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Revista de Saúde Pública

On-line version ISSN 1518-8787
Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.36 n.4 suppl.0 São Paulo Aug. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102002000500009 

Caminhoneiros de rota curta e sua vulnerabilidade ao HIV, Santos, SP
Vulnerability to HIV and AIDS of short distance truck drivers stationed, Brazil

Luciana Villarinhoa, Ivanilda Bezerraa, Regina Lacerdaa, Maria do Rosario Dias de Oliveira Latorreb, Vera Paivac, Ron Stalld e Norman Hearstd

aAssociação Santista de Pesquisa Prevenção e Educação em DST/Aids. São Paulo, SP, Brasil. bDepartamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. cNúcleo de Estudos para Prevenção da Aids do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. dDepartment of Family and Community Medicine of the University of California. San Francisco, EUA

 

 

DESCRITORES
Homens. Vulnerabilidade. Conhecimentos, atitudes e prática. Síndrome de imunodeficiência adquirida, prevenção. HIV. Transportes. Comportamento sexual. Percepção. Fatores de risco. Infecções por HIV, prevenção. Caminhoneiros.

RESUMO

OBJETIVO:
Descrever a vulnerabilidade, de caminhoneiros de rota curta, à transmissão sexual do HIV e da Aids.

MÉTODOS:
Foram entrevistados 279 caminhoneiros com vínculo de trabalho na cidade de Santos, SP, em locais de concentração na área portuária e suas proximidades, sindicatos e associações, recrutados pela amostragem do tipo "bola-de-neve". Foram realizadas entrevistas utilizando perguntas abertas e fechadas sobre questões sociodemográficas, práticas sexuais, uso de drogas, conhecimento sobre o HIV e a Aids, contato prévio com programas de prevenção à Aids em Santos, percepção de sua vulnerabilidade ao HIV e à Aids. Foi realizada análise descritiva da amostra, e apresentados relatos para ilustrar algumas situações de vulnerabilidade.

RESULTADOS:
Do total de 279 caminhoneiros entrevistados, 93% declararam ter parceira fixa, 40% referiram manter relações sexuais com parceiras casuais, e 19% referiram manter relações sexuais com parceiras freqüentes. A principal situação de vulnerabilidade ao HIV ocorre devido ao uso inconsistente do preservativo, interligado ao vínculo estabelecido com cada parceira. O tempo fora de casa parece não ser o principal fator para situações de vulnerabilidade, conforme demonstram estudos com caminhoneiros de rota longa.

CONCLUSÕES:
A cultura "machista" e os papéis tradicionais masculinos são emblemáticos entre os caminhoneiros de rota curta. Certamente é necessário investir mais na prevenção nessa categoria profissional. A prevenção em locais de trabalho parece promissora, pois permite entender melhor seu universo, propiciando intervenções educativas adequadas a essa categoria profissional.

KEYWORDS
Men. Vulnerability. Knowledge, attitudes, practice. Acquired immunodeficiency syndrome, prevention & control. HIV. Transportation. Sex behavior. Perception. Risk factors. HIV infections, prevention & control. Truck drivers.

 

ABSTRACT

OBJECTIVE:
To describe the vulnerability to sexually transmitted HIV/AIDS of short distance truck drivers.

METHODS:
Using a snowball sampling procedure, 279 truck drivers working in the port area and vicinities, unions and workers' associations of Santos, Brazil, were selected and interviewed. Face-to-face interviews were carried out using open and closed questions covered demographic characteristics, sexual practices, drug use, knowledge of HIV and AIDS, previous contact with HIV prevention programs, and perception of their vulnerability to HIV and Aids. A descriptive analysis was carried out and reports are presented to illustrate some scenarios of vulnerability.

RESULTS:
Of all 279 truck drivers interviewed, 93% had a stable female partner, 40% engaged in casual sexual with female partners, and 19% said to have sex with other regular partners. Vulnerability to HIV is increased by inconsistent condom use in all categories of sexual partners. Long periods away from home seem not to be the only factor for their vulnerability to HIV as seen in studies on long distance truck drivers.

CONCLUSIONS:
The macho culture and traditional male behaviors are prominently seen among truck drivers. There is a need of investing more on prevention in this professional group. Prevention programs at the work environment seem to be a promising strategy, since it allows a better understanding of the workers' setting and development of customized educational interventions.

 

 

INTRODUÇÃO

Os estudos realizados na Índia, na África e no Brasil3,4-10,13-16 mostram que o grande período que os caminhoneiros de rota longa passam fora de casa é facilitador para práticas de risco, pelo grande número de parceiras sexuais casuais e pelo uso de drogas, principalmente o "rebite" (combinação de anfetaminas e álcool).

A cidade de Santos apresenta uma das mais altas prevalências de HIV e Aids do País. É uma cidade litorânea e turística, sede do maior porto da América Latina, com 417.000 habitantes, situada no Estado de São Paulo (Sudeste do Brasil). Registrou, no período de 1984 a 1999, um total de 5.724 casos de Aids, tendo uma prevalência de 261,74 casos para cada 100.000 habitantes.* O porto recebe navios do mundo todo e cerca de 2 a 4 mil caminhões diariamente, número que aumenta nos períodos de safra. Os caminhoneiros se valem de instalações precárias para higiene, lazer e alimentação no porto e adjacências, numa atividade ininterrupta 24 horas por dia, seguindo o ritmo do porto.

Com o objetivo de desenvolver ações educativas apropriadas para esse segmento, e seguindo vários estudos com outros grupos que vivem e trabalham na área, como profissionais do sexo, portuários e usuários de droga, foi realizada uma pesquisa com 300 caminhoneiros de rota longa que freqüentavam o porto de Santos.5,6 Os resultados indicaram que 1,3% tinha sorologia positiva para HIV e 8,3% foram positivos para sífilis (VDRL). Os resultados evidenciam o alto risco dessa população. A maioria deles (57%) mantinha relações sexuais com parceiras casuais, e só a metade usava preservativo, sendo seu uso com parceiras fixas ainda mais baixo (6%). Tanto o uso de drogas quanto de álcool foi elevado.

Seria, de fato, a rota longa dos estudos anteriores a fonte de vulnerabilidade ao HIV e à Aids para esses caminhoneiros ou poderia ser também a cultura "caminhoneira" adquirida no convívio com trabalhadores do sexo e consumidores de drogas? Os caminhoneiros de rota curta permanecem no porto e suas proximidades, assim como os demais, compartilhando as mesmas precárias condições para higiene e alimentação, tendo como decorrência do trabalho a longa permanência em seus caminhões devido à espera para carregar e descarregar.

O presente estudo descreve quem são esses caminhoneiros de rota curta e quais suas práticas sexuais, observando suas fontes de vulnerabilidade à transmissão sexual do HIV/Aids, sendo a primeira pesquisa realizada na América Latina com essa categoria de caminhoneiros.

 

MÉTODOS

Foram entrevistados 279 caminhoneiros do sexo masculino, residentes nos nove municípios da Baixada Santista e com vínculo empregatício em Santos, com atividade profissional caracterizada como de rota curta (menos de 50 quilômetros), usando uma amostra de conveniência recrutada com a estratégia de "bola-de-neve". Foram excluídos os que participaram da pesquisa preliminar (dois caminhoneiros).

A equipe da pesquisa visitou as empresas transportadoras, os sindicatos, as associações de classe e os locais de concentração de caminhoneiros e, a partir de contatos face a face, fazia uma breve apresentação do trabalho e o convite para a participação da pesquisa. Todos os caminhoneiros contatados aceitaram participar do estudo e colaboraram no recrutamento de outros. Todos os participantes da pesquisa assinaram termo de consentimento livre e esclarecido.

O questionário foi adaptado a partir do utilizado na pesquisa com caminhoneiros de rota longa5,6 e avaliou aspectos sociodemográficos, de trabalho, saúde, práticas sexuais com mulheres e/ou com homens, uso de drogas, conhecimento sobre HIV e Aids e uso de preservativo. As perguntas abertas referiam-se ao contato com programas preventivos na cidade de Santos e sobre como esses homens percebem o contexto sociocultural da vida caminhoneira afetando sua vulnerabilidade para o HIV. Foi realizado pré-teste do questionário com 30 caminhoneiros e feitas adaptações no questionário original.

Procedeu-se à análise descritiva dos dados para as perguntas fechadas. Para exemplificar algumas situações, são apresentadas as falas dos caminhoneiros obtidas nas perguntas abertas, significativas para se compreender a situação de vulnerabilidade do grupo estudado.

Considerou-se parceira fixa a esposa ou companheira ou namorada com quem o caminhoneiro mantivesse um relacionamento mais duradouro. As parceiras freqüentes seriam as mulheres com quem costumassem ter constantes relações sexuais, além de sua parceira fixa, e as parceiras casuais seriam as mulheres com quem tivessem relações esporádicas (moças de estrada, garotas de programa e outras).

 

RESULTADOS

A maioria dos caminhoneiros era casada (81%), com menos de 40 anos (64%), com baixa escolaridade e renda entre dez e 20 salários-mínimos por mês (61%) (Tabela 1).

 

 

O veículo mais referido como fonte de informação sobre o HIV e a Aids foi a televisão (20%), e o menos referido foi a leitura (1%). Apenas 1% dos entrevistados soube relatar todas as formas de infecção pelo HIV, enquanto 36% citaram relação sexual, 24% sexo e sangue, e 16,5%, sexo e drogas injetáveis. Menos de 1% não soube indicar qualquer meio de infecção. O uso do preservativo foi visto como meio de prevenção ao HIV e à Aids para 95%, para 4%, o preservativo não diminui o risco, e 1% não soube informar.

Dos 279 entrevistados, 192 (69%) acharam que não estavam em risco, sendo que 111 (40%) afirmaram estar protegidos por terem parceira fixa, outros 87 (31%) afirmaram não ter risco algum de se infectar, e 74 (27%) referiram não ter medo de pegar Aids.

"... eu não faço viagens longas, nem por isso deixei de pegar uma doença; conheci a menina aqui e saí com ela aqui... peguei a gonorréia... era bonita, gostosa, mas me ferrei, transei sem a camisinha". (37 anos, casado, 15 anos de profissão).

A religião católica é a mais referida com 72%, seguida da evangélica, com 15,8%. Algumas falas mostram a crença de que o poder divino os protege em relação ao risco de se infectarem, especialmente entre os evangélicos.

"Uso [camisinha] quando dá e lembro, ou quando a mulher fala, senão nem ligo muito. Acho que Deus me protege, por isso que não pego nada." (51 anos, casado, 30 anos de profissão).

A Tabela 2 resume algumas das práticas sexuais dos entrevistados, segundo tipo de parceiras, prática sexual e uso de preservativo. A maioria deles mantinha relações extraconjugais, omitindo o estado civil e mantendo essas relações como namoro. Do total de caminhoneiros estudados, 260 (93%) tinham parceira fixa, 83 (29,7%) tinham parceira freqüente, e 93 (33%), casual. Dos que tinham tanto parceira fixa quanto casual, 100% praticavam sexo vaginal. Com as parceiras fixas, no entanto, a maioria (70%) também praticava sexo oral, e alguns (32%), sexo anal. Com as parceiras casuais, a prática de sexo anal era mais freqüente, (54%) e poucos praticavam sexo oral (14,0%). Com as parceiras freqüentes, houve todos os tipos de práticas, com maior proporção para o sexo vaginal (64%).

 

 

O uso de preservativo é diferenciado segundo tipo de parceira e prática. Com as parceiras fixas houve um uso mínimo do preservativo, independentemente do tipo de prática (6,0%). Com as parceiras freqüentes, o uso de preservativo era maior, tanto na relação vaginal (56,6%), quanto na anal (45,0%), porém houve poucos que usavam preservativo quando faziam sexo oral com essas parceiras (6,3%). Já com as parceiras casuais, o uso de preservativo também era freqüente tanto na relação vaginal (67%), quanto na oral (46%) ou na anal (54%). Isto mostra que a parceira fixa é a mais vulnerável no que se refere à infecção pelo HIV ou qualquer outra doença sexualmente transmissível.

"Uma vez que não deu pra conseguir fazer com camisinha, foi porque eu gostei do jeito da pessoa e achei que não precisava, achei que não tava correndo o risco... Era pessoa que eu conhecia, que apesar de ser casada, ela não saia só comigo... No momento eu não tinha [camisinha], e não dava pra esperar." (47 anos, casado, 16 anos de profissão).

A Tabela 3 descreve as dificuldades que eles relatam para se prevenir do HIV e da Aids, sendo as mais citadas ficar sem ter relação sexual (70%), resistir à tentação de fazer sexo sem camisinha (50,5%), diminuir o número de parceiras (31%) e selecionar com quem ter relação sexual (27%).

 

 

"Não tenho... [nenhuma história para contar]; sempre transei com a mulherada sem camisinha, não gosto de usar, deve ser ruim, e vê só, nunca peguei nada..." (55 anos, casado, 30 anos de profissão).

"... vou te falar, no pedaço aqui, tem muitos que pega aquelas meninas craqueiras, aí rola de tudo, e o cara acaba correndo o risco. O cara sai e nem pensa em camisinha, vai se tocar depois." (47 anos, solteiro, 20 anos de profissão).

Com relação à história passada de doença sexualmente transmissível, 22,5% referiram já ter tido pelo menos um episódio; destes, 54% afirmaram ter contraído essas doenças em relações com profissionais do sexo, 40%, com amigas, e 5%, com moças que pegam na estrada.

Aproximadamente 30% dos entrevistados já foram alvo de programas de prevenção ao HIV e à Aids na cidade de Santos, e alguns conseguiram descrever o efeito desse contato em sua vida sexual:

"Foi quando eu estava vários dias sem ter relação. Eu não tinha camisinha no caminhão, eu e a moça, a gente queria, a gente tirou a roupa, eu não tinha, ela também não. Ela falou pra gente faze, mas eu não fiz, me senti glorioso, campeão. Venci a tentação da carne." (24 anos, casado, cinco anos de profissão).

O consumo de álcool é comum na vida dos entrevistados (84%), seguido da maconha (33%) e do "rebite" (mistura de cafeína, álcool e anfetaminas - 17%), além de outras drogas em menor escala: cocaína (12%), "bolinha" (estimulantes, geralmente anfetaminas - 3%), calmantes (5%), cola (4%), LSD (3%) e crack (1,5%). Também referiram manter relações sexuais com usuárias de drogas:

"Há uns 3 anos atrás, transei com uma menina, não sabia que ela se picava, e não usamos camisinha. Quando fiquei sabendo, fiquei nervoso e fui fazer o tal exame. Ainda bem que deu negativo." (27 anos, unido, cinco anos de profissão).

Investigou-se, numa questão aberta, em que situações percebem ser mais vulneráveis ou têm dificuldades para usar o preservativo, e se a vulnerabilidade individual é afetada pelo tipo de vida que o caminhoneiro leva. Um terço deles acreditava ser possível utilizar métodos preventivos contra o HIV e a Aids, e 34% acreditava que não é possível para o caminhoneiro se prevenir, enquanto 25% achavam que o risco para a infecção ao HIV e à Aids é igual para todas as pessoas, independentemente da profissão. Além disso, 6% dos homens acreditavam estar imunes a essas infecções, e outros 6% acreditavam que a proteção divina impede que se infectem.

Foi solicitado que descrevessem situações de sua vida sexual em que consideraram difícil se prevenir, e um terço dos entrevistados contou uma. Dentre as situações relatadas, em apenas 30% eles conseguiram se proteger.

"Uma vez, aqui no porto, encontrei uma amiga. Começamos a beber ali no carrinho, pintou a vontade, e fomos para o caminhão. Tinha certeza que eu tinha no porta-luvas, mas quando vi não tinha. Ela tinha uma, usamos na primeira, mas na segunda foi sem. Fiquei meio assim, mas sempre vejo ela e sempre tá bem." (34 anos, unido, 11 anos de profissão).

 

DISCUSSÃO

Os caminhoneiros de rota longa formam uma categoria profissional que pode contribuir para a disseminação da epidemia da Aids, pois, além de viajarem continuamente por diversas cidades ou países, estão expostos ao risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis.5,6,9,10,12 Uma das explicações seria o tempo que permanecem fora de casa, o que faria com que mantivessem relações sexuais com diversas parceiras ocasionais sem proteção.7 No entanto, pouco se falou sobre o papel que a cultura caminhoneira exerce sobre os comportamentos de risco.

No presente trabalho, os 279 entrevistados são caminhoneiros de rota curta que freqüentam o porto de Santos. Todos são alfabetizados e razoavelmente bem informados. Mas sabe-se que não basta estar bem informado, mas, sim, mobilizado e sensibilizado para que haja uma efetiva mudança de comportamento.1 Em Burkina Faso, foi verificado que quanto maior o nível de escolaridade dos caminhoneiros de rota longa, maior o conhecimento sobre o HIV e a Aids e maior a proporção de uso de preservativo.8 Numa revisão sobre programas de prevenção do HIV e da Aids, verificou-se que esses programas, quando realizados no local de trabalho, podem ser mais efetivos.12

A informação pode chegar também por meios de comunicação de massa, como televisão e rádio, que são mais acessíveis à população. Esta foi a principal fonte de informação citada pelos entrevistados.

A prevenção é vista por muitos como desnecessária, e alguns acreditam que ser caminhoneiro, por si só, já é um impedimento para o uso do preservativo; no entanto, a maioria acha que o caminhoneiro pode se prevenir. O risco de infecção pelo HIV não é relevante para uma parte dos entrevistados, o que mostra o quanto essa população ainda carece de informação. Ainda prevalece a crença de que apenas o homem busca relações extraconjugais, enquanto a mulher (a sua) permanece resguardada na relação matrimonial. Chama a atenção o fato de manterem relações extraconjugais com outras mulheres casadas, sendo, algumas, esposas dos próprios companheiros de profissão. Mesmo assim, o risco para infecção é banalizado por aqueles que estão casados. Esse risco é colocado no outro, na companheira, não em seu próprio comportamento. Talvez seja este o grande vazio que a prevenção deve preencher: trabalhar modificando os aspectos culturais e sociais que potencializam a vulnerabilidade.11

Entre os caminhoneiros de rota curta analisados, verificou-se que a religião pode ter papel importante na redução da vulnerabilidade. A história passada de doença sexualmente transmissível em cerca de 25% dos entrevistados, tendo como principal meio de contágio as parceiras casuais, mostra que uma situação de risco no passado não tem como conseqüência a prevenção contra o HIV. Muitos deles referem uso de drogas lícitas ou ilícitas, além de manterem relações sexuais com usuárias de drogas, o que poderia ser outra fator de vulnerabilidade. As razões mais citadas para a não-prevenção, mesmo sendo caminhoneiros de rota curta, foram: ficar sem transar, resistir à tentação de fazer sexo sem camisinha, diminuir o número de parceiras e selecionar com quem transar, mostrando ser razões próprias do universo masculino dos caminhoneiros.

Em estudo realizado com caminhoneiros de rota longa na mesma cidade, os autores verificaram que essa classe trabalhadora não se sentia sob risco, pois mantinham relações sexuais com parceiras conhecidas (amigas) que eram consideradas "seguras".6

Num estudo em Mombassa, Quênia, a maioria dos caminhoneiros de rota longa tinha conhecimento correto sobre os modos de transmissão do HIV, embora o uso consistente de preservativos fosse referido por apenas 32%, sugerindo não haver associação entre conhecimento e atitudes. As principais razões para o não uso do preservativo foram não passar a noite com as prostitutas e não sentir necessidade.2

Em Burkina Faso, verificou-se que o conhecimento sobre o HIV e a Aids e seus fatores de risco era muito pequeno, e cerca de 40% dos caminhoneiros de rota longa não se sentiam sob risco de contrair o HIV; porém, aqueles que tinham mais conhecimento foram os que tinham atitudes preventivas.8

Na Tailândia, entre caminhoneiros de rota longa, foi observado que tanto os casados quanto os solteiros referiam relação sexual com parceiras ocasionais que recebem ou não dinheiro, sendo que 40% deles faziam uso inconsistente de preservativo. Esses homens tinham muitos conceitos errados sobre a transmissão do HIV e não se percebiam sob risco.13 O mesmo foi verificado entre caminhoneiros de rota longa da Índia.15

Os caminhoneiros de rota curta demonstraram que a consistência no uso do preservativo varia com o tipo de vínculo com a parceira e que, quanto maior o vínculo, menor seu uso. Eles estabelecem uma hierarquia de risco e de comportamentos em que pensam estar protegidos conforme o vínculo: parceira fixa, freqüente ou casual. Essa mesma situação foi encontrada no estudo entre caminhoneiros de rota longa em Santos6 e em estudo semelhante no México.1

A relação oral não é percebida como tão arriscada para contrair Aids. Apesar de alguns se perceberem num cenário em que estão sujeitos à infecção, não se conscientizam do autocuidado, mostrando que se perceber em risco não significa prevenir-se.

Os resultados do presente estudo sugerem que a cultura dos caminhoneiros que freqüentam o porto, sejam eles de rota longa ou curta, parece ser o fator preponderante no desenvolvimento de conceitos e atitudes sobre sua vulnerabilidade em relação à aquisição do HIV e ao desenvolvimento de Aids.

A vulnerabilidade do caminhoneiro, portanto, não está somente associada ao tempo que permanece fora de casa, mas à cultura inerente a essa categoria.

Sugere-se a elaboração de propostas de prevenção em âmbito nacional, respeitadas as peculiaridades regionais, que possam dar apoio a caminhoneiros. a prevenção nos locais de trabalho dos caminhoneiros parece ser promissora, pois permite entender melhor seu universo.

 

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Correspondência para/Correspondence to:
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Pesquisa financiada pela World AIDS Foundation (WAF n. 118/96-032; 168/98-026).
Edição subvencionada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp ¾Processo nº 00/07406-2)
Recebido em 22/1/2001. Reapresentado em 31/8/2001. Aprovado em 2/7/2002.

*Dados extraídos do Boletim Epidemiológico de Santos, 1999.