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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.37 n.3 São Paulo Jun. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102003000300003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Paridade e influência do vento sobre a freqüência de Anopheles marajoara, São Paulo

 

Parity and wind impact on the frequency of Anopheles marajoara in Brazil

 

 

Iná Kakitani; Helene Mariko Ueno; Oswaldo Paulo Forattini

Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar a influência da velocidade do vento sobre o comportamento da população de Anopheles marajoara e sua paridade.
MÉTODOS: As capturas foram feitas a cada dois meses, de janeiro de 1999 a fevereiro de 2000, no município de Ilha Comprida, no Estado de São Paulo, com utilização de aspirador manual movido à pilha. Utilizou-se o teste de Mann-Whitney para verificar a possível influência do vento sobre o comportamento dos mosquitos capturados. Para determinar a paridade, utilizou-se a técnica de Polovodova e a análise do desenvolvimento folicular de Christopher e Mer.
RESULTADOS: Foram capturados 11.833 mosquitos, dos quais 3.072 foram de An. marajoara. Observou-se pico de atividade hematofágica de An. marajoara no período das 2:00 às 5:00h. Das 1.006 fêmeas dissecadas, 530 (52,7%) foram nulíparas, 432 (42,9%) uníparas, 24 (2,4%) bíparas e uma multípara; 982 (97,6%) apresentavam seus folículos nas fases I/II de Christopher e Mer, sete nas fases III/IV, e 17 na fase V. Verificou-se diferença significativa entre a freqüência de An. marajoara diante de vento com velocidades iguais ou superiores a 3 km/h e para medidas inferiores a 3 km/h.
CONCLUSÕES: An. marajoara apresentou atividade hematofágica notadamente noturna. Verificou-se que aproximadamente 50% das fêmeas de An. marajoara dissecadas eram oníparas. O dado, associado à elevada porcentagem (97,6%) de fêmeas com folículos nos estágios I e II de Christopher e Mer, sugere a existência de concordância gonotrófica. A freqüência de An. marajoara sofreu considerável redução diante de ventos com velocidade igual ou superior a 3 km/h.

Descritores: Anopheles. Paridade. Ventos. Ecologia de vetores. Aedes. Aedes scapularis. Anopheles marajoara.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To evaluate the impact of wind velocity on the behavior of An. marajoara population and its parity.
METHODS: Collections were made bimonthly from January 1999 to February 2000 in the municipality of Ilha Comprida, Brazil. Adult mosquitoes were captured with a battery hand aspirator. Mann-Whitney test was applied to verify the wind impact on mosquito behavior. Polovodova technique and Christophers and Mer's follicular development analysis were used to determine parity.
RESULTS: A total of 11,833 mosquitoes were captured, including 3,072 An. marajoara specimens. The peak of activity of An. marajoara occurred from 2 to 5 AM. Amongst 1,006 An. marajoara females who had their ovarioles dissected, it was found 530 (52.7%) nulliparous, 432 (42.9%) uniparous, 24 (2.4%) biparous and 1 multiparous. According to Christophers and Mer analysis, 982 (97.6%) had their follicles in phases I and II, 7 in phases III and IV, and 17 in phase V. The frequency of An. marajoara was significantly lower when wind velocity was 3 km/h or more or below 3 km/h.
CONCLUSIONS: An. marajoara mosquitoes were more active at night. About 50% of dissected An. marajoara females were oniparous. Another important finding was the high proportion of females (97.6%) with follicles in the Christophers and Mer's phases I and II, suggesting the presence of gonotrophic concordance. Wind velocity equal or higher than 3 km/h considerably reduced the frequency of An. marajoara.

Keywords: Anopheles. Parity. Wind. Ecology, vectors. Aedes. Aedes scapularis. Anopheles marajoara.


 

 

INTRODUÇÃO

As populações de Anopheles albitarsis l.s. mostram variações morfológicas e comportamentais que sugerem a formação de complexo de espécies crípticas. Rosa-Freitas et al6 (1990), estudando populações de An. albitarsis l.s. da localidade-tipo, na Argentina, e outras nove localidades no Brasil, encontraram diferenças quanto ao comportamento e à morfologia do mosquito. Tais variações, associadas a dissecções das glândulas salivares e dados epidemiológicos atribuem diferentes graus de importância dessas populações na transmissão de malária.

Schiavi7 (1945) observou população de An. albitarsis l.s. altamente endófila e antropófila na região de Iguape, Estado de São Paulo, encontrando 8,3% de oocistos e 3,3% de esporozoítos nos espécimes dissecados. Com base nessas características, a espécie foi incriminada como vetora nessa área endêmica.

Wilkerson et al10 (1995), utilizando a técnica de RAPD-PCR, identificaram quatro espécies no complexo Albitarsis, duas das quais - An. albitarsis s.s. e An. marajoara - estão presentes no Vale do Ribeira. A partir de imaturos e adultos coletados na Ilha Comprida, SP, e criados em laboratório, constatou-se que todos os espécimes de An. albitarsis l.s. correspondiam a An. marajoara, identificados pela genitália masculina, com o auxílio de uma chave de identificação de Linthicum.

Admite-se que condições meteorológicas como temperatura, precipitação e vento possam exercer influência sobre a densidade, ecologia e comportamento dos mosquitos (Service,8 1980). Diante desse quadro, o presente trabalho teve por objetivo avaliar a influência da velocidade do vento sobre o comportamento de An. marajora e a paridade dessa população.

 

MÉTODOS

As observações foram realizadas no município de Ilha Comprida, Estado de São Paulo. As coordenadas de localização correspondem a 24º91' de latitude sul e 47º80' de longitude oeste. Localizada no extremo sul do Estado, com aproximadamente 70 km de comprimento e cerca de 3 km de largura, a ilha tem como limite ao sul e ao norte, respectivamente, as desembocaduras de Cananéia e Icapara (Tessler & Sousa,9 1998). A ilha é formada por planícies arenosas ("terraços marinhos"), divididas em altas e baixas conforme as transgressões marinhas sofridas. Em toda a orla atlântica há dunas com vegetação tolerante ao sal, colonizadora de corpos arenosos. Distanciando-se do oceano, a vegetação se torna mais complexa: atrás das dunas há áreas alagadiças com herbáceas de brejo que podem formar ribeirões; em terrenos argilo-orgânicos forma-se mata de restinga e, em torno dos mares interiores, há vegetação de mangue (Maretti & Filet,4 1988). O presente estudo foi realizado em área de banhado, na porção norte da ilha.

A coleta de adultos foi feita com aspiradores manuais movidos à pilha, empunhados por dois capturadores que procuravam reter todos os mosquitos que se aproximavam para sugá-los (Figura 1). Foram realizadas 31 capturas, realizadas a cada dois meses entre janeiro de 1999 e fevereiro de 2000, iniciadas no período do pré-crepúsculo vespertino, estendendo-se até o pós-crepúsculo matutino. O período crepuscular variou de 22 a 25 minutos nesta localidade, segundo o Almanaque Náutico, 1999. Designou-se de pré e pós-crepúsculo ao mesmo intervalo crepuscular que antecede ou sucede o horário crepuscular propriamente dito.

 

 

No período de fevereiro de 1999 a fevereiro de 2000, foram selecionadas amostras de no máximo 10 indivíduos em cada horário para verificar a condição de paridade das fêmeas, pela técnica de Polovodova e da análise do desenvolvimento folicular dos ovaríolos, segundo Christopher e Mer (Charlwood,1 1980). No momento da captura, no início de cada hora, registrava-se a temperatura e a velocidade do vento (km/h), pelo instrumento digital "Lutron AM-4202".

Utilizou-se o teste de Mann-Whitney para avaliar a possível influência do vento sobre o número de mosquitos capturados. Foram estabelecidos dois grupos: 1) mosquitos capturados com velocidade do vento igual ou superior a 3,0 km/h; e 2) mosquitos capturados com velocidade do vento inferior a 3,0 km/h.

 

RESULTADOS

Foram capturados 11.833 mosquitos, dos quais 3.072 eram espécimes de An. marajoara (25,9%). Outra espécie que se destacou, devido à sua importância epidemiológica e à sua presença expressiva nas capturas, foi o Ae. scapularis, que teve 1.652 espécimes retidas (13,9%).

Verificou-se que o comportamento hematofágico de An. marajoara intensificou-se acentuadamente a partir das 2h, prolongando-se até aproximadamente 5h. Para Ae. scapularis, o mesmo comportamento foi observado logo após o crepúsculo vespertino, estendendo-se até a primeira hora subseqüente (Figura 1).

Em relação à população de An. marajoara, de 3.072 fêmeas capturadas, 1.006 (32,7%) tiveram seus ovários dissecados. Destas, 530 (52,7%) eram nulíparas, 432 (42,9%) uníparas, 24 (2,4%) bíparas. Somente uma fêmea (0,1%) apresentou ovaríolos com três dilatações. Verificou-se também que 982 (97,6%) fêmeas apresentavam seus folículos nas fases I e II de Christopher e Mer, somente sete (0,7%) nas fases III e IV, e 17 (1,7%) na fase V. Nas últimas, não foi possível determinar o grau de paridade, devido à grande quantidade de vitelo presente (Tabela 1).

 

 

A análise da influência do vento sobre a atividade hematófaga da população de An. marajoara refere-se aos dados das capturas em que a freqüência desse mosquito foi mais elevada. Assim, nas 31 capturas realizadas no período de janeiro/1999 a fevereiro/2000, foram retidas 3.072 fêmeas, Só nas oito primeiras capturas (4/1/1999 a 12/4/1999) foram retidas 1.699 (55,3%) fêmeas, as quais foram utilizadas para o teste de Mann-Whitney. O teste revelou um valor de p=0,0019, considerado altamente significativo, ou seja, diante de vento com velocidade igual ou superior a 3,0 km/h a freqüência de mosquitos diminui consideravelmente (Tabela 2).

 

 

A Figura 2 mostra os dados referentes às capturas de An. marajoara em relação aos dados de velocidade do vento. Foram consideradas somente as capturas nas quais a espécie compareceu com 10 ou mais indivíduos, independentemente de data ou horário, no período de jan/1999 a fev/2000.

 

 

DISCUSSÃO

Diante dos resultados obtidos, Ae.scapularis chamou a atenção pela sua densidade apreciável, com pico de atividade no horário pós-crepúscular vespertino, estendendo-se até as 20h, em seguida, decrescendo até o pré crepúscular matutino, quando novamente apresentou ligeiro aumento.

A espécie foi objeto de outro estudo na mesma ilha, a uma distância de aproximadamente 40 km do local da presente pesquisa, em que apresentou seu pico de atividade nas últimas horas do dia, englobando o crepúsculo vespertino (Forattini,2 2000). Os resultados reforçam o comportamento crepuscular quanto à hematofagia desse mosquito.

Reinert5 (2000) elevou o subgênero Ochlerotatus a gênero, baseado em características morfológicas, principalmente da genitália masculina e feminina. O sistema proposto por esse autor não será adotado até que outros estudos o definam mais solidamente (Forattini,3 2002).

Pode-se considerar An. marajoara como um mosquito de hábito noturno, uma vez que o seu pico de atividade foi a partir das 2h, estendendo-se até as 5h. Verificou-se que aproximadamente 50% das fêmeas dissecadas eram oníparas, isto é, estavam a procura do segundo ou terceiro repasto sanguíneo para o desenvolvimento do ciclo gonotrófico seguinte. Tal resultado está diretamente associado à longevidade do vetor, parâmetro importante na estimativa da capacidade vetorial. Outro aspecto importante que chamou atenção foi a elevada porcentagem (97,6%) de fêmeas que apresentavam os seus folículos nos estágios I e II de Christophers e Mer, indicando ser esta a primeira tentativa hematófaga para dar início a um ciclo gonotrófico. O fato permite levantar hipótese da existência de concordância gonotrófica.

Diante das características físico-ambientais da ilha, constatou-se a presença do lençol freático muito próximo da superfície, o que permite, muitas vezes, a comunicação com as águas superficiais e possibilitando a formação de áreas permanentemente alagadas nas partes mais baixas (Maretti,4 1988). Esse fato favorece a procriação de An. marajoara que prefere esse tipo de criadouro.

Durante o período das capturas, foi possível observar a presença dos criadouros em maior ou menor extensão durante o ano todo. Isto provavelmente proporcionou a presença do mosquito em praticamente todas as capturas com freqüência variável, sendo mais elevada de janeiro a meados de abril, motivo pelo qual utilizamos este período para o estudo da relação entre freqüência da espécie e velocidade do vento.

Segundo Service8 (1980), o vento pode ser considerado fator de inibição para o mosquito durante a procura de um hospedeiro para sugar. Uma velocidade acima de 3,0 km/h, reduziria drasticamente esse vôo apetente. Por este motivo adotou-se esse valor como critério de separação dos grupos de comparação (vento x mosquito). O resultado obtido mostrou redução da freqüência de mosquitos à medida em que a velocidade do vento aumentou.

Deve-se levar em consideração o fato das medições de temperatura e velocidade do vento terem sido feitas no início de cada hora, enquanto que as capturas de mosquitos foram ininterruptas no decorrer do período. Outro fator que deve ser mencionado é a direção do vento. Embora não tenha sido medida é possível que, em determinadas circunstâncias, ventos fortes transportem passivamente os mosquitos. Trata-se de dado importante, particularmente na área estudada, onde os ventos são constantes, em maior ou menor intensidade.

Embora o município não apresente casos de malária, a presença de An. marajoara e o aumento da população de turistas, principalmente em época de temporada, intensifica as atividades artesanais, culturais e comerciais da população local, tornando a área receptiva à doença, já que o Vale do Ribeira constitui área endêmica de malária no Estado de São Paulo.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Iná Kakitani
Departamento de Epidemiologia
Faculdade de Saúde Pública
Av. Dr. Arnaldo, 715
01246-904 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: tani@usp.br

Subvencionado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) (Projeto Temático n. 99/10517-1)
Recebido em 20/5/2002
Reapresentado em 28/10/2002
Aprovado em 30/1/2003