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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.35 n.1 São Paulo Feb. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102001000100015 

Notas e Informações

Notes and Information

 

Risco de brucelose zoonótica associado a suínos de abate clandestino
Zoonotic brucellosis risk associated with clandestine slaughtered porks

José de Arimatéa Freitas, Glaucio Antonio Rocha Galindo, Eváldson Joaquim Corrêa dos Santos, Karine de Almeida Sarraf e Jefferson Pinto de Oliveira

Faculdade de Ciências Agrárias do Pará. Belém, PA, Brasil

 

 

DESCRITORES
Brucelose, transmissão.# Fatores de risco.# Matadouros.# Suínos.# Zoonose. Risco sanitário. Riscos ocupacionais. Brucelose, prevenção e controle. Carne, microbiologia. Testes sorológicos, veterinária.
RESUMO
Um total de 59 amostras de soros de suínos, procedentes de vários locais de abate clandestino, apresentaram ao "card test" e à soroaglutinação rápida anticorpos anti-Brucella e títulos de anticorpos sugestivos de infecção brucélica. Ações e medidas de vigilância sanitária são recomendadas para prevenir o risco potencial de infecção brucélica zoonótica.
KEYWORDS
Brucellosis, transmission.# Risk factors.# Abattoirs.# Swine.# Zoonosis. Health risk. Occupational risks. Brucellosis, prevention and control. Brucella, immunology. Serologic tests, veterinary.
ABSTRACT
To determine the sanitary risk to human health, 59 sera samples of clandestine slaughtered porks were examined through serologic procedures and have demonstrated to have anti
-Brucella antibodies and antibodies titles suggestive of brucellosis infection. Surveillance measurements are recommended to prevent potential risk of zoonotic infection.

 

 

Desde a descoberta da Brucella melitensis por Bruce, em 1887, e sua associação com a doença zoonótica transmitida por alimento, a brucelose continuou sendo uma doença cosmopolita que tem como fatores de risco, além da ingestão de alimentos contaminados, o contato com animais e o exercício de atividades que envolvem o contato com eles.1

De acordo com Sánchez et al5 (1998), o abate de animais, uma das atividades de risco, tem importante significado na transmissão das espécies de Brucella sp. para o homem, principalmente nas operações que envolvem contato direto com a fonte de infecção, representada por carcaças e vísceras de animais abatidos e pela formação de aerossóis conseqüentes às condições ambientais reinantes nos estabelecimentos de abate, situações muito comuns nos matadouros.

Apesar de contínuas demonstrações e divulgações a respeito do risco decorrente do consumo de alimentos crus ou não adequadamente tratados pelo calor, do contato com animais sem a observação de medidas de precaução, do manuseio e da manipulação de órgãos, produtos, subprodutos e excreções de animais, sem o uso de equipamentos de proteção, a brucelose continua sendo um importante problema de saúde pública no mundo.1,2,5

O abate clandestino de suínos, uma prática condenável que ocorre no País, representa um dos mais graves fatores de risco, pela exposição coletiva a agentes infecciosos, como aqueles que são transmitidos ao homem pelo contato com animais, pela ingestão de alimentos de qualidade sanitária suspeita e pela contaminação do meio ambiente. Contudo, apesar das evidências que têm sido apontadas,3 o abate clandestino tem sido negligenciado como fator de risco na ocorrência da brucelose zoonótica.

Com o objetivo de demonstrar o risco potencial de infecção brucélica zoonótica associado a suínos abatidos clandestinamente, 139 amostras de soros de animais de diversas procedências foram submetidas ao diagnóstico sorológico; o "card test" e a soroaglutinação rápida demonstraram, respectivamente, que 42,2% apresentavam anticorpos para Brucella sp. e títulos de anticorpos aglutinantes assim distribuídos: 16 (11,5%) com título de 1:50, 24 (17,3%) com título de 1:100, 8 (5,7%) com título de 1:200 e 11 (7,9%) com título de 1:400.

Elevado risco sanitário para as pessoas envolvidas no abate clandestino, consumidores e população em geral é traduzido por esses resultados.

Segundo Malik4 (1997), o contato com animais e a ingestão de fígado cru, em região de pastoreio da Arábia Saudita, foram fatores de elevado risco: 73% e 63,3%, respectivamente, associados à brucelose zoonótica em 104 pacientes. Sánchez et al5 (1998), em surto de brucelose zoonótica ocorrido entre operários de um matadouro na Espanha, determinaram a elevada taxa de ataque de 56% para os trabalhadores da área de sacrifício do estabelecimento de abate.

A transmissão ocupacional foi observada também em um surto de brucelose ocorrido entre empregados de um matadouro de suínos nos Estados Unidos.3 De acordo com Fox & Kauffman2 (1977), para os pacientes de brucelose zoonótica dos Estados Unidos, no decênio 1965-1974, os suínos foram a mais importante fonte de infecção, e o contato com os animais foi o fator de risco de maior relevância na transmissão da doença, estando presente em 65% dos casos ocorridos entre os operários da indústria animal (veterinários, produtores e empregados de mercados) e 39% relacionado com a criação doméstica desses animais.

As medidas de prevenção ao risco, entre as quais o uso de equipamentos de proteção individual e afastamento do abate de animais sorologicamente infectados, esta, uma medida estratégica3 , estão sobremaneira ausentes no abate clandestino, enquanto que todos os fatores de risco, entre os quais exposição constante e contato direto com animais, seus órgãos, carcaças e vísceras e distribuição ao consumo de carnes provenientes deles, estão presentes no abate clandestino.

Ações e medidas de vigilância sanitária para reprimir a atividade clandestina de abate de animais para consumo humano devem ser postas em execução, com o objetivo de prevenir o risco potencial de infecção brucélica zoonótica.

 

REFERÊNCIAS

1. Corbel MJ. Brucellosis: an overview. Emerg Infect Dis 1997;3:213-21.         [ Links ]

2. Fox MD, Kauffman F. Brucellosis in the United States, 1965-1974. J lnfect Dis 1977;136:312-6.         [ Links ]

3. Hunter L, Smith CG, Mac Cormack JN. Brucellosis outbreak at a pork processing plant- North Carolina, 1992. Morb Mort Wkly Rep 1994;43:113-6.         [ Links ]

4. Malik GM. A clinical study of brucellosis in adults in the Asir region of southern Saudi Arabia. Am J Trop Med Hyg 1997;56:375-7.         [ Links ]

5. Sánchez L, Cepeda R, Morano TS. Analisis de um brote epidemiológico de brucellosis en trabajadores de un matadero. Rev Esp Salud Publica 1998;72:137-46.         [ Links ]

 

Correspondência para/Correspondence to:
José de Arimatéa Freitas
Travessa Humaitá, 1130/103, Pedreira
66085-220 Belém, PA, Brasil
E-mail: jaf@interconect.com.br
Recebido em 5/9/2000. Reapresentado em 25/10/2000. Aprovado em 7/11/2000.