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Revista de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.32 no.1 São Paulo Fev. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101998000100006 

Perfil da automedicação em município do Sul do Brasil*

Self-medication profile in a city in South Brazil

 

Jorge F. Vilarino, Iberê C. Soares**, Cristiane M. da Silveira**, Ana Paula P. Rödel**, Rodrigo Bortoli** e Rafael R. Lemos**
Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Universidade Federal de Santa Maria.
Santa Maria, RS-Brasil

 

Resumo
Objetivo Caracterizar o usuário de medicamentos, especialmente aquele que se automedica.
Material e Método Foram entrevistadas 413 pessoas do Município de Santa Maria, Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, sobre o consumo de medicamentos no último mês.
Resultados Dos entrevistados, 69,9% utilizaram medicamentos e destes 76,1% o fizeram através de automedicação. Cefaléia (28,8%) foi a principal queixa motivadora de automedicação. O ácido acetilsalicílico foi a droga mais utilizada (25,4%). Dos fármacos utilizados na automedicação, 51,2% foram indicados por terceiros e 51,7% dessas indicações eram prescrições médicas emitidas em consultas anteriores.
Conclusão Idade, grau de escolaridade e acompanhamento médico periódico correlacionaram-se significativamente com automedicação.
Automedicação. Medicamentos. Prevalência.
Abstract
Objective The characterization of drug users, especially as regards self-medication and the determination of its prevalence in the population studied.
Material and Method About 413 people that had used drugs in the previous month were interviewed.
Results From the interviewed, 69.9% used medicines and of those 76.1% were self medicated. Headache (28.8%) was the main complaint among the self-medicated group. Acetilsalicilic acid was the most frequently used medicine (25.4%). As regards the drugs utilized, 51.2% of the users had received a recommendation from a third party and 51.7% used old prescriptions, given in previous consultations.
Conclusion Age, schooling and absence of periodic medical consultation were significant statistical factors in self-medication.
Self-medication. Drug utilization. Prevalence

 

 

INTRODUÇÃO

A automedicação é definida como uso de medicamentos sem prescrição médica, onde o próprio paciente decide qual fármaco utilizar. Inclui-se nessa designação genérica a prescrição (ou orientação) de medicamentos por pessoas não habilitadas, como amigos, familiares ou balconistas da farmácia, nesses casos também denominados de "exercício ilegal da medicina"23. Outro termo utilizado é a automedicação orientada, que se refere à reutilização de receitas antigas sem que elas tenham sido emitidas para uso contínuo23.

Estudos sobre a automedicação em zona urbana apresentam dados conflitantes tanto na estatística da prevalência (desde 42,1%26 até 96,6%29), quan-to na sua correlação com variáveis como sexo e idade 9,11,17,19, 20, 22. Essas diferenças podem estar mais associadas à metodologia de pesquisa do que à dinâmica real do fenômeno da automedicação.

A automedicação é um fenômeno potencialmente nocivo à saúde individual e coletiva, pois nenhum medicamento é inócuo ao organismo. O uso indevido de substâncias e até mesmo drogas consideradas "banais" pela população, como os analgésicos, pode acarretar diversas conseqüências como resistência bacteriana, reações de hipersensibilidade, dependência, sangramento digestivo, sintomas de retirada e ainda aumentar o risco para determinadas neoplasias. Além disso, o alívio momentâneo dos sintomas encobre a doença de base que passa despercebida e pode, assim, progredir4, 5,12,18, 20, 21, 23, 24, 25, 27.

Por outro lado, os medicamentos exercem uma função simbólica sobre a população. Como produto simbólico, o medicamento pode ser visto como um signo ou símbolo, composto de uma realidade material (significante), no caso a pílula, a solução, a ampola e outras, que remete a um conceito (significado) que é a Saúde15, 16. Desta forma, o medicamento toma papel proeminente dentro da consulta médica1, além de fazer uma "economia", poupando trabalho político e pessoal necessário para a obtenção de saúde16. A necessidade da prescrição para a obtenção do medicamento representa limitação da liberdade pessoal de busca imediata do alívio da sintomatologia, o que impede que o indivíduo faça preponderar sua própria experiência e vontade23. Este desejo de consumo de medicamentos torna-se possível devido a fatores externos, como a cultura, a economia e aspectos legais que facilitam ou não impedem a posse e dispensão de medicamentos sem a apresentação da receita médica7,9,20,29,30.

Esses fatos, somados à alta prevalência da automedicação observada no País e no mundo inteiro, trazem crescente preocupação quanto a essa prática. A melhoria da fiscalização e a reorganização das normas para dispensão e propaganda de medicamentos é um trabalho financeiramente oneroso, só realizado a longo prazo. Logo, deve-se estar atento à possibilidade de utilizar a automedicação como um instrumento para a promoção da saúde, desde que devidamente direcionada através de programas institucionais que visem a conferir maior grau de autonomia ao paciente frente à sua medicação, o que já vem ocorrendo experimentalmente em países de Primeiro Mundo14.

Justifica-se, portanto, nova investigação sobre a prevalência da automedicação em população de zona urbana brasileira, com ênfase nas motivações que levam o indivíduo a automedicar-se e na averiguação de seu posicionamento frente ao sistema tradicional de terapêutica, centrado na figura do médico e do medicamento.

 

MATERIAL E MÉTODO

A população de onde se extraiu a amostra estudada corresponde à população urbana do Município de Santa Maria (RS). O tamanho da amostra foi calculado com base na taxa de prevalência descrita por Haak11, e a amostragem foi realizada através de etapas e conglomerados, utilizando os setores censitários (total de 202) com respectivo número de domicílios e população fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de Santa Maria (RS). A amostragem probabilística foi sistemática na escolha dos setores censitários (25 escolhidos) e das casas entrevistadas e aleatória na escolha das quadras3.

Foram entrevistados todos os integrantes do domicílio (total de 413), de novembro de 1994 a janeiro de 1995 e de março a maio de 1995, sobre o consumo de medicamentos no último mês, a contar da data de entrevista. Para os menores de 15 anos, as respostas foram obtidas através de seus responsáveis legais. Aqueles domicílios ou indivíduos que se recusaram a ser entrevistados foram excluídos da amostra, representando uma perda de 20%.

Os questionários foram compostos de perguntas fechadas e abertas para mensuração das variáveis dependentes (automedicação) e independentes (sexo, idade, nível socioeconômico, motivação e posicionamento frente ao sistema tradicional de terapêutica), além de apresentar questões de verificação para a checagem da qualidade das informações prestadas. Os dados foram duplamente digitados, com o intuito de aprimorar a sua confiabilidade, analisados no programa Epi-Info da Organização Mundial de Saúde (OMS), submetidos a testes de consistência e examinados estatisticamente através do qui-quadrado.

 

RESULTADOS

Dos 413 entrevistados, 289 usaram algum medicamento no último mês (69,9%). Desses, 220 se automedicaram pelo menos uma vez (76,1%) e 69 estavam orientados por receita médica atualizada todas as vezes que se medicaram (23,9%).

Analisando-se o grupo que de alguma forma utilizou medicamento (n=289), 108 entrevistados eram do sexo masculino (37,4%) e 181 do feminino (62,6%). Setenta e sete dos que se automedicaram (35%) e 31 dos que usaram o medicamento corretamente (44,9%) eram do sexo masculino, ao término eram 143 do sexo feminino dos que se automedicaram (65%) e 38 dos que usaram medicamento corretamente (55,1%).

A renda per capita (n=281) oscilou entre 12,00 e 1.500,00 reais, com uma média de 225,90 reais e desvio-padrão (dp) de 239,10 reais***.

A idade dos entrevistados variou de 0 a 89 anos. A média foi de 30,3 anos (dp=21,8), sendo a mediana 28 anos. Para análise, foram constituídos 2 grupos: o de crianças até 12 anos de idade, com 75 indivíduos (26,1%); e o de adultos, de idade superior a 12 anos, com 212 indivíduos (73,9%). Dos que se automedicaram ou que, no caso das crianças, foram automedicadas por seus pais ou responsáveis, 47 eram crianças (21,6%) e 171 eram adultos (78,4%). Dos que se medicaram ou foram medicados corretamente, 28 eram crianças (40,6%) e 41 eram adultos (59,4%). Observou-se correlação significativa entre idade e automedicação, esta mais elevada entre os adultos (p<0,003).

Em relação ao grau de escolaridade, analisaram-se 288 questionários, obtendo-se uma variação de 0 a 19 anos de estudo (unidade utilizada), com uma média de 6,43 anos (dp=4,87 anos e mediana de 6 anos ). Os anos de estudo foram agrupados em 4 classes: daqueles que nunca receberam educação formal em escola (n=53): 35 se automedicaram (66,1%) e 18 usaram medicamentos corretamente (33,9%); dos que tiveram até 8 anos de educação formal (n=142): 102 se automedicaram (71,8%) e 40 não o fizeram (28,2%); dos que tiveram até 11 anos de educação formal (n=60): 53 se automedicaram (88,3%) e 7 não o fizeram (11,7%); e dos com 12 anos ou mais de estudo (n=33): 29 se automedicaram (87,9%) e apenas 4 usaram seus medicamentos orientados por médico (12,1%). Houve correlação entre a variável grau de escolaridade e o desfecho automedicação (p<0,009).

Em relação à profissão, excluiu-se do grupo dos que se medicaram aposentados, estudantes, desempregados, crianças sem idade para o trabalho ou estudo e portadores de deficiências incapacitantes. Dos que se automedicaram, 17 possuíam qualificação superior (14,4%), 50 qualificação intermediária (42,4%), e 51 sem qualificação específica (43,2%). Para os que se medicaram corretamente, os valores foram 5 (17,8%), 8 (28,6%) e 15 (53,6%), respectivamente.

Quanto ao acesso a serviços de saúde, utilizou-se como índice de avaliação o número de convênios de saúde privada de cada entrevistado. Dos que se automedicaram, 106 dispunham apenas do Sistema Único de Saúde (SUS) (48,2%), 89 contavam com um convênio privado de saúde (40,4%) e 25 com mais de um convênio (11,4%). Entre os que se medicaram corretamente, 38 só contavam com o SUS (55,1%), 27 possuíam um convênio privado além do SUS (39,1%) e 4 tinham mais de um convênio (5,8%).

Dos entrevistados que se automedicaram 41 possuíam parente médico (18,6%). Entre os que utilizaram medicamento corretamente, 15 possuíam familiar médico (21,7%).

Por aqueles que se automedicaram (n=220) foram 449 medicamentos durante o período de um mês, correspondendo a uma média de consumo de 2,04 medicamentos por pessoa. Os medicamentos foram agrupados de acordo com sua classificação anátomo-terapêutica10, 13 (Tabela 1). Desses, 221 pertenciam ao grupo dos analgésicos/antitérmicos/antiinflamatórios não esteroidais (AINES) (49,2%), sendo que 47,1% destes eram ácido acetilsalicílico (AAS) e 31,8% dipirona. Do total dos medicamentos, o AAS representou 25,4% e a dipirona 17,1%.

Tabela 1 - Grupos farmacológicos utilizados na automedicação.
Table 1 - Pharmacological groups used in self-medication.

Grupo medicamentoso Fi  fi (%)
Analgésicos/antitérmico/AINES 221 49,2
Ação sobre aparelho respiratório 44 9,8
Sem grupo farmacológico definido 36 8,0
Vitaminas/tônicos/antianêmicos 28 6,2
Ação sobre o trato gastrointestinal 27 6,0
Outros
(produtos naturais, anti-histâmico...) 27 6,0
Usados em endocrinologia 23 5,1
Antibiótico/antifúngico/antiparasitário 21 4,7
Ação sobre o sistema cardiovascular 11 2,5
Ação sobre o sistema nervoso central 11 2,5
Total 449 100,0

AINES - Antiinflamatório(s) não esteroidal(is)
Fi - Freqüência absoluta
fi - freqüência relativa

 

Cefaléia foi a principal queixa motivadora da automedicação (28,8%), seguida por sintomas respiratórios (14,7%) e digestivos (9,6%).

Das 449 situações de automedicação, 219 foram realizadas por conta própria do entrevistado (48,8%) e 230 foram efetuadas sob indicação de alguém que não o médico diretamente (51,2%). Dessas, 119 foram indicadas indiretamente pelo médico, através da reutilização de receitas antigas (51,7%), 61 foram indicações de amigos ou familiares (26,5%), 31 do balconista de farmácia (13,5%), 11 de terapeutas alternativos (4,8%) e 8 de paramédicos (3,5%).

Afirmaram ter tido alívio dos sintomas, 95% daqueles que se automedicaram e 94,8% daqueles que utilizaram o medicamento corretamente.

Das 463 prescrições médicas utilizadas pelos entrevistados que de alguma forma se medicaram, 344 tratavam-se de prescrições atualizadas (74,3%) (situações de medicação correta) e 119 eram receitas antigas reutilizadas pelo entrevistado por sua própria vontade (25,7%) (situações de automedicação).

Quanto ao motivo das 449 situações de automedicação, houve perda da informação em 76 casos (16,9%). Os motivos para as restantes 373 situações encontram-se descritos na Tabela 2.

Quando questionados sobre a possibilidade de existirem doenças que curam espontaneamente, sem necessidade de medicação (n=228), 116 dos entrevistados que se automedicaram disseram que existem tais doenças (52,9%), e 103, que todas as doenças necessitam de medicação (47,1%). Para 38 que se medicaram com orientação médica, é possível curar-se de algumas doenças sem tomar medicamentos (55,1%).

Tabela 2 - Motivos utilizados para justificar a automedicação.
Table 2 - Reasons used to justify self-medication.

Motivos Fi  fi(%)
Já tinha experiência com o medicamento 134 35,9
Foi indicado por alguém 57 15,3
Todos usam o medicamento 50 13,4
Considerou o que sentia insignificante 36 9,6
O medicamento estava ao alcance imediato 27 7,2
Prefere ir à farmácia diretamente 23 6,2
Falta de dinheiro para ir ao médico 16 4,3
Outros 16 4,3
Por influência da mídia 10 2,7
Por crença religiosa 3 0,8
Insatisfação em relação ao atendimento de
saúde pública
1 0,3
Total 373 100,0

Fi - Freqüência absoluta
fi - freqüência relativa

Tabela 3 - Justificativas para acreditar ou não que o médico sabe o que faz ao receitar (n=275).
Table 3 - Reasons to believe or not that the physician knows what he is doing when prescribing (n=275).

  Automedicaram-se Não se automedicaram
Fi fi(%) Fi fi(%)
Motivo dos que acreditam no médico
Porque deve saber e não deve errar 89 50,0 32 50,8
Porque confia no médico 28 15,7 13 20,6
Acredita, porém nem sempre 23 12,9 8 12,7
Por experiências passadas positivas 13 7,3 4 6,3
Dependendo do médico, acredita 11 6,2 1 1,6
Porque o médico examina o paciente 5 2,8 2 3,2
Sem justificativa 5 2,8 1 1,6
Outros 3 1,7 1 1,6
Dependendo do paciente, acredita 1 0,6 1 1,6
Total 178 100,0 63 100,0
Motivo dos que não acreditam no médico
Por experiências negativas no passado 10 34,6 1 20,0
Ele pode dar o remédio errado 7 24,2 2 40,0
Ele conhece pouco o paciente 6 20,7 1 20,0
Porque ele não sabe nada 3 10,3 - -
Não confia em médico 1 3,4 - -
Ouviu falar em erros médicos 1 3,4 - -
Sem justificativa 1 3,4 - -
Outros - - 1 20,0
Total 29 100,0 5 100,0

Fi - Freqüência absoluta
fi - freqüência relativa

 

Quanto à utilização de infusões vegetais (chás caseiros) de um modo geral entre os que se automedicaram, 54 sempre o fazem (24,7%), 97 o fazem de vez em quando (44,3%) e 68 nunca o fazem (31,0%). Entre os que se medicaram corretamente, 12 sempre usam infusões vegetais para o tratamento de suas doenças (17,4%), 36 às vezes o fazem (52,2%) e 21 nunca o fazem (30,4%). Entre aqueles que faziam uso de infusões vegetais (sempre ou às vezes) (n= 199), 30 dos que se automedicaram sempre associam um medicamento a uma infusão (19,9%), 42 às vezes o fazem (27,8%), e 79 nunca o fazem (52,3%). Dentre os entrevistados que se medicaram corretamente, 9 sempre associam medicamentos a uma infusão (18,8%), 16 às vezes o fazem (33,3%), e 23 nunca o fazem (47,9%).

Entre os que se automedicaram, 178 acreditam que o médico sabe o que faz ao receitar (86,0%), enquanto 29 pensam o contrário (14,0%). E entre os que se medicaram de forma correta, 63 afirmaram que o médico sabe o que está fazendo ao prescrever (92,6%), e 5 disseram que ele não o sabe (7,4%). A Tabela 3 mostra os motivos pelos quais os entrevistados que fizeram uso de medicação acreditam ou não que o médico sabe o que está fazendo ao prescrever.

Dos que se automedicaram, 134 não faziam avaliações médicas periódicas (61,2%), 44 as faziam uma vez ao ano (20,1%), 21 duas vezes ao ano (9,6%) e 20 as faziam três ou mais vezes ao ano (9,1%). Para aqueles que se medicaram corretamente os valores foram 18 (27,7%), 6 (9,2%), 20 (30,8%) e 21 (32,3%), respectivamente. Houve diferença significativa entre os grupos estudados (p<0,0001).

 

DISCUSSÃO

No presente estudo, 53,3% do total dos entrevistados fizeram automedicação, porém se considerados apenas os indivíduos que se medicaram, tem-se a prevalência de 76,1%. Esses valores são maiores do que os encontrados por Simões e Farache Filho26, o que pode ser explicado pelo fato que, na presente pesquisa, o consumo de medicamentos foi analisado num período maior e utilizaram-se perguntas de rememoração para medicamentos "comuns", facilmente esquecidos pela população geral.

Se, para o cálculo da prevalência, for considerada como unidade de referência cada situação de medicação (análise de cada droga consumida), ao invés do indivíduo, a prevalência de automedicação cai para 56,4%. Simões e Farache Filho26, quando analisaram as situações de medicação, encontraram 42,1% de prevalência; já Haak11 levantou a prevalência de 74%. Estudos que utilizam as situações de medicação como unidade de análise são mais representativos da realidade, uma vez que uma pessoa pode comportar-se de maneiras variadas frente às diferentes situações. Entretanto, nem toda variável pode ser analisada tendo em vista uma situação de medicação. Assim o número de acompanhamentos médicos anuais só pode ser comparado com automedicação tendo como base o indivíduo. Portanto, optou-se por descrever os dados segundo esta base.

As mulheres parecem consumir mais medicamentos que os homens15, 19, 20, sendo às vezes correlacionado com classes sociais baixas19. Entre medicações para alívio da cefaléia, Minatti-Hannuch e col.20 também encontraram preponderância de consumo no sexo feminino. Dentre o segmento dos que se automedicaram, não foi encontrada diferença significativa entre os sexos, resultados semelhantes aos de Lima e col.17 e Mestanza e Pamo19. Entretanto, parte de um estudo conduzido pela OMS, realizado no Brasil, incluindo apenas situações de automedicação no balcão da farmácia, encontrou uma preponderância feminina, em especial entre 16 e 45 anos, sendo que entre os homens isto é mais freqüente nos extremos de idade2.

Os extremos etários são considerados por Nitschke e col. 22 como os maiores consumidores de medicamentos. As crianças estão entre os maiores consumidores, provavelmente por influência de suas mães9, com destaque para os menores de 1 ano11 de idade. Quando analisada a idade, observou-se que a população até 12 anos concentra 26,1% do total das medicações utilizadas, e ao ser correlacionada com a automedicação percebeu-se que, embora as crianças até 12 anos sejam automedicadas por suas mães em 62,6%, ainda assim automedicaram-se menos do que os maiores de 12 anos (80,7%). Há uma maior propensão do responsável pela criança em procurar auxílio de um profissional capacitado, talvez por ser mais frágil. Deve-se acrescentar que Lima e col.17 não encontraram diferença entre o fator idade e o desfecho automedicação, porém utilizaram a idade média, sem estratificá-la.

Há na literatura a idéia de que setores que encontram barreiras socioeconômicas ao sistema de atenção médica estivessem mais propensos a realizar automedicação como recurso alternativo para atender à sua demanda por saúde1,8,9,20,27,30. No Brasil, onde a saúde pública não tem recebido recursos orçamentários adequados e cuja estrutura organizacional representada pelo SUS não alcançou patamar suficientemente eficiente, poder-se-ia esperar que a demanda por saúde nas classes que dependem desse sistema estariam mais sujeitas a se automedicar. Todavia, o presente estudo não sustenta tal hipótese. Talvez na gênese histórica do hábito de se automedicar, a falta de acesso ao médico possa ter tido algum papel causal, todavia, atualmente, as limitações impostas por uma condição socioeconômica desfavorável não são um fator preponderante na decisão de se automedicar. Mesmo populações de baixa renda, conforme observou Haak11, podem comprometer substancial parcela de seus rendimentos com medicação .

No estudo da relação do grau de escolaridade com a medicação, a bibliografia apresenta dados controversos, desde ausência de relação17 à clara associação entre os fatores. Ao contrário do que se pode imaginar, não seriam os menos informados os maiores usuários de automedicação, já que há resultados que acusam maior consumo de medicamentos entre os que freqüentaram a escola por mais tempo, provavelmente por disporem de maior informação que os auxilia na escolha de medicamentos25. Os dados deste estudo confirmam essa hipótese, demonstrando que o acúmulo de conhecimento, quer adquirido na escola (maior escolaridade), quer ao longo da vida (maor idade), torna o indivíduo mais confiante para se automedicar.

Em relação ao tipo de medicamento consumido, foram encontradas duas linhas distintas na literatura: uma delas destaca o uso de antibióticos como o grupo farmacológico mais utilizado11, 19, 28, sendo seguidos, na maioria, pelos AINES. No entanto, existem relatos que destacam os AINES1, 2, 17, 22, superando os antibióticos, o que corrobora com nosso estudo, onde os antimicrobianos obtiveram a oitava colocação entre os medicamentos utilizados por automedicação (Tabela 1).

Quanto às queixas que motivaram a automedicação, pode-se detacar a cefaléia, seguida pela sintomatologia respiratória. Estudo realizado anteriormente17, no mesmo município, encontrou dados semelhantes, porém a prevalência dos sintomas respiratórios foi maior, assim como relatado por Mestanza e Pamo19 em Lima (Peru). Robinson24 constatou que 90% das pessoas canadenses com enxaqueca fazem uso eventual de medicamentos sem prescrição médica.

Quando se indagou sobre a melhora da sintomatologia, surpreendentemente, não houve diferença significativa entre as pessoas que utilizaram medicação orientada por médico ou não (94,8% e 95%, respectivamente), sendo o mesmo encontrado por Robinson quanto à enxaqueca24. Isto pode ser justificado pelo fato de que 50 e 80% dos pacientes que buscam atenção primária de saúde apresentam remissão do quadro sem necessidade de medicamento23. É de se esperar que a população procure automedicar-se quando os sintomas provêm de doenças de remissão espontânea e afecções paroxísticas e cíclicas, enquanto que os sintomas crônicos, de difícil controle, levam a maior procura pelo médico.

Na maioria das situações de automedicação houve indicação de terceiros. Destes, o médico (reutilização de receita antiga) teve papel relevante como encontrado por Adamo1 e outros2, 21, 26, 28, 29. Segundo Adamo, o médico é o verdadeiro introdutor do medicamento no âmbito familiar, e mesmo sem querer é o principal gerador do processo de automedicação. A experiência anterior com o medicamento lidera as motivações (35,9%), provavelmente pelo papel do médico contribuindo na formação dessa experiência (Tabela 2).

Estudos realizados em farmácias4, 5, 8, 27 observaram alta prevalência de indicação de fármacos por balconistas. Em população rural da Bahia11, a farmácia foi responsável por 44% das situações de automedicação. No presente estudo, a procura pelo balconista não foi tão significativa (13,5% das indicações) com achados semelhantes ratificando esses resultados 9, 17, 19, 26, 29.

López e Kroeger18, em estudo com intervenções educativas, demonstraram a dificuldade de modificar os hábitos da população em relação aos medicamentos, enfatizando a necessidade de conhecer o valor simbólico e expectativas associadas ao medicamento. Mudanças no modo de utilizar medicamentos somente são viáveis quando se radicam em ações educativas prolongadas, uma vez que o desmonte e reestruturação da carga simbólica vinculada aos medicamentos exige tempo. O presente estudo detectou uma supervalorização da eficácia dos medicamentos pela população estudada, já que 46,5% dos entrevistados (incluídos os que não fizeram automedicação) não cogita uma terapêutica que não seja farmacológica. Haak11 encontrou semelhante supervalorização do medicamento estudando populações rurais da Bahia.

Em relação ao uso de chás, Danhier e col.9 demonstraram uma taxa de 17,7% de usuários de ervas e produtos naturais. Dos que se medicaram, 69,1% referiram utilizar chá para tratar alguma doença, destes, 48,7% associam ao menos eventualmente um remédio de farmácia. Entre habitantes do meio rural11, onde seria de se esperar maior difusão de terapêuticas alternativas, apenas 20% usavam exclusivamente remédios caseiros.

A associação de informação, experiência com medicamentos e uso de infusões de ervas medicinais denota a propensão da pessoa em resolver seus problemas de saúde com base nos seus supostos conhecimentos sobre tratamento de doenças. Apesar disto, encontrou-se um alto índice de confiança no médico (Tabela 3), mesmo dentre os que se automedicaram: valorização do profissional médico no seu papel de prevenção de doenças, procurando-o com mais freqüência para realização de exames periódicos de saúde.

 

CONCLUSÕES

Não se pode condenar o ato de se automedicar porque seria socioeconomicamente inviável o atendimento por um médico para solução de todos os sintomas da população. Parece haver uma tendência mundial para maior aceitação da automedicação6, 7, 14. É impossível frear essa prática; assim, é necessário que a sociedade se adapte, recebendo informação científica sobre os medicamentos de venda-livre, sem estímulo ao consumo desenfreado ou ao mito de cura milagrosa, ao mesmo tempo que seja incentivada a procura do profissional médico, relevando os pontos positivos que uma consulta médica pode ter em relação à automedicação.

 

REFERÊNCIAS

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*Pesquisa subsidiada com bolsa de iniciação científica do Programa Institucional de Bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico/CNPq/UFSM ( Processo nº 95/96). Apresentado no Encontro Anual de Ciências Fisiológicas/Rio Grande, RS -Brasil de 16-18 de novembro, 1995 e na IV Jornada Integrada de Pesquisa, Extensão e Ensino/Universidade Federal de Santa Maria, RS-Brasil de 8-9 de outubro, 1996.
**Alunos do Curso de Medicina da Universidade Federal de Santa Maria, RS-Brasil.
*** Durante a coleta de dados, a cotação do dólar norte-americano para compra variou entre US$ 0,83 e US$ 0,87 centavos do real.
Correspondência para/Correspondence to: Jorge F. Vilarino - Rua Coronel Niedeauer, 1471/41 - 97015-123 Santa Maria, RS - Brasil. Fax: (055) 223-1222
Recebido em 2.4.1997. Reapresentado em 16.7.1997. Aprovado em 26.8.1997.