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Revista de Saúde Pública
versão impressa ISSN 0034-8910
Rev. Saúde Pública vol.33 no.6 São Paulo Dez. 1999
http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101999000600004
Preferências por alimentos doces e cárie dentária em pré-escolares*
Taste preference for sweetness and caries prevalence in preschoolchildren
Nilce E Tomita, Paulo Nadanovsky, Ana Luiza F Vieira** e Eymar S Lopes
Departamento de Odontopediatria, Ortodontia e Saúde Coletiva da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo. Bauru, SP - Brasil (NET, ESL), Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ - Brasil (PN)
| Descritores Cárie dentária, epidemiologia. Preferências alimentares. Sacarose na dieta, efeitos adversos. | Resumo Objetivo Métodos Resultados Conclusão |
| Keywords Dental caries, epidemiology. Food preferences. Dietary sucrose, adverse effects. | Abstract Objective Methods Results Conclusion |
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, o consumo de açúcar em sociedades emergentes tem sido crescente. A substituição de produtos locais por alimentos manufaturados, particularmente com alto conteúdo de açúcar, tem sido acompanhada por um aumento na cárie dental13.
O consumo de alimentos adoçados é influenciado por uma variedade de fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais. Uma preferência por doces tem sido sugerida como importante fator no consumo individual de açúcar3,12. Em 1910, Peterson, Rainey11 observaram que neonatais demonstravam uma reação facial de prazer a alimentos doces. Esta preferência também ocorreu com crianças maiores1.
A freqüência do consumo de açúcar é um importante fator na etiologia da cárie15. Entretanto, em estudos epidemiológicos, uma fraca correlação entre o consumo de açúcar e a prevalência de cárie tem sido encontrada2.
É possível que a demanda individual por açúcar seja limitada, mas que o ponto final esteja sujeito a grande variação individual4. Estudos que avaliaram os padrões de ingestão produziram resultados comparáveis com uma demanda "pico" por sacarose de concentração de 0,3 M (molar), com posterior declínio7.
Outras variáveis para a preferência por açúcar incluem sexo, etnia e sensibilidade gustativa3.
Além dos estudos populacionais que têm relatado a associação entre os padrões de ingestão de açúcar e a prevalência de cárie, alguns estudos reportam a questão do paladar ou preferência por açúcares como uma variável de maior valor explicativo para a ocorrência de cárie em diferentes grupos.
Desor et al.3 demostraram, em 1975, que o paladar está relacionado com a sacarose na dieta. Entretanto, um indivíduo que tenha uma leve preferência por açúcar pode ter uma elevada ingestão diária de açúcar.
Catalanotto1, em1979, analisou a relação entre o paladar por sacarose e a suscetibilidade à cárie em crianças. Não houve diferença entre o grupo sem cárie e o grupo suscetível à cárie quanto à detecção de açúcar nas soluções.
Em 1983, Nilsson e Holm10 testaram o limiar do paladar e a preferência por açúcar. Houve uma diferença muito pequena entre as soluções com sacarose preferidas para os grupos com alta e com baixa quantidade de dentes restaurados.
Honkala et al.5, em 1984, analisaram os possíveis determinantes do consumo de açúcar: fatores sociodemográficos, hábitos dentais, desempenho escolar, dinheiro disponível na carteira e preferência por doce. O consumo de açúcar decresce com a idade. A alta correlação entre a preferência por doce das crianças e seus pais vem sendo observada, o que sugere que a preferência por doces é, em parte, um hábito aprendido.
Wync et al.15, em 1995, estudaram algumas características (nível socioeconômico, dieta, uso de chupeta adocicada) de crianças que desenvolveram cárie. A maior prevalência de cárie em crianças com nível social mais baixo concordou com estudos que atribuem esta condição à falta de orientação sobre o assunto, uma vez que os pais, precocemente, davam aos filhos alimentos doces e em alta freqüência ao dia.
Em estudos em que as pessoas são entrevistadas acerca de seus hábitos alimentares, a confiabilidade das respostas é questionável. As preferências pelo gosto doce supostamente retratam com maior fidelidade a freqüência do consumo diário de açúcar que o relato das próprias pessoas.
A partir desta hipótese, o presente estudo tem por objetivo avaliar os padrões de preferência gustativa pelo sabor doce por pré-escolares provenientes de variados estratos socioeconômicos e a associação entre essa preferência e a prevalência de cárie.
MÉTODOS
A seleção da amostra foi feita através de sorteio de duas instituições públicas de ensino pré-escolar do município de Bauru, São Paulo. A primeira foi selecionada entre aquelas localizadas na região central do município e a segunda entre as instituições da periferia. O terceiro grupo foi composto por crianças de nível socieconômico mais baixo provenientes do Programa de Desfavelamento de Bauru. A totalidade de crianças de 4 a 6 anos presentes nas instituições e no Programa de Desfavelamento foi examinada no dia da visita. Constituíram a amostra do estudo 572 crianças de 4 a 6 anos de idade, de ambos os sexos, conforme Tabela 1.
A preferência por açúcar foi avaliada através de um indicador previamente desenvolvido e testado em populações adultas, o Sweet Preference Inventory6. Este indicador avalia a preferência por 5 diferentes concentrações de uma solução açucarada: 0,0 M (sem açúcar); 0,15 M; 0,29 M; 0,44 M; 0,59 M.
Após a utilização deste indicador no estudo piloto, algumas modificações foram efetuadas. O chá do teste original foi substituído por suco de uva, considerando o clima do Brasil e os hábitos preferenciais de crianças em idade pré-escolar por suco de frutas.
A ampla preferência das 30 crianças examinadas no estudo-piloto (74,4%) pela solução com maior concentração de açúcar sugeriu que o aumento das concentrações das 4 soluções adoçadas poderia oferecer maior possibilidade de discriminação para as análises propostas (Tabela 2).
Embora nenhuma das crianças tenha gostado do suco sem açúcar no estudo-piloto, foi decidido mantê-lo no teste para servir como uma referência.
O suco de uva com as diferentes concentrações de açúcar era preparado, no momento do exame, com auxílio de um liquidificador. A seguir, era acondicionado em cinco galões térmicos, identificados por letras.
Para a realização do teste, cada criança recebia o suco em copinhos plásticos descartáveis (contendo 10 ml), em seqüência crescente de concentração de açúcar. Antes de todas as degustações, para "neutralizar" o paladar, as crianças ingeriam um pedaço de bolacha de água e sal. Entre uma degustação e outra era questionado qual solução a criança preferia e ao final do teste ela apontava a solução de sua escolha.
Utilizou-se o índice ceos8 para determinar a prevalência de cárie na dentição decídua. O exame foi realizado antes do teste do açúcar, para que a bolacha não atrapalhasse a visualização das superfícies oclusais e para evitar tendenciosidade do examinador. Este exame foi realizado sob luz natural, com espelho plano e sonda exploradora, quando necessário.
Na análise dos resultados, as diferenças entre os grupos foram avaliadas por testes bivariados de associação (teste do qui-quadrado), em um nível de significância estatística de 5% (p<0,05).
RESULTADOS
O comportamento quanto à escolha da solução foi bastante semelhante entre meninos e meninas. Nos resultados agrupados (Tabela 3), observa-se a distribuição da amostra segundo a preferência por açúcar e a procedência. Houve predominância da solução mais concentrada em açúcar, em todas as idades e em cada grupo. À análise bivariada, ao agrupar-se as soluções menos concentradas (A, B, C e D) e comparar sua distribuição com a solução mais adocicada (E), observa-se que o grupo Desfavelamento é o discrepante (p<0,005); a preferência pela solução mais doce foi significantemente maior que nos outros grupos.
A prevalência de cárie apresentou tendência crescente com a idade, em todos os grupos. As crianças do Desfavelamento apresentaram os valores ceos mais elevados (Tabela 4)
O número e percentual de crianças isentas de cárie, em todas as idades e para crianças de ambos os sexos, foi significantemente menor no grupo Desfavelamento que nos demais grupos (Tabela 5).
Entretanto, ao testar a associação entre o número de crianças isentas de cárie e a preferência por açúcar, não foram observadas diferenças estatisticamente significantes (Tabela 6). Para a análise, foram agrupadas as 4 soluções de menores concentrações de açúcar para comparação com a solução mais adocicada e sua distribuição entre as crianças que não apresentavam cárie.
DISCUSSÃO
A preferência por sabores doces pode ser detectada nos recém-nascidos11. A discriminação quanto à preferência, porém, ocorre com o tempo e é afetada por inúmeros fatores.
No presente estudo, verificou-se que crianças a partir dos 4 anos de idade apresentam a capacidade discriminatória para apontar suas preferências gustativas por açúcar. A maioria das crianças apontou sua preferência pela solução mais doce (Tabela 3), sem variação segundo a idade e o sexo.
A discriminação necessária para justificar o uso do Sweet Preference Inventory modificado foi adequada no estudo piloto. Uma proporção muito alta de crianças nas escolas públicas e do grupo de Desfavelamento escolheu o suco com a mais alta concentração de açúcar como sua primeira opção.
Na literatura, relata-se que os indivíduos do sexo masculino têm maior preferência por açúcar que os do sexo feminino4,5,10. No presente estudo, verifica-se que, em idade pré-escolar, esta diferença não é evidente.
Os efeitos dos fatores socioeconômicos no consumo de açúcar têm sido relatados por alguns estudos2. Foi observada uma associação negativa entre o estrato socioeconômico e a preferência pelo suco mais adocicado. Embora a solução mais concentrada tenha recebido a preferência da maioria das crianças avaliadas, no grupo Desfavelamento esta preferência destaca-se dos demais grupos (Tabela 3). A consciência dos efeitos prejudiciais do açúcar afetam o padrão de consumo, particularmente nos grupos com mais altos níveis de educação paterna5.
A história de cárie na dentição decídua das crianças examinadas apresenta menores valores ceos que dados verificados para crianças do município de Bauru, em inquérito realizado em 199114. Contudo, ao considerar o grupo Desfavelamento isoladamente (Tabela 4), observam-se valores ceos superiores aos relatados por Tomita et al.14. Estas diferenças podem ser devidas à situação de deprivação econômica apresentada por este grupo.
O percentual de crianças livres de cárie é também significantemente menor entre as crianças do grupo de Desfavelamento (Tabela 5). Algumas transformações ocorridas nos padrões alimentares de famílias oriundas de favelas, bem como a inexistência de condições de fluoretação das águas nos períodos anteriores podem estar associadas a este quadro.
Um padrão gustativo de preferência para soluções mais adoçadas e conseqüente maior consumo de açúcar tem sido relacionado a níveis mais altos de cárie6. Porém, a associação entre a ausência de cárie e a preferência por açúcar não foi observada no presente estudo (Tabela 6). Os percentuais de crianças livres de cárie que relataram preferir a solução mais doce oscilaram entre 40,0% e 53,3%. Nos demais grupos, houve uma variação entre 11,1% e 100,0% de isentas de cárie. Esta distribuição heterogênea de crianças entre os mesmos pode ter trazido prejuízo à análise.
Embora uma preferência inata por doces seja relatada em diferentes estudos, não constitui uma entidade estática. Pelo contrário, a preferência por açúcar é altamente influenciada pela exposição aumentada e maior disponibilidade de açúcar associada à urbanização6. Isto tem importantes implicações para o desenvolvimento de políticas públicas com o objetivo de promover uma alimentação mais saudável9 e de orientações aos pais no que se refere à alimentação infantil.
Em conclusão, não houve associação entre a ausência de cárie e a preferência por açúcar. Por sua vez, as crianças do estrato socioeconômico menos favorecido (Desfavelamento) apresentaram maior preferência pelo açúcar e também maior prevalência de cárie, o que implica a necessidade de planejar ações direcionadas à educação em saúde e promoção de saúde bucal em populações com privações sociais.
AGRADECIMENTOS
Ao Departamento de Odontologia Social da Faculdade de Odontologia de Bauru, pelo apoio logístico, e à técnica em higiene dentária Marta Regina Liporacci Aoki, desse departamento, e às escolas públicas visitadaspela colaboração.
REFERÊNCIAS
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Correspondência para/Correspondence to:
Nilce E Tomita -Al. Octávio Pinheiro Brisolla, 9-75 - 17043-101 Bauru, SP - Brasil.
E-mail: netomita@usp.br
Edição subvencionada pela Fapesp (Processo n. 98/13915-5).
Recebido em 29.5.1998. Reapresentado em 4.5.1999. Aprovado em 24.6.1999.
*Trabalho desenvolvido no Departamento de Odontopediatria, Ortodontia e Saúde Coletiva da Faculdade de Odontologia de Bauru,USP. Apresentado na 76th General Session of the International Association for Dental Research, em Nice-França, 1998.
**Aluna de pós-graduação em Odontopediatria da Faculdade de Odontologia de Bauru/USP










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