação comercial.

O processo de internacionalização não é aculturação, é uma adaptação ao contexto que surge como o cenário da saúde pública do fin de siècle. Fiel à sua vocação continental, a Revista ainda não adotou o inglês como língua oficial, não que não reconheça este como o idioma da comunicação científica, mas por que português e espanhol se manterão como idiomas de uso amplo e corrente no bloco regional, talvez até com o "portunhol" como língua franca.

Esta capacidade de adaptação demonstrada ao longo de sua história permite prever que a Revista não terá dificuldades em se moldar às rápidas e profundas transformações em curso no processo de divulgação da ciência. Prever o fim das publicações impressas é seguir o caminho dos que previram o fim do rádio quando do advento da televisão. As informações impressas em papel ainda deverão manter um lugar de destaque por muito tempo. Não mais como meio de rápida divulgação das idéias, mas como um fórum de análise e reflexão, sedimentando e consolidando o rápido avanço da ciência. A função de divulgação rápida, e por isso mesmo menos crítica, está reservado ao meio eletrônico: Internet e os boletins transmitidos via fax.

Perspectiva futuras da Revista de Saúde Pública

São de se esperar, portanto, mais mudanças na Revista, evolução mais do que mudança, adaptações que permitem manter a essência da sua missão: servir de meio para a divulgação do conhecimento e da realidade da Saúde Pública do Brasil e do continente. A revolução na difusão da informação representada pela world wide web não passará despercebida.

Poucas revistas de saúde pública conseguiram manter o equilíbrio entre as diferentes disciplinas que compõem sua área de conhecimento de maneira como a Revista. Esta é uma herança da sua origem como órgão de divulgação institucional, acolhendo artigos dos diferentes departamentos da então Faculdade de Higiene e Saúde Pública. A Revista soube preservar esta, entre outras virtudes, e manteve uma harmonia, não só entre as disciplinas, como entre os artigos fruto de pesquisa empírica como os ensaios teóricos e as revisões. Para comprovar, basta escolher, ao acaso, qualquer número da Revista ao longo de sua existência.

A análise da história nos habilita a melhor conhecer o futuro. O comportamento da Revista ao longo destes 30 anos autoriza antever um processo evolutivo dinâmico, sempre ao par das mudanças na difusão do conhecimento científico e na divulgação das idéias. Uma Revista que se adaptou facilmente às transformações sofridas pela saúde pública brasileira e mundial sem abrir mão de seus objetivos e princípios, deverá desempenhar um destacado papel nestes próximos anos que sem dúvida serão de transformações ainda mais rápidas e profundas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. CHRISTOVÃO, D.A.; CANDEIAS, J.A.N.; IARIA, S.T. Condições sanitárias das águas de irrigação de hortas no Município de São Paulo. II - Isolamento de vírus entéricos. Rev. Saúde Pública, 1: 12-7, 1967.         [ Links ]

2. CHRISTOVÃO, D.A.; IARIA, S.T.; CANDEIAS, J.A.N. Condições sanitárias das águas de irrigação de hortas no Município de São Paulo. I - Determinação da intensidade de poluição fecal através do NMP de coliformes e de E.coli. Rev. Saúde Pública, 1: 3-11, 1967.         [ Links ]

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6. MONTEIRO, C. A. org. Velhos e novos males da saúde no Brasil. A evolução do País e de suas doenças. São Paulo, HUCITEC/NUPENS/USP, 1995.         [ Links ]

7. ORMETTO, A.M.H.; FURTUOSO, M.C.O.; SILVA, M.V. Economia brasileira na década de oitenta e seus reflexos nas condições de vida da população. Rev. Saúde Pública, 29: 403-14, 1995.         [ Links ]

8. WALDMAN, E.A.; SILVA, L.J.; MONTEIRO, C.A. Trajetória das doenças infecciosas: da eliminação da poliomielite à reintrodução da cólera. In: Monteiro, C. A. (org.) Velhos e novos males da saúde no Brasil. A evolução do País e de suas doenças. São Paulo, HUCITEC/NUPENS/USP, 1995. p. 195-244.         [ Links ]

 

* Editor Associado da Revista de Saúde Pública.

Correspondência para/Correspondence to:
Luiz Jacintho da Silva -
Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas.
Caixa Postal 6019 - 13081-970 Campinas, SP - Brasil.
Fax: (0192) 39.8350
E-mail: luisjs @ cirreionet.com.br

Edição subvencionada pela FAPESP. Processo 95/2290-6.
Recebido em 8.10.1996.